quinta-feira, 31 de julho de 2025

Bonecos de Estremoz nos contentores do lixo? Não, obrigado!


Imagem recolhida com a devida vénia no website "7 MARAVILHAS DA NOVA

Desenterrando uma velha crónica (1)
Como era expectável, a inscrição da "Produção de Figurado em Barro de Estremoz" na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade, foi aprovada no decurso da 12.ª Reunião do Comité Intergovernamental da UNESCO para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, que entre 4 e 9 de Dezembro de 2017 decorreu no Centro Internacional de Convenções Jeju, na ilha de Jeju, na República da Coreia.
A referida inscrição foi alcançada na sequência de candidatura apresentada pelo Município de Estremoz (2) e corresponde ao reconhecimento planetário do labor e criatividade dos barristas do passado e do presente, que com as suas mãos mágicas e desde as bonequeiras de setecentos, transmitiram de geração em geração e até à actualidade, uma manufactura “sui generis” de figurado de barro, dita ao “modo de Estremoz”.
A 7 de Dezembro de 2017, a Assembleia da República aprovou por unanimidade um voto de congratulação, no qual é afirmado que “A Assembleia da República felicita, de forma destacada, todas as artesãs e artesãos, pelo seu insubstituível papel de preservação e divulgação deste património, cujo reconhecimento pela UNESCO engrandece a cultura popular e o País.”
O voto de congratulação que uniu deputados de todas as bancadas foi reflexo do regozijo sentido em todo o país e muito particularmente em Estremoz. Desde então, os Bonecos de Estremoz, factor de união entre estremocenses, reforçaram ainda mais o seu papel de ex-líbris e embaixadores culturais da cidade. Daí, que a meu ver, os Bonecos de Estremoz devessem merecer o respeito de toda a comunidade e não fossem alvo de qualquer tipo de aproveitamento que nada tem a ver com a sua origem, com a sua produção e com os artesãos seus criadores. Talvez por isso, o Município tenha registado em devido tempo a designação “Bonecos de Estremoz”.

Cosmética dos contentores do lixo
Recentemente uma lista candidata à Câmara Municipal de Estremoz nas próximas eleições autárquicas, anunciou publicamente que ”Nós não queremos ver os caixotes do lixo. Queremos fazer uma protecção dos caixotes do lixo e pintá-la com desenhos de Bonecos de Estremoz”.
Pessoalmente também perfilho a ideia de que os contentores municipais do lixo são inestéticos, não só em Estremoz como no resto do país. De resto, creio que o problema maior neste domínio e no caso particular de Estremoz é a licenciosidade ou melhor o modo libertino como alguns moradores num desprezo olímpico pelo resto da comunidade, não separam o lixo para os ecopontos e atafulham contentores com lixo a granel, para além de não respeitarem a regulamentação municipal relativa à deposição de lixos grossos.
Julgo ser prioritário diminuir o número de contentores e aumentar o número de ecopontos subterrâneos, bem como incentivar a educação ambiental de moradores prevaricadores, recorrendo para tal aos competentes serviços do Município.
Quaisquer protecções visando cobrir os contentores, independentemente dos motivos decorativos que as embelezem, correm o risco de servir para pouco mais que coisa nenhuma, enquanto se mantiver a incivilidade na utilização de contentores por parte de alguns moradores.

Bonecos de Estremoz e identidade cultural local
Há muito que os Bonecos de Estremoz são considerados ex-libris e embaixadores desta terra transtagana. Todavia, foi o seu reconhecimento pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade que os ligou indissociavelmente à identidade cultural local, a qual importa preservar e salvaguardar.
Os Bonecos de Estremoz adquiriram um estatuto de respeitabilidade e honorabilidade que não é compatível com qualquer tipo de aproveitamento que nada tem a ver com a sua origem, com a sua produção e com os artesãos seus criadores. Como tal, choca-me a intenção manifestada por uma lista candidata à Câmara Municipal de Estremoz nas próximas eleições autárquicas, de vir a implementar protecções nos caixotes do lixo e pintá-las com desenhos de Bonecos de Estremoz. Quer se queira quer não, a concretização da ideia corresponderia na prática a associar Bonecos de Estremoz ao lixo, o que me repugna e rejeito liminarmente. Daí que proclame com todo o vigor que me é conhecido:
- BONECOS DE ESTREMOZ NOS CONTENTORES DO LIXO? NÃO, OBRIGADO!

