sexta-feira, 6 de setembro de 2013

As Festas da Exaltação da Santa Cruz de 1963 em Estremoz

 
 Programa das Festas.

Para falar das Festas da Exaltação da Santa Cruz de 1963, em Estremoz, há que recuar no tempo, até 1960. O Estado Novo queria à viva força um Palácio da Justiça no centro da cidade de Estremoz, pelo que contra a vontade dos estremocenses ordenou a demolição da vetusta Igreja de Santo André, cuja demolição começou em Outubro de 1960 e o Palácio da Justiça lá foi construído e inaugurado a 3 de Abril de 1964, com pompa e circunstância pelo então Presidente da República, Almirante Américo Tomaz.
Honra seja feita aqueles que com as armas possíveis – as palavras – lutaram com convicção e emoção, para que tal não acontecesse. Um destaque muito especial para o padre Serafim Tavares, pároco de São Francisco, homem de púlpito que soube usar a tribuna da imprensa local e foi um dos líderes da resistência ao crime que viria a ser perpetrado e que foi, sem sombra de dúvida, o maior crime contra o património construído perpetrado até hoje em Estremoz
Havia que ressarcir a Igreja tanto quanto possível da perda irreparável do seu património, daí que a Câmara Municipal de Estremoz, presidida então pelo Dr. Luís Pascoal Rosado (1922-1971), que foi Presidente do Município entre 1961 e 1971, tenha deliberado vir a fazer a entrega à paróquia de Santo André, da inacabada Igreja dos Congregados, propriedade do Município, após a extinção das ordens religiosas em Portugal  ocorrida em 1834, no contexto da consolidação do Liberalismo no país, no final da Guerra Civil entre liberais e absolutistas, nos anos de 1828 a 1834 e que terminaria com a Convenção de Évoramonte.
Na Igreja dos Congregados estava instalado o posto da GNR de Estremoz e as cavalariças da guarda e tudo aquilo era uma dó de alma. A Câmara de então, sob o impulso notável do Dr. Luís Pascoal Rosado tomou nas suas mãos o completamento da fachada da Igreja, cuja empreitada se iniciou em 1961, tendo terminado em 1963, a tempo de nas Festas da Exaltação da Santa Cruz, estar patente aos estremocenses com o esplendor de uma magnífica iluminação.
As Festas desse ano foram as mais grandiosas de sempre. O arraial estava iluminado por doze mil lâmpadas. No centro do Rossio Marquês de Pombal, a Santa Cruz em ferro, executada na Metalurgia Pirra, tendo à frente a maqueta em gesso e em tamanho natural da estátua da Rainha Santa Isabel, esculpida na extinta firma Pardal e Monteiro, por encomenda do município de Coimbra.
Junto  às esplanadas dos cafés existia um grandioso pórtico de entrada nas Festas No recinto destas, para além de lagos de água construídos em alvenaria e de um monumental repuxo, existia um mural gigante pintado pelo nosso conterrâneo Óscar Cavaco. Nele ao centro, o castelo de Estremoz com a altaneira e sempre vigilante torre da Menagem. À sua esquerda, uma alegoria à morte da Rainha Santa no Castelo de Estremoz a 4 de Julho de 1336 e à esquerda uma alegoria à passagem do Condestável D. Nuno Álvares Pereira por Estremoz, antes da sua vitória nos Atoleiros, a 6 de Abril de 1384.
As Festas decorreram entre 1 de Setembro (domingo) e 5 de Setembro (quinta-feira), com alvoradas com salvas de foguetes e morteiros e os alegres acordes das marchas tocadas pelas bandas Municipal e Luzitana, através das ruas da cidade.
No Templo de São Francisco tiveram lugar pelas 12 horas dos dias 1 e 2, missas solenes, a grande instrumental, fazendo-se ouvir o “Coral Sacro do Orfeão Tomaz Alcaide”, dirigido pelo reverendo Padre Carmo Martins. Na Igreja foram recebidos no dia 1 os pendões de todas as freguesias do concelho, que previamente desfilaram pela cidade.
No Rossio havia um coreto suplementar para as bandas locais e visitantes poderem actuar à noite. Houve exposição de artesanato, espectáculo de variedades e festival desportivo na Esplanada Parque, gincana de automóveis no campo de futebol, largada de milhares de pombos correios no pelourinho, jogos florais, espectáculo folclórico na praça de touros, assim como garraiada e tourada. Nesta participaram os cavaleiros Pedro Louceiro e José Maldonado Cortes, então em princípio de carreira, uma vez que no ano passado decorreram 50 anos sobre a sua alternativa. Os matadores eram Manuel dos Santos e José Simões. Participaram ainda os forcados do grupo de profissionais de Lisboa, de Adelino de Carvalho.
O fogo de artifício foi espectacular, tendo o seu lançamento nos dias 2, 4 e 5, sido feito a partir do Castelo. No dia 1 houve fogo preso no lago do Gadanha, local onde decorreria também no dia 3, a pirotecnia das Festas.
Sem sombra de dúvida que o ponto alto das Festas desse ano foi o Cortejo do Trabalho que teve lugar em 5 de Setembro de 1963, a partir das cinco e meia da tarde, na Avenida 9 de Abril. Concebido por Frederico Mestres Carapeta, foi, organizado pela Comissão das Festas com o apoio da Câmara Municipal e que mostrou à população e aos visitantes, os vários sectores do artesanato e indústria locais, bem como os múltiplos aspectos da agricultura e da vida rural de então.
As Festas à Exaltação da Santa Cruz de 1963 foram, sem sombra de dúvida, as mais grandiosas até hoje e decorreram no contexto do completamento da fachada da Igreja dos Congregados, a assinalar a primeira etapa da reparação da perda de património sofrida pela Paróquia com o derrube da Igreja de Santo André.


Medalha de barro editada pela Comissão de Festas.
 O pórtico de entrada nas Festas, junto aos cafés. Fotografia de Rogério de Carvalho (1915-1988).
 Um aspecto parcial do recinto das Festas.Fotografia de Rogério de Carvalho (1915-1988).
 Outro aspecto parcial do recinto das Festas. Fotografia de Rogério de Carvalho (1915-1988).
A iluminação da Igreja dos Congregados. Fotografia de Rogério de Carvalho (1915-1988).
 O desfile dos pendões das Freguesias. Fotografia de Rogério de Carvalho (1915-1988).
Tourada com José Maldonado Cortes. Fotografia de autor não identificado.
fogo de artifício junto ao lago do Gadanha. Fotografia de Rogério de Carvalho (1915-1988).
O Cortejo do Trabalho. Fotografia de Rogério de Carvalho (1915-1988).