segunda-feira, 4 de abril de 2022

Até que enfim, arranjei um tacho!


Tacho com tampa em louça vidrada de Redondo. Olaria desconhecida. 1ª metade do séc. XX.

Lá na vila do Redondo
Fazem-se pratos e tijelas:
Fazem-se telhas e adobinhos,
Alguidares e Panelas
(Cancioneiro Popular)

Apontado por não ter tacho
A minha vida é bem conhecida de todos, muito em especial pelo círculo próximo de amigos. Sabem por onde ando, sabem o que faço e sabem o que tenho ou não tenho. De tal modo que, de vez em quando, há alguém que se lembra de me dizer coisas do género:
- Oh, Hernâni! Tens quase tudo. Só te falta arranjar um tacho.
A minha resposta tem sido, desde sempre, invariavelmente a mesma:
- Dêem tempo ao tempo, que lá chegará a minha vez.
São trocas de palavras que remontam ao “Tempo da outra Senhora” e que não foram amordaçadas pelo 25 de Abril.

A aparição do tacho
Enquanto estive no activo, nunca fui capaz de arranjar um tacho, situação que não se modificou com a minha aposentação. Todavia, muito recentemente vi aquela condição alterada. Na verdade, com grande surpresa minha e quando não estava à espera, acabei por arranjar um tacho. Pensei imediatamente nos amigos que de há muitos anos a esta parte, me vêm massacrando com a sacramental pergunta:
- Hernâni! Quando é que arranjas um tacho? Olha que o tempo está a passar.
De imediato, disse para comigo mesmo:
- Hernâni! Tu que és acusado de ser parco em palavras, tens que te mostrar pródigo nelas e dizeres-lhes das boas.
Foi tiro e queda, que é como quem diz, dito e feito. Quando a minha tertúlia de amigos se voltou a juntar, alguém disparou:
- Então, Hernâni, já conseguiste arranjar um tacho ou não?
Como devem calcular, ficaram varados quando eu atroei os ares com um estrondoso e sonoro:
- Já cá canta!
Fui, de imediato, aclamado pelos meus amigos, o que me levou a agradecer-lhes com a mão direita no coração. Simultaneamente, todos quiseram saber qual era o meu tacho, pelo que tive de os acalmar, dizendo-lhes:
- Antes de vos dizer qual é o meu tacho, têm de ouvir um pequeno discurso que preparei para esta memorável ocasião, o qual intitulei “Discurso do tacho”. Passo de imediato a proferi-lo.

Discurso do tacho
Caros amigos:
Vocês sabem que a palavra “tacho” pode ser encarada sob vários prismas? Segundo determinada óptica, “tacho” corresponde a “lugar rendoso”, associado a uma “posição social privilegiada com benesses". Para além disso, “ter um bom tacho” é sinónimo de “ter um emprego bem remunerado”. Todavia, “tacho” pode ser a designação atribuída, quer à “cara”, quer à “cabeça“. Paralelamente, “tacho” é uma denominação outorgada, tanto à “cozinheira” como à “refeição”. Por isso, “dar para o tacho” equivale a “dar para a comida”. “Tacho” era ainda, antes do 25 de Abril, o epíteto atribuído à famigerada “Polícia de Vigilância e Defesa do Estado”. Já “tacho areado” é alcunha concedida a “pessoa de pele avermelhada e cabelo ruivo”. Por outro lado, o diminutivo “tachinho” designa “barrete pequeno e redondo, usado pelos alunos do Colégio Militar e pelos Pupilos do Exército”. Quanto a “tachola” designa indistintamente “dente incisivo muito grande” ou “prego de tamanco”.
Já que falei em “tacho”, por uma questão de igualdade de género, tenho de falar em “tacha”, denominação aplicável a qualquer “dente”. Daí que o plural “tachas” designe “dentadura”, pelo que “mostrar a tacha” é “mostrar os dentes” e “arreganhar a tacha” é rir”.
Concomitantemente “tacha” é a designação atribuída a “prego pequeno de cabeça chata” ou a qualquer “nódoa”. Daí que “pôr tacha em…” seja “apontar defeitos a…”. Finalmente “tachada” é “bebedeira” e “tachar” é “embebedar”.
Caros amigos:
Se calhar já estão fartos de me ouvir falar de: “tachos”, “tachinhos”, “tacholas”, “tachas, “tachadas” e “tachar”. Não vos serve de nada, já que estou a ser maçador de uma forma propositada. E sabem porquê? Para me fazer pagar de todo o tempo que me tomaram, quando me andaram a atazanar os ouvidos, perguntando continuamente quando é que arranjava um tacho. Todavia, podem ficar descansados que eu não abalo daqui sem vos revelar qual é o meu tacho. E mais: vou mostrar-vos já o tacho!