Hernâni Matos (3)
Estremoz, 25 de Julho de 2025
Publicado no jornal E nº 362 de 1 de Agosto de 2025

(1) - Publicada no jornal "Brados do Alentejo" de 29 de Julho de 2021.
(2) - Então liderado por Luís Mourinha.
(3) - Coleccionador, investigador e publicista dos Bonecos de Estremoz. Autor do livro BONECOS DE ESTREMOZ. Edições Afrontamento. Estremoz / Póvoa de Varzim, Outono de 2018.

quarta-feira, 30 de julho de 2025

Matar a sede no Alentejo


A ceifa. Dordio Gomes (1890-1976). Óleo sobre tela (154 x 194 cm).


                                                                                   À minha filha Catarina

INTRODUÇÃO
O corpo humano de um adulto é composto por 60% de água, a qual está presente em todos os tecidos e desempenha múltiplos papéis: dissolve todos os nutrientes e transporta-os a todas as células, assim como às toxinas que o organismo necessita de eliminar. A água regula ainda a temperatura corporal através da produção de suor.
Através da transpiração, respiração, urina e fezes, perdemos diariamente cerca de 2,5 litros de água ou mesmo mais, se a temperatura for muito elevada e/ou o esforço físico for intenso. Esta perda deve ser reposta.
As necessidades de água do ser humano dependem das perdas e o bom funcionamento do nosso organismo passa pela água que consumimos. Através dos alimentos obtemos cerca de metade da água necessária, o resto deve ser ingerido, bebendo pelo menos, 1,5 litros de água por dia.

SEDES DE OUTRORA
Noutros tempos, nos campos do Alentejo, bebia-se água de algumas ribeiras, assim como de nascentes e poços. Quem andava nas fainas agro-pastoris, bebia normalmente água por um coxo, feito de cortiça.
Fainas violentas como as ceifas, exigiam que houvesse distribuição regular de água, o que era feito, geralmente por uma aguadeira da ceifa, transportando um cântaro de barro e um coxo, por onde se bebia à vez.
Os pastores na sua vida de nómadas conheciam bem a localização das nascentes e poços, onde matar a sede.
Dos poços a água era tirada com caldeiros de zinco, embora em sua substituição se vissem muitas vezes, à beira dos poços, grandes chocalhos com a mesma função. Lá diz o cancioneiro:

“O' lá Cabeço de Vide,
Toda coberta de neve,
Terra do neto da bruxa,
Quem não traz chocalho não bebe.” [1]

Nas aldeias e vilas, as mulheres iam às fontes, encher os cântaros de barro, que transportavam depois à cabeça, equilibrados miraculosamente pela sogra, que a maioria das vezes não passaria duma rodilha enrolada em forma de anel.
Nas cidades, existiam aguadeiros, proprietários de carro com grade para transporte de cântaros, puxados por muar ou burro. Igualmente os havia com recursos mais elementares. Havia quem transportasse os cântaros em cangalhas de madeira assentes no lombo das bestas. Havia também aqueles que nem besta tinham e efectuavam o transporte dos cântaros em carros de mão, que eles próprios empurravam. Os cântaros usados, eram geralmente em zinco, com tampa, não só para não partirem, como para não entornarem. Cada aguadeiro tinha, de resto, a sua própria rede de clientes certos, que eram abastecidos a partir da fonte que frequentava.

SEDES DE HOJE
Hoje é impensável e desaconselhável beber água de ribeiros e de poços, já que os aquíferos estão contaminados por adubos químicos e pesticidas, quando não por águas residuais, domésticas ou industriais. O mesmo relativamente à água das fontes das nossas vilas e aldeias.
Hoje temos que beber água da rede, muitas vezes com sabor a cloro ou então, água engarrafada. Esse o preço do progresso. Um preço que poderia ter sido evitado, praticando uma agricultura biológica, em equilíbrio com os agroecossistemas, assim como um tratamento e convenientemente encaminhamento das águas residuais, que em muitos casos ainda não é feito. Até quando?

