quarta-feira, 19 de agosto de 2026

80 anos - A mudança de paradigma

 

Hernâni Matos (1946 - ).
Desenho a lápis de grafite (2026) de Pedro Alves.


Do meu pai, alfaiate e comerciante, homem da classe média, à qual ascendeu a pulso, herdei atavicamente traços de carácter que em mim perduram. Um deles, é a moderação, a qual visando assegurar o equilíbrio no dia a dia, não só a nível pessoal como nas relações interpessoais, me leva a demarcar de extremos tanto minimalistas como maximalistas.

O meu pai, utilizava amiúde a expressão idiomática “Nem oito, nem oitenta”, algebricamente correspondente a uma escala de 10 termos afastados entre si de 8 unidades. A frase expressa a convicção de que “No meio é que está a virtude”. Trata-se de pilares de pensamento nos quais me venho firmando, desde que me lembro de mim mesmo.

Hoje mesmo completo 80 anos medidos no Calendário Gregoriano, uma vez que como viajante do cosmos completo 80 translações completas em torno do Sol. E é aqui que começa a tragédia. “É aqui que a porca torce o rabo”, expressão idiomática que dá conta do ponto crítico atingido por mim enquanto terráqueo. Ocorreu aqui uma mudança de paradigma, que abalou inexoravelmente um dos pilares de pensamento herdado dos meus ancestrais: “Nem oito nem oitenta”. Há que construir um novo paradigma que como pilar de pensamento me assegure o equilíbrio. Interrogo-me a mim mesmo sobre a eventual complexidade e dificuldade de construção desse novo paradigma. A resposta que dou a mim próprio é invariavelmente a mesma:

- ÓI! TENTA!.

Assim me encorajo a fazer um esforço na procura de um resultado que à partida é incerto.

Hernâni Matos 


domingo, 16 de agosto de 2026

Arte pastoril - Os cochos

 

Fig.1 - Cocho com decoração em alto relevo na face posterior.


Um cocho é um recipiente em cortiça usado tradicionalmente no Alentejo para beber água que jorra duma fonte ou é vazada a partir de um cântaro de barro.

Morfologicamente, o cocho consta de duas partes: uma concava (concha) e outra plana (cabo ou pega), de geometria e tamanhos variáveis, mais ou menos inclinada em relação à primeira e provida ou não de uma abertura, igualmente de geometria e tamanho variáveis, que permite a sua suspensão numa parede ou a partir da cintura do utilizador.

A maioria dos cochos são lisos, mas podem apresentar-se também decorados. A decoração é efectuada habitualmente na face anterior da pega (Fig.2, Fig. 3 e Fig. 4) e manifesta-se geralmente sob a forma de arte linear, obtida por incisões na cortiça. De resto, o bordo da pega pode ou não ser talhado em forma de recortes de índole diversa. Todavia, também existem exemplares com decoração em alto relevo na face anterior da pega (Fig.5).

É menos vulgar a decoração na parte posterior do cocho. A apresentada aqui (Fig. 1) é mesmo invulgar, já que se trata de uma decoração em alto relevo na parte posterior do cocho, distribuida pela face posterior da pega e pela parte convexa da concha. Trata-se de uma figura feminina trajando vestido com decote  e mangas, a qual de braços abertos configura vontade de abraçar quem a olha. Quem sabe se esta representação com sabor a saudades do ente querido, não traduz a convicção de um pastor de que, algures num monte distante da choupana improvisada onde ele se encontra, a mulher amada aguarda o seu regresso. Quem sabe?

Hernâni Matos 


Fig. 2 - Cocho com decoração linear na face anterior da pega,
a qual tem bordo denteado.

Fig. 3 - Cocho com decoração linear na face anterior da pega,
a qual tem bordo recortado.

Fig. 4 - Cocho com decoração linear na face anterior da pega.

Fig. 5 - Cocho com decoração em alto relevo na face anterior da pega.

sábado, 1 de agosto de 2026

Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 4 - JOAQUIM CARRIÇO ROLO

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01 - Joaquim Carriço Rolo (1935-2023).

4 - JOAQUIM CARRIÇO ROLO (1935-2023)

Nasceu na Aldeia de Cima (Glória) e só conheceu o mundo das letras aos trinta e sete anos. Trabalhou no campo, onde foi guardador de porcos, pastor de ovelhas e tosquiador, entre muitos outros trabalhos agro-pastoris. Trabalhou também nas pedreiras, foi empregado numa grande unidade de distribuição de mercadorias, foi enfermeiro no posto médico da sua freguesia, foi sacristão e pertenceu à Orquestra Típica de Estremoz. De resto tinha jeito para trabalhos de carpinteiro, canalizador, electricista e pedreiro.