A revelação do tacho
Não dei tempo a que ninguém dissesse nada e de rompante abri uma pequena mala de mão, donde retirei e exibi o tacho que esteve na origem de todo este imbróglio, o qual passei de imediato a descrever:
- Pequeno tacho, rodado, com tampa, em barro de Redondo, de tonalidade vermelha e vidrado. A base é circular e plana. O corpo é cilíndrico, mais largo que alto e o bordo é arredondado. Abaixo do bordo estão dispostas duas pegas, de secção rectangular, em forma de U com grande abertura e pequena altura, colocadas em posições diametralmente opostas. A superfície interior do tacho, o bordo e a metade superior da superfície exterior, receberam engobe amarelo palha, o mesmo se passando com o interior e o bordo da tampa. O engobe amarelo recebeu alguns salpicos verdes, distribuídos irregularmente.
E prossegui:
- Ficam deste modo a saber qual foi o tacho que arranjei como coleccionador de cerâmica redondense. Se estavam à espera de outra coisa, enganaram-se redondamente. Todavia, já tenho um tacho que dá para vocês me deixarem de estar a atormentar continuamente com o mesmo assunto. E sabem uma coisa? Apesar de o tacho ser pequeno, vocês acabam de comer pela medida grande!
Dito isto, todos os meus amigos ficaram mansos, sem, todavia, deixarem de me aclamar. Dentre eles, houve um que interpretando o sentimento dos outros, proclamou:
- A partir de hoje, ninguém mete o nariz no tacho dos outros. Cada um fica com o seu. Tacho, é claro.
E a tertúlia foi dada por encerrada.

Pergunta aos leitores
- Digam-me lá se mereceu a pena ou não, esperar pelo meu tacho estes anos todos? É claro que mereceu. É que eu sou paciente e “quem procura sempre alcança”.

BIBLIOGRAFIA
LAPA. Albino. Dicionário de Calão. Edição do Autor. Lisboa, 1959.
POMBINHO JÚNIOR, J.A. – Achegas para o Cancioneiro Popular Corográfico do Alto Alentejo in ALTO ALENTEJO II. Junta de Província do Alto Alentejo. Évora, 1957.
SANTOS, António Nogueira. Novos dicionários de expressões idiomáticas. Edições João Sá da Costa. Lisboa, 1990.
SIMÕES, Guilherme Augusto. Dicionário de Expressões Populares Portuguesas. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1993.

Publicado em 4 de Abril de 2022



sexta-feira, 1 de abril de 2022

Cerâmica redondense personalizada

 

Fig. 6 - Amália. Bacia de grandes dimensões. Ti Rita (1891-1974).

Preâmbulo
A clareza e o rigor na transmissão do presente texto, exige que precise a etimologia e a semântica de um vocábulo nele usado. A palavra “personalizar”, provém do étimo latino “personãle”, de “persona“ (pessoa). Trata-se de um verbo transitivo que sob o ponto de vista semântico pode ter vários significados: 1 - Tornar pessoal; 2 - Designar pelo nome; 3 - Dar carácter original a um objecto fabricado em série; 4 - Adaptar às preferências ou necessidades do utilizador. No âmbito do presente texto, o termo “personalizar“ deve ser entendido como sendo possuidor dos dois últimos significados.

Personalizar para relevar
As diversas tipologias oláricas redondenses encontram-se muitas vezes personalizadas, o que tanto pode ter acontecido, quer a pedido de clientes quer por iniciativa dos oleiros. Uma tal personalização manifesta-se na decoração da peça cerâmica sob a forma de antropónimos ou figuras antropomórficas que representavam ou supostamente pretendiam representar alguém, tanto da comunidade local como figura pública de âmbito histórico ou do panorama artístico nacional.
A personalização era esgrafitada e pintada, o que podia ser feito de duas maneiras: 1 – Sem recurso a figuras antropomórficas (bustos ou figuras de corpo inteiro), mas utilizando nomes próprios simples (Fig. 1), nomes próprios compostos (Fig. 2), nome e sobrenome (Fig. 3) e nome completo, ainda que abreviado (Fig. 4). 2 – Com recurso a figuras antropomórficas, as quais podem (Fig. 5) ou não (Fig. 6), ser acompanhadas do nome ou nomes (Fig. 7) das personagens perpetuadas no barro.
A personalização da cerâmica redondense é relativamente vulgar em pratos, alguidares, bacias, tigelas, saladeiras e também aparece em barris e cantarinhas, aparentemente com menor frequência.