BIBLIOGRAFIA
[1] - THOMAZ PIRES, A. Tradições Populares Transtaganas. Tipographia Moderna. Elvas, 1927.

Hernâni Matos
Publicado inicialmente em 13 de Julho de de 2011

terça-feira, 29 de julho de 2025

A todas as Mulheres do Mundo...


Camponesa. Manuel Ribeiro de Pavia (1910-1957).


                                     ...mas em especial à Gina Ferro,
                                                       pelo privilégio da sua amizade.

As mulheres são nossas mães, nossas irmãs, nossas filhas, nossas companheiras, nossas amantes, nossas cúmplices, o bálsamo para os maus momentos, a nossa inspiração para a ode triunfal e o estímulo para a vitória.
Com elas apanhamos bebedeiras de azul, quando não gostam de vinho.
E fartos de azul, por elas bebemos vinho, até dizer basta!
Com elas e por elas, lutamos por amanhãs que não sabemos quando vêm, mas que temos a certeza inabalável que hão de vir.
A elas nos agarramos quando sentimos que estamos a mergulhar no abismo.
Delas gostamos do carinho, do amor e do sexo-porto de abrigo.
Nelas nos fundimos e com elas fazemos filhos, erguemos projectos e por vezes engendramos mudanças de paradigma.
Com elas nos derretemos em sangue, sémen, suor e lágrimas, com gemidos e ais, punhos erguidos e bandeiras vermelhas, raiva incontida que nos vem de baixo e que desfraldamos ao vento, porque somos insurrectos. É um direito que nos assiste!
Para além de sustentarem metade do céu sobre os seus ombros, as mulheres são a metade que nos falta, que nos dá força e que nos faz vacilar, qual travão que adocica o motor.
E mais não digo…

Publicado inicialmente em 8 de Dezembro de 2013

segunda-feira, 28 de julho de 2025

Atrás da Primavera, outras Primaveras hão de vir

 

O testemunho da Primavera. A Boniqueira - Joana Santos Ceramista


Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!
FLORBELA ESPANCA (1894-1930)

Fascínio é o natural e intenso sentimento despertado pela imagem aqui apresentada. Lado a lado, duas Primaveras com os mesmos atributos, a mesma estética e o mesmo cromatismo, diferentes apenas no tamanho. Uma é Primavera adulta e a outra uma Primavera menina.
É notória uma forte ligação entre elas, patente na mão da mãe que segura a mão da filha, a quem comunica confiança e também ternura, igualmente transmitida pelo olhar que a Primavera menina absorve, encantada. É a partilha de saberes, de luz e de claridades, de cores e de tons, de perfumes e sons. É o legado de marcas identitárias ciclicamente propaladas à natureza e que assinalam a sua renovação. É uma mensagem de esperança nos dias da amanhã. É o revelar de um paradigma: Atrás da Primavera, outras Primaveras hão de vir.
O Testemunho da Primavera de Joana Santos é simultaneamente o testemunho do génio criativo e da mente brilhante de uma mulher ceramista, que há muito pôs a magia das suas mãos tecnicamente dotadas, em sincronia harmónica com os impulsos de alma. É um deleite de espírito a visualização e a contemplação das suas criações. É, de resto, um privilégio e isso para mim é muito importante, usufruir do privilégio da sua amizade.

Publicado em 18 de Abril de 2023

domingo, 27 de julho de 2025

Paredes de vidro


Cabeça de ceifeiro alentejano (1941).
Dórdio Gomes (1890-1976). 
Óleo sobre contraplacado (33 cm x 25 cm)

