sábado, 7 de maio de 2011

O sentido da visão: Cancioneiro

ROSA DE GUADALUPE (1955) – Litografia de Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957).

Uma das formas possíveis de percepção do mundo é a visão, cujos órgãos sensoriais são os olhos. Façamos uma abordagem deste sentido, recorrendo ao cancioneiro popular alentejano:

A função dos olhos é ver:

"Os olhos que vivos são,
O seu alimento é ver.
Dos olhos nasce a feição,
Da feição, o bem querer." [1]

O olhar diz muito:

"O nosso olhar é espelho
Do que sente o coração.
A boca pode mentir,
O nosso olhar é que não." [1]

Os olhos atraem-nos e prendem-nos:

"Os teus olhos me prenderam
Um dia ao sair da missa.
Que prisão tão rigorosa
Sem cadeia nem justiça." [1]

O piscar de olho é declaração de amor:

"Este domingo que vem
Já não é como o passado,
Que me piscaste o olho
À cancellinha do adro." [2]

O olhar reflecte o amor:

"Ó Manel, tu vais á monda?
Eu cá também vou mondar;
diz-me lá: gostas de mim?
Eu bem vejo o teu olhar"[3]

Os olhos são avaliados pela cor:

"Os olhos azuis são falsos,
Os pretos são lisongeiros,
Os olhos acastanhados
São leais e verdadeiros." [1]

Os olhos podem chorar de tristeza:

"Os meus olhos com chorar
fizeram covas no chão,
coisa que os teus não fizeram,
não fizeram, nem farão." [3]

Nos olhos se reflecte o sono:

"O sonno me deu nos olhos,
Batucou, entrou p’ra dentro
Elle me disse baixinho.
Vamos á cama, que é tempo." [2]

A certa altura os olhos reflectem falta de vista:

"Os olhos da minha cara
Como eram já não são.
Fazem a mesma diferença
Que o Inverno faz do Verão." [1]

Os olhos podem ser alvo de brejeirice:

"Já não sei que faço aos olhos,
Que geitinho lhes sei dár,
Que as mulheres m’os cobiçam,
Homens querem-m’os tirar." [2]

Os olhos podem igualmente ser motivo de sarcasmo:

"Os olhos da minha sogra,
São duas sardinhas fritas.
Quando olho para ela.
‘Té me revolvem nas tripas." [1]

BIBLIOGRAFIA
[1] – DELGADO, Manuel Joaquim Delgado. Subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo. Vol. I. Instituto Nacional de Investigação Científica. Lisboa, 1980.
[2] - PIRES, A. Tomaz. Cantos Populares Portuguezes. Vol. III. Typographia e Stereotipía Progresso. Elvas, 1909.
[3] - SANTOS, Victor. Cancioneiro Alentejano. Livraria Portugal. Lisboa, 1959.