segunda-feira, 12 de março de 2018

À mesa com o Franco-atirador


A Meca, alvo das peregrinações gastronómicas do Franco-atirador:
Restaurante “Kimbo”, na Rua 31 de Janeiro, em Estremoz.
O prazer de comer
Sou publicamente conhecido pelo exercício continuado da crítica social, direito cívico e democrático do qual não abdico. Daí que alguns, porventura despeitados, me apodem de “má-língua”. Trata-se de um vitupério, duplamente falso. Em primeiro lugar, porque como traço de carácter, sou incapaz de enganar os outros e “vender gato por lebre”, como alguns persistem em fazer. Em segundo lugar, porque as minhas dotadas papilas gustativas, superiormente protegidas pelo palato, me transmitem por via neuronal, o seu parecer incontestável sobre aquilo que, visando retemperar as forças, devo ou não consumir às refeições.
Comer, não é um mero acto de sobrevivência. É também o exercício de uma filosofia hedonista, que transfigura o próprio acto de comer e está na génese de uma mudança de paradigma, o salto qualitativo entre dois patamares distintos: a necessidade de comer e o prazer de comer. Que o diga a Fátima, minha companheira, com a qual casei há 35 anos e que assumiu a espinhosa missão de me tratar da alma e do corpo, muito em especial da barriga.
A Fátima é excelente cozinheira e regala-me os sentidos com os petiscos que confecciona. Pese, embora essa condição, de vez em quando vamos almoçar ou jantar fora, já que na perspectiva da cozinheira, a qual eu também perfilho, “enquanto o pau vai e vem, folgam as costas”. 
As idas ao “Kimbo”
Um restaurante que nos habitámos a frequentar foi o “Kimbo”, na Rua 31 de Janeiro, em Estremoz. Ali, o
manda-chuva é o João, patrão daquilo tudo e uma espécie de homem dos sete ofícios. À sua condição de patrão, acrescem as de cozinheiro exímio, chefe de sala, chefe de vinhos e empregado de mesa. A Paula, sua cara-metade, dá-lhe o apoio necessário. Na cozinha reina a “chef” Manuela, secundada pela Fátima, não a minha, mas igualmente Fátima.
A Ementa
A Ementa contempla entradas, omeletas, pratos regionais, carnes e peixes grelhados ou fritos, especialidades da casa, doces e frutas variadas. As doses são bem aviadas e é excelente a relação qualidade - preço.
Os pratos do dia variam ao longo da semana e deles destaco a nível de peixes: massada de peixe, bacalhau com espinafres, bacalhau com puré de grão, bacalhau torricado, caldeirada de lulas, lulas à espanhola, lulas grelhadas, polvo com broa e polvo à lagareiro. Quanto a carnes, saliento: borrego à lagareiro, caldeirada de borrego, espetada de peito de frango com ananás, pato no forno com laranja, rancho à portuguesa e sopa de pedra.
Livro de reclamações
A frequência do “Kimbo” agradou-me desde a primeira hora. Daí que certa vez, quando o João me perguntou no final:
- Então que tal, Professor?
A minha resposta não o podia ter surpreendido mais:
- Traga-me o livro de reclamações, se faz favor!
Perguntou-me então:
- Não me diga que hoje não gostou, Professor?
A minha resposta só podia ser uma:
- É claro que adorei como habitualmente, amigo João. Mas onde é que eu posso registar um rasgado e merecido elogio, se não for no livro de reclamações?
E ainda argumentei filosoficamente:
- Então um elogio não é uma reclamação negativa ou seja uma ausência de reclamação?
A resposta do João foi imediata:
- Vai desculpar Professor, mas o livro oficial de que dispomos é para registar reclamações e não a ausência de reclamações.
Vencido, mas não convencido, ainda rematei:
- Está mal.
E a conversa ficou por ali.    
Livro de elogios
Como não podia deixar de ser, dada a qualidade do serviço prestado, continuei a frequentar o “Kimbo” e a conversa no final ia sempre parar ao mesmo: o pedido do livro de reclamações para registar o meu elogio, o que sempre me era amigavelmente declinado. Até que um dia e perante a minha estupefacção, o João me disse:
- Já que tanto insistiu, acabei por descobrir a existência de um livro de elogios. Vou já buscá-lo.
Acabei por saber tratar-se de um livro não oficial, fruto de um projecto de Cristina Leal, que partiu da constatação do absurdo que era existir um livro de reclamações e não existir um livro de elogios. Daí ter criado um livro onde se pode reconhecer o que é bom e deixar isso registado.
O meu elogio
Naturalmente que se impunha dar conta aqui do meu elogio, com o qual tive o privilégio de inaugurar o livro, em Agosto passado:
“Sou um cliente de excelência. Não da minha excelência, mas do padrão total da excelência do “Kimbo”, que atravessa transversalmente e sempre com 5 estrelas, parâmetros distintos mas complementares: excelente ambiente, elevado padrão de atendimento, resposta rápida da cozinha, a que há que acrescentar o fascínio dos pratos confeccionados sobre os sentidos que têm a ver com a gastronomia (visão, olfacto e paladar). É caso para dizer:
- Obrigado, João e Companhia. Parabéns.
Recomendamos sinceramente a frequência deste restaurante de excelência.”

Hernâni Matos
Cronista do E, gastrónomo. enófilo e tudo.
(Texto publicado no jornal E nº 195, de 08-03-2018)