A Escrita ou seja o pensamento convertido em linguagem gráfica é fruto de um diapasão em ressonância sincronizada com a minha caixa do Pensamento.
Com o sentir da minha Alma, a minha caneta é a extensão pantográfica que me transporta sem me subjugar ao palco onde todos somos actores, ainda que uns sejam mais activos e outros mais passivos.
Pode-se falar de Vida ou de Morte, de Acção ou de Renúncia, de Amor ou de Desamor. Tanto faz! Todavia não é a mesma coisa, dar a cara como eu dou ou estar refugiado no anonimato, como acontece amiúde na web. Então, “Que fazer?” Esta é a questão dialéctica e sacramental levantada por Vladimir Ilitch Lenin (1870-1924), no seu livro homónimo de 1902. E isso para mim é uma questão fulcral, já que a vida é feita de saberes, mas também de não saberes, os quais por vezes se transmutam em dissabores. Como eu não me sinto atraído por não saberes, exijo que em nome da verdade e da claridade, dêem o nome e a cara, tal como eu dou. Esse poderá ser um ponto de partida salutar para uma conversa que dê os seus frutos.
Publicado em 30 de Julho de 2013

sexta-feira, 25 de julho de 2025

A Greve dos Correios de 1920 em Estremoz


Fig. 1 - Bilhete-postal que durante a Greve dos Correios seguiu o trajecto
LISBOA-PORTALEGRE-ELVAS-ESTREMOZ.

1. INTRODUÇÃO
Em recente artigo (1), cuja leitura vivamente aconselhamos, o nosso estimado Amigo, Senhor Eng.º Armando Vieira, relata-nos um episódio da Greve dos Correios de 1920 (2), cuja história aí se reconhece está ainda por fazer. A finalizar o seu brilhante artigo sobre este interessante período da nossa História Postal, lança um apelo aos filatelistas para examinarem as correspondências circuladas em Março de 1920, pois a correspondência processada durante o período da Greve é portadora de curiosas marcas apostas por entidades que substituíram os grevistas.

2. MARCA "ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE ELVAS"
Quis o Deus Acaso que num pequeno lote de correspondência que nos foi oferecida por mão amiga, viesse incluído um bilhete-postal (Fig. 1) processado durante o período da Greve.
O referido bilhete-postal (3) foi escrito por D. Maria do Carmo S. de Araujo, moradora na Calçada Marquês de Abrantes, 95-3º esqdº, em Lisboa, a sua amiga D. Lucrécia Rodrigues Fragoso, em Extremôz. Datado de 3 de Março de 1920 (1º dia da Greve dos Correios), foi expedido de Lisboa nesse dia, tendo recebido a flâmula obliterante então em uso na estação de Lisboa Central. A mensagem do bilhete-postal é a seguinte:

"Recebemos a sua estimada carta e as amostras.
Fomos a casa de sua Ex.ma Cunhada perguntar
por seu Ex.mo Marido e disseram-nos que já não
estava. E como veio a greve do c. de ferro, temos
estado à espera. Mas como hoje nos disseram que
seguia o correio por Portalegre, rogo-lhe a fineza
de dizer o que deseja que se faça.
Os nossos cumprimentos e creiam-nos sempre ao
seu dispor.
Sua amiga e muito obrigada
M.ª do Carmo S. de Araujo"

O bilhete-postal apresenta a marca de chegada a Estremoz (4) no dia 26 de Março de 1920, decorridos que são 23 dias sobre a sua expedição! Apresenta ainda duas marcas interessantíssimas. Uma delas, batida a azul-escuro, é da "ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE ELVAS", entidade que substituiu os grevistas elvenses e que atesta o estranho itinerário seguido pelo bilhete-postal: LISBOA - PORTALEGRE - ELVAS - ESTREMOZ. A outra marca, batida a azul esverdeado, é de numerador e tem o número 10556. Pela diferença de cores entre estas duas marcas, estamos em crer que a Associação Comercial de Elvas não numerou a correspondência por si marcada e processada durante a Greve dos Correios. Inclinamo-nos mais para esse número ser um número de ordem da folha de cartolina na respectiva remessa à Casa da Moeda, local onde foi impresso o bilhete-postal.
Está ainda por investigar o modo como foi conduzida no trajecto LISBOA-PORTALEGRE-ELVAS-ESTREMOZ, a mala postal que transportava o bilhete-postal que vimos referindo. Não podemos esquecer que a rede de transporte e permuta de malas postais estava desorganizada, uma vez que também abrangia as Ambulâncias Postais Ferroviárias e que a greve dos Caminhos de Ferro foi agravada pela Greve dos Correios.