A sua actividade como artesão da madeira e do chifre processou-se numa pequena oficina junto à sua residência e começou a efectuar-se cerca dos anos 80 do século XX. Toda ela entroncava na técnica e na estética da arte pastoril com que bordava a madeira e o chifre no decurso da pastorícia.

Os materiais usados foram: cabaças, chifre e madeiras: cedro, laranjeira, oliveira, cerejeira, cipreste, nogueira, buxo, vimeiro, sabugo e nespereira. Para os trabalhar recorreu a utensílios como: navalha, goivas, limas, grosas, serras, serrotes, serra de disco, torno, maceta, escopro.

A decoração das peças é rica e diversificada, recorrendo a motivos geométricos, fitomórficos, zoomórficos e antropomórficos, os três últimos de inspiração regional.

Executou trabalhos como cabaças lavradas, colheres, talheres, chavões, sopradores de lume, bengalas, agulheiros, rosários, argolas de guardanapo, cigarreiras, caixas, guarda-jóias, brinquedos, dançarinos articulados, gaiolas para grilos, chamadores de perdizes, quadros em baixo relevo, painéis com alfaias agrícolas, cornas azeitoneiras, cornas azeiteiras, tabaqueiras e pulseiras.

O trabalho deste artesão é caracterizado todo ele por uma elevada qualidade técnica, aliada a uma expressiva e fina individualidade artística de matriz popular, que sempre apostou na criatividade em detrimento da cópia. Apesar disso executou as réplicas dos Bonecos de Santo Aleixo com que trabalha o CENDREV – Centro Dramático de Évora. Participou nas feiras de artesanato de Estremoz desde 1983 e em várias exposições individuais. Os seus trabalhos integram colecções museológicas das quais a mais importante é a do Museu Municipal Professor Joaquim Vermelho, em Estremoz.

Hernâni Matos



02 - Ciclo do pão (Lavra e semeadura, monda, ceifa, carrego, debulha). Madeira.
Quadro com decoração incisa. 148 x 48 cm.

03 - Painel com utensílios usados no decurso da ceifa e da debulha do trigo na eira.
Madeira, folha de flandres e arame. De cima para baixo e da esquerda para a direita:
vasculho, trilho, barril de água, gadanha, foice com canudos, forquilhas (3), ancinho,
pá, malho, peneira, medida, rasa. 40 x 21 x 1,5 cm.

04 - Caixa. Madeira. Decoração incisa, geométrica e fitomórfica. 13,5 x 8,5 x 5,5 cm.

05 - Colher e Garfo. Madeira. Cabos com vazamento e decoração incisa,
ambos geométricos. 14,5 x 2,8 cm.

06 - Colher. Madeira. Cabo com decoração incisa, geométrica
e zoomórfica. 20 x 3,5 cm.

07 - Colher provadeira. Madeira. Decoração incisa, geométrica
e fitomórfica. 13,4 x 4,5 cm.

08 - Colher com tampa. Madeira. Decoração incisa, geométrica
e zoomórfica (borrego). 13 x 4,5 cm.

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09 - Castanholas. Madeira. Decoração incisa, geométrica. 10 x 6 cm.

10 - Corna azeiteira. Em chifre, com tampa em madeira.
Decoração incisa, geométrica e zoomórfica. 60 cm.

11 - Corna azeitoneira. Em chifre e com tampa em
cortiça. Decoração incisa, geométrica e fitomórfica.
17 cm.

12 - Polvorinho. Chifre. Decoração incisa, geométrica,
fitomórfica, zoomórfica e antropomórfica. 36 cm.

13 - Tabaqueira. Chifre, fundo e tampa de madeira, pregos de latão. Decoração geométrica,
fitomórfica e zoomórfica no chifre. Decoração geométrica no fundo e tampa de madeira.
10 x 11 x 4,5 cm.

14 - Caixa provida de tampa com pega. Caixa e tampa de
chifre. Pega de madeira e fundo de cortiça. Decoração
fitomórfica (caixa) e geométrica (tampa). 7,5 x 5,5 x 5 cm.


Publicado no jornal E nº 385, de 31 de Julho de 2026 






sábado, 18 de julho de 2026

Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 3 - MIGUEL SEROL GOMES

 

Miguel Serol Gomes na actualidade, no Atelier Memórias e Tradições,
em Monte Gordo.


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CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS:
Cortesia de Célia Freitas (Miguel Serol Gomes)
e Luís Dias (peças).

