sábado, 10 de agosto de 2013

O palrão

Pisador. Peça de arte pastoril
da autoria de Joaquim Espada,
"O palrão", Redondo.

Foi Luís Vaz que disse:

Todo o Mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Daí que o meu pensamento gere arquétipos, que me lançam o repto de os localizar e me conduzem ao supremo êxtase quando concretizo o desejado encontro.
A arte pastoril é um desses arquétipos. Sexta-feira à noite fui ocasionalmente a uma feira de artesanato no Redondo. Aí conheci Joaquim Espada, vulgo “O palrão”, um antigo assalariado rural com as mãos calejadas e fadadas para talhar e bordar madeira.
Oitenta e sete anos de vida, a maioria dos quais a comer o pão que o diabo amassou. Conversador nato, espírito brilhante e inteligência viva, neutraliza completamente e reduz à impotência verbal, intelectuais citadinos à procura de aventuras epistemológicas. Ficam mansos, fascinados pela fluência do verbo cristalino que espontaneamente lhe brota da "caxa do pêto". Todavia eu sou rodado nestas andanças e mentalmente sou um campaniço. Daí que em simultaneidade com o acto iniciático de receber das suas mãos uma peça gerada pela beleza complexa que lhe povoa a alma, eu tenha exclamado:
- Obrigado, companheiro. O nosso caminho passa por aqui.