Fig. 2 - Não podendo seguir o trajecto usual: LISBOA - BARREIRO - VENDAS NOVAS -
- TORRE DA GADANHA - CASA BRANCA - ÉVORA - ESTREMOZ, o bilhete-postal seguiu
o trajecto: LISBOA – SETIL – ENTRONCAMENTO - ABRANTES - TORRE DAS VARGENS -
 PORTALEGRE - ELVAS. Em 1920 não existia o ramal PORTALEGRE - ESTREMOZ ,
que só foi inaugurado em 21-1-1949. Por outro lado nunca houve ligação ferroviária
entre ELVAS e ESTREMOZ, pelo que entre estas duas últimas localidades,
o bilhete-postal terá tido outro meio de transporte que não o Caminho de Ferro.
Transporte Militar? Transportado pela Guarda Nacional Republicana?
Transportado por recovagem ou por um particular? Não sabemos.

Fazendo fé na mensagem do bilhete-postal, sabemos que ele seguiu no combóio Lisboa-Portalegre no primeiro dia da Greve dos Correios, na qual também participaram os funcionários das Ambulâncias Postais. A consulta do mapa dos Caminhos de Ferro Portugueses dessa época permite-nos tirar duas conclusões (Fig. 2):
- PRIMEIRA: a mala postal saída de Lisboa seguiu por Setil, Entroncamento, Abrantes, Torre das Vargens e Portalegre;
- SEGUNDA: devido à Greve dos Caminhos de Ferro, a mala postal não seguiu em direcção a Estremoz o trajecto usual: Lisboa, Barreiro, Vendas Novas, Torre da Gadanha, Casa Branca, Évora, Estremoz.
Concluído isto, põe-se a questão de saber quem conduziu a mala com o bilhete-postal entre Portalegre e Elvas. Provavelmente a Ambulância Postal que o trouxe de Lisboa e que deverá ter furado a greve. E no resto do trajecto quem conduziu a mala postal onde ia o bilhete-postal? Militares? Guarda Republicana? Particulares ? Não sabemos. É um assunto que procuraremos investigar e que se formos bem sucedidos, divulgaremos. Podemos, porém, desde já assegurar que, de Elvas para Estremoz, o bilhete-postal não seguiu pelo Caminho de Ferro, uma vez que em 1920 não existia o ramal Elvas-Estremoz, assim como também não existia o ramal Portalegre-Estremoz. Para além disso, só uma certeza temos: a marca "ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE ELVAS", batida a azul escuro, é rara.

3. A GREVE DOS CORREIOS EM ESTREMOZ
O interessante bilhete-postal da Fig. 1 levou-nos a investigar os aspectos assumidos pela Greve dos Correios em Estremoz, visando reconstituir a história local daquele período conturbado da nossa História Postal. Para o efeito socorremo-nos da imprensa local daquela época ( os semanários "O Jornal de Estremoz”e "O Eco de Estremoz”) e tentámos fazer uma cronologia da Greve (5):
3 de Março - Após a declaração da Greve Telégrafo-Postal, os empregados da estação (6) da vila (7), solidários com o movimento grevista, abandonam o serviço.
5 de Março - Foi a Estremoz o chefe dos Serviços Telégrafos-postais de Évora, sr. Alegria Vidal, que não aderiu à Greve, acompanhado do sr. Coronheiro Ramos, a fim de persuadir o pessoal de Estremoz a retomar o trabalho. Este, manteve-se firme na sua atitude grevista, tomando então conta da estação o sr. Coronheiro Ramos.
6 de Março - Foi solucionada a greve dos ferroviários, circulando já os comboios, mas mantêm-se em greve os empregados dos Correios e Telégrafos.
13 de Março - O Governo promulga o Decreto nº 6448 (Diário do Govêrno nº 51, 1ª série, 1920), pelo qual são concedidas indistintamente, aos funcionários civis do Estado, determinadas quantias, a título de "Ajuda de Custo de Vida". O funcionalismo retoma então o trabalho, com excepção da maioria dos funcionários dos serviços telégrafos-postais.

