terça-feira, 23 de julho de 2013

O meu médico assistente


Auto-Retrato com o Doutor Arrieta (1820).
Francisco Goya (1746-1828).
Óleo sobre tela (117 cm x 79 cm).
Minneapolis Institute of Arts.

O meu médico assistente, farto como eu da Troika e do G20, aconselhou-me a comprar uma G3 para aliviar as tensões pessoais, se possível colectivamente.
Como plano B, aconselhou-me a comer umas valentes feijoadas, regadas a primor e a soltar uns valentes traques a pensar naquela canalha toda. Disse-me então:
- Vai ver como através duma valente peidorreira, dissipa toda a angústia que lhe dilacera a alma!
Ainda fiquei mais angustiado. Sabem porquê? É que nunca fui dado a violências e muito menos tive jeito para solfejo!
Vou ter que mudar de médico assistente…

sábado, 20 de julho de 2013

Um texto ou é ou não é

Quando o Rato abandona o navio.
 Imagem extraída com a devida vénia do blogue PSICOLARANJA.


Um texto não pode ser um pantanal onde nos atasquemos ou uma coluna de futilidades urbanas. A verticalidade da coluna vertebral exige que chamemos os bois pelos nomes.
Há pois que ser missionário de valores éticos e com militância de guerrilheiro, metralhar a falta de honestidade intelectual com a força do verbo. Assim os nossos dias poderão ser mais claros e com isso sentirmos uma réstia de esperança nos dias de amanhã.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Os vira-casacas

Cartoon de João Abel Manta (1928- ), 1974, Portugal.
Em pleno Verão quente há quem se preocupe com o Outono que Setembro há-de trazer.
Espertos que nem um rato, resolvem mudar de visual ideológico, virando as casacas para os novos tempos que hão-de vir.
Parecem ratazanas a abandonar barcos que se afundam.
Estamos em plena época de transferências que a imprensa noticia em primeira-mão.
São notícias relativas a políticos em segunda-mão que vão entrar na caça ao voto.
Cuidado com eles!

terça-feira, 16 de julho de 2013

Adagiário do sono

O EREMITA E ANGELICA A DORMIR (1626-28).
 Óleo sobre madeira de carvalho de Peter Paul Rubens (1577-1640).
Kunsthistorisches Museum, Vienna.

INTRODUÇÃO
O esforço que desenvolvemos na nossa actividade diária exige que restabeleçamos periodicamente a nossa energia física, psíquica e intelectual. Isso é conseguido através do sono, estado ordinário de consciência, complementar ao estado desperto e caracterizado pela suspensão temporária de percepções, sensações e movimentos.
Quando estamos entregues ao sono, dizemos que estamos a dormir. Este acto pressupõe a maioria das vezes que tenhamos que nos deitar numa cama, da qual após despertar, muitas vezes após sonhar, acabamos por nos levantar, para retomar novamente a nossa actividade diária.
É diversificado e vasto o adagiário português, onde é utilizada implícita ou explicitamente a palavra sono. Até à presente data recolhemos 146 adágios sobre o sono, os quais foram sistematizados, tomando por base as seguintes palavras:
- Cama (19)
- Deitar (14)
- Dormir (54)
- Sono (23)
- Sonhos (30)
- Levantar (6)
Relativamente a cada uma delas, conseguimos sistematizar os adágios em dois grandes grupos, conforme damos seguidamente conhecimento.

CAMA
Em termos de cama, há adágios que constituem conselhos:
- Adquire fama e deita-te na cama.
- Às dez, mete na cama os pés.
- Às nove, deita-te e dorme.
- Em cama apertada, deita-te primeiro.
- Em cama estreita, deitar primeiro.
- Faz a cama e deita-te a dormir.
- Sê o primeiro no campo e o último no leito.
Todavia há outros que se podem considerar sentenças:
- Cama de chão, cama de cão.
- Cama e mesa não brigam com ninguém.
- Cama no chão, cama de cão.
- Chorar na cama que é lugar quente.
- Dormir no chão para não cair da cama.
- Fama é melhor que dourada cama.
- Mais vale boa fama que doirada cama.
- Na prisão e na cama, verás quem te ama.
- Não se ganha boa fama numa cama de penas.
- Nem na mesa sem comer, nem na igreja sem rezar, nem na cama sem dormir, nem na festa sem dançar.
- Para muito sono toda a cama é boa.
- Pobreza e alegria, não dormem na mesma cama.
- Quem boa cama faz nela se deita.


