quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A criação no Adagiário Português

Ilustração de Alfredo Roque Gameiro (1864 - 1935)
para “As Pupilas do Senhor Reitor”,
 de Júlio Diniz (1839-1871).

O termo “criação”, designa o conjunto de todas as aves domésticas, criadas com a finalidade de serem consumidas na alimentação. Como aves, são caracterizadas por terem um bico, penas, asas e porem ovos, além de poderem voar e terem um habitat próprio, assim como um tipo próprio de ninho.
A pesquisa efectuada no adagiário português e o subsequente estudo, levou-nos a sistematizar os adágios em grupos e sub-grupos, de acordo com o seguinte esquema:

1. ASAS
2. BICO
3. CANTO
5. PENAS
6. VOO
7. HABITAT
8. NINHOS
9. AVES DE CRIAÇÃO
9.1. Pintos
9.2. Frangos
9.3. Galinhas
9.4. Galos
9.5. Patos
9.6. Gansos
9.7. Perus
10. HÁBITOS ALIMENTARES
11. OUTROS HÁBITOS
12. ECONOMIA DOMÉSTICA
13. CULINÁRIA

Passemos cada um deles, em revista:

1. ASAS
Boa asa voa com todo o vento.
2. BICO
A galinha põe pelo bico.
As galinhas põem pelo bico e às mulheres, o leite vai-se-lhes pela boca.
Ave de bico, nunca fez o dono rico.
Porcos e gado de bico não fazem o dono rico.
3. CANTO
A galinha que cacareja, ou tem ovo ou chama galo.
A galinha que canta é a dona dos ovos.
A teia no tear, o galo a cantar, a chaminé a fumegar, deixa o cão ladrar.
Ainda que o galo não cante, a manhã rompe sempre.
Aonde canta galo não canta galinha.
Aonde está o galo não canta a galinha.
As mulheres cantam de galo, mas os homens estão no poleiro.
Ave que canta demais não sabe fazer o ninho.
Cacarejar não é pôr ovo.
Cada galo canta no seu poleiro e o bom no seu poleiro e no alheio.
Como canta o galo velho, assim canta o novo.
Dois galos não cantam num só terreiro.
Franga que canta quer galo.
Galinha de campo não quer capoeira.
Galinha que canta com o galo, corta-se-lhe o gargalo.
Galinha que canta como galo, faca na garganta.
Galinha que canta de galo, põe o dono a cavalo.
Galinha que canta de galo, quer ver o ano no adro.
Galinha que canta é dona dos ovos.
Galinha que canta quer galo.
Galinha que canta, quer pôr.
Galinha que como galo canta, anuncia a morte do dono.
Galo antes de cantar bate as asas três vezes.
Galo cantando fora de horas, temos novidade amanhã.
Galo de esporão não cacareja na pista.
Galo fecha os olhos quando canta, porque sabe a música de cor.
Galo que a desoras canta: faca na garanta.
Galo que canta à meia-noite, morte certa.
Galo que canta no poleiro, ou chuva ou nevoeiro.
Galo que fora de horas canta, faca na garganta.
Galo, onde canta, come.
Mulher que assobia e galinha que canta, faca na garganta.
Não é pelo galo cantar que se há-de madrugar.
Outro galo me cantará.
Ouvir cantar o galo e não saber onde é o poleiro.
Ouvir cantar o galo e não saber onde.
Pelo canto conhece-se a ave.
Quando o galo canta, a galinha está por perto.
Quando o galo canta, já é dia.
Quando uma galinha cacareja, a outra copeja.
4.OVOS
É rainha a galinha que põe os ovos na vindima.
Galinha de Celorico pranta os ovos pelo bico.
Galinha de monturo não quer ovo.
Galinha preta põe ovo branco.
Galinha que não canta, papa o ovo.
Galinha tem de muita cor, mas todo o ovo é branco.
Galinha tua, ovo meu.
Galinhas de São João (24 de Junho), pelo Natal poedeiras são.
Mais vale um ovo hoje, que uma galinha amanhã.
Não ponhas todos os ovos debaixo da mesma galinha.
O ovo de hoje vale mais do que a galinha de amanhã.
5. PENAS
Aves da mesma pena andam juntas.
6. VOO
Dos homens é obrar virtude e das aves, avoar.
O homem nasceu para trabalhar como a ave para voar.
7. HABITAT
Galinha de aldeia não quer capoeira.
Galinha de caminho não quer cerca.
Galinha de eira, quer capoeira.
Galinha do campo não quer capoeira.
Galinha do mato não quer capoeira.
8. NINHOS
Aquela ave é má que em seu ninho suja.
Ave que canta demais não sabe fazer o ninho.
Ave só, não faz ninho.
Bem estavas em teu ninho, passarinho pinto.
É má a ave que seu ninho suja.
9. AVES DE CRIAÇÃO
9.1. Pintos
À porta do pinto não se junta miolo.
Gavião pega pinto, mas respeita galo.
Moléstia de pinto é gozo.
Não contes os pintos senão depois de nascidos.
Não é por escoucear que se conhece o pinto.