3 - MIGUEL SEROL GOMES (1957- )

Filho de Manuel António Capelins (1924-1974) e irmão de Teresa Serol Gomes (1952-1988). Nasceu na aldeia de São Gregório (Rio de Moinhos), onde viveu até aos sete anos. Em 1964 passou a residir no Monte Novo da Palma na Fonte do Imperador, em Estremoz, para onde o seu pai se transferiu com a família e onde fez a instrução primária. É nessa altura que começa a dar os primeiros passos na arte pastoril, actividade que desenvolveu até 1986. Cessa então esta actividade, a qual realizava cumulativamente com a modelação do barro com a sua esposa, a barrista Célia Freitas. Fá-lo, pois as calosidades e os golpes frequentes com facas de sapateiro, goivas e formões com que trabalhava, não eram compatíveis com a modelação do barro.

Na arte pastoril procurou dar continuidade ao legado artístico do seu pai, utilizando as mesmas técnicas e tipos de decoração, porém com um cunho pessoal.

Os materiais utilizados foram cabaças, chifre e madeira: plátano, nogueira e choupo. Recorreu a utensílios como faca de sapateiro, lima, grosa, formões, sovela, mini-serrote e lixa.

Executou trabalhos como cabaças lavradas, cornas azeitoneiras, cornas azeiteiras, polvorinhos, colheres, talheres, canudos de soprar o lume, caixas, esculturas em madeira e quadros.

Participou em feiras como: Mercado da Primavera (Lisboa), Feira de Artesanato do Estoril, Feira Nacional da Agricultura (Santarém), Casino Estoril, Feira Nacional de Artesanato de Vila do Conde e FIAPE (Estremoz), entre outras.

Hernâni Matos

Cabaça colorida com anilina e lavrada com motivos geométricos,
com asa e tampa em madeira. 29 x 16 cm.

Cabaça escurecida com viochene e lavrada com motivos fitomórficos,
 com tampa em madeira e correia em couro para transporte. 45 x 12 cm.


Publicado no jornal E nº 384, de 17 de Julho de 2026

quinta-feira, 9 de julho de 2026

A “Alegoria da Música” no figurado de Estremoz

 

Alegoria da Música. Jorge da Conceição.


UM TEXTO DO BARRISTA JORGE DA CONCEIÇÃO


A ideia de produzir uma figura alegórica relativa à música partiu do colecionador Prof. Hernâni Matos, amigo e cliente de há longa data, a propósito de uma exposição que estava a planear fazer, alusiva à representação do tema Música no figurado de Estremoz.

São sobejamente conhecidas as figuras do mundo rural e urbano a tocar harmónio, a banda de música que acompanha a procissão do Sr. dos Passos (muitas vezes vendida em separado das restantes figuras da procissão), bem como as variadíssimas figuras de assobio. Em todas estas tipologias a coleção de figurado de Estremoz do Prof. Hernâni Matos é rica e variada. Faltava, no entanto, uma figura alegórica alusiva à Música. Com efeito, no conjunto das figuras alegóricas, em que as mais conhecidas são as Primaveras, as Bailadeiras e o Amor é Cego, não existia uma representação alegórica da música, pois  a mesma nunca terá sido feita pelos barristas em todos estes séculos de produção de Bonecos de Estremoz.

 Assim, colmatar essa lacuna foi o desafio que me foi colocado e que aceitei com muito agrado e motivação.

 Usei como inspiração várias representações clássicas de Euterpe, a musa da música na mitologia grega, e repassei à exaustão imagens das figuras alegóricas de figurado de Estremoz, dos séculos XVIII e XIX, que temos o privilégio de ter no Museu Municipal Professor Joaquim Vermelho.

 Depois, deixando trabalhar a imaginação e imprimindo o meu próprio estilo, acabou por nascer a minha interpretação da Alegoria da Música. É uma figura na linha das Bailadeiras, com uma roupagem clássica enriquecida com atributos muito característicos das nossas figuras alegóricas, que ostenta uma lira e uma flauta. Trata-se de uma peça com uma função decorativa mas também utilitária, tal como muitas das nossas figuras alegóricas, que podem ser usadas como castiçais ou paliteiros. Neste caso a figura pode servir como paliteiro utilizando os furos da flauta.

 Toda a estética da figura que desenvolvi, desde a forma e decoração da base, à postura do corpo da figura, ao acabamento final e ao grau de serenidade e candura que transmite, foi trabalhada para ser completamente fiel à estética tão característica dos nossos Bonecos de Estremoz e, como não podia deixar de ser, ao meu estilo pessoal.

 Foi com alegria que registei a aceitação da peça que concebi e é motivo de muito orgulho constatar que foi a minha criação a selecionada para ilustrar o cartaz da exposição.