Fig. 3 - Estremoz: A estação telegrafo-postal situava-se em 1920 no primeiro andar de um
edifício do Largo da República, à direita e não visível na imagem. 

15 de Março - O pessoal dos Correios e Telégrafos resolveu retomar o trabalho, afixando na porta da entrada da estação (Fig. 3) o seguinte comunicado:
“AO PUBLICO”
“O pessoal telegrafo-postal de Estremoz, revendo "o abono de ajuda de custo da vida", concedido aos funcionários publicos, não discordando dele em absoluto e levando em conta as promessas feitas pelos ex.mos srs. Presidente da Republica e Presidente do Ministerio de que a equiparação de vencimentos será um facto logo que reabra o Parlamento, resolveu retomar o trabalho, não deixando porém de continuar a dar o seu apoio moral ao funcionalismo que ainda fica em luta para se conseguir uma ajuda de custo da vida, mais equitativa.
Estremoz, 15-III-20
O pessoal telegrafo-postal de Estremoz.”

Fig. 4 - Estremoz: Fachada do Café Águias d'Ouro
nos anos vinte do séc. XX.

16 de Março - Um dia depois de ter voltado ao serviço, o pessoal da estação de Estremoz retoma a Greve, afixando no Café Águias d'Ouro (Fig. 4) novo comunicado, desta feita com o seguinte teor:
"AO PUBLICO"
"O pessoal telegrafo-postal desta vila, por razões que expoz por escrito ao sr. Comandante da Brigada (Fig. 5), abandona hoje novamente o serviço, tomando o compromisso de voltar ao seu lugar quando, termine de facto a greve telegrafo-postal.
Garante por sua honra ter feito a distrubuição, de toda a correspondência postal existente e de possível entrega e ter deixado as comunicações telegraficas internas normais, não sendo da sua autoria as avarias existentes nas linhas.
Pelo pessoal telegrafo-postal,
Joaquim Vicente Bento
3º oficial"

Fig. 5 - Estremoz: O edifício onde nos anos 20 do séc. XX funcionava o quartel general da Brigada.

20 de Março - “O Jornal de Estremoz” relata o regresso ao trabalho dos funcionários telegrafo-postais no dia 15 e o retorno à greve a 16, "com o que a opinião pública muito se indignou".
21 de Março - "O Eco de Estremoz” relata também o regresso ao serviço dos funcionários dos Correios e Telégrafos a 15 e o reinício da greve a 16 e exclama: "Que incoerência ! Que desassombro !”Diz ainda desconhecer as razões expostas ao Comandante da Brigada.
O mesmo jornal diz ainda que os sargentos do 4º Grupo de Metralhadoras, aquartelados (Fig. 6) na vila, se ofereceram ao Comandante da Brigada, para prestar serviço na estação telegrafo-postal. Por enquanto não conseguimos apurar se estes préstimos foram ou não aceites e utilizados.

Fig. 6 - Estremoz: O quartel do 4º Grupo de Metralhadoras
situava-se no edifício onde hoje funciona a Pousada da
Rainha Santa Isabel.

24 de Março - O Governo promulga o Decreto nº 6468 (Diário do Govêrno nº 60, 1ª série, 1920), mandando proceder ao levantamento de autos de abandono de lugar ao pessoal dos Correios e Telégrafos que não esteja no exercício das suas funções.
3 de Abril - O Ministério do Comércio e Comunicações envia portarias para publicação (Diário do Govêrno nº 80, 2ª série, 1920), determinando inquéritos às responsabilidades dos funcionários dos Correios e Telégrafos nos actos de sabotagem praticados no material dos serviços, em Março de 1920. Manda ainda publicar portarias nomeando a composição das Comissões de Inquérito. São nomeadas três: uma para Lisboa, outra para o Porto e ainda outra para o resto do país. Esta última tinha por função apreciar os relatórios enviados pelos governadores civis dos diferentes distritos, elaborando por sua vez um relatório em que iria discriminar as responsabilidades dos funcionários implicados nos referidos actos de sabotagem.
“O Jornal de Estremoz” referindo-se à greve diz: "Publicamos para ficar arquivada nas colunas do nosso semanario, a resposta que o governo deu à Imprensa que a pedido daqueles funcionários, foi intermediaria para a solução dum problema que tantos e graves prejuízos deu ao paiz:
“O governo, ouvindo as considerações expostas pelos representantes da Imprensa, resolveu permitir o regresso, aos seus serviços, dos funcionarios telegrafo-postais, sem assumir com eles quaisquer compromissos, embora disposto, como o afirmou aos mesmos representantes da Imprensa, a usar da benevolência compatível com a dignidade do poder e os superiores interesses do paiz". A terminar, "O Jornal de Estremoz” crescenta: "Em face disto, os telegrafo-postais deverão retomar o trabalho até às 13 horas do dia 30 do corrente"(8).