DEITAR
Também a nível do deitar, há adágios que constituem conselhos:
- Cedo deitar e cedo erguer, dá saúde e faz crescer.
- Deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer.
- Deitar cedo e levantar cedo, dá saúde, contentamento e dinheiro.
- Deitar tarde e levantar cedo, cria carne e sebo.
- Se queres criar carne e sebo, levanta-te tarde e deita-te cedo.
- Deita-te tarde, levanta-te cedo, verás o teu mal e o alheio.
Porém há outros que se podem considerar sentenças:
- Quem se deita a dormir, acaba a pedir.
- Quem se deita com crianças, amanhece molhado.
- Quem se deita com rapazes, amanhece cagado.
- Quem se deita em cama de cão, não tem senão pulgas.
- Quem se deita sem ceia, toda a noite devaneia.
- Quem se deita sem ceia, toda a noite rabeia.
- Quem se deita tarde, nem sebo nem carne.

DORMIR
No que respeita a dormir, há adágios que constituem conselhos:
- À sombra da figueira não é bom dormir.
- Arranja boa fama e deita-te a dormir.
- Come pouco e bebe pouco, dormirás como louco.
- Comer bem e dormir bem, faz o velho menino.
- Dormir é meia mantença
- Não acordes a má sorte quando está dormindo.
- O dormir é meio sustento.
- Quando a desgraça dormir, ninguém a desperte.
Contudo há outros que se podem considerar sentenças:
- A abelha-mestra não tem sesta e, se a tem, pequena e lesta.
- A abundância não deixa dormir o rico.
- A aveia, até Abril, está a dormir.
- A dormir não se alcançam vitórias.
- A pássaro dormente, tarde entra o cevo no ventre.
- A quem dorme descansado, dorme-lhe o cuidado.
- A quem dorme não acusa a justiça.
- A quem dorme ou preguiça, nunca lhe acode a justiça.
- A raposa dormente não lhe amanhece galinha no ventre.
- À raposa dormida, não lhe cai comida na boca.
- Aos que dormem descansados, dormem os cuidados.
- As manhãs de Abril são boas de dormir.
- As manhãs de Abril são doces de dormir.
- Camarão que dorme, a onda o leva.
- Casa, e verás que mal dormirás.
- Ciúme infindo acorda quem está dormindo.
- Comer e beber, dormir e cagar, devagar.
- Dorme bem quem tem a consciência tranquila.
- Dorme com arganaz, como pedra em poço.
- Dormir com janela aberta, constipação quase certa.
- Dormirei, boas novas acharei.
- Enquanto a gente dorme, dormem-lhe os cuidados.
- Faz mal dormir de barriga cheia.
- Junho, dorme-se sobre o punho.
- Melhor é dormir coberto com ataca que ficar parvo de marca.
- Muito dormir, enfraquece.
- Não dorme bem quem tem inimigos.
- Não dorme em paz quem tem culpa.
- Nem na mesa sem comer, nem na igreja sem rezar, nem na cama sem dormir, nem na festa sem dançar.
- O bom comer faz mau dormir.
- Onde o patrão dorme, ressonam os criados.
- Quatro horas dorme o santo, cinco o que não é tanto, seis o caminhante, oito o preguiçoso, nove o porco e as mais o morto.
- Quatro horas dorme um santo, cinco o que não é tanto, seis o estudante, sete o caminhante, oito o porco e nove o morto.
- Quem bem come e dorme, bem faz o que deve.
- Quem dorme com gato, acorda arranhado.
- Quem dorme em pé não cai da cama
- Quem dorme, descansa e deixa descansar.
- Quem dorme, não peca.
- Quem mais dorme, menos vive.
- Quem muito dorme, muito perde.
- Quem muito dorme, pouco aprende.
- Quem não pode dormir, acha a cama mal feita.
- Quem quer dormir, paga a guarda.
- Quem tem demandas, não dorme quando quer.
- Se não dorme meu olho, folga meu osso.
- Se não dorme meu olho, julga meu passo.
- Se não dormem os olhos, folgam os ossos.

