sábado, 18 de maio de 2024

Testamento aberto - Políbio Gomes dos Santos

 




Testamento aberto
Políbio Gomes dos Santos (1911-1939)


Só para ver curar minhas pernas partidas
Nas dores eternas
Dos saltos gorados,
Eu amo a aparente inconsciência dos loucos,
Embora fique aos poucos nos meus saltos
Desabridos e falhados.

Apraz-me, no espelho, esta face esmagada,
À força de querer transpor o além
Da minha porta fechada...

Porém,
Seja o que for, que seja,
Se uma CERTEZA alcanço
E uma mulher me beija.

Que importa
Que eu fique molemente olhando a minha porta
Aberta,
Ou que eu parta e a morte me espreite
Num desfiladeiro?...
E quem virá chorar e quem virá,
Se a morte que vier for a de lá
Certeira e minha...
E merecida como um sono que se dorme
Após a noite perdida?...

E que piedade anda a escrever um frágil,
Na embalagem dos ossos
Que trago emprestados...
Que deixarei ficar ao sol e à chuva
E que serão limados
No entulho dos calhaus que também foram rocha?...

Para quê, se mil vezes provoco
Os tombos do chegar e do partir?!
- A minha fragilidade
Foi-me dada
Para me servir.

Ó tu, quem sejas, o balão fui eu!


Políbio Gomes dos Santos (1911-1939)



#Poesia Portuguesa - 196

Epitáfio - Políbio Gomes dos Santos

 




Epitáfio
Políbio Gomes dos Santos (1911-1939)


Menino, bem menino, fiz o meu balão.
Papel de seda às cores…
– Tantas eram!
Ai, nunca mais as vi, nos olhos se perderam.
Quando a tarde morria o meu balão subiu
E tão direito ia, tão veloz correu
Que eu disse: «Vai tombar a lua
E talvez queime o céu.»

Anoiteceu.
E no horizonte o meu balão era uma rosa
Vermelha, não minha, aflitiva,
Murchando,
Poisando sobre água pantanosa
De além.

Ninguém o viu.

Ninguém colheu a angústia dum balão ardendo.
Somente a água verde rebrilhou acesa,
Clamorosa e podre,
Como nos incêndios de Veneza.
E rãs, acreditando o mal mortal e seu,
Foram fugindo, pela noite fria,
Do balão que ardeu.

Ó tu, quem sejas, o balão fui eu!


Políbio Gomes dos Santos (1911-1939)




#Poesia Portuguesa - 195

terça-feira, 14 de maio de 2024

ESTREMOZ - ROTA DO AZULEJO – Até que enfim|

 





Uma newsletter do Município de Estremoz, emitida hoje sob a epígrafe “ROTA DO AZULEJO” , dá conta que: "No intuito de divulgar o nosso património, o Município de Estremoz vai lançar um percurso cultural denominado "Rota do Azulejo", no dia 18 de maio (Dia Internacional dos Museus), através do qual se pretende potenciar o conhecimento e visibilidade do azulejo, mas também a sua fruição pela população e por quem nos visita".
A referida newsletter pode ser lida na integra aqui: https://www.cm-estremoz.pt/pagina/turismo/rota-do-azulejo
Congratulo-me com a iniciativa do actual executivo municipal, pela indiscutível importância de que se reveste. Trata-se de uma iniciativa cuja realização eu já sugerira em 2013, através de crónica publicada no jornal Brados do Alentejo, de 18 de Abril de 2013, sob a epígrafe “Estremoz - Rota do Azulejo” e cuja leitura integral pode ser feita aqui: https://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com/2013/04/estremoz-rota-do-azulejo.html
A minha sugestão não foi acolhida pelo executivo municipal de então, mas a intenção valeu a pena. Foi semente lançada à terra, que acabaria inescapavelmente por germinar. Parafraseando Luía Vaz de Camões, apraz-me concluir:
"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades."
O Município de Estremoz e nós com ele, estamos todos de parabéns.


