sábado, 15 de dezembro de 2012

Os xexés


Xexé (1921).
Ilustração de Leal da Câmara (1876-1948)
Capa da revista “ILUSTRAÇÃO PORTUGUESA”, nº 781 de 5 de Fevereiro de 1921.

Uma figura característica do Carnaval doutros tempos, pelo menos até ao primeiro quartel do século XX, era o “xexé”, caricatura do Portugal miguelista, caído em desgraça. O personagem foi retratado entre outros por José Malhoa (1895), Rafael Bordalo Pinheiro (1903), Augusto Bobone (antes de 1910) e Leal da Câmara (1921). O xéxé trajava uma casaca de seda colorida, calção e meia branca, sapatos de fivela, cabeleira de estopa, punhos de renda e um enorme chapéu bicorne, à moda de finais do séc. XVIII - séc XIX. Usava muitas vezes lunetas, andava armado com um grande facalhão de madeira e um cacete adornado com um chavelho. De acordo com o “Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa” [2], “Xexé” é um substantivo masculino que designa “Personagem carnavalesco típico, caracterizado como um velho ridículo e senil”. Para este dicionário, o termo terá sido utilizado pela primeira vez no “Dicionário Contemporâneo de Língua Portuguesa”, de Caldas Aulete. Como refere a “Gíria Portugueza” [1], “Chéché” é um termo popular que designa “Mascarado repelente e ridículo, em Lisboa, que importuna os transeuntes pedindo “dez reisinhos p’r’o velho””. De acordo com o “Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa” [2], “Xexé” é também um substantivo e adjectivo com os dois géneros, aplicável a “quem está desprovido de lucidez em decorrência de idade avançada”, sendo sinónimo de ”senil”, “caduco” e “gagá”. É ainda aplicável “àqueles que possuem comportamento ridículo ou estúpido”. Julgo que é neste último sentido, que o termo seja aplicável aos responsáveis políticos ao mais alto grau que:
- Se queixam que as suas reformas chorudas não chegam para as despesas pessoais;
- Chamam “piegas” àqueles que civicamente protestam pela dureza das condições de vida que lhes estão a ser impostas;
- Mandam os licenciados, mestres e doutores emigrarem, por cá não arranjarem emprego; - Mandam os militares sair das fileiras, quando estes protestam civicamente;
- Reformados da política nos sugam dinheiro diariamente com as suas benesses vitalícias. Perante um panorama sombrio deste quilate, apenas uma atitude é possível. O direito à indignação, acompanhado da legítima conclusão de que somos governados por “xéxés”. É caso para bradar bem alto:
- ACABEMOS COM ESTE CARNAVAL!


BIBLIOGRAFIA
[1] - BESSA, Alberto. A Gíria Portugueza. Gomes de Carvalho - Editor. Lisboa, 1901.
[2] – HOUAISS, António et al. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Círculo de Leitores. Lisboa, 2003.

Xexé (1895).
José Malhoa (1855-1933).
Óleo sobre tela (27,4 x 47,4 cm).
Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, Lisboa.

Xexé (1898), desfilando na Praça D. Pedro IV, em Lisboa.
Fotógrafo não identificado.
Negativo de gelatina e prata em vidro (9 x 12 cm).
Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa.

Xexé (1903).
Ilustração de Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905).
Capa da revista “A PARÓDIA”, nº5 de 18 de Fevereiro de 1903.

Xexé (anterior a 1910), desfilando na Avenida da Liberdade, em Lisboa.
Augusto Bobone (1852-1910).
Negativo de gelatina e prata em vidro (9 x 12 cm).
Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa.

21 comentários:

  1. E nós vivemos num país de xéxés... Até quando????

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  2. Creio que deva ser percorrido um caminho de profundo esclarecimento cívico, até ao próximo escrutínio eleitoral.

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  3. BRAVO!
    Dr. Hernâni Matos,
    É realmente urgente acabar com este Carnaval!
    - Pôr fim aos privilégios da classe política que se tem revezado no incessante regabofe de usar o Estado em proveito próprio, privando-o de mais-valias que, com outros recursos do mesmo Estado, são canalizados para a banca e algum empresariado privado e que lhes garante empregos milionários;
    - Privar a classe política que emergiu após o 25 de Abril de capacidade cívica - activa e passiva - cuja restituição só poderá ser obtida mediante recurso aos Tribunais, à semelhança do que foi feito relativamente aos indivíduos ligados ao regime anterior a 1974;
    - Confiscar os bens e julgar todos os que tiveram intervenção ou beneficiaram dos conhecidos crimes contra o erário público.
    Deste modo se pagará a dívida para que empurraram o Estado e se livrará o povo - que nada teve a ver com o regabofe - da miséria que por aí grassa galopantemente.
    É a Revolução de que precisamos!
    Bem haja!

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    1. Jorge:
      Obrigado pelo seu comentário.
      Façamos então a revolução!

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  4. Bravo, amigo Hernâni ! É sempre um prazer lê-lo, mas hoje, além da parte pedagógica quanto aos xéxés antigos, tenho que o cumprimentar pela pedagogia cívica que usou para caracterizar os xéxés modernos... Parabéns e Obrigada
    mfernanda

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    1. Fernanda:
      Obrigado pelo seu comentário.
      É que estão mesmo xéxés... Pensam que é o Povo que está errado e como não conseguem mudar o Povo, querem acabar com ele...

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    2. Subscrevo integralmente.
      F.Oliveira

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    3. Obrigado, amigo.
      Os meus cumprimentos.

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  5. Lembro-me bem de a minha avó me falar dos "Xéxés", em Lisboa. Agora andam por todo o lado e em qualquer altura do ano ...

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    1. Teresinha:
      Obrigado pelo seu comentário.
      Tem razão e não há maneira de nos vermos livres deles...

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    1. Obrigado, sou eu.
      Volte sempre a este blogue. Será bem-vinda.
      Os meus cumprimentos.

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  7. Um grande obrigada pelo texto que escreveu, como todos os outros....
    Parabéns!

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    1. Mitita:
      Obrigado pelo seu comentário.
      Congratula-me que tenha gostado do texto.
      Os meus cumprimentos.

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  8. Excelente Caro Hernani Matos
    Vou surripiar

    Cumprimentos
    Rodrigo Henriques

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    1. Rodrigo:
      Obrigado pelo seu comentário.
      Cumprimentos para si também.

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  9. O nosso País precisa de comentadores (não de comendadores) que critiquem os políticos, que têm a governação nas mãos, com imparcialidade e sem sectarismo de ESQUERDA ou de DIREITA, tal como V.Exa. defende com muita mestria, já que se torna muito fácil aquilatar o perfil do comentador quando pugna por mais Estado ou menos Estado, respectivamente quando prefere que tudo seja do ESTADO (empresas e trabalhadores inclusive), ou tudo seja dos PRIVADOS (empresas e trabalhadores) nada sendo do ESTADO, limitando-se Este apenas a regular democraticamente a sociedade civil e colectiva e a receber os impostos dos contribuintes singulares e colectivos.

    PARABÉNS.

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    1. Obrigado pelo seu comentário.
      Espero continuar a merecer o interesse da sua leitura.
      Os meus cumprimentos.

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  10. Caro Hernâni : Como sempre um texto rigoroso na elucidação da figura carnavalesca e, fundamentalmente pela síntese !Como acabar com este carnaval! Que a sua voz nunca se cale!
    Conceição

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    1. Conceição:
      Obrigado pelo seu comentário.
      assim seja.
      Os meus cumprimentos.

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