segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

18 - Pastor das migas

Pastor das migas.
Sabina Santos (1921-2005).
Colecção particular.

Marca de identidade de autor. Legenda “OLARIA ALFACINHA / ESTREMOZ“,
inscrita numa coroa circular de 2,3 cm e 1,4 cm de diâmetro, com a palavra
“PORTUGAL”, ao centro. Dupla impressão da marca estampada. 

Uma das peças mais emblemáticas do figurado de Estremoz é o pastor das migas, uma vez que reúne em si, múltiplos traços de identidade cultural alentejana: - O TRAJE: pelico de pele de borrego ou de ovelha, calça de saragoça ou burel, botas de cabedal, camisa fechada em cima por um par de botões cor de latão e chapéu aguadeiro; - A ARTE POPULAR: tarro de cortiça que permite guardar e transportar alimentos que se conservam a uma temperatura próxima da atingida na sua confecção, decorridas algumas horas sobre terem saído do lume; - A GASTRONOMIA: migas cozinhadas com pão duro e que integram o rico património gastronómico alentejano, todo ele feito de sabores e de saberes determinados pelas condicionantes regionais e pelos contextos sociológicos de vida; - A FLORA: Sobreiro ou azinheira que serve de encosto e dá sombra, integrando o montado de sobro ou de azinho, ecossistema onde engordam varas de porcos pretos de raça alentejana e pastam rebanhos de ovinos e de caprinos. 
Na base, a figura ostenta uma marca de identidade de autor, estampada com a legenda “OLARIA ALFACINHA / ESTREMOZ“, inscrita numa coroa circular de 2,3 cm e 1,4 cm de diâmetro, com a palavra “PORTUGAL”, ao centro. Trata-se de uma marca já identificada no texto “Medalhas de barro de Estremoz”, publicado por mim no blogue “Do Tempo da Outra Senhora”, em 12 de Novembro de 2012. O timbre aparece também em cantarinhas e pucarinhos enfeitados, que eram produzidos na roda na Olaria Alfacinha e decorados por Maria José Cartaxo.
A peça que é objecto da presente crónica integrava um conjunto de figuras por mim adquiridas a uma antiga empregada da Loja de Artigos Regionais da Olaria Alfacinha, situada no Largo da República, nº 30, em Estremoz. Os exemplares daquela colecção tinham como elo comum, o serem todos eles confeccionados por Sabina Santos, de quem a funcionária era admiradora.
Creio estar em presença de um boneco cuja temporalidade remonta ao início da actividade de Sabina, após a morte prematura de seu irmão Mariano da Conceição, em 1959. Em abono desta tese, o facto de a decoração do rosto ser semelhante à de Mariano, cujas criações serviram de modelo a Sabina. Exceptua-se o cabelo, o qual na peça homóloga de Mariano tem um corte mais vincadamente masculino, com suíças. De resto, possuo da barrista dois exemplares da mesma figura, com marcas distintas da referida e que revelam maior aperfeiçoamento técnico e libertação da influência de Mariano.