sábado, 11 de setembro de 2021

Ave Maria

 

REDONDO - Prato Falante com a inscrição "Maria" e a mensagem "Ave Maria", 
que para os cristãos tem um profundo significado religioso. Prato covo de média
dimensão.  Esgrafitado e pintado.

Preâmbulo
Ao inventariar um dos pratos da minha colecção de cerâmica de Redondo, constatei que ele integrava o sub-grupo da Cerâmica Falante, visto incluir uma inscrição: o antropónimo “Maria”.
Esta inscrição suscitou-me primeiro alguma reflexão e levou-me posteriormente a trazer à luz do dia, alguma literatura de tradição oral, centrada no antropónimo “Maria”.

O porquê duma inscrição
A visualização do prato pode suscitar várias interpretações. Assim, tendo em conta apenas a inscrição "Maria", posso ser conduzido a uma das seguintes interpretações:
- Pode ter sido manufacturado e dedicado a uma certa “Maria”;
- Pode ter sido encomendado por uma mulher chamada “Maria”;
- Pode ter recebido a inscrição “Maria” por ser o nome feminino mais frequente, o que tornaria o prato mais fácil de vender.
Todavia, a minha interpretação pode ter em conta a conjugação da palavra que representa a imagem (Ave) com a inscrição "Maria". Chego então à frase "Ave Maria", que tem para os cristãos um profundo significado religioso.
Inclino-me, naturalmente, para esta última interpretação, visto ser a mais plausível. O prato para além de integrar a chamada Cerâmica Falante, é um prato que ostenta uma mensagem de saudação à Virgem Maria, transmitida através da oração "Ave Maria", 

Origem do nome Maria
Maria é um nome de origem controversa, muito difundido por todo o mundo, mesmo antes da época de Jesus Cristo. Há quem creia que seja derivado do hebraico Miriam (Senhora Soberana). Outros crêem tratar-se de um nome originalmente egípcio, derivado de Mry (Amada) ou Mr (Amor). Há ainda quem acredite que o nome tenha origem no sânscrito Maryáh (Virgem).

O nome Maria na Bíblia
Maria é um dos nomes mais comuns de todo o mundo há séculos, especialmente por causa da Virgem Maria, a mulher judia que morava em Nazaré e foi escolhida por Deus para ser a mãe de Jesus Cristo. De acordo com o Evangelho segundo São Lucas:
No sexto mês Deus enviou o anjo Gabriel a Nazaré, cidade da Galileia, a uma virgem prometida em casamento a certo homem chamado José, descendente de David. O nome da virgem era Maria.
O anjo, aproximando-se dela, disse: "Alegre-se, agraciada! O Senhor está com você!"
Maria ficou perturbada com essas palavras, pensando no que poderia significar esta saudação. Mas o anjo lhe disse: "Não tenha medo, Maria; você foi agraciada por Deus! Você ficará grávida e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo. O Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi, e ele reinará para sempre sobre o povo de Jacó; seu Reino jamais terá fim". LUCAS 1:26-33.

Antroponímia
“Maria” é o nome próprio feminino mais comum há séculos em Portugal e em quase todo o número. O antropónimo simples “Maria” pode integrar elevado número de antropónimos compostos femininos, tais como: Maria Antónia, Maria Augusta, Maria Clara, Maria Madalena, Maria da Assunção, Maria da Conceição, Maria da Cruz, Maria da Fé, Maria da Graça, Maria da Luz, Maria da Paz, Maria da Piedade, Maria da Purificação, Maria das Dores, Maria de Fátima, Maria de Jesus, Maria de Lourdes, Maria do Amparo, Maria do Céu, Maria do Socorro, Maria dos Anjos, Maria dos Prazeres, Maria dos Remédios, Maria Francisca, Maria João, Maria Joaquina, Maria Luísa, Maria Madalena, Maria Manuela, Maria Rosa, Maria Santos, Ana Maria, Eduarda Maria, Fernanda Maria, Filomena Maria, Joana Maria, Rosa Maria, etc. Constata-se que grande número destes antropónimos compostos femininos, utiliza Maria como primeiro nome, sendo o segundo um nome com referências gratas aos católicos
O antropónimo simples “Maria” pode integrar igualmente antropónimos compostos masculinos, dos quais destaco: António Maria, João Maria, José Maria, Manuel Maria, etc.

Toponímia
O antropónimo “Maria” integra a designação de vários topónimos relativos a lugares de freguesias de determinados concelhos portugueses. Usando a notação “LUGAR – Freguesia (Concelho)” temos: MARIA DIAS [Penamacor (Penamacor)], MARIA DO CIZO [Coruche (Coruche)], MARIA DO VALE [Nossa Senhora das Neves (Beja)], MARIA GOMES [Machin (Pampilhosa da Serra)], MARIA MARTINS [Monsanto (Idanha-a-Nova)], MARIA MENDES [Serpins (Lousã)], MARIA PIRES [Alvor (Portimão)], MARIA RUIVA [Arcos (Estremoz)], MARIAS [Marmelete (Monchique)], MARIA VINAGRE [Aljezur (Aljezur)].