SONO
No que concerne a sono, há adágios que constituem conselhos:
- Bom sono e boa comida acrescentam a vida.
- Não ames o sono para que não empobreças.
Mas, há outros que se podem considerar sentenças:
- A vida é um sono de que a morte nos desperta.
- Boca aberta, ou sono ou fome certa.
- Cu de sono é eu sem dono.
- Cu de sono não tem dono.
- É um cu de sono.
- Livro adquirido, sono perdido.
- O diabo não tem sono.
- O sono é a imagem da morte.
- O sono é bom conselheiro.
- O sono é inimigo da morte.
- O sono é irmão da morte.
- O sono é meia vida e outra meia, a comida.
- O sono é o alívio das misérias que sentimos acordados.
- O sono é parente da morte.
- O sono é um alimento.
- O sono é um baixo que não está nas cartas dos mareantes, em que mais naufrágios têm sucedido, que em nenhum outro que nelas esteja.
- O uso adquirido, sono perdido.
- Para muito sono toda a cama é boa.
- Quem tem sono, balha o carasono.
- Seis horas de colmo são uma de sono.

SONHOS
No que respeita a sonhos, há adágios que têm a ver com a respectiva interpretação:
- Sonhar com bois é sinal de casamento.
- Sonhar com botas é ausência.
- Sonhar com botas é sinal de morte.
- Sonhar com carne de porco é desgosto na família.
- Sonhar com carvão é sinal de dinheiro.
- Sonhar com cemitério é herança.
- Sonhar com chaves é sinal de dinheiro enterrado.
- Sonhar com cobras é arrastamento.
- Sonhar com dinheiro é pobreza.
- Sonhar com figos brancos é sinal de dinheiro.
- Sonhar com figos é sinal de dinheiro.
- Sonhar com figos pretos é sinal de luto.
- Sonhar com galinhas é desgosto.
- Sonhar com galinhas ou outros animais de penas é sinal de penas.
- Sonhar com galos é traição.
- Sonhar com maçãs é desgosto.
- Sonhar com ovos é sinal de mexericos.
- Sonhar com porcos é morte certa.
- Sonhar com sangue é desgosto.
- Sonhar que cai um dente é morte de parente.
- Sonhar que pessoa viva morreu, acrescenta-lhe dias de vida.
Para além destes, há outros que se podem considerar sentenças:
- Os sonhos dos gatos passam-se sempre na cozinha.
- Quem sonha com água a correr, logo que acorda tem que beber e tem de bebê-la sozinho, porque se a beber acompanhada, uma bebe água e a outra sangue.
- Quem sonha com água a correr, logo que acorda tem que beber.
- Quem sonhar três noites a tio com dinheiro enterrado, não deve descobrir o sonho porque, se o descobre, o dinheiro converte-se em carvão.
- Sonha sem medida, alongarás a vida.
- Sonhar é fácil.
- Sonhava o cego que via, sonhava o que queria.
- Sonhava o cego que via.
- Sonhos são quimeras.

LEVANTAR
No que se refere ao levantar apenas conhecemos um adágio que constitui um conselho:
- Se queres criar carne e sebo, levanta-te tarde e deita-te cedo.
Os restantes que conhecemos constituem sentenças:
- Para quem tarde se levanta, cedo anoitece.
- Quem se levanta tarde, nem ouve missa nem toma carne.
- Quem se levanta tarde, tem problemas mais cedo.
- Quem tarde se levanta, todo o dia corre e pouco adianta.
- Quem tarde se levantar, todo o dia há-de trotar.