4. À MARGEM DA GREVE
Em 1920, o Cinema, ainda nos seus primeiros passos, despertava enorme interesse pela sua quase novidade. As sessões de cinema eram mais frequentes que as peças de Teatro levadas à cena e constituíam um espectáculo de agrado popular. Vejamos como a Greve dos Correios teve reflexos negativos entre os cinéfilos de Estremoz. O "Jornal de Estremoz” referindo-se sempre ao Ciné Estremoz diz:
6 de Março - "Deve começar brevemente a exibir-se neste salão a grande e extraordinária fita MASCARA VERMELHA em 32 partes. Esta fita que tem sido corrida em muitos salões, tem feito sucesso pelo seu entrecho, scenario e guarda-roupa".
13 de Março - "Está despertando grande interesse a fita MASCARA VERMELHA, que o emprezario do cinema vai apresentar ao publico brevemente".
20 de Março - "A fita MASCARA VERMELHA, que o emprezario tem contratada e que deveria estar já a exibir-se, só o poderá ser quando haja correio de Lisboa."
Depois de tanta promoção não é de estranhar que os cinéfilos estremocenses, se outros motivos não houvesse, tenham ficado danados com a Greve dos Correios. Finalmente, o mesmo jornal continuando a referir-se ao citado salão de cinema diz:
10 de Abril - "Continua hoje e amanhã, neste salão, a correr-se a fita de grande espectáculo a MASCARA VERMELHA, terceira e quarta serie."
Daqui depreendemos que só em princípios de Abril ficou normalizada a distribuição do correio de Lisboa.
O referido jornal noticiava ainda:
10 de Abril - "Regressou de Lisboa, aonde foi escolher a fita cinematográfica, que deve ser exibida à que actualmente está sendo corrida no Ciné Estremoz, o sr. Pascoal da Graça".
Este senhor deslocou-se a Lisboa para escolher uma fita que sucedesse ao MASCARA VERMELHA, mas anteriormente não o fez para trazer consigo esta última fita, talvez porque esta já estivesse retida devido à Greve dos Correios. Pela mesma razão não deverá ter recorrido aos serviços de estafeta, que de acordo com o número de 6 de Março, do mesmo jornal, ia a Lisboa, domingos e quintas-feiras.
A propósito de ter regressado de Lisboa, o sr. Pascoal da Graça, é de salientar que na época, face à distância a percorrer e aos meios de locomoção à disposição do público, não era muito vulgar viajar até Lisboa, pelo que os dois semanários de Estremoz davam conta em todos os números dos conterrâneos que viajavam até à capital e na maioria das vezes indicavam os motivos dessa viagem.
Não só os cinéfilos estremocenses sentiram os efeitos da Greve dos Correios. Também os "vates” locais deram um ar da sua graça. Vejamos os versos em jeito de "pé quebrado", publicados a 21 de Março desse ano em "O Eco de Estremoz":

"PELA SEMANA
 
Aqui d'el-rei quem m'acode
Tenho em gréve as mioleiras,
Depenado até mais não
Tenho em gréve as algibeiras.

Quiz resolver esta gréve
Esta gréve endiabrada...
Meto a mão na algibeira
E a gréve estava furada.
 
