segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Os frades de Alessandro Sani

Ganância divina.
Óleo sobre tela (29,2 x 25,3 cm).

Allesandro Sani (1856-1927) foi um prolífico pintor italiano do séc. XIX, sobre o qual são escassas as informações biográficas. Sabe-se todavia que esteve activo em Florença entre 1869 e 1915, dedicando-se nas galerias daquela cidade, à cópia de pinturas antigas destinadas ao mercado internacional. De 1871 a 1880 participou em exposições em Florença e Génova, assim como na Exposição Universal de Viena, em 1873.
Muitos dos seus quadros são sátiras à vida doméstica, nomeadamente de frades. Estes não são apresentados em cenas de contemplação e de serviço a Deus, reveladoras de desapego aos bens materiais. Pelo contrário são representados em situações que configuram mais o profano que o religioso e que poderão sugerir mesmo o cometimento de alguns pecados capitais. Daí que a pintura de Sani, possa ser encarada por alguns como uma pintura anti-clerical.

Dia de mercado. 
Óleo sobre tela (33 x 42,5 cm).
Dia de marcado.
Óleo sobre tela (30,5 x 39,4 cm).
Inspeccionando a refeição.
Óleo sobre tela (58,4 x 73,7 cm).
O fedor do peixe.
Óleo sobre tela (50 x 61,5 cm).
Presentes da quinta.
Óleo sobre tela (40 x 56 cm).
Um monge na prova diária.
Óleo sobre tela (64 x 49 cm).
A degustação.
Óleo sobre tela (51,4 x 61,6 cm).
Testando a receita .
Óleo sobre tela (36,8 x 49,5 cm).
Monge e Chefe de cozinha.
Óleo sobre tela.
Frade na cozinha.
Óleo sobre tela (58,4 x 43,2 cm).
O prato favorito.
Óleo sobre tela (40 x 56 cm).
Macarrão.
Óleo sobre tela (95 x 14,8 cm).
Uma refeição de boas vindas.
Óleo sobre tela (74,9 x 102,9 cm).
Cena alegre na taberna.
Óleo sobre painel de madeira (26,04 x 39,37 cm).
Um copo de vinho.
Óleo sobre tela (38 x 45,7 cm).
A nova colheita.
Óleo sobre tela (22,9 x 17,8 cm).
Uma boa colheita.
Óleo sobre tela (62 x 47 cm).
O degustador de vinhos.
Óleo sobre tela (58,5 x 71 cm).
O monge e a donzela.
Óleo sobre tela (47,9 x 37.5 cm).
As notícias do dia.
Óleo sobre tela (42,5 x 54,6 cm).
 
Um jogo de xadrez.
Óleo sobre tela (47 x 63 cm).
O jogo de cartas.
Óleo sobre tela (34,5 x 43,5 cm).
Na biblioteca do Mosteiro.
Óleo sobre tela (57,5 x 75,5 cm).

domingo, 25 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 029



Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades
Luís Vaz de Camões (1524-1580)

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

Luís Vaz de Camões (1524-1580) 

sábado, 24 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 028



Elegia do Amor
Teixeira de Pascoaes (1877-1952)
  
Lembras-te, meu amor,
Das tardes outonais,
Em que íamos os dois,
Sozinhos, passear,
Para fora do povo
Alegre e dos casais,
Onde só Deus pudesse
Ouvir-nos conversar?
Tu levavas, na mão,
Um lírio enamorado,
E davas-me o teu braço;
E eu, triste, meditava
Na vida, em Deus, em ti...
E, além, o sol doirado
Morria, conhecendo
A noite que deixava.
Harmonias astrais
Beijavam teus ouvidos;
Um crepúsculo terno
E doce diluía,
Na sombra, o teu perfil
E os montes doloridos...
Erravam, pelo Azul,
Canções do fim do dia.
Canções que, de tão longe,
O vento vagabundo
Trazia, na memória...
Assim o que partiu
Em frágil caravela,
E andou por todo o mundo,
Traz, no seu coração,
A imagem do que viu.

