quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Nova marca de olaria de Estremoz

 Fotografia de João Pimentão.

A peça que aqui vos mostro é uma peça de olaria muito bela e provavelmente rara, já que não conheço outra com estas características. Trata-se de um pucarinho, decerto para as crianças brincarem, com as seguintes características:
ALTURA: 6,2 cm;
DIÂMETRO EXTERIOR DA BASE: 2, 4 cm;
DIÂMETRO DO BOJO: 5 cm;
DIÂMETRO EXTERIOR DA BOCA: 4,2 cm;
PESO: 68 g;
Apresenta um notável contraste entre o fundo não polido e a decoração polida, conseguido graças à acção miraculosa da patine do tempo.
Para além do seu perfil gracioso, apresenta de um dos lados, na parte posterior do bojo, a marca E.I.A.A.G/EXTREMOZ, inserida numa coroa circular com diâmetro exterior de 1,8 cm e diâmetro interior de 1,3 cm.

Fotografia de João Pimentão.


Trata-se de uma peça fabricada na Escola Industrial António Augusto Gonçalves, criada em 4 de Junho de 1930 e sediada na Rua da Pena, em Estremoz. Para aí entrou como Mestre Provisório de Olaria, em 3 de Dezembro de 1930, Mariano Augusto da Conceição (1903-1959), o “Alfacinha”, que se tornaria Mestre Efectivo da mesma Escola, em 23 de Março de 1936, já sob a direcção do escultor José Maria de Sá Lemos (1892-1971), que viria a ser responsável pela revitalização da manufactura dos bonecos de Estremoz, para o que contou com a “memória” de Ti’Ana das Peles e a magia das mãos e a vontade férrea de Mestre Mariano da Conceição.
Tenho na minha posse uma carta de Sá Lemos, datada de 6 de Maio de 1935, em papel timbrado da Escola Industrial António Augusto Gonçalves, na qual este se dirige ao coronel João de Avelar Pinto Tavares nos seguintes termos:
“Necessitando tentar a confecção de alguns dos característicos e tão interessantes bonecos de Estremoz, recorro a aproveitar a gentilíssima oferta de Vª Exª de cedência por empréstimo de dias, de um ou dois modelos.
Agradecendo desde já a atenção de Vª Exª, confesso-me com subida consideração e respeito.”
Esta carta permite datar em Maio de 1935, os esforços de Sá Lemos, visando recolher exemplares antigos dos bonecos de Estremoz. É plausível que o trabalho de Sá Lemos com ti’ Ana das Peles e Mestre Mariano da Conceição seja posterior a esta data.
A referida carta encontrava-se dobrada dentro dum peça de barro vermelho de Estremoz, que conjuntamente com outras da mesma espécie e brinquedos de louça pintados do séc. XVIII, integrava um lote que adquiri a uma herdeira do coronel.
É plausível que o pucarinho, com esta marca até aqui desconhecida, tivesse sido oferecido por Sá Lemos ao coronel, como expressão de gratidão pela cedência de bonecos antigos para servirem de modelo. De resto e como é sabido, a Escola vendia exemplares de bonecos fabricados por Mestre Mariano e pelos seus alunos, assim como peças de olaria, os quais funcionariam como fonte de receita para a Escola.