Ficou apenas de pé
E com aspecto guerreiro
A gréve fenemonal
Dos bacharés em carteiro.
 
Na falta d'estes senhores
Dos grévistas os primeiros.
Tem a gente, por mal nosso
De fazer d'alcoviteiros.

Jorge A.Caius"


(1) - Dado à estampa no Catálogo do Salão Filatélico "Ceres", patente ao público na Escola Superior de Educação do Porto, de 28 de Fevereiro a 1 de Março de 1992.
(2) - A Greve teve lugar sobretudo entre 3 e 20 de Março de 1920, mas nalguns locais ultrapassou este período.
(3) - Bilhete-postal "Ceres", de 2 centavos, ocre, impresso em cartolina camurça, nº 61 O.M.
(4) - COPRº E TELº / ESTREMOZ. A marca é do tipo de 1880 e batida a preto. Tem a particularidade do primeiro R de CORRº estar partido, lendo-se COPRº em vez de CORRº. Aquela letra aparece já partida em correspondência datada de 1912.
(5) - Integrada no movimento grevista do funcionalismo público, a Greve dos Correios teve início a 3 de Março e visava lutar contra o aumento do custo de vida.
(6) - A estação telegrafo-postal de Estremoz ficava em 1920 situada no nº 38-1º do Largo da República.
(7) - Estremoz só foi elevada à categoria de cidade pelo decreto 12227 (Diário do Governo nº 192 - 1ª série, de 31 de Agosto de 1926).
(8) - Embora só publicada a 3 de Abril, a notícia foi redigida antes de 30 de Março.

Hernâni Matos
(O presente texto foi publicado como artigo
 “NOVO EPISÓDIO DA GREVE DOS CORREIOS DE 1920”
in Correio do Alentejo, nº 5, Estremoz, Setembro de 1993.)
Publicado inicialmente neste blogue a 24 de Julho de 2012

quarta-feira, 23 de julho de 2025

Assobios de Jorge da Conceição

 

Galinha e pintos.

Prólogo
Os assobios são Bonecos de Estremoz com morfologia muito própria e que pela sua funcionalidade são simultaneamente instrumentos musicais e brinquedos. Sob um ponto de vista morfológico são habitualmente classificados em zoomórficos, antropomórficos e compostos.
Até ao presente, a produção de Jorge da Conceição, a qual é objecto do presente estudo, apenas comporta assobios zoomórficos, mais propriamente galináceos (galos, galinhas e pintos)

Geometria das bases e dimensões das figuras
Base ovóide com cerca de 6 cm de largura e 8,5 cm de comprimento, incluindo o tubo de sopro. Altura variável..

Modelação
Modelação muito minuciosa, rica em pormenores e que valoriza a perfeição. Tubo de sopro adoçado na embocadura.

Assentamento das figuras nas bases
Figuras assentes sensivelmente ao centro da base ovóide, viradas sempre para o lado do tubo de sopro, de modo que a sua parte frontal esteja virada para o assobiador.

Decoração
À semelhança da modelação, a decoração é também pormenorizada. Bases com fundo verde bandeira, pintalgadas com pintas brancas, amarelas, laranja e zarcão, de forma regular, pouco espaçadas e mesmo parcialmente sobrepostas, as quais além de decorarem a base, embelezam o conjunto. Tubo de sopro de cor verde bandeira.

Envernizamento
Utilização de verniz mate.

Epílogo
Os assobios de Jorge da Conceição são caracterizados por uma modelação e uma decoração muito minuciosas, fortemente naturalistas, que os transformam em peças extremamente apelativas. Deste modo, transcendem o âmbito restrito daquilo que podiam ser apenas brinquedos e instrumentos musicais, passando a ser também objectos decorativos, o que está em consonância com a alma do barrista. Jorge da Conceição demanda a beleza, a elegância, o equilíbrio e a harmonia em tudo o que faz.
Obrigado, Mestre!



Galinha no ninho com arco de flores

Galinha no choco

Cesta de ovos

Galo no poleiro alentejano

Galo no arco

Galo no jardim

Galo no roseiral

Galo na vinha

Galo na azinheira

Galo no pinheiro

Galo no poste

Galo