Olhavas para mim,
Às vezes, distraída,
Como quem olha o mar,
À tarde, dos rochedos...
E eu ficava a sonhar,
Qual névoa adormecida,
Quando o vento também
Dorme nos arvoredos.
Olhavas para mim...
Meu corpo rude e bruto
Vibrava, como a onda
A alar-se em nevoeiro.
Olhavas, descuidada
E triste... Ainda hoje escuto
A música ideal
Do teu olhar primeiro!
Ouço bem tua voz,
Vejo melhor teu rosto
No silêncio sem fim,
Na escuridão completa!
Ouço-te em minha dor.
Ouço-te em meu desgosto
E na minha esperança
Eterna de poeta!
O sol morria, ao longe;
E a sombra da tristeza
Velava, com amor,
Nossas doridas frontes.
Hora em que a flor medita
E a pedra chora e reza,
E desmaiam de mágoa
As cristalinas fontes.
Hora santa e perfeita,
Em que íamos, sozinhos,
Felizes, através
Da aldeia muda e calma,

Mãos dadas, a sonhar,
Ao longo dos caminhos...
Tudo, em volta de nós,
Tinha um aspecto de alma.
Tudo era sentimento,
Amor e piedade.
A folha que tombava
Era alma que subia...
E, sob os nossos pés,
A terra era saudade,
A pedra comoção
E o pó melancolia.
Falavas duma estrela
E deste bosque em flor;
Dos ceguinhos sem pão,
Dos pobres sem um manto.
Em cada tua palavra,
Havia etérea dor;
Por isso, a tua voz
Me impressionava tanto!
E punha-me a cismar
Que eras tão boa e pura,
Que, muito em breve — sim!
Te chamaria o céu!
E soluçava, ao ver-te
Alguma sombra escura,
Na fronte, que o luar
Cobria, como um véu.
A tua palidez
Que medo me causava!
Teu corpo era tão fino
E leve (oh meu desgosto!)
Que eu tremia, ao sentir
O vento que passava!
Caía-me, na alma,
A neve do teu rosto.

Como eu ficava mudo
E triste, sobre a terra!
E uma vez, quando a noite
amortalhava a aldeia,
Tu gritaste, de susto,
Olhando para a serra:
— Que incêndio! — E eu, a rir,
Disse-te — É a lua cheia!...
E sorriste também
Do teu engano. A lua
Ergueu a branca fronte,
Acima dos pinhais,
Tão ébria de esplendor,
Tão casta e irmã da tua,
Que eu beijei sem querer,
Seus raios virginais.
E a lua, para nós,
Os braços estendeu.
Uniu-nos num abraço,
Espiritual, profundo,
E levou-nos assim,
Com ela, até ao céu
Mas, ai, tu não voltaste
E eu regressei ao mundo.

Teixeira de Pascoaes (1877-1952)

As duas Igrejas

Um copo de vinho.
Alessandro Sani (1856-1927).
Óleo sobre tela (38 x 45.7 cm).
Colecção particular.

