quinta-feira, 9 de julho de 2026

A “Alegoria da Música” no figurado de Estremoz

 

Alegoria da Música. Jorge da Conceição.


UM TEXTO DO BARRISTA JORGE DA CONCEIÇÃO


A ideia de produzir uma figura alegórica relativa à música partiu do colecionador Prof. Hernâni Matos, amigo e cliente de há longa data, a propósito de uma exposição que estava a planear fazer, alusiva à representação do tema Música no figurado de Estremoz.

São sobejamente conhecidas as figuras do mundo rural e urbano a tocar harmónio, a banda de música que acompanha a procissão do Sr. dos Passos (muitas vezes vendida em separado das restantes figuras da procissão), bem como as variadíssimas figuras de assobio. Em todas estas tipologias a coleção de figurado de Estremoz do Prof. Hernâni Matos é rica e variada. Faltava, no entanto, uma figura alegórica alusiva à Música. Com efeito, no conjunto das figuras alegóricas, em que as mais conhecidas são as Primaveras, as Bailadeiras e o Amor é Cego, não existia uma representação alegórica da música, pois  a mesma nunca terá sido feita pelos barristas em todos estes séculos de produção de Bonecos de Estremoz.

 Assim, colmatar essa lacuna foi o desafio que me foi colocado e que aceitei com muito agrado e motivação.

 Usei como inspiração várias representações clássicas de Euterpe, a musa da música na mitologia grega, e repassei à exaustão imagens das figuras alegóricas de figurado de Estremoz, dos séculos XVIII e XIX, que temos o privilégio de ter no Museu Municipal Professor Joaquim Vermelho.

 Depois, deixando trabalhar a imaginação e imprimindo o meu próprio estilo, acabou por nascer a minha interpretação da Alegoria da Música. É uma figura na linha das Bailadeiras, com uma roupagem clássica enriquecida com atributos muito característicos das nossas figuras alegóricas, que ostenta uma lira e uma flauta. Trata-se de uma peça com uma função decorativa mas também utilitária, tal como muitas das nossas figuras alegóricas, que podem ser usadas como castiçais ou paliteiros. Neste caso a figura pode servir como paliteiro utilizando os furos da flauta.

 Toda a estética da figura que desenvolvi, desde a forma e decoração da base, à postura do corpo da figura, ao acabamento final e ao grau de serenidade e candura que transmite, foi trabalhada para ser completamente fiel à estética tão característica dos nossos Bonecos de Estremoz e, como não podia deixar de ser, ao meu estilo pessoal.

 Foi com alegria que registei a aceitação da peça que concebi e é motivo de muito orgulho constatar que foi a minha criação a selecionada para ilustrar o cartaz da exposição.

Jorge da Conceição
Estremoz, Maio de 2026

Hernâni Matos

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