Consequências da personalização
A personalização “sui generis” da cerâmica redondense é uma das muitas características que a valorizam em relação a outras cerâmicas de índole popular. Na verdade, uma tal personalização faz com que as peças deixem de ser anónimas por um dos seguintes motivos:
1 - Revelam-nos quem é o(a) utilizador(a) / proprietário(a), o(a) qual poderá afirmar coisas do género: “Este prato é meu” ou “Esta tigela é minha”. Neste sentido, a personalização de uma peça olárica transformou-se numa marca de posse, equiparável a um ex-líbris aposto por um bibliófilo num livro da sua biblioteca. 2 - Ao exaltar uma figura pública que anda na berlinda ou está na ribalta e tem admiradores, a personalização potencia o interesse que desperta junto do público, já que adquire ela mesmo uma notoriedade própria, corolário natural da notoriedade da figura pública que ela imortaliza no barro.

Eu e a personalização
Sou apreciador de exemplares oláricos redondenses antigos, os quais na época cumpriram a sua missão: associar-se de uma maneira bijectiva aos seus utilizadores / proprietários ou então imortalizar no barro, figuras gratas à comunidade e nas quais esta se revê. Por um motivo ou pelo outro, são merecedores te todo o meu apreço, pelo que ocupam um lugar de destaque na minha colecção.

BIBLIOGRAFIA
- HOUAISS, António e al. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. 6 vol. Círculo de Leitores. Lisboa, 2003.
- MACHADO, José Pedro. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (5ªedição). 5 vol. Livros Horizonte. Lisboa, 1989.
PERSONALIZAR, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2021. Disponível em https://dicionario.priberam.org/personalizar [consultado em 01-04-2022].

Fig. 1 - Inscrição "JACINTO". Prato covo de grandes dimensões.
Álvaro Chalana (1916-1983).

Fig. 2 - Inscrição "Maria Izabel". Saladeira de médias dimensões.
Olaria desconhecida. Data desconhecida.

Fig. 3 - Inscrição "viulante ventura". Bacia de grandes dimensões.
Álvaro Chalana (1916-1983).

Fig. 4 - Inscrição “OFERECE F. R. Cte / A J. FALÉ / BARBEIRO / SM”. Borracha.
Olaria F. R. Cte, 1941.

Fig. 5 - Inscrição "MANUEL DOS SANTOS". Bacia de grandes dimensões.
Mestre Álvaro Chalana (1916-1983). 

Fig. 7 - Inscrições "BENFICA", "CARLOS MANUEL" e "RUI AGUAS".
Olaria desconhecida. Data desconhecida.

terça-feira, 29 de março de 2022

A vida eterna das cousas


Bacia com ilustração de desconhecido, da autoria de oleiro desconhecido, em data
desconhecido. Algures na Vila de Redondo.


Descrição de uma bacia
Bacia circular, de grandes dimensões, rodada, de covo acentuado, de bordo liso, esponjado a verde, sem interrupções.
Engobe amarelo palha.
Covo da bacia ornamentado por duas cercaduras, esgrafitadas e pintadas em ocre castanho, uma no topo e outra no fundo da caldeira, qualquer delas constituída pela repetição do símbolo gráfico da vírgula, ao longo de toda a extensão horizontal do covo. As vírgulas encontram-se dispostas segundo um alinhamento paralelo à abertura da bacia, com a componente pontual assente numa circunferência imaginária e a parte curvilínea apontada para o fundo da bacia e orientada no sentido horário.
Fundo com decoração esgrafitada e pintada com base em tricromia verde-amarelo-ocre castanho, com contornos a ocre castanho.
Ilustração constituída por figura antropomórfica masculina, com ar sorridente e cabelo verde ondulado, com risca ao meio. O homem enverga um casaco amarelo tipo paletó, com virados verdes e uma camisa castanha, enfeitada com uma gravata às riscas verdes e castanhas, inclinadas do lado esquerdo para o lado direito da figura.

