terça-feira, 12 de outubro de 2010

A candeia na literatura oral

INTERIOR - COZINHA COM VELHA E CÃO (1909) - Alfredo Roque Gameiro (1964-1935). Aguarela sobre papel (54 x 73 cm). Colecção particular. São visíveis duas candeias: uma à esquerda da estanheira e outra na chaminé, à direita.
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A candeia (do latim “candela”) era um utensílio doméstico rústico usado na iluminação, ainda em meados do século passado. É constituído por um recipiente, geralmente em barro, ferro ou folha-de-flandres com um bico, por onde sai uma torcida (pavio) alimentada pelo óleo combustível contido no recipiente, o qual possui ainda um gancho para suspensão nas paredes.
As primeiras candeias terão surgido no neolítico [8]. O material com que foram manufacturadas e os óleos combustíveis estiveram sempre em relação directa com o meio, assim como a sua forma e tipologia procuraram dar resposta às necessidades dos utilizadores [9].
Existem referências bíblicas à utilização da candeia, como por exemplo:
- “E disse-lhes: Vem porventura a candeia para se meter debaixo do alqueire, ou debaixo da cama? não vem antes para se colocar no velador?” (Marcos 4:21)
É abundante o adagiário português referente à candeia:
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- “A alegria que se esconde é candeia apagada.“
- “A candeia a espirrar, e as nuvens a chorar.“
- “A candeia que vai à frente alumia duas vezes.“
- “A candeia que vai à frente é a primeira que alumia.“
- “A candeia que vai à frente é a que alumia melhor.“
- “A candeia, debaixo do alqueire, não comunica a sua luz.“
- “À luz da candeia faz tua meia.“
- “À luz da candeia, não há mulher feia.“
- “À luz da candeia, nem mulher nem teia.“
- “A mulher e a seda, de noite à candeia.“[2]
- “Abafou-me na almotolia, de noite, a candeia.“
- “Alegria certa, candeia morta.“
- “Alegria secreta, candeia morta.“
- “Candeia que vai à frente, alumia duas vezes.“
- “Candeia que vai adiante, alumia duas vezes.“
- “Casa sem homem, nem a candeia dá luz.“
- “Da pequena candeia, grande fogueira“. [2]
- “De pequena candeia, grande fogueira.“
- “Meia vida é a candeia, e o vinho é outra meia.“ [2]
 - “Meia vida é a candeia.“
- “Não há santidade sem candeia.“ [2]
- “Nem bois à noite, nem mulher à candeia.“
- “Nem mulher nem teia, à luz da candeia.“
- “O ignorante e a candeia, a si queima e a outros alumeia.“
- “O ignorante e a candeia, a uns queima e a outros alumeia.“
- “O ouro, a donzela e a teia, à candeia.“
- “O que se vê não precisa candeia.“
- “O trigo e a teia, à candeia.“ [2]
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O cancioneiro popular também assinala a presença da candeia, uma vezes em termos da sua utilização:
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“Candeias tenho no monte,
candeias na aldeia tenho,
candeias tenho defronte,
com candeias vou e venho." [6]
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“Esta casa está bem feita,
E a madeira bem polida.
A candeia por estar alta,
A dona por ser bonita.“ [1]
         (Quintos)
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“Aqui dentro d’esta casa
‘Stá uma candeia accêsa.
Quanto dás a quem a apague
Com dois beijos á franceza?” [5]
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Porém, outras vezes é referida em termos da sua não utilização:
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“Quem quiser ôvir cantar,
Vá ás grades da cadeia,
Ovirá cantar os presos,
Ás escuras, sem candeia.“ [5]
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A candeia é ainda referida em contexto de paixão amorosa:
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“Meu coração é candeia,
Azeite o teu coração,
os teus olhos são torcidas
que nunca criam morrão.“ [6]
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“A candeia por estar alta,
não deixa de alumiar,
meu amor por estar lá longe
não deixa de m’alembrar.“ [6]
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“Dei um nó na fita verde,
desatei-o à candeia,
já hoje vi meu amor,
já posso passar sem ceia." [6]
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Existem múltiplas superstições populares relativas à candeia:
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- “É mau agoiro estalar três vezes a luz do azeite.” [3]
- ”Quando a candeia espirra, ou lume estala, é sinal de presente em casa.” [3]
- “Afirma-se em Óbidos que quando cai o morrão da candeia é sinal de presente. Semelhante superstição existe em Cinfães, onde, no entanto, se acrescenta que se se falar nisso o presente já não vem".” [8]
- “O morrão da candeia pode ainda anunciar outros acontecimentos: quando está muito grosso e florido, haverá cadeias para os donos da casa (Carviçais, Moncorvo); quando cheira mal, morre gente dentro em breve (idem).” [8]
- “Não se devem apagar os morrões, que caem acesos no chão, porque estão alumiando as almas do purgatório.” [3]
- “Se a candeia cai e entorna o azeite, é agoiro de coisa má, como igualmente dá azar despedir-se alguém de uma pessoa beijando-a com luz na mão: geralmente morre a mais velha (Lisboa). Não é bom pôr a luz acesa (candeia, candeeiro) no chão; afirma-se em Lisboa que breve entrará a Justiça nessa casa.” [8]
- “Quando uma pessoa se vai deitar, não deve pôr a luz no chão, porque aparecem as almas.” [3]
- “Por toda a Estremadura se diz que não é bom beber vinho à noite com luz na mão. Em Carviçais, Moncorvo, especifica-se que quem o fizer perderá o juízo.” [8]
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Também são conhecidas algumas imagens metafóricas, usadas na gíria portuguesa:

