sábado, 19 de fevereiro de 2022

Exposição Biográfica de Tomaz Alcaide

 


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Transcrito com a devida vénia de
newsletter do Município de Estremoz,
de 16 de Fevereiro de 2022.


De 19 de fevereiro a 27 de março de 2022 vai estar patente, no Teatro Bernardim Ribeiro, a exposição biográfica de Tomaz Alcaide.
Esta exposição é uma compilação de documentos e memórias que traduzem a importância do tenor estremocense, que foi aplaudido de pé nos melhores teatros do mundo.
Segundo um facto narrado pelo Diretor da Orquestra da Ópera de Paris ao senhor Professor Artur Trindade e que vem descrito no Jornal “Brados do Alentejo”, de 19 de maio de 1940, “O público, que não o conhecia ainda, desgostou-se. Alcaide entrou em cena, com o teatro a abarrotar de gente.
Houve sussurros, arrastar de pés e outras precipitadas manifestações de descontentamento. Mas o nosso compatriota, impõe-se, cria, com a sua presença e a sua arte divina, um ascendente imperativo sôbre o público de Paris; e com tal galhardia se houve que, no fim do 2º acto, aquêle mesmo público descontente, se ergueu num delírio que eu nunca saberia descrever, e que foi uma das maiores apoteoses com que terá sido festejado um artista lírico.”.
Em 2011 o Município de Estremoz entregou-lhe o título de Cidadão Honorário e a Medalha de Ouro da Cidade, no dia em que depositou as suas cinzas no monumento erguido em sua homenagem, junto à casa onde nasceu, a 16 de fevereiro de 1901, data que, 121 anos depois, é motivo para mais uma exposição e mais uma cerimónia de deposição de cinzas, desta vez, da sua esposa Asta-Rose Alcaide.
Visite a exposição do homem que correu o mundo, mas que nunca abdicou da terra que o viu nascer, palavras do próprio publicadas numa nota num livro autobiográfico que publicou em 1961 chamado “Tomaz Alcaide - um cantor no palco e na vida”: “… Deus fez-me nascer em Portugal e por nada deste mundo renegaria a minha pátria.”.
Hernâni Matos

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Cerimónia de deposição de cinzas de Asta-Rose Alcaide

 

Estátua da autoria do escultor Domingos Soares Branco (1925-2013), inaugurada em
1987 pelo então Presidente da República, Mário Soares (1924-2017).
Fotografia de Município de Estremoz

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Transcrito com a devida vénia de
newsletter do Município de Estremoz,
de 15 de Fevereiro de 2022.


O monumento em homenagem a Tomaz Alcaide será palco, dia 19 de fevereiro, pelas 15:30 horas, da cerimónia de deposição das cinzas de Asta-Rose Alcaide.
Asta-Rose Alcaide nasceu no Brasil, em 1922, local onde faleceu a 30 de novembro de 2016. A bailarina e coreógrafa foi casada com o tenor estremocense Tomaz Alcaide, que conