quinta-feira, 13 de outubro de 2022

Centro Histórico de Estremoz: Do autismo à militância ecológica

 


Fotografias de Rui Dias
Muralhas semi-limpas
“Vamos limpar as muralhas da zona histórica!” - assim se designava a acção promovida no passado dia 5 de Outubro pela União de Freguesias de Estremoz - Santa Maria e Santo André, a qual visava sensibilizar para as questões ambientais e contribuir para a limpeza do terreno junto às muralhas.
Face ao convite-apelo-desafio lançado, compareceram 15 valoroso(a)s guerreiro(a)s, os quais como refere o Hino da Intersindical, foram ali lutar com as armas que tinham nas suas próprias mãos e que eram, nem mais nem menos, as luvas protectoras fornecidas pela organização. Entre as dez horas e o meio-dia e meia, conseguiram limpar a zona junto às Portas de Évora, o que deu para encher por duas vezes um atrelado do Município e uma vez a carrinha de caixa aberta da União de Freguesias.
A jornada de trabalho permitiu apenas limpar metade das muralhas junto ao Centro Histórico, pelo que a organização vai oportunamente marcar uma nova data para a recolha do restante lixo.

Às armas! Às armas! Contra o lixo marchar, marchar!
Bem podiam ter sido estas as palavras de incitamento ao combate ecológico do passado de 5 de Outubro, já que os intervenientes na contenda revelaram extremoso pundonor, fruto decerto da sua elevada consciência ecológica, social e política. Entre eles figuravam os membros da Junta da União de Freguesias e o Vereador do Pelouro do Ambiente. Irmanados num mesmo propósito, entre eles existia um elo comum: pertenciam todos às esquerdas locais. Por outras palavras: a direita remeteu-se comodamente a penates. A rapaziada das laranjadas e os furta-cores, entrincheirados nas redes sociais, preferem a partir daí, mandar os seus bitaites doutorais sobre o assunto, pois sempre é mais cómodo perorar que dar o corpo ao manifesto.

Santiago!
Era o grito de guerra lançados pelos cristãos nas batalhas pela reconquista cristã da Península Ibérica. Santiago foi no passado dia 5 de Outubro, o bairro alvo da acção promovida pela União de Freguesias de Estremoz - Santa Maria e Santo André. Para tal, a acção foi antecedida de trabalho da mediadora cultural, houve distribuição de folhetos e o Presidente da União de Freguesias falou com moradores. Todavia, o bairro de Santiago fechou-se em copas, como se aquilo não tivesse nada a ver com eles.

Associações, associações, lixo à parte
As associações culturais e desportivas locais, que habitualmente solicitam apoios de índole diversa, também foram convidadas a associar-se à acção promovida pela União de Freguesias, mas o resultado foi moita-carrasco. Reciprocidade? O que é isso?
Por ali não se viram também escuteiros, ainda que o ideário escutista pressuponha a prática diária de uma boa acção e encare os escuteiros como os principais guardiões da natureza e do meio ambiente.
E as escolas não têm clubes vocacionados para a defesa do ambiente e para o exercício da cidadania? Pois têm.

E os papa-lanches?
Há fregueses que não faltam a uma iniciativa da Junta. Pudera, é que no fim há sempre um lanchezinho para dar ao dente e molhar o bico. Desta vez não foram. Pudera, desta vez a iniciativa era a seco.

Limpar o que está semi-sujo
Fico a guardar com expectativa os resultados e a natureza dos participantes na 2.ª etapa da acção “Vamos limpar as muralhas da zona histórica”. Depois “É preciso dar tempo ao tempo”, já que como nos diz a canção de Fausto, é sabido “que atrás dos tempos vêm tempos / e outros tempos hão-de vir”.

E depois?
O futuro o dirá. Das duas uma: ou a sensibilização do bairro de Santiago para as questões ambientais resulta e deixa de haver prevaricação ou, pelo contrário, há moradores que num total desrespeito pela vida em sociedade, continuam a prevaricar. Neste último caso, o Município de Estremoz terá inescapavelmente de agir. Para tal, dispõe de uma Divisão de Ambiente e Serviços Urbanos com missões perfeitamente definidas, legislação portuguesa actualizada sobre o assunto e fiscais para andar no terreno. Só se torna necessário olear a máquina, no caso de esta se encontrar perra. E depois é aplicar coimas, o que é da mais elementar justiça, de acordo com o princípio do poluidor pagador, conceito através do qual se imputa ao poluidor a responsabilidade de arcar com os custos resultantes da poluição. É uma atitude que terá de ser tomada de olhos vendados e sem pensar em votos.

Publicado no nº 297 do jornal E, em 13-10-2022







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