sábado, 3 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 007




Tu e Eu Meu Amor

Manuel da Fonseca (1911-1993)

  

Tu e eu meu amor 
meu amor eu e tu 
que o amor meu amor 
é o nu contra o nu. 

Nua a mão que segura 
outra mão que lhe é dada 
nua a suave ternura 
na face apaixonada 
nua a estrela mais pura 
nos olhos da amada 
nua a ânsia insegura 
de uma boca beijada. 

Tu e eu meu amor 
meu amor eu e tu 
que o amor meu amor 
é o nu contra o nu. 

Nu o riso e o prazer 
como é nua a sentida 
lágrima de não ver 
na face dolorida 
nu o corpo do ser 
na hora prometida 
meu amor que ao nascer 
nus viemos à vida. 

Tu e eu meu amor 
meu amor eu e tu 
que o amor meu amor 
é o nu contra o nu. 

Nua nua a verdade 
tão forte no criar 
adulta humanidade 
nu o querer e o lutar 
dia a dia pelo que há-de 
os homens libertar 
amor que a eternidade 
é ser livre e amar. 

Tu e eu meu amor 
meu amor eu e tu 
que o amor meu amor 
é o nu contra o nu. 

Manuel da Fonseca (1911-1993)

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 006



Calçada de Carriche 
António Gedeão (1906-1997)

Luísa sobe, 
sobe a calçada, 
sobe e não pode 
que vai cansada. 
Sobe, Luísa, 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe 
sobe a calçada. 

Saiu de casa 
de madrugada; 
regressa a casa 
é já noite fechada. 
Na mão grosseira, 
de pele queimada, 
leva a lancheira 
desengonçada. 
Anda, Luísa, 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada. 

Luísa é nova, 
desenxovalhada, 
tem perna gorda, 
bem torneada. 
Ferve-lhe o sangue 
de afogueada; 
saltam-lhe os peitos 
na caminhada. 
Anda, Luísa. 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada. 

Passam magalas, 
rapaziada, 
palpam-lhe as coxas, 
não dá por nada. 
Anda, Luísa, 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada. 

Chegou a casa 
não disse nada. 
Pegou na filha, 
deu-lhe a mamada; 
bebeu da sopa 
numa golada; 
lavou a loiça, 
varreu a escada; 
deu jeito à casa 
desarranjada; 
coseu a roupa 
já remendada; 
despiu-se à pressa, 
desinteressada; 
caiu na cama 
de uma assentada; 
chegou o homem, 
viu-a deitada; 
serviu-se dela, 
não deu por nada. 
Anda, Luísa. 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada. 

Na manhã débil, 
sem alvorada, 
salta da cama, 
desembestada; 
puxa da filha, 
dá-lhe a mamada; 
veste-se à pressa, 
desengonçada; 
anda, ciranda, 
desaustinada; 
range o soalho 
a cada passada; 
salta para a rua, 
corre açodada, 
galga o passeio, 
desce a calçada, 
desce a calçada, 
chega à oficina 
à hora marcada, 
puxa que puxa, 
larga que larga, 
puxa que puxa, 
larga que larga, 
puxa que puxa, 
larga que larga, 
puxa que puxa, 
larga que larga; 
toca a sineta 
na hora aprazada, 
corre à cantina, 
volta à toada, 
puxa que puxa, 
larga que larga, 
puxa que puxa, 
larga que larga, 
puxa que puxa, 
larga que larga. 
Regressa a casa 
é já noite fechada. 
Luísa arqueja 
pela calçada. 
Anda, Luísa, 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada. 
Anda, Luísa, 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada. 


António Gedeão (1906-1997)

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Exílio - Sophia de Mello Breyner Andresen




EXÍLIO
Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

Publicado inicialmente em 30 de Setembro de 2015


#Poesia Portuguesa - 04

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Poesia Portuguesa - 003




CANTO DO CEIFEIRO
Eduardo Valente da Fonseca (1928-2003)

Canta ceifeiro canta,
sob o sol de Agosto, canta,
a terra é tão farta e tanta,
que chega para a tua fome
e cresce para a tua manta,

Canta ceifeiro canta
a charneca e não sossobres.
Espanta o medo e o cansaço,
aguenta mais um pedaço
e canta ceifeiro canta
o heroísmo dos pobres.

Canta ceifeiro canta
o Alentejo todo teu,
canta a charneca em flor,
canta o trigo com suor,
canta a lonjura do céu.
Canta ceifeiro canta
em Serpa. Cuba ou Ermidas,
ia que os braços são pequenos
dêem-se as vozes ao menos
que as vozes serão ouvidas.