As marcas do tempo
Estamos em presença de uma bacia esbeiçada, estalada, com falhas no engobe e no vidrado, o qual se encontra picado e manchado no fundo. Trata-se de um exemplar com claras marcas de uso e de acidentes no decurso da sua utilização.
Esta bacia encerra em si, os segredos da sua estória de vida: tanto pode ter sido utilizada num lavatório para lavar rostos e mãos, como pode ter sido usada como recipiente para conter matérias-primas culinárias ou o resultado final de requintadas artes de Pantagruel, que encheram as medidas a alguém, que é o mesmo que dizer lhe fizeram arregalar a vista, criar água na boca, estimular o palato e confortar o estômago. Não sabemos.
Espécimes deste jaez, são como as árvores: morrem de pé. Na verdade, de acordo com a lei de Lavoisier, “Na Natureza, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”. Por isso, esta bacia cuja funcionalidade era o serviço caseiro diário, ao ser abatida ao seu uso inicial, transformou-se num objecto decorativo, cuja exposição numa parede, valoriza e qualifica a casa onde se encontra.
Para além de nos contar a sua estória de vida, a bacia fala-nos ainda e muito sobre a magia das mãos do mesteiral que lhe conferiu forma, luz e cor. Nesse sentido, ela é também um monumental registo identitário.

Monumento ao oleiro desconhecido
A bacia cuja decoração ilustra alguém desconhecido, ilustre ou não e que patenteia em si um monumental registo identitário, revela-se por fim como um monumento ao oleiro desconhecido. Quem foi ele? Quando é que amassou e coloriu o barro para erigir assim um monumento à sua própria Memória? Não sabemos. Apenas sabemos que foi um mesteiral de antanho, de “Redondo, terra de oleiros e cardadores” que lhe deu vida, a qual para nosso conforto espiritual, a lei de Lavoisier assegura ser eterna.

quinta-feira, 24 de março de 2022

Bonecos de Redondo?

 


Fig. 1 - Bonecos de Redondo?

Em 2010 comprei a um vendedor local no Mercado das Velharias em Estremoz, um boneco habitualmente designado por DANÇARINO (Fig. 2) e que se enquadra na categoria das marionetas ou fantoches. Trate-se de um exemplar de arte pastoril alentejana, bem antigo e de autor desconhecido, sobre o qual escrevi então o texto O DANÇARINO
onde expliquei como é que o mesmo era manipulado, recorrendo a um varão que era introduzido na abertura do peito.
Há duas semanas e no mesmo local, comprei a um vendedor de fora, 2 bonecos que se enquadram na categoria anterior, ainda que não apresentem o orifício atrás referido. Todavia, apresentam como que um gancho implantado na cabeça, o qual decerto servirá para a sua manipulação. Só diferem dos Bonecos de Santo Amaro, dos Bonecos de São Bento do Cortiço e dos Bonecos de Santo Aleixo, porque estes apresentam uma argola implantada na cabeça, sendo a partir daí, manipulados com um cabo.
Segundo o vendedor, estes bonecos foram por eles comprados há já algum tempo, a um artesão de Redondo, entretanto falecido e cujo nome desconhece.
Pergunto ao leitor:
- Conhecem algum artesão de Redondo que possa ter produzido estas marionetas?
- Sabem como é que elas eram manipuladas?
- Será legítimo chamar-lhe Bonecos de Redondo?
Todas as respostas serão bem-vindas e por elas vos estou antecipadamente grato.

Fig. 2 - Bailarino.

quarta-feira, 23 de março de 2022

Adriano Martelo e a influência de ti Rita Mestre

 

Fig. 1

Coisas que me acontecem

Colecciono “Cerâmica de Redondo” há mais de 40 anos e a publicação do livro homónimo da autoria do meu estimado amigo, Dr. Carmelo Aires (1), em Julho do ano transacto, foi o rastilho que fez deflagrar o barril de pólvora que há em mim. Sabem porquê? A obra daquele coleccionador/investigador revelou-se uma fonte preciosa de ensinamentos, que me têm aberto os olhos para ver com olhos de ver, a cerâmica daquela “Terra de oleiros e cardadores”, a qual povoa parte da minha casa. De então para cá, dei à luz uma série de textos, que rondam a vintena, nos quais me debruço sobre a cerâmica de Redondo, em termos de tipologia, morfologia, funcionalidade, tecnologia de fabrico, decoração e suas temáticas, cromatismo, História e Etnografia. De certo, que é uma ousadia fazê-lo, mas outra coisa não poderia fazer, já que sou um incorrigível contador de estórias. Estas têm sido publicadas no meu blogue “Do Tempo da Outra Senhora” e na minha página do Facebook, onde tenho amigos e seguidores, os quais têm a gentiliza de ler o que me vem à cabeça. Um deles, o Eng. Mário Tavares, contactou-me dizendo que tinha uns pratos (Fig. 1 a Fig. 6) que comprara em Redondo há uns largos anos e dos quais gostava muito. Facultou-me também as respectivas imagens, que acabaram por constituir o ingrediente indispensável para confeccionar este escrito. Bem-haja por isso.