EPÍLOGO
O sono aqui abordado em termos de adagiário popular, permite muitas outras abordagens. Transcrevo aqui, de Fernando Pessoa (1888-1935), o poema “DEIXEM-ME O SONO! SEI QUE É JÁ MANHÃ.” (1934)

Deixem-me o sono! Sei que é já manhã.
Mas se tão tarde o sono veio,
Quero, desperto, inda sentir a vã
Sensação do seu vago enleio.

Quero, desperto, não me recusar
A estar dormindo ainda,
E, entre a noção irreal de aqui estar,
Ver essa noção finda.

Quero que me não neguem quem não sou
Nem que, debruçado eu
Da varanda por sobre onde não estou,
Nem sequer veja o céu.

Com ele dou por terminada, pelo menos por agora, esta minha rápida incursão num domínio muito específico do vasto e apaixonante território da literatura oral.


DESDÉMONA A DEITAR-SE (1849).
Óleo sobre tela de Théodore Chassériau (1819-1856).
 Musée du Louvre, Paris.
O SONHO (1883).
 Óleo sobre tela de Pierre Puvis de Chavannes (1824–1898).
 Walters Art Museum, Baltimore. 
O PESADELO (1802).
Óleo sobre tela de Johann Heinrich Füssli (1741–1825).
Frankfurter Goethe-Museum, Frankfurt. 
DESPERTAR MATINAL (1876).
Óleo sobre tela de Eva Gonzalèz (1849-1883).
Kunsthalle, Bremen.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Sei que não vou por aí!


Foto de Almada Negreiros (1893-1970), na I Conferência Futurista, em Abril de 1917.

O respeito às raízes e à nossa matriz identidária, bem como a verticalidade de carácter, são o que há de mais importante nas nossas vidas.
Não se compram numa grande superfície, nem tão pouco se adquirem em qualquer retiro de avental. Têm a ver com os nossos genes, com o que aprendemos com os nossos pais e avós, bem como aquilo que partilhamos com os nossos companheiros de estrada. São eles os nossos melhores conselheiros. Com eles aprendemos a caminhar e a descobrir caminho, caminhando.
São marcas de quem nunca se rende e não prescinde da sua individualidade, tendo assumidamente a coragem de não se esconder comodamente atrás de um qualquer colectivo. Cartilhas há muitas, algumas das quais castram e subjugam o individual em nome dum colectivo que alguém supostamente mandatado e auto-predestinado, controla. Por mim e em nome da ânsia de liberdade que é meu timbre, sou levado a parafrasear José Régio no “Cântico Negro”:

"Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!"

Hernâni Matos
Publicado inicialmente em 15 de Julho de 2013

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Sou um actor


Como escritor, jornalista e bloger sou um actor. Represento o papel da minha própria vida. Esse e mais nenhum. Esse é o papel magno da minha carreira. Sou eu que escrevo o enredo e sou director de cena de mim mesmo. E cresço quando o silêncio se transmuta em palavras. Então sou maior do que eu, porque atinjo a dimensão de mim próprio.

Hernâni Matos
Publicado pela 1ª vez em 5 de Julho de 2013

quinta-feira, 4 de julho de 2013

O meu voto


O meu boletim de voto está do mesmo lado que o coração. Significa isso que assumidamente sou de esquerda, pela teoria e pela prática, pelas emoções e pela razão. Pela cabeça e pela determinação que entronca na matriz térrea que me pariu: o Alentejo.
Passos Coelho? Paulo Portas? Cavaco Silva? Todos diferentes, mas todos iguais. Não vou por aí. O meu caminho é outro. É o caminho de abrir caminho até onde o caminho puder ser aberto. É como fazer amor até se poder fazer amor, porque as coxas se nos abrem com prazer e nós temos virilidade quanto baste para rasgar charnecas e penetrar lodaçais. É isso a procura dos amanhãs que cantam.