Pé de galinha não mata pinto.
Pintainho de Janeiro não vai com a mãe ao poleiro.
Pintainhos jeitosos darão galos formosos.
Pinto de Janeiro vai com sua mãe ao poleiro.
Pinto de Janeiro vai pôr atrás do rolheiro.
Pinto de Janeiro vai pôr com a sua mãe ao colmeiro.
9.2. Frangos
Franga aninhou-se, quer pôr.
O frango de hoje é preferível ao galo de amanhã.
Onde vai galo de fama, não têm as frangas que fazer.
9.3. Galinhas
A galinha da vizinha é mais gorda do que a minha.
A galinha de Janeiro vai pôr com a mãe ao colmeio.
A galinha do passado dá conta do recado.
A galinha é que cobre os pintos.
A galinha, aparta-lhe o ninho e pôr-te-á ovo.
A mulher e a galinha, com o sol recolhida.
À mulher e à galinha, torcer-lhe o pescoço para a fazer boa.
Afaga a tua galinha, para te parir galinhos.
Água benta e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém.
Aonde a galinha tem os ovos, tem os olhos.
Boa é a galinha que outrem cria.
Da galinha a preta, da pata a parda, da mulher a sarda.
Da minha galinha, a postura é minha.
De galinhas e más fadas se enchem as casas.
De galinhas e más fadas, não se enchem as casas.
É esperta a galinha, mas deixa-se apanhar.
Em casa como uma galinha, na rua como uma rainha.
Em terra de gavião, galinha não vinga pinto.
Folgar galinhas, que morto é o galo.
Folgar galinhas, que o galo é na vindima.
Fraca é a galinha que não esgravata para ela.
Galinha com pintos e burra com burrinho, é mal de pôr a caminho.
Galinha estalou, meu servo fugiu.
Galinha gorda por pouco dinheiro, não há no poleiro.
Galinha gorda por pouco dinheiro? Desconfia.
Galinha grande a João Fernandes? Boa vai ela.
Galinha não põe de galo, senão de papo.
Galinha pedrês não a comas, não a vendas, nem a dês.
Galinha pedrês vale por três.
Galinha pedrês, não a comas nem a dês.
Galinha pedrês, não a comas, não a vendas, não a dês.
Galinha pedrês, vale por três.
Galinha pinta, ovos trinta.
Mais vale pão hoje, que galinha amanhã.
Mais vale pedaço de pão com amor, que galinha com dor.
Matar a galinha dos ovos de ouro
Mulher e galinha, da pequenina.
Não cries galinha onde a raposa mora, nem creias em mulher que chora.
Não há coisa mais daninha que é a cabra e a galinha.
Não há galinha gorda por pouco dinheiro.
Negra a galinha e negro o carneiro.
Nem sempre rainha, nem sempre galinha.
Nem só galinha, nem só rainha.
Nunca mulher perdida amou a homem honrado, nem galinha gorda a capão.
Onde a galinha tem os ovos lá se lhe vão os olhos.
Para doze galinhas basta um galo.
Pé de galinha não mata pinto.
Quando as galinhas tiverem dentes.
Quem de si faz lixo, pisam-no as galinhas.
Quem tem galinhas, que as guarde que os meus galos ponho eu à solta.
Rainha é a galinha que põe os ovos na vindima.
Rato, gato, galinha e primo, são bichos chamados para sujarem a casa.
Trocar galinhas de capoeira pelos ovos do gavião.
Vem o diabo de fora e enxota as galinhas de casa.
Muita galinha e poucos ovos.
9.4. Galos
Ao moço e ao galo, um ano.
Aos afortunados até os galos lhe põem ovos.
Galo bom, só luta borrifado.
Galo branco não dá manhã certa.
Galo de sangue no olho e na crista, não dá com o bico no chão.
Galo furtado, orelhas de fora.
Galo loiro dá agoiro.
Galo pedrês, não o vendas nem o dês.
Galo, quer-se novo.
Gavião pega pinto, mas respeita galo.
Moço e galo, um só ano.
O bom galo não engorda.
O galo canta só onde tem morada.
O galo não canta adonde quer.
O galo nica, a galinha recolhe.
O galo, no seu poleiro, é rei.
O moço e o galo, um só ano.
Onde estão galos de fama, não têm pintos que fazer.
Onde o galo canta, aí janta.
Onde vai galo de fama, não têm as frangas que fazer.
Para doze galinhas basta um galo.
Sem galos novos não nascem pintos.
Tarde piaste para galo.
Todo o galo tem o seu poleiro.
Diz-se capão mas arrasta o saco.
Galo capão é que sai cantando de galinha.
Nunca mulher perdida amou a homem honrado, nem galinha gorda a capão.
A quem te dá o capão, dá-lhe a perna.
Sem galos novos não nascem pintos.
9.5. Patos
A adem, a mulher e a cabra, é má coisa, sendo magra.
Da galinha a preta, da pata a parda, da mulher a sarda.
Patas ao mar, velhas a assoalhar; patas à beira, velhas à fogueira.
Carreira de pato é na água.
De pato a ganso é pequeno avanço.