Descrição dos pratos
Trata-se de pratos circulares, rodados, de covo pouco acentuado, de médias dimensões, de aba lisa, ligeiramente côncava. Decoração esgrafitada e pintada com base em tricromia verde-amarelo-ocre castanho, sobre fundo creme. Toda a pintura tem contornos a ocre castanho.
A decoração das abas tem por base a repetição de um motivo decorativo ao longo de uma circunferência imaginária situada sobre a aba. Há dois tipos de motivos: geométricos variados, mais ou menos complexos (predominantes) e fitomórficos (mais raros).
Se uma aba é decorada por um determinado motivo geométrico, este repete-se ao longo da extensão de toda a aba, encadeando-se nos seus congéneres e ficando a cadeia encerrada (Fig. 1 a Fig. 4 e Fig. 6).
Se uma aba é decorada por um determinado motivo fitomórfico, este repete-se ao longo da extensão de toda a aba, mas afastado dos seus congéneres (Fig. 5).
A decoração da aba é completada por dois filetes em ocre castanho, um junto ao bordo e o outro junto à caldeira.
Os temas utilizados na decoração do fundo do prato são: um ramo de flores (Fig. 1), um ramo de flores num cesto (Fig. 2), passarinhos pousados em ramos de árvores (Fig. 3 e Fig. 4), uma casa (Fig. 5) e ave a pescar peixes do rio (Fig. 6).
Na parte inferior da caldeira e junto ao filete, ostenta a marca manuscrita “Martelo” [i]. No tardoz, após a aplicação do engobe foi esgrafitada a marca “REDONDO PORTUGAL / A Martelo 25-5-86”, distribuída por duas linhas.

Comentários
Sem sombra de dúvida, que tanto a decoração das abas, como os temas do fundo, de cunho verdadeiramente “naif”, foram inspirados em ti Rita Mestre (1891-1974), mas não há risco de confusão entre a produção de um e do outro, já que a perfeição dos desenhos é maior em Ti Rita, que de resto utiliza a tricromia verde-amarelo-ocre castanho em tons mais fortes que Adriano Martelo. Para além disso, este último pinta filetes nos extremos da aba, o que não acontece com ti Rita.
Mais tarde, Adriano Martelo vem a abandonar a tricromia verde-amarelo-ocre castanho e procura outros caminhos na decoração, tanto temáticos como cromáticos. É desse período, um prato pertencente à colecção do autor (Fig. 7) e cuja decoração assenta numa quadricromia, que relativamente à tricromia precedente, apresenta um amarelo ainda mais forte que o usado por ti Rita, ao qual foi ainda acrescentada uma tonalidade de azul claro.

Ponto final
Este texto, tudo o que está à vista, bem como o que está por detrás, são uma demonstração cabal de que é possível utilizar as redes sociais de uma forma positiva, o que me apraz registar aqui.

BIBLIOGRAFIA
(1) - CARMELO AIRES, António. Cerâmica de Redondo – Um Outro Olhar. Câmara Municipal de Redondo. Redondo, 1921.
(2) - CATKERO. Adriano Martelo, o fundador da Casa Martelo. [Em linha]. Disponível em http://catekero.blogspot.com/2008/08/adriano-martelo-o-fundador-da-casa.html [Consultado em 21 de Março de 2022].