“Estar com a candeia na mão = Estar a morrer”

“Estar com a candeia às avessas = Estar zangado”

É de resto conhecida uma lengalenga que fala de candeias:
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As refeições
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“Que é o almoço?
Cascas de tremoço.
Que é o jantar?
Bordas de alguidar.
Que é a ceia?
Morrões de candeia.”
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A vastidão desta recolha em relação a um tema tão restrito como é a “candeia” é por si só revelador da riqueza da nossa literatura oral, um filão com potencial que urge explorar, abem da nossa cultura popular.
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[1] – DELGADO, Manuel Joaquim Delgado. Subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo. Vol. I. Instituto Nacional de Investigação Científica. Lisboa, 1980.
[2] – DELICADO, António. Adagios portuguezes reduzidos a lugares communs / pello lecenciado Antonio Delicado, Prior da Parrochial Igreja de Nossa Senhora da charidade, termo da cidade de Euora. Officina de Domingos Lopes Rosa. Lisboa, 1651.
[3] - PEDROSO, Consiglieri. Contribuições para uma Mitologia Popular Portuguesa e Outros Escritos Etnográficos. Publicações D. Quixote. Lisboa, 1988.
[4] – PEIXOTO, Rocha. ETHNOGRAPHIA PORTUGUESA/ILLUMINAÇÃO POPULAR. Imprensa Portuguesa. Porto, 1905.
[5] - PIRES, A. Thomaz. Cantos Populares Portugueses, vol. IV. Typographia e Stereotypia Progresso. Elvas, 1910.
[6] - SANTOS, Victor. Cancioneiro Alentejano – Poesia Popular. Livraria Portugal, Lisboa, 1959.
[7] - VASCONCELLOS, J. Leite de. Cancioneiro Popular Português. Volume III. Acta Universitatis Conimbrigensis. Coimbra,1983.
[8] - VASCONCELLOS, J. Leite de. Etnografia Portuguesa. Volume V. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Lisboa, 1982.
[9] - VASCONCELLOS, J. Leite de. As Religiões da Lusitânia. Volume I. Imprensa Nacional, 1897.
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LAREIRA-ESTREMOZ - Bilhete-postal ilustrado da 3ª Série de "A EDITORA", reproduzindo desenho a tinta da China aguarelada de Alberto de Souza (1880-1961), executado no início do século XX. À esquerda, junto à cortina, está uma candeia suspensa da chaminé.