Jorge da Conceição
Estremoz, Maio de 2026

Hernâni Matos

terça-feira, 7 de julho de 2026

Palavras do Presidente da Câmara Municipal de Estremoz

 



A abrir o catálogo da minha exposição A MÚSICA NO FIGURADO DE ESTREMOZ


PALAVRAS DO PRESIDENTE

DA CÂMARA MUNICIPAL DE ESTREMOZ

 

Os Bonecos de Estremoz são absolutamente transversais em termos da política cultural do Município de Estremoz. Com eles dinamizamos a cidade, os museus e inclusivamente, a hotelaria e o comércio.

Para valorizar os barristas e a sua produção, convidamos anualmente vários deles a trabalharem connosco nas ações educativas. Estamos ainda unidos à Confraria do Boneco de Estremoz para levar o figurado às principais feiras nacionais. Concretizámos recentemente uma rota cultural sob esta temática e com muito gosto, procuramos unir esforços com colecionadores de referência, para com estes darmos a conhecer peças únicas deste património cultural imaterial.

Ora foi exactamente com este propósito, que surgiu o trabalho com Hernâni Matos, o maior e mais representativo colecionador de Figurado de Estremoz. Este tem um labor incomparável no domínio do colecionismo, ao qual une a investigação e um conhecimento privilegiado dos artesãos do séc. XX e XXI. A exposição que nos apresenta, demonstra isto mesmo. Temos assim a honra de conhecer e dar a conhecer, uma pequena parte da maravilhosa coleção deste estremocense, se bem que apenas sob a temática da música. Juntamos a esta, a memória das dezenas de mostras que Hernâni Matos já realizou nos espaços da autarquia e assim apercebemo-nos da maravilha deste trabalho, paciente e apaixonado.

Caro Hernâni Matos, teremos sempre espaço para mostrar os seus e nossos, Bonecos de Estremoz. Bem-haja pela partilha e deixo aqui um reconhecimento público pela sua ação na valorização deste património, que deixou de ser apenas de Estremoz e hoje é da Humanidade.


José Daniel Pena Sadio
Presidente da Câmara Municipal de Estremoz

domingo, 5 de julho de 2026

Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 2 - TERESA SEROL GOMES

 

Teresa Serol Gomes a trabalhar no pátio da sua residência em Estremoz.

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CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS:
Cortesia de Marta Pereira e de
 Arquivo Fotográfico da CME (Teresa Serol Gomes)
e Luís Dias (peças).

2 - TERESA SEROL GOMES (1952-1988)

Filha de Manuel António Capelins (1924-1974) e irmã de Miguel Serol Gomes (1957- ), nasceu na aldeia de São Gregório (Rio de Moinhos) e fez a instrução primária na escola da freguesia. Em 1964 passou a residir no Monte Novo da Palma na Fonte do Imperador, em Estremoz, para onde o seu pai se transferira com a família. É nessa altura que começa a trabalhar com o pai. Por falecimento deste em 1974, dá continuidade ao seu legado artístico, utilizando as mesmas técnicas e tipo de decoração, porém com um cunho muito pessoal.

Os materiais utilizados foram cabaças e madeira: plátano, nogueira e choupo. Não trabalhou em chifre.

Recorreu a utensílios como faca de sapateiro, lima, grosa, formões, sovela, mini-serrote e lixa.

Executou trabalhos como cabaças lavradas, candeeiros de cabaça, colheres, talheres, canudos de soprar o lume, bases de copos e quadros.

Participou em feiras como: Mercado da Primavera, Feira de Artesanato do Estoril, Feira Nacional da Agricultura (Santarém) e Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz 


Stand de Teresa Serol Gomes na II Feira de Arte Popular
e Artesanato do Concelho de Estremoz (1984).

Cabaça lavrada com motivos fitomórficos e geométricos, com tampa.
28 x15 cm.

Cabaça lavrada com motivos fitomórficos, com tampa em madeira
e correia em couro para transporte. 15 x 12 cm.

Colher e Garfo. Madeira escurecida com viochene. Cabos com decoração incisa,
geométrica, zoomórfica e antropomórfica. Escudo monogramado com as letras
T, A, L, encimado por uma chave. 70 x 9 cm.

Colher e Garfo. Madeira escurecida com viochene. Cabos com decoração incisa,
geométrica, fitomórfica, zoomórfica, antropomórfica e religiosa (Natividade de Jesus). 
82 x 9 cm.       

Soprador de lume. Madeira escurecida com viochene. Decoração incisa, 
fitomórfica, zoomórfica e antropomórfica. 69 x 2 cm.

Soprador de lume. Madeira escurecida com viochene. Decoração incisa,
fitomórfica. 66,5 x 2 cm.


Publicado no jornal E nº 383, de 3 de Julho de 2026