segunda-feira, 29 de abril de 2024

Poesia Portuguesa - 156

 




Cantar de Amigo
Joaquim Namorado (1914-1986)


Eu e tu: milhões!…

Entre nós — perto ou longe!
— entre nós rios e mares
montanhas e cordilheiras…

Eu e tu perdidos
nesta distância sem fim do desconhecido.

Eu e tu unidos
para além das cordilheiras
por sobre mares de diferença
na comunhão de nossos destinos confundidos
— a minha e a tua vida
correndo para a confluência
num mesmo Norte.

Eu e tu amassados
nesta angústia que é de nós,
minha e tua,
e mais do que de nós…

Eu e tu
carne do mesmo corpo
amor do mesmo amor
sangue do mesmo sacrifício!

Eu e tu
elos da mesma cadeia
grãos da mesma seara
pedras da mesma muralha!

Eu e tu, que não sei quem és.
Que não sabes quem sou:

— Eu e tu: Amigo! Milhões…


Joaquim Namorado (1914-1986)

Hernâni Matos

Poesia Portuguesa - 155



 

ARS
Joaquim Namorado (1914-1986)


Os muros brancos da indiferença
desafiam os pintores
a pintar neles a esperança

amarelos sóis girando
roxos violetas azuis
gente animais árvores flores
como há e não há inventados
largas janelas abertas

para a vida e para o sonho
vermelhos entusiasmos
castanhos terra serenos
verdes e verdes terrenos
de horizontes rasgados

onde caibam os países
e os continentes e os mares ainda por descobrir
e o homem caiba inteiro
na verdadeira grandeza
em profundas perspectivas

tudo o que é grande e pequeno
dos outros o que a nós pertence
de nós o que a todos damos
a noite intensa povoada de sóis
que outros dias iluminam

a esperança neles pintada

a Paz o Pão o Amor.

E nas mansardas escuras
com os brancos muros em frente
da gelada indiferença
os artistas febris
esboçam em traços difusos
a própria morte do sonho.

Mas já na sombra da sombra
que sobre os brancos muros se estende
O coro das carpideiras
tece flores de retórica
para coroar-lhes as caveiras
e os conservadores misantropos
dos museus do que já foi
fazem o espólio das artes
com requintes de molduras.

Nos muros brancos da indiferença
gela o frio esquecimento…


Joaquim Namorado (1914-1986)

Poesia Portuguesa - 154




 
Poeta
Joaquim Namorado (1914-1986)


Poeta
A poesia é uma máquina
de produzir entusiasmo
e é preciso que os versos sejam verdadeiros
na vida dos poetas
como a tua mão erguida
sobre os anos futuros
quando o próprio bronze das estátuas se cobrir
do verdete do esquecimento
e das urtigas
entre as ruínas de um passado morto
e as pequenas plaquetes dos sentimentos pobres
dos líricos delírios
das doidas metáforas sem sentido
louvadas pela crítica
só tiverem o arqueológico encanto
de um cabelo de Ofélia. ..

Então
os teus versos estarão na primeira fila dos pioneiros
cobertos de cicatrizes
porque fizeram todo o caminho do tempo
multiplicados por milhões de vozes
pela alta potência dos alto-falantes
como uma bandeira erguida
sobre os anos futuros.

Joaquim Namorado (1914-1986)

Poesia Portuguesa - 153

 


Fábula e Milagre
Joaquim Namorado (1914-1986)


Fábula

No tempo em que os animais falavam.
Liberdade!
Igualdade!
Fraternidade!

Milagre
Onde o santo punha o pé nasciam rosas.
... e o povo lamentava
que não fizesse o mesmo com as batatas.

Joaquim Namorado (1914-1986)

Poesia Portuguesa - 152

 


Aviso á navegação
Joaquim Namorado (1914-1986)



Alto lá!
Aviso à navegação!
Eu não morri:
Estou aqui

na ilha sem nome,
sem latitude nem longitude,
perdida nos mapas,
perdida no mar Tenebroso!

Sim, eu,
o perigo para a navegação!
o dos saques e das abordagens,
o capitão da fragata
cem vezes torpedeada,
cem vezes afundada,
mas sempre ressuscitada!

Eu que aportei
com os porões inundados,
as torres desmoronadas,
os mastros e os lemes quebrados
- mas aportei!

Aviso à navegação:
Não espereis de mim a paz!

Que quanto mais me afundo
maior é a minha ânsia de salvar-me!

Que quanto mais um golpe me decepa
maior é a minha força de lutar!

Não espereis de mim a paz!
Que na guerra
só conheço dois destinos:

ou vencer – ai dos vencidos! –
ou morrer sob os escombros
da luta que alevantei!

- (Foi jeito que me ficou
não me sei desinteressar
do jogo que me jogar.)

Não espereis de mim a paz,
aviso à navegação!

Não espereis de mim a paz

Joaquim Namorado (1914-1986)

Hernâni Matos

Poesia Portuguesa - 151

 




Liberdade
Joaquim Namorado (1914-1986)


Quem marca uma fronteira
àquela nuvem
a asa que é a sua sombra
onde mora?

Sob as mordaças
calam-se as palavras
mas ninguém te cala
pensamento.

Quem manda à semente
não germines
ao fruto dela
que o não seja?

Amarram-se os pulsos
com algemas
mas ninguém te amarra
pensamento.

Quem impõe ao dia
que não nasça
ao sol que é a sua fonte
que não brilhe?

Fecham-se as janelas
com tapumes
mas ninguém te cega
pensamento.

Quem diz ao amor
é impossível
à lembrança que é seu laço
que o não seja?

Separam-se os amantes
na distância
ninguém te roubará
meu pensamento.

Joaquim Namorado (1914-1986)

Poesia portuguesa - 150

 



Portwine
Joaquim Namorado (1914-1986)


O Douro é um rio de vinho
que tem a foz em Liverpool e em Londres
e em Nova-York e no Rio e em Buenos Aires:
quando chega ao mar vai nos navios,
cria seus lodos em garrafeiras velhas,
desemboca nos clubes e nos bars.
O Douro é um rio de barcos
onde remam os barqueiros suas desgraças,
primeiro se afundam em terra as suas vidas
que no rio se afundam as barcaças.
Nas sobremesas finas, as garrafas
assemelham cristais cheios de rubis,
em Cape-Town, em Sidney, em Paris,
tem um sabor generoso e fino
o sangue que dos cais exportamos em barris.
As margens do Douro são penedos
fecundados de sangue e amarguras
onde cava o meu povo as vinhas
como quem abre as próprias sepulturas:
nos entrepostos dos cais, em armazéns,
comerciantes trocam por esterlino
o vinho que é o sangue dos seus corpos,
moeda pobre que são os seus destinos.
Em Londres os lords e em Paris os snobs,
no Cabo e no Rio os fazendeiros ricos
acham no Porto um sabor divino,
mas a nós só nos sabe, só nos sabe,
à tristeza infinita de um destino.
O rio Douro é um rio de sangue,
por onde o sangue do meu povo corre.
Meu povo, liberta-te, liberta-te!,
Liberta-te, meu povo! – ou morre.


Joaquim Namorado (1914-1986)

Hernâni Matos