Canta ceifeiro canta
canta sempre sem espanto
tudo quanto tanto anseias,
que não vem longe o minuto
do teu suor ser enchuto
e tu seres a própria Paz.
Canta ceifeiro canta
e diz de quanto és capaz,

Canta esses sulcos vermelhos
como as tuas maiores veias,
canta a luta e a tua sede
os azinheiros e o trigo,
canta a carne e o desabrigo
por todo o frio do inverno,
canta a morte dos teus filhos
mais a dos teus companheiros,
canta sempre canta, canta
belas canções de ceifeiro,
que o Alentejo cresceu.
dos teus braços de sobreiro
erguidos ao sol de estio,
e de todo o teu suor
Já do tamanho dum rio.

Canta ceifeiro canta
o Alentejo todo teu,
que nele foi que nasceste
com raízes desde o fundo,
e nele os irmãos da terra
vem sendo há muito ofendidos
nos seus sempre sagrados
e humanos cinco sentidos.

Canta ceifeiro canta
canta com ânsia e bravura
e que o canto que se levante
dê mais força á tua altura.

Eduardo Valente da Fonseca (1928-2003)


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

33 – As fiandeiras


Mulher dos perus.
José Moreira (1926-2001).
Colecção particular.
  
O núcleo base do figurado de Estremoz inclui três figuras femininas de camponesas, trajando à moda do séc. XIX, as quais conduzem animais a caminho da feira ou do mercado e carregam um cesto na cabeça. Todas elas ostentam uma roca apoiada no lado esquerdo da cintura e empunham um fuso, geralmente na mão direita. Essas imagens são: - MULHER DOS PERUS – Conduz um casal de perus e leva no cesto, ovos destas aves; - MULHER DAS GALINHAS – Leva um galo e duas galinhas, cujos ovos transporta no cesto; - MULHER DOS CARNEIROS – Acompanha dois ovinos e carrega uma cesta com queijos. Qualquer das peças representa uma fiandeira ou seja uma mulher que fia.
A fiação é uma actividade humana de carácter universal, documentada a partir do Mesolítico e que consiste em reduzir a fio, matérias têxteis, como o linho, a lã e o algodão. Com a descoberta do fuso há cerca de 5000 anos, a técnica de fiação aperfeiçoou-se. O fuso é um instrumento de madeira para fiar à roca, que tem simetria cilíndrica, mais encorpado no meio e que se estreita até às duas pontas, terminando em bico. Serve para enrolar o fio que vem a constituir uma “maçaroca”. Quando o fuso está cheio, passa-se o fio para o “sarilho”, a fim de o transformar em “meada”.
Além do fuso, a fiação recorre também à roca. Esta é uma vara de madeira ou cana, encimada por um parte chamada “copo”, que termina numa peça denominada “torre”. A roca fixa-se à cintura, do lado esquerdo, entre o cós da saia e o corpo, inclinada para a frente, com o copo sensivelmente à altura da cara de quem fia. Para carregar a roca, no caso do linho, este é assente ao comprido sobre os joelhos e o copo molhado com saliva é encostado ao linho, rodando-se com a mão direita, ao passo que com a esquerda se agarra o linho, de modo que as fibras não fiquem emaranhadas. Seguidamente, ata-se o linho enleado no copo com uma correia presa na sua extremidade superior, enfia-se o cabo da roca na cintura, molham-se com saliva as pontas dos dedos indicador e polegar da mão esquerda, destacam-se algumas fibras, torcendo-as até formar uma pequena ponta de fio e aproxima-se desta o fuso, imprimindo-lhe de seguida movimento giratório com a mão direita, o qual é gerado com o polegar, indicador e médio. O fuso fica a rodar, suspenso pelo fio que a sua rotação vai torcendo e seguro simultaneamente pelo fio e pelos dedos. De vez em quando, o fio é passado pela boca, a fim de o humedecer. Quando o tamanho do fio afeiçoado obriga a afastar demasiado o braço direito, interrompe-se a fiação e enrola-se essa porção de fio no fuso.
A fiação era um trabalho executado essencialmente por mulheres, em casa ou no trabalho, a caminho dos campos, a apascentar gado ou a caminho de feiras, mercados, etc., aproveitando todo o tempo em que as mãos não estavam ocupadas. Todavia, as transformações sócio–culturais operadas no séc. XX, aliadas às facilidades de comunicação, acabaram com o isolamento dos campos e das aldeias, que foram invadidas por produtos têxteis industriais, conduzindo ao abandono da fiação caseira.
A fiação está presente na nossa literatura de tradição oral. A nível de adagiário destacamos: “A fiandeira laboriosa, nunca faltou pano para camisas.”, “A fiar e a tecer, ganha a mulher de comer.”, “Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso.”, “De linho arestoso, faz camisas a teu esposo.”, “Linho apurado, dá lenço dobrado.”, “Maria fia, fia, fia três maçarocas por dia.” Do vasto cancioneiro popular, destacamos apenas uma quadra maliciosa do cancioneiro de Melgaço: “Quem me dera ser o linho/ Que vós na roca fiais!/ Quem me dera a mim os beijos/ Que vós ao linho le dais!”