Os problemas sociais modernos merecem a atenção da Igreja Católica, que através de encíclicas e pronunciamentos papais, procura dar um conjunto de ensinamentos que integram a Doutrina Social da Igreja. Esta aborda múltiplos temas capitais como: “ - a pessoa humana, sua dignidade, seus di­reitos e suas liberdades; - a família, sua vo­ca­ção e seus direitos; - inserção e participação responsável de cada homem na vida social; - o bem comum e sua pro­mo­ç­ão, no respeito dos princípios da solidariedade e subsidiaridade; ­- o destino universal dos bens da natureza e cui­dado com a sua preservação e de­fe­sa do ambiente; - o desenvolvimento in­tegral de cada pessoa e dos povos; - o primado da justiça e da caridade. Tais ensinamentos sobre os problemas sociais modernos, encontram na encíclica “Rerum Novarum” (1891) de Leão XIII (1810-1903) a sua carta magna.
Apesar da sua postura actual, a Igreja Católica nem sempre foi assim. Durante a Idade Média (476-1453) conquistou e manteve grande poder económico, político, jurídico e social, não permitindo opiniões contrárias aos seus dogmas. Aqueles que se atreviam a fazê-lo eram perseguidos e punidos pela Inquisição, que prendeu, torturou e queimou na fogueira milhares de pessoas. Na Idade Moderna (1453-1789) e mesmo na Idade Contemporânea (de 1789 em diante), a Igreja Católica caminhou lado a lado com o Estado, com um interregno em Portugal durante a I República (1910-1926), mas retomando o caminho anterior no decurso do Estado Novo (1926-1974).
Ao longo dos séculos, o espírito crítico da arraia-miúda nunca viu com bons olhos, a postura de certos membros da hierarquia da Igreja Católica. Essa desconfiança ficou registada na memória colectiva sob a forma de provérbios, que podemos sistematizar em 3 grandes grupos:
- FRADES: Basta um frade ruim para dar que falar a um convento. Contratos com frades, nem por boca nem por escrito. Daquilo que bem lhe sabe, não reparte o frade. Em traseira de mula e dianteira de frade, ninguém se fie. Frade e mulher, duas garras do diabo. Frade Nabiça tudo que vê, cobiça. Frade onde canta, aí janta. Frade que pede para Deus, pede para dois. Guarda-te do frade e do cão que não sai da grade. Hábito de frade e saia de mulher, chega onde quer. Ladrão que anda com frade, ou o frade será ladrão, ou o ladrão frade. Mais depressa se torna o frade ladrão do que o ladrão frade. Não dá o frade o que bem lhe sabe, nem a freira o que bem lhe cheira. Nem a chocarreiro nem a frade fora do mosteiro, dês do teu dinheiro. O frade por onde anda, não lhe falta pão na manga. Qual é o frade que não tem dois capotes? Treze é a dúzia do frade.
- FREIRAS: Biscoito de freira, fanga de trigo. Casar ou meter a freira. Em caso de necessidade, casa a freira com o frade. Frade, freira e mulher rezadeira, são três pessoas distintas e nenhuma verdadeira. Freiras e frieiras é coçá-las e deixá-las. Não dá o frade o que bem lhe sabe, nem a freira o que bem lhe cheira. Quando a abadessa é careca, as freiras são pouco encabeladas.
- PADRES: Dos três pp livre-me Deus: padre, pombo e parente. Feliz que nem filho de padre. O padre ganha-o a cantar. Ódio de padre não respeita comadre. Padre de versos, padre de netos. Padre e cão olham para a mão. Padre mouco não confessa. Padre muito rezador, mulher muito beata, homem muito cortês, é livrar de todos três. Padre novo e bonito, aqui d'el-rei que eu grito. Padres e patos, nunca estão satisfeitos. Padres, músicos e foliões são caros pelo que apanham pelo dente. Um padre a pecar conta a dobrar.

Ode à Paz - Natália Correia




ODE À PAZ
Natália Correia (1923-1993)

Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza, 
Pelas aves que voam no olhar de uma criança, 
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza, 
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança, 
Pela branda melodia do rumor dos regatos, 

Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia, 
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos, 
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria, 
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes, 
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos, 
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes, 
Pelos aromas maduros de suaves outonos, 
Pela futura manhã dos grandes transparentes, 
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra, 
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas 
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra, 
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna, 
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz. 
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira, 
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz, 
Abre as portas da História, 
                               deixa passar a Vida! 

Natália Correia (1923-1993)

Hernâni Matos
Publicado inicialmente em 24 de Outubro de 2015

#Poesia Portuguesa - 005

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 027


Fim
Mário de Sá Carneiro (1890-1916)

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

Mário de Sá Carneiro (1890-1916)


quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 026


Química
José Saramago (1922-2010)

Sublimemos, amor. Assim as flores
No jardim não morreram se o perfume
No cristal da essência se defende.
Passemos nós as provas, os ardores:
Não caldeiam instintos sem o lume
Nem o secreto aroma que rescende.

José Saramago (1922-2010)