quarta-feira, 20 de julho de 2016

54 – O Aguadeiro - 5


Aguadeiro.
Quirina Marmelo (1922-2009).
Colecção particular.

Literatura de tradição oral 
O (A) aguadeiro (a) tem múltiplos averbamentos na nossa literatura de tradição oral.
No que respeita a ADAGIÁRIO registo: “Janeiro geadeiro, Fevereiro aguadeiro”.
No âmbito da GÍRIA POPULAR são conhecidos os termos: Aguadeira (Capa que não deixa passar a água), Aguadeira (Petisco que abre o apetite), Aguadeiras (Penas que acompanham as asas das aves de rapina até ao rabo), Aguadeiro (Capote de saragoça, próprio para resistir à água - Alentejo), Aguadeiro (Chapéu com a orla da aba voltada para cima e que retém a água quando chove, pelo que é necessário desabá-lo - Alentejo), Aguadeiro (Ciclista que acompanha a equipa), Aguadeiro (Designação pejorativa dada a cocheiro que conduz mal), Aguadeiro (Homem encarregado de introduzir água salgada na salina), Aguadeiro (Feixe de linho pronto para demolhar).
No domínio das ALCUNHAS ALENTEJANAS, conheço apenas uma: Aguadeiro – Alcunha outorgada a homem ou mulher que vendia água, antes de existir água canalizada (Aljustrel, Casto Verde e Ourique).
Em termos de ANTROPONÍMIA e de acordo com o site http://forebears.io que dá acesso a bases de dados genealógicas, o apelido Aguadeiro será comum a 37 pessoas em Portugal e terá resultado da transformação da alcunha em sobrenome, pelo que sendo aguadeiro uma antiga profissão de âmbito nacional, é normal que a distribuição geográfica seja bastante vasta.
Quanto a PREGÕES ALENTEJANOS, Eurico Gama, em “Os Pregões de  Elvas” (1954), refere os seguintes: - “Á-gua-dê-ro!; - Á-gua fres-qui-nha!”; - “A tos-tão a bar-ri-gada!”; - “S’tá aqui o home da água!”; - “É um céu aberto a água da Fonte Nova!”; - “A água da Fonte Nova percorre as veias de toda a criatura!”.
Na área da TOPONÍMIA, tenho conhecimento da existência da Rua dos Aguadeiros (Peniche, Faro, Portimão e Quarteira) e do Beco dos Aguadeiros (Lisboa).
No que concerne a CANCIONEIRO POPULAR, apenas refiro que Lopes da Areosa no Romance  do  Senhor  da  Serra (d’Arga), nos diz que: “…(Os meus passos de romeiro /   todos os anos lá vão) / e nesta peregrinação / não encontro o aguadeiro / dos tempos que já lá vão /…”.
A nível de LENDAS, há a referir a “Lenda da Bilha de S. Jorge”. De acordo com ela, no dia da Batalha de Aljubarrota, os exércitos português e castelhano encontravam-se frente a frente, sob um sol escaldante. Nuno Álvares Pereira temeu mais a sede que o exército inimigo, pelo que incumbiu Antão Vasques de procurar água, tarefa ingrata, dado a secura dos ribeiros. Desesperado porque não conseguia encontrar água, Antão Vasques apeou-se do cavalo, ajoelhou-se e orou a S. Jorge, a quem implorou que o auxiliasse. Surgiu então uma camponesa com uma bilha de água, que se enchia quando dela se bebia, saciando a sede e recompondo as forças e o espírito. Quando os castelhanos atacaram, convictos de encontrar os portugueses debilitados pela espera e pela sede, estes resistiram com firmeza e, para grande espanto dos castelhanos, venceram a batalha. 
No círculo das ANEDOTAS POPULARES, apenas registo uma: VALORIZAÇÃO INSTANTÂNEA - Um aguadeiro percorria as ruas de uma praça-forte sitiada, carregando dois cântaros de água, a qual apregoava: - “A pataco o cântaro, a pataco…”. Quando um estilhaço de granada rebenta um dos cântaros, o homem não se atrapalhou, modificando apenas o pregão: - “A dois patacos o cântaro, a dois patacos…”.
Hernâni Matos