terça-feira, 28 de junho de 2011

Ganchos de meia e meias de cinco agulhas

Ganchos de meia (Séc. XX). Arte pastoril, em madeira. Colecção do autor. Da esquerda para a direita: Bota finamente lavrada, encimada por uma cruz (3,7 cm);  Bota finamente lavrada, encimada por uma lira (3,7 cm);  Tarro articulado numa folha estilizada de sobreiro (8,8 cm).


                                   À minha filha Catarina, alentejana como eu
                                              e que decerto, como mulher,
                                              saberá honrar a ancestral tradição das meias de cinco agulhas.
 
Uma das características mais importantes das peças de arte pastoril é a de corresponderem a uma necessidade sentida por alguém, o que leva essa peça a desempenhar uma função. É o caso dos chamados “ganchos de meia”, que as mulheres das nossas famílias usavam quando faziam croché ou tricotavam peças de vestuário, de lã ou algodão, como era o caso das chamadas “meias de cinco agulhas”.
Independentemente da sua forma geométrica e decoração, estes ganchos de meia, confeccionados em madeira ou osso, eram pregados na blusa ou no vestido da mulher, na parte superior do peito, geralmente do lado esquerdo. Aí eram fixados através dum alfinete-de-ama ou cozidos com linha. Todos estes ganchos têm um sulco ou um buraco, por onde passava o fio, que do novelo era redireccionado para as agulhas.
Com cinco agulhas se fazia o tricô circular usado na manufactura de meias. Estas, eram lisas ou lavradas com motivos diversos, monocromáticas ou multicolores, decoradas com barras ou motivos florais ou geométricos.
Sempre houve quem manuseasse com mestria as cinco agulhas, com a mesma rapidez e precisão que as mãos dum virtuoso, percorrem o teclado dum piano. Mãos que falavam e davam resposta às necessidades caseiras, mas que também faziam para vender para fora, pois era necessário engrossar o magro orçamento familiar.
Havia quem começasse as meias de cima para baixo, em direcção à calcanheira e à biqueira, mas também havia quem as começasse exactamente em sentido contrário.
Quando as meias se gastavam pelo uso, geralmente na calcanheira ou na biqueira, eram reparadas, recorrendo novamente às cinco agulhas. A vida não dava para extravagâncias e poucos se podiam dar ao luxo de desperdícios inúteis. Apesar disso, o aparecimento no comércio de meias baratas, de fabrico industrial e a pressão da vida moderna, conduziram ao decaimento em desuso da manufactura artesanal das meias de cinco agulhas.
Na região onde me insiro, Estremoz, a manufactura das meias de cinco agulhas era uma prática corrente nas suas treze freguesias. Bem próximo de nós, eram famosas as meias manufacturadas pelas mulheres da Aldeia da Serra.
Actualmente, a reacção ao consumo desenfreado suscitado pela sociedade capitalista, tem levado mulheres, especialmente jovens, a um “regresso às origens”, manufacturando meias para si e para as suas crianças. São estilos de vida alternativos e salutares, que se saúdam. É o retomar de práticas que retiram das vitrinas, jóias da arte pastoril, como os ganchos de meia que estiveram na génese do presente texto.


Ganchos de meia (Séc. XX). Arte pastoril, em madeira. Colecção do Museu Nacional de Etnologia (Lisboa). Da esquerda para a direita: Coração, bordado com motivos geométricos (4,8 cm); Botim feminino, bordado (3,7 cm); Haste com duas argolas, bordada com motivos geométricos (7,5 cm).

Meias de cinco agulhas, em fio de algodão (Anos 50 do séc. XX). Dimensões – Cano: 34 cm; Pé: 21 cm. Manufacturadas pela minha mãe, integravam o meu traje de campino, com o qual me mascarei na minha infância, em dois Carnavais sucessivos. Colecção do autor.

Ceifeira alentejana. Aguarela de Alfredo de Morais (1872-1971). O traje representado inclui meias de cinco agulhas, às listas vermelhas e amarelas.