Gíria Popular
A gíria popular assume importância, enquanto valor acrescentado à linguagem dita erudita. Daí que tenha procurado referenciar a presença do antropónimo “Maria” na gíria popular e dar conta do respectivo significado:
- DO TEMPO DA MARIA CACHUCHA (Muito antigo), - MARIA (A mulher em geral; a esposa), - MARIA DA FONTE (Desordem), - MARIA DAS PERNAS COMPRIDAS (A chuva), - MARIA DE BARBA (Mulher perigosa – Alentejo), - MARIA RAPAZ (Rapariga que pelo aspecto físico e/ou comportamento se parece com um rapaz), - MARIA VAI COM AS OUTRAS (Pessoa que não pensa por si, limitando-se a fazer os que os outros fazem), - MARIA-CACHUCHA (Rapariga folgazona), - MARIA-FUMAÇA(Locomotiva), - MARIA-FRANCISCA (Prostituta-Baixo Alentejo), - MARIA-GOMES (Designação dada à planta Beldroega-grande), - MARIA-GORDA (Designação dada à planta Beldroega-grande), - MARIA-MALUCA (Rapariga destrambelhada), - MARIA-MIJONA (Adolescente que ainda faz chichi na cama), . MARIA-VITÓRIA (Palmatória), - MAU MARIA! (Interjeição de descontentamento e ameaça), - MULHER DA GRADE (Bruxa-Sangalhos), - TEM-TE MARIA, NÃO CAIAS! (Tem-te, não caias).

Adivinhas
Conheço as seguintes adivinhas cuja solução envolve o antropónimo Maria:
- O pai de Maria tem 5 filhas. Naná, Nené, Niní, Nonó e…? (SOLUÇÃO: Maria);
- Se a filha da Maria é a mãe da minha filha, o que sou eu da Maria? (SOLUÇÃO: Filha da Maria).

Calão Alentejano
Como era expectável, o nome Maria consta do farto calão alentejano. Passemos em revista alguma dessa presença: - MARIA DA FEIXOCA - Nome atribuído a uma mulher que apanha feixes de lenha (Campo Maior); - MARIA DA RAPINA - A visada morou num monte com esse nome (Santigo do Cacém); - MARIA DA SEMPRE NOIVA - A nomeada viveu numa herdade com este nome (Arraiolos); - MARIA DA SEXTA – Alcunha atribuída a mulher que é vendedora ambulante e costuma fazer os mercados semanais à sexta-feira (Marvão); - MARIA DAS PERNAS À BANDA - Denominação outorgada a uma mulher que tem as pernas tortas e curvadas para dentro (Alcácer do Sal); - MARIA DO ALCAROU - A receptora habitou num monte com este nome (Évora); - MARIA DO AVIÁRIO - A alcunhada tem este nome porque teve um aviário (Almodôvar); - MARIA DO CRÉ - A visada morou num monte com esse nome (Évora e Moura); - MARIA DO LEITE - A nomeada foi leiteira (Santiago do Cacém); - MARIA DO MOIRÃO - A receptora recebeu esta alcunha porque está sempre a espreitar ao pé de um muro (Moura); - MARIA DO VALE MEQUE – Alcunha outorgada a mulher que viveu num monte com este nome (Cuba); - MARIA DOS ARNEIROS ALTOS – A visada é uma mulher que habitou num monte com este nome (Santiago do Cacém); - MARIA QUERES MAIS CHÁ? - Velhota que gostava muito de chá (Reguengos de Monsaraz).

Cancioneiro Popular
É sabido que o Alentejo é uma das regiões do país, com menor religiosidade popular. Tal facto não impediu que o cancioneiro popular alentejano registasse quadras de exaltação à Virgem Maria:

Não há homem como Deus,
Nem mulher como Maria,
Nem’strela como a do Norte
E nem luz como a do dia.

Chamaste-me amor perfeito,
Coisa que a terra não cria.
O amor perfeito é Deus,
Filho da Virgem Maria.

As nuvens no céu se tingem
N’um arco de sete cores.
São sete as dores de Maria,
São setenta as minhas dores.

Esta noite à meia noite,
À meia noite seria,
Ouvi cantar os anjos
E mais a Virgem Maria.

Sendo Maria o nome mais comum entre mulheres, não é de admirar que o cancioneiro popular alentejano e, em particular, o cancioneiro amoroso, inclua quadras com aquele nome inscrito:

Eu, do nome que mais gosto
É do nome de Maria.
Quem te pôs tão lindo nome,
Meu segredo já sabia.

Maria estás encoimada,
Vou dizê-lo a teu pai,
Deitaste a água na rua
E sem dizer – água vai.

O coração de Maria
Dizem que o tenho eu.
O coração sem o corpo,
Para que o quero eu?

Por Maria é que eu me morro,
E por Ana é que eu padeço.
Se não lograr uma delas,
Estou certo que endoideço.

Epílogo
Apesar do título do presente texto ser simplesmente “Ave Maria”, a abordagem do tema “deu pano para mangas”, o que é revelador da riqueza da nossa literatura de tradição oral, a qual carece de maior divulgação numa época em que se procura enfatizar o património cultural imaterial.

BIBLIOGRAFIA

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BELO, Ana. Mil e tal nomes próprios. Arte Plural, Edições. Cascais, 2007.
LAPA, Albino. Dicionário de Calão. Edição do Autor. Lisboa, 1959.
NEVES, Orlando. Dicionário de Expressões Correntes (2º ed.). Editorial Notícias. Lisboa, 2000.
NEVES, Orlando. Dicionário de Nomes Próprios. Círculo de Leitores. Lisboa, 2003.
PIRES, A. Tomaz. Cantos Populares Portuguezes. Vol. I e Vol.II. Typographia Progresso. Elvas, 1902 e 1905.
PRAÇA, Afonso. Novo Dicionário de Calão. Editorial Notícias. Lisboa, 2001.
RAMOS, Francisco Martins & SILVA, Carlos Alberto da. Tratado das Alcunhas Alentejanas. 2ª edição. Edições Colibri. Lisboa, 2003.
SANTOS, António Nogueira. Novo dicionário de expressões idiomáticas. Edições João Sá da Costa. Lisboa, 1990.
SIMÕES, Guilherme Augusto. Dicionário de Expressões Populares Portuguesas. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1993.

Publicado inicialmente a 10 de Setembro de 2021

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