quarta-feira, 29 de junho de 2011

O pão na Mitologia Popular

Padeira na Feira de Santo Amaro (1938).
Alberto de Souza (1880-1961).
Aguarela sobre papel (26 cm x 37 cm).
Museu de Aveiro.

Esta colectânea de superstições sobre o pão, que culmina a nossa pesquisa em quatro fontes bibliográficas distintas, cujos autores as recolheram da tradição oral, mostra bem a riqueza da Mitologia Popular Portuguesa:
- Não se deve cozer pão ao domingo, senão aparecem manchas de sangue no forno. [3]
- Ao enfornar-se não se deve contar o pão, pois de contrário, o Diabo rouba um. [3].
- Quando a pá do forno se parte, não deve ser consertada, mas sim enterrada ou queimada e substituída por uma nova. Consertando a pá, morre o dono da casa. [3].
- Não pôr o pão na mesa, é mau sinal que se deve evitar. [1]
- É muito mau, pôr o pão na mesa de pernas para o ar, porque chora Nosso Senhor. [2]
- Comer pão quente com manteiga, faz alporcas. [4] [2]
- Para casarem cedo, as raparigas e os rapazes solteiros devem comer o canto do pão. [2]
- Na Quinta-Feira de Ascensão deve-se “ir à espiga”, apanhando uma espiga de trigo, um ramo florido de oliveira, uma papoila e malmequeres brancos e amarelos, fazendo com eles um ramalhete, para que durante todo o ano, não falte em casa, nem pão nem dinheiro. [2]
- No dia de Reis devem-se guardar-se nove bagos de romã; três devem ser deitados no lume, para estar aceso todo o ano; três devem ser deitados no saco do pão, para o ter todo o ano; e três devem ser deitados na bolsa, para ter dinheiro o ano inteiro. [2]
- É pecado deitar pão no lume. [2]
- Nunca se deve cheirar o pão, porque ao morrermos, a terra não come o corpo, mas apenas a ponta do nariz. [2]
- Antes de uma criança atingir os seis meses, não deve ser levar à rua à noite, sem lhe pôr na mão uma côdea de pão de centeio, por causa dos ares maus. [2]
- Não se deve comer pão ou qualquer outra coisa que se encontre perdida, porque foram as bruxas que a deixaram. [2]
- A queda de alguma coisa da boca, é prenúncio de que alguém nos quer falar: um homem se for pão, uma mulher se for carne. [2]
- É pecado deitar o pão ao chão ou pisá-lo. [1]
- Após ter caído no chão e após ser apanhado, o pão deve ser benzido, porque é bento. [4]
- Se uma pessoa que nos queira mal, der um pedaço de pão dentado a um sapo, mirra o sapo e mirramos nós. [2]
- Não se deve deixar pão cortado com os dentes, pois quem nos queira fazer mal, pode apanhar o pão, crivá-lo de alfinetes e dá-lo a comer a um sapo. Este fica padecendo e enquanto não morre, padece a pessoa também, morrendo por fim ambos. [2]
- Dizia-se às crianças que não comer o pão todo, faz chorar a Virgem Nossa-Senhora. [1]
- Ao levantar-se a mesa da refeição, não se deve deixar pão mordido, pois os bichos venenosos podem sugar a saliva deixada no pão, o que faz mirrar a pessoa que o mordeu. [4]
- Para as pessoas do campo, o aparecimento da popa, prognosticava abundância e recomendava economia. Afirmavam que ela quando canta diz: Poupa o pão! Poupa o pão! Quando porém canta muito, isso significa que o ano é pouco abundante. [2]
- Quando um cão uiva, devemos descalçar os sapatos, virá-los de sola para cima e pormos os pés em cima deles, dizendo três vezes: Maria dá pão ao cão. Imediatamente o cão se calará, cessando o agoiro. [2]
- Uma mulher sem leite para amamentar os filhos, se o quiser, dá um pedaço de pão a comer a uma vaca que o tenha, e come o resto do pão que a vaca deixou. O leite da vaca passa então para a mulher e seca no animal. Se pelo contrário uma mulher que tem leite, comer um pedaço de pão e uma vaca lhe apanhar parte dele, o leite da mulher passa para o animal. [2]
- Os pobres, ao receberem esmolas de pão ou de dinheiro, beijavam-na antes de a agradecer. [4]
- Com os bagos de trigo faziam um oráculo do ano. Para isso pegavam em doze grãos, atribuindo a cada um o nome de um mês e colocavam-nos, um a um, na pá do forno, bastante quente. Os que saltavam para fora, indicavam os meses felizes. [1]

BIBLIOGRAFIA
[1] - CHAVES, Luís. Páginas Folclóricas I – A Canção do Trabalho. Separata do vol. XXVI da “Revistas Lusitana”. Imprensa Portuguesa. Porto, 1927.
[2] - CONSIGLIERI PEDROSO, “Supertições Populares”, O Positivismo: revista de Filosofia, Vol. III. Porto, 1881.
[3] – LEITE DE VASCONCELLOS, J. Etnografia Portuguesa, Vol. VI. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Lisboa, 1975.
[4] - THOMAZ PIRES, A. Tradições Populares Transtaganas. Tipographia Moderna. Elvas, 1927.