[i] Segundo o Dr. Carmelo Aires (1), Adriano Martelo (1916-2002) era em 1959, aferidor da Câmara Municipal de Redondo, altura em que arrendou a antiga oficina de José Hermínio Zorrinho, contratou como mestres oleiros, os irmãos Cabeça e, como decoradora, Ti Isabel Branco, tornando-se ele próprio decorador.
De acordo com o CATEKERO - Blog do Centro de Artes Tradicionais / Antigo Museu do Artesanato - Celeiro Comum (2) , em 1982, quando se reformou da profissão de aferidor, passou a dedicar-se exclusivamente à decoração de peças oláricas de Redondo, as quais eram adquiridas à Olaria do Poço Velho e depois de decoradas eram por si comercializadas.
Adriano Martelo foi o primeiro a marcar as peças por si decoradas, no que viria a ser seguido pelos oleiros da Vila.

Hernâni Matos

Fig. 2

Fig. 3

Fig. 4

Fig. 5

Fig. 6

Fig. 7

domingo, 20 de março de 2022

É tão linda a Primavera…


Prato covo, de grandes dimensões, de aba larga, ligeiramente côncava. Decoração
esgrafitada a ocre castanho e pintada com base em tricromia verde-amarelo-ocre castanho,
sobre fundo amarelo palha. Olaria e decorador desconhecidos. 1ª metade do séc. XX.

Sábado é dia de Mercado
Sábado é o dia em que Estremoz mostra que é uma grande cidade, maior que todas as outras do país. Sábado é o dia em que Estremoz desperta para receber os forasteiros de braços abertos, para depois os apertar num demorado e fraternal abraço. Sábado é o dia em que Estremoz mostra que é maior que si própria. Sábado é o dia em que um movimento desusado faz convergir os forasteiros para a sala de visitas do Rossio. Sábado é para os nativos, a pressa de se levantar da cama e confluir também para o Rossio. É que o Rossio alberga o Mercado de Sábado, um farol que ilumina a cidade, um íman que nos magnetiza a todos, que acelera os nossos corações e torna mais rápidos os nossos passos, para podermos comprar o que por ali há de melhor e nas melhores condições.
Sábado é um balão de oxigénio na economia citadina, que alcança nesse dia uma outra dimensão.

O sábado mantem-nos vivos
Há pessoas que como eu, não saberiam viver sem o sábado. É como se o sábado nos mantivesse vivos. No meu caso, recolector enérgico de testemunhos identitários de tempos idos, quase que não durmo na véspera do grande dia. Sou como um caçador que vai à caça. Por ali deambulo pé ante pé, à coca de memórias materiais que me povoam a mente e aquecem a alma. Vou de manhã cedo e por ali fico a pé firme, até a barriga dar horas. Eu e os vendedores somos duas faces da mesma moeda, que se conhecem e respeitam nos negócios. Por ali tenho amizades, algumas das quais perduram há quase quarenta anos. Mas também surge quem não me conheça e seja tentado a meter o pé na argola, pedindo preços que não têm pés nem cabeça, que me fazem ficar de pé atrás e aos quais tenho que bater o pé. Nos negócios não se pode meter os pés pelas mãos e eu que não gosto de meter o pé em ramo verde, procuro também não perder o pé, dispondo-me a pagar determinados preços do pé para a mão. E é sempre assim.

Um prenúncio de Primavera
Este sábado, dia 19 de Março de 1922, esteve um dia agradável e luminoso, que nos compensou dos dias precedentes, nos quais poeiras vindas do norte de África nos ensombraram os dias. Foi um bom prenúncio da Primavera que de acordo com o calendário começa a 20 de Março e no decurso da qual brotam e florescem plantas. É tão linda a Primavera…e volta sempre! De acordo com o cancioneiro popular: “Primavera, linda flor, / Como ela não há iguais: / Primavera volta sempre, / Mocidade não vem mais!”

Um prato que é um jardim
O prenúncio de Primavera seria enfatizado pela caça a um prato antigo de louça de Redondo, o qual eu sabia que ia por ali aparecer, embora não soubesse bem o que era, mas que passou por três mãos, antes de chegar às minhas. Todavia, eu que sou cão pisteiro, com faro apurado para testemunhos identitários de tempos idos, dali não arredei pé, até dar com ele e ser eu o fim da cadeia de uma sucessão de compras e vendas no espaço de poucos minutos. Fui mais além do que previa, sem todavia perder o pé.
Trata-se de um prato covo, de grandes dimensões, de aba larga, ligeiramente côncava. Decoração esgrafitada a ocre castanho e pintada com base em tricromia verde-amarelo-ocre castanho, sobre fundo amarelo palha.
A aba encontra-se decorada com sucessivos pedúnculos num total de nove, com geometria sinusoidal achatada, ladeados de folhas verdes e que culminam em botões a ocre castanho, orientados no sentido anti-horário.
O fundo está ornamentado com um cachepot amarelo com asas verde e castanho, o qual alberga três pedúnculos encurvados, ladeados de folhas verdes e encimados por flores de corola castanho ocre, pétalas amarelas e sépalas verdes. No cachepot, a palavra "AMOR", esgrafitada a ocre castanho na direcção vertical e o topo das letras dirigido para Leste. 
O covo do prato acha-se enfeitado por sucessivos pedúnculos num total de cinco, com geometria sinusoidal achatada, ladeados de folhas verdes e que culminam em flores de corola castanho ocre, pétalas amarelas e sépalas verdes, orientados no sentido anti-horário.
Diga-me lá o leitor, se o prato é ou não é um jardim?
É tão linda a Primavera…
Hernâni Matos
Publicado inicialmente em 20 de M
arço de 2022

