sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O povo é quem mais ordena

O Quarto Estado (1901).
Giuseppe Pellizza da Volpedo (1868-1907).
Óleo sobre tela (293 x 545 cm).
Civica Galleria d'Arte Moderna, Milano.

Na passagem do 84º aniversário do nascimento do compositor, poeta e cantor de intervenção Zeca Afonso (1929-1987) (1), as letras das suas músicas e os seus poemas continuam actuais quando nos relatam o seu percurso de vida e a sua incessante tentativa de transformar o mundo.
Já na fase final sua vida escreveu: "Admito que a revolução seja uma utopia, mas no meu dia a dia procuro comportar-me como se ela fosse tangível. Continuo a pensar que devemos lutar onde exista opressão, seja a que nível for".
A proximidade de eleições autárquicas e do necessário período de esclarecimento cívico e de reflexão, leva-nos a recorrer à força e à intemporalidade das palavras de Zeca Afonso.
É preciso, imperioso e urgente mobilizar consciências e apontar-lhes o caminho:    

Amigo
Maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também (2)

Há um caminho a percorrer, uma sementeira a efectuar:

Falta ao caminheiro
Dentro da algibeira
Um grão de semente
De outra sementeira
(3)

Queremos cidades mais livres, mais solidárias e mais fraternas:

Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo, mas irmão
Capital da alegria
(4)

Não se fiem naqueles que nos têm enganado:

Quem diz que é pela rainha
Nem precisa de mais nada
Embora seja ladrão
Pode roubar à vontade
Todos lhe apertam a mão
É homem de sociedade

Acima da pobre gente
Subiu quem tem bons padrinhos
De colarinhos gomados
Perfumando os ministérios
É dono dos homens sérios
Ninguém lhe vai aos costados
(5)

Essa gente tem um apetite insaciável:

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada
  (6)

Temos que nos mobilizar e ser determinados:
Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada há covas feitas no chão
E em todas florirão rosas duma nação
(7)

O nosso esforço terá os seus frutos:

Em novas coutadas
Junto de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera (8)

Havemos de vencer:

O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade
(9)


(1) - A 2 de Agosto de 1929 nasce na Freguesia de Glória, em Aveiro, José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, mais conhecido por Zeca Afonso.
(2) - Excerto de “Traz outro amigo também”
(3) - Excerto de “Por Aquele Caminho”
(4) - Excerto de “Utopia”
(5) - Excerto de “Quem diz que é pela rainha”
(6) - Excerto de “Vampiros”
(7) - Excerto de “A Morte saiu à rua”
(8) - Excerto de “Que amor não me engana”
(9) - Excerto de “Grândola Vila Morena”