Mulher das galinhas.
José Moreira (1926-2001).
Colecção particular.

Mulher dos carneiros.
Sabina Santos (1921-2005).
Colecção particular.

Poesia Portuguesa - 002




ÁRVORES DO ALENTEJO
FLORBELA ESPANCA (1894-1930)
  
Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido... e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não chorais! Olhai e vêde;
- Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!


FLORBELA ESPANCA (1894-1930)


Publicado inicialmente em 28 de Setembro de 2015

domingo, 27 de setembro de 2015

Poesia Portuguesa - 001



CARTA DE AMOR
JOSÉ RÉGIO (1901-1969)

Ouve-me!, se é que ainda
Me podes tolerar.
Neste papel rasgado
Das arestas da minh'alma,
Ai!, as absurdas intrigas
Que te quisera contar!
Ai os enredos,
Os medos,
E as lutas em que medito,
Quer dê, quer não dê por isso, 
Sem descansar
Um momento...!
Quem sofre - pensa; e o tormento 
Não é sofrer, é pensar.
O pensamento
Faz engolir o vómito de fel... 
Ouve! se sou cruel
Neste papel queimado
Dos incêndios da minh'alma,
é de raiva de que embalde
Te procure dizer sem falsidade
Coisas que, ditas, já não são verdade...
E procuro eu dizê-las,
Ou procuro escondê-las?
E procuro eu dizer-tas,
Ou procuro a vaidade
De mas dizer, a mim, de modo que mas ouçam
Esses mesmos que desprezo,
E cujo louvor me é caro?
Não me acredites!
O que digo,
Antes ou depois, o peso;
E não!, não é a ti que me eu declaro!
Sei que me não entendes.
Sei que quanto melhor te revelar
O meu mundo profundo,
O fundo do meu mar,
Os limos do meu poço,
O antro que é só meu (sendo, apesar de tudo, nosso) 
Menos me entenderás,
Tu..., - a minha metade!
Por isso me não és senão vaidade,
Meu amor!, meu pretexto
Deste miserável texto...
Vês como sou?
Mas sou pior do que isto.
Sabe que, se me acuso,
é só por vício antigo
De me lamber as mãos e agatanhar o peito,
De me exibir a Cristo!
Sabe que a meu respeito
Vou além de quanto digo.
Sabe que os males que ora uso,
Como quem usa
Cabeleira ou dentadura,
São a pintura
Que esconde os mais verdadeiros,
De outro teor...
E sabe que sou pior!:
Sabe (se é que o não sabes)
Que ao teu amor por mim foi que ganhei amor.
Que a ti..., sei lá se te amo.
Sei que me deixam sozinho
Ante o girar dos mundos e dos séculos;
Sei que um deserto é o meu caminho;
Sei que o silêncio
Me há-de sepultar em vida;
Sei que o pavor, a noite, o frio,
Serão jardim da minha ermida;
Sei que tenho dó de mim...
Fica tu sabendo assim,
Querida!,
Porque te chamo.
Mas amar-te?!
Não!, minha vida.
Não! Reduziram-me a isto:
Só a mim amo.
Ama-me tu, se podes,
Sem procurar compreender-me:
Poderias julgar que me encontravas,
E seria eu perder-te e tu perder-me...
Ao menos tu..., desiste!
A sobre-humana prova que te peço,
A mais heróica!,
A mais inglória e a mais triste,
é essa..., - é este o meu preço.
Mais que o despeito, o ódio, a incompreensão 
Dos por quem passei sereno,
Estendendo a mão afável
Ao frio, pérfido, amável
Aperto da sua mão,
Me punge,
Me pesa no coração,
O fruste amor dos que me interpretaram.
Ai!, bem quiseram amar-me!
Bem o tentaram.
Mas nunca me perdoaram
O não serem dominados
Nem poderem dominar-me...
E assim o nosso amor foi uma luta
De cobardes abraçados.
Entre eu e tu,
Tão profundo é o contrato
Que não pode haver disputa.
Não é pacto
Dum pobre aperto de mão:
Entre nós, - ou sim ou não.
Despi-me..., vê se me queres!
Despi-me com impudor,
Que é irmão do desespero.
Vê se me queres,
Sabendo que te não quero,
Nem te mereço,
Nem mereço ser amado
Pela pior
Das mulheres...
Poderás amar-me assim,
(Como explicar-me?!)
Por Qualquer Cousa que eu for, 
Mas não por mim!, não a mim...!

Beijo-te os pés, meu amor.


JOSÉ RÉGIO (1901-1969)