sábado, 19 de março de 2022

Varre, varre, vassourinha

 


Um prato de truz
Recentemente comprei um prato no Mercado das Velharias de Estremoz, prato esse que me encheu as medidas. Sabem porquê? Porque quando o vi, me apercebi que ele tinha muito para me contar. É o que passo a explicar.

Estudo do prato
É um prato raso, de médias dimensões, de aba larga, ligeiramente côncava. Decoração esgrafitada e pintada com base em tricromia verde-amarelo-ocre castanho, sobre fundo creme.
Aba decorada com sucessivos arcos pintados de castanho, com a concavidade dirigida para a parte superior da aba. Nas concavidades assentam porções daquilo que configuram ser girassóis, em verde, amarelo e ocre castanho. Dos pontos de encontro dos arcos partem aquilo que conformam ser porções de folhas, igualmente naquelas três cores.
O fundo está decorado com uma vassoura em ocre castanho, centrada e na posição vertical.
A vassoura encontra-se encimada pela inscrição “ARPI / MONT-O-NOVO / 14-4-97, distribuída por 3 linhas. Por debaixo da vassoura a inscrição “LIMPEZA”. Qualquer das inscrições é em ocre castanho.
Gravado no tardoz, a marca manuscrita “XT REDONDO”, que me revela ser o prato uma criação de Mestre Xico Tarefa (1951 - ).
Colado no tardoz, um autocolante aqui reproduzido, que me revelou o conteúdo parcial da inscrição superior: ASSOCIAÇÃO DE REFORMADOS, PENSIONISTAS E IDOSOS DE MONTEMOR-O-NOVO. A consulta do sítio daquela associação, revelou-me que a mesma foi fundada em Abril de 1979, pelo que a data que integra a inscrição superior, é a data do 18º aniversário daquela Associação.
Restava investigar o porquê da vassoura a decorar o fundo do prato, encimando a inscrição “LIMPEZA”. Para o efeito, contactei aquela associação via email, tendo recebido do seu Presidente de Direcção, José Vicente Grulha, o seguinte esclarecimento, o qual muito agradeço: “Em 1997 foram mandados fazer cerca de 60 pratos para oferecer ao pessoal do trabalho voluntário, cada um deles com o desenho da tarefa que executavam. Entre os quais foram mandados fazer cerca de 15 pratos com o desenho da vassoura, para oferecer às pessoas que faziam a “'Limpeza” das instalações.”

Simbolismo da vassoura
O motivo central de decoração do prato é a vassoura, pelo que creio ser do maior interesse passar aqui em revista, alguns dos simbolismos que lhe estão associados.
A VASSOURA É UM SÍMBOLO DO PODER SAGRADO: Nos templos e santuários de outrora, a varredura era um serviço de culto, através do qual eram eliminados do chão, todos os elementos provenientes do exterior e que vieram conspurcá-lo. Uma tal tarefa só podia ser desempenhada por mãos puras.
A VASSOURA É UM INSTRUMENTO DE MALEFÍCIO: Invertendo-se o papel protector da vassoura, esta transforma-se num instrumento de malefício, símbolo das forças que a vassoura devia ter vencido, mas que se apoderaram dela e pelas quais ela se deixa conduzir. É montadas em cabos de vassoura, que as bruxas se dirigem para o Sabath, reunião de todos aqueles que praticam bruxaria.