Fugiu da água o pato, tempestade sente.
Ir-se-ão os hóspedes e comeremos o pato.
Leitão de um mês, pato de três.
O pato, pela mão do escasso.
Patos para a Beira, velhas à fogueira; patos para o mar, velhas a assoalhar.
Se és pato procura a água, se és sapo procura o charco.
Três mulheres e um pato fazem uma feira.
Leitão de um mês e marreco de três.
9.6. Gansos
De pato a ganso é pequeno avanço.
Quando o ganso mergulha, trás o trigo para a tulha.
9.7. Perus
Peru calado ganha um cruzado, peru falando vai apanhando.
Peru quando faz roda quer minhoca.
Quem morre de véspera é peru de Natal.
Só peru morre na véspera.
10. HÁBITOS ALIMENTARES
Como a galinha com a sua pevide.
A mulher e a galinha são bichos interesseiros: a galinha pelo milho e a mulher pelo dinheiro.
Ave de casa, mais come do que vale.
Bago a bago enche a galinha o papo.
Galinha cega, de vez em quando, apanha um grão.
Galinha de casa mais come do que vale.
Galinha em casa rica, sempre pica.
Galinha que em casa fica se não come, depenica.
Galinha que em casa fica, sempre pica.
Graeiro a graeiro, enche a galinha o papeiro.
Grão a grão, enche a galinha o papo.
Jejua pato que já foste farto.
Mulher e galinha são bichos interesseiros: galinha por milho, mulher por dinheiro.
Padres e patos, nunca estão satisfeitos.
Vinte galinhas e um galo, comem tanto como um cavalo.
Viva a galinha, viva com sua pevide.
11. OUTROS HÁBITOS
Galinha cedo no poleiro, é sinal de invernia.
Galinha de Janeiro, enche o poleiro.
Galinha do pé queimado procura agasalho cedo.
Galinha e mulher, não se deixem passear.
Galinha não nasce que não esgravate.
Galinha quando se mete a galo, faz do dono cavalo.
Galinha que nasce em Janeiro, põe no colmeiro.
Galinha rica, tudo que vê cobiça.
Galinha vesga, cedo procura o poleiro.
Galo cantando à boca da noite é sinal de que estão furtando moça.
Luar de Janeiro faz sair a galinha do poleiro, lá vem Fevereiro que leva a galinha e o carneiro.
Má é a galinha que outra não cria.
Muito pode o galo no seu poleiro.
Na casa da galinha o galo entra por trás.
12. ECONOMIA DOMÉSTICA
Acabou a galinha, acabou o resguardo.
Frango em Janeiro, vale um carneiro.
Frio, focinho e bico, não fazem ninguém rico.
Gado de bico nunca fez ninguém rico.
Linho, focinho e bico, nunca fizeram homem rico.
Quanto mais me dá a minha galinha amarela, mais eu quero por ela.
Quem não tem que fazer, compra galinhas e torna-as a vender.
Se estás sem tostão, atira-te à criação.
Viúva e capão, quanto comem assim dão.
13. CULINÁRIA
À falta de capão, cebola e pão.
A galinha velha faz bom caldo.
A gorda galinha faz gorda a cozinha.
Aldeã é a galinha e come-a o de Coimbra.
Caldo de galinha é canja.
Camponesa é a galinha e vai à mesa da rainha.
Carne de pena tira do rosto a ruga.
Capão de oito meses, para a mesa de reis.
Da garganta para baixo, tanto sabe a galinha como a sardinha.
Do capão a perna, da galinha a titela.
Franga lardeada com toucinho - faz bom focinho.
Frango na panela de pobre é desgraça certa: doença do pobre, “bouba” do franguinho ou raiva do vizinho.
Galinha e "pirum" tudo é um.
Galinha e costela, unha com ela.
Galinha e peru, tudo é um com arroz.
Galinha e peru, tudo é um.
Galinha gorda à cozinha.
Galinha gorda a maltês, ou é choca, ou morta de um mês.
Galinha gorda a maltês, ou foi roubada ou está choca há um mês.
Galinha gorda não precisa de tempero.
Galinha velha não faz bom caldo.
Galinha velha, faz boa canja.
Galinha velha, faz boa cozinha.
Galinha velha, faz bom caldo.
Galo bom nunca foi gordo.
Gorda galinha faz boa cozinha.
Mulher que pariu, quer galinha.
Na falta de capão, cebola e pão.
O leitão e o pato, do cutelo ao espeto.
Prudência e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém.
Quando a galinha dorme, a raposa vela.
Quando pobre come frango, um dos dois está doente.
Quem come a galinha magra, paga uma gorda.
Quem galinha de mau come magra, gorda a paga.
Quem vende sardinha, come galinha.
Sardinha e galinha, só com a mãozinha.
Se o vilão soubesse o sabor da galinha em Janeiro, não deixaria nenhuma no poleiro.
Todos os dias galinha, enfastia a cozinha.
Vale mais pão hoje que galinha amanhã.
Velha galinha faz gorda cozinha.