sábado, 11 de maio de 2024

Atributos, pormenores, estilo e liberdade cromática



Mariano da Conceição (1903-1959)

Prólogo
O presento texto visa clarificar e consolidar conceitos inerentes à Barrística Popular de Estremoz. Tem, pois uma função pedagógica. É ilustrado com imagens de 14 ceifeiras produzidas por 12 barristas, desde os anos 30 do séc. XX, até à actualidade.
A ausência de exemplares de alguns barristas, apenas é devida ao facto de até ao presente não me ter sido possível inclui-los na minha colecção. As aquisições têm ocorrido ao acaso, fruto de circunstâncias e oportunidades. A ausência de exemplares de alguns barristas não significa, de modo algum, um juízo de valor sobre o trabalho dos “ausentes”. É sabido que como coleccionador e investigador da Barrística Popular de Estremoz, tenho dado provas de apreciar o trabalho e a matriz identitária do trabalho de cada um e assim continuará a ser.
Atributos
Na Barrística Popular de Estremoz, cada um dos chamados “Bonecos da Tradição”, goza de determinados atributos. Estes não são mais que as particularidades invariantes que um barrista deve ter em conta na produção de cada uma dessas figuras. Essas particularidades estão associadas a cada uma dessas figuras e ajudam a identificá-las.
Pormenores
Para além das particularidades invariantes atrás referidas, existem outras particularidades variáveis (pormenores) cuja inclusão na manufactura de uma figura, depende do livro arbítrio do barrista.
Estilo
O estilo é a maneira como cada barrista se exprime, fruto do seu modo próprio de observar e interpretar o mundo que o cerca, revelando a sua individualidade através de marcas identitárias que lhe são próprias e que se repetem ao longo da sua produção. Depende de múltiplos factores, entre eles: o talento, a cultura artística, a criatividade e o brio profissional. Deste modo, como resultado da produção, podem resultar figuras mais simples (populares) ou mais elaboradas (eruditas).
A pluralidade de resultados distintos possíveis de obter na produção de uma figura, mesmo dos chamados “Bonecos da tradição”, é reveladora da riqueza da Barrística Popular de Estremoz.
Liberdade cromática
No século XXI surgiram barristas que não trilharam os caminhos habituais de aprendizagem: contexto oficinal e contexto familiar, que condicionam sempre a concepção, a modelação e a decoração. À semelhança do que já se passara com outros, como foi o caso de Sabina da Conceição Santos (1921-2005) e de Mário Lagartinho (1935-2016) que aprenderam por autoformação, o mesmo se veio a verificar com outros como: João Fortio (1951- ), Rui Barradas (1953- ), Carlos Alves (1958- ) e Jorge Carrapiço (1968- ). Por outro lado, no Palácio dos Marqueses de Praia e Monforte em Estremoz, teve lugar em 2019 um Curso de Formação sobre Técnicas de Produção de Bonecos de Estremoz, orientado tecnicamente pelo barrista Jorge da Conceição (1963- ). Aqui os formandos aprenderam e aplicaram os fundamentos da modelação e da decoração para virem a aplicar na sua actividade como barristas, sem a preocupação da obrigatoriedade de ter que seguir os traços identitários do formador ou de qualquer outro barrista, nomeadamente no que respeita a cores. Pelo contrário, ficaram com a consciência de que deviam procurar duma forma incessante o seu próprio caminho e a sua própria matriz identitária.
Epílogo
A Barrística Popular de Estremoz quer-se viva, pelo que deve reflectir os anseios e a sensibilidade dos seus criadores, para além dos contextos de produção ou inerentes ao tema abordado, mas sempre com integral respeito pelo modo de produção e pela estética dos Bonecos de Estremoz.
A Barrística Popular de Estremoz não se pode limitar a ser uma linha de montagem e de reprodução dos modelos criados pelos mestres e pelas mestras. Se o fosse, estaria embalsamada no tempo e seria merecedora de um funeral condigno.
É preciso perceber de vez que a Barrística Popular de Estremoz não é como o Pai-nosso que só pode ser dito de uma maneira.