Literatura de Tradição Oral
Será interessante destacar aqui a presença da vassoura nos múltiplos domínios da literatura de tradição oral: superstições, provérbios, gíria popular, alcunhas alentejanas, adivinhas, lengalengas e cancioneiro. É o que passo de imediato a fazer:
- SUPERSTIÇÕES: Varrer os pés de uma pessoa faz com ela nunca se case. Varrer a casa ao meio-dia e deitar cisco fora é muito mau, porque se deita fora a fortuna. É mau ter em casa uma vassoura voltada para cima, porque é sinal de bulhas. Colocar uma vassoura ao contrário atrás da porta faz com que uma visita chata vá embora.
- PROVÉRBIOS: A eira grande é que tem que varrer. Quem se esconde pelos cantos é vassoura. Vassoura de casa varre a toda a hora; vassoura de fora, varre e vai-se embora. Vassoura nova sempre varre bem.
- GÍRIA POPULAR: - VARRER A FEIRA (Armar uma grande desordem), - VARRER A TESTADA (Afastar de si toda a culpa), - VARRER DA MEMÓRIA (Esquecer-se completamente), - VARRER DO MAPA (Destruir sem deixar vestígios).
- ALCUNHAS ALENTEJANAS: - VASSOURA DOS PENICOS – A visada tem este nome porque é muito vaidosa (Redondo); - VASSOURINHA – A receptora adquiriu esta alcunha do seu avô, por em criança ser muito irrequieta (Arraiolos); - VASSOURINHA ELÉCTRICA – Epíteto atribuído a mulher muito dinâmica (Portel).
- ADIVINHAS: Destaco duas, cuja solução é “vassoura”. Primeira: “O que é que corre pela casa toda e depois dorme num canto?” Segunda: Uma senhora delicada, / Com a saia rodadinha, / Ao dançar numa casa / Deixa-a muito asseadinha.”
- LENGALENGAS: É bem conhecida a lengalenga intitulada “VASSOURINHA”: "Varre, varre, vassourinha / Varre bem esta casinha / Se varreres bem / Dou-te um vintém / Se varreres mal / Dou-te um rei .” [i]
- CANCIONEIRO: Do cancioneiro poveiro, destaco uma quadra que refere a igualdade perante a morte: “Ai! a morte quando vem, / Com a vassoura, varre a eito;/ Varre pobre, varre rico, / A ninguém guarda respeito.” 
Do Cancioneiro da Serra de Arga, destaco uma quadra de cunho religioso: “Igreja de Arga de Baixo, / Hei-de mandar-te varrer / Com uma vassoura de prata, / Que de ouro não pode ser.” Separo ainda uma de índole brejeira: “O meu amor de brioso / Foi à romaria a Coura; / Lá não havia giestas, / Fizeram dele vassoura.”
É muito popular a “BALADA DAS 7 SAIAS” que integra o reportório da banda de rock portuguesa “Trovante”. Nela há uma estrofe que proclama: “Sete bruxas se encontraram / No monte das sete olaias / Sete vassouras montaram / Menina das sete saias.”

Um prato de se lhe tirar o chapéu
Que dizer do prato que foi objecto do presente texto? Em primeiro lugar, a perfeição na modelação e na decoração, que são timbre de Mestre Xico Tarefa.
Em segundo lugar, que é um prato falante, ilustrado, datado, com marca de oleiro, comemorativo de uma efeméride e oferecido como reconhecimento ao mérito do voluntariado. Por outras palavras: é um prato de se lhe tirar o chapéu.

BIBLIOGRAFIA
CHEVALIER; Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. 6ª ed. José Olímpio. Rio de Janeiro, 1992.
CONSIGLIERI PEDROSO. “Supertições Populares”, O Positivismo: revista de Filosofia, Vol. III. Porto, 1881.
COUTINHO, Artur. Cancioneiro da Serra d'Arga.4ª ed. Artur Coutinho. Viana do Castelo, 2007.
MARQUES DA COSTA, José Ricardo. O livro dos provérbios portugueses. 1ª ed. Editorial Presença. Lisboa, 1999.
NEVES, Orlando. Dicionário de Expressões Correntes. 2º ed. Editorial Notícias. Lisboa, 2000.
RAMOS, Francisco Martins & SILVA, Carlos Alberto da. Tratado das Alcunhas Alentejanas. 2ª edição. Edições Colibri. Lisboa, 2003.
SANTOS GRAÇA, A. O Poveiro – Usos, Costumes, Tradições, Lendas. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 2005.



[i]  “Rei” da moeda da altura.