Sabina da Conceição Santos (1921-2005)


Sabina da Conceição Santos (1921-2005)

Liberdade da Conceição (1913-1990)

José Moreira (1926-1991)

José Moreira (1926-1991)

Fátima Estróia (1948-   )


Irmãs Flores (1957, 1958 -    )

Quirina Marmelo (1922-2009)

Isabel Catarrilhas Pires (1955 -  )

Carlos Alberto Alves (1958 - )

Inocência Lopes (1973 -    )

Ana Catarina Grilo (1974 -   )

Joana Santos (1978 - )

quarta-feira, 8 de maio de 2024

O Nosso Mundo é Este - José Gomes Ferreira



 

O Nosso Mundo é Este
José Gomes Ferreira (1900-1985)

 

O nosso mundo é este
Vil suado
Dos dedos dos homens
Sujos de morte.

Um mundo forrado
De pele de mãos
Com pedras roídas
das nossas sombras.

Um mundo lodoso
Do suor dos outros
E sangue nos ecos
Colado aos passos…

Um mundo tocado
Dos nossos olhos
A chorarem musgo
De lágrimas podres…

Um mundo de cárceres
Com grades de súplica
E o vento a soprar
Nos muros de gritos.

Um mundo de látegos
E vielas negras
Com braços de fome
A saírem das pedras…

O nosso mundo é este
Suado de morte
E não o das árvores
Floridas de música
A ignorarem
Que vão morrer.

E se soubessem, dariam flor?

Pois os homens sabem
E cantam e cantam
Com morte e suor.

O nosso mundo é este….

( Mas há-de ser outro.)

 

José Gomes Ferreira (1900-1985)

Hernâni Matos

#Poesia Portuguesa - 194

Choro! - José Gomes Ferreira

 



 (1900-1985)

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
as crianças violadas
nos muros da noite
húmidos de carne lívida
onde as rosas se desgrenham
para os cabelos dos charcos.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
diante desta mulher que ri
com um sol de soluços na boca
— no exílio dos Rumos Decepados.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
este sequestro de ir buscar cadáveres
ao peso dos poços
— onde já nem sequer há lodo
para as estrelas descerem
arrependidas de céu.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
a coragem do último sorriso
para o rosto bem-amado
naquela Noite dos Muros a erguerem-se nos olhos
com as mãos ainda à procura do eterno
na carne de despir,
suada de ilusão.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
todas as humilhações das mulheres de joelhos nos tapetes da súplica
todos os vagabundos caídos ao luar onde o sol para atirar camélias
todas as prostitutas esbofeteadas pelos esqueleto de repente dos espelhos
todas as horas-da-morte nos casebres em que as aranhas tecem vestidos para o sopro do
silêncio
todas as crianças com cães batidos no crispar das bocas sujas
de miséria...

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro...

Mas não por mim, ouviram?
Eu não preciso de lágrimas!
Eu não quero lágrimas!

Levanto-me e proíbo as estrelas de fingir que choram por mim!

Deixem-me para aqui, seco,
senhor de insónias e de cardos,
neste ódio enternecido
de chorar em segredo pelos outros
à espera daquele Dia
em que o meu coração
estoire de amor a Terra
com as lágrimas públicas de pedra incendiada
a correrem-me nas faces
— num arrepio de Primavera
e de Catástrofe!

 

José Gomes Ferreira (1900-1985)

Hernâni Matos

#Poesia Portuguesa - 193

terça-feira, 7 de maio de 2024

Ó vagarosa noite - Eduardo Valente da Fonseca




Ó vagarosa noite
Eduardo Valente da Fonseca (1928-2003)


Ó vagarosa noite a vir de manso
profunda e densa pela cidade toda.
A estas horas onde em outros lados
floresce amoroso o sol por sobre terras?
Ó alegria de me ser em tudo.
ó humildes irmãos do grande mundo
deitados sobre o sonho como quem
aguarda o belo tempo de haver tudo!

Eduardo Valente da Fonseca (1928-2003)


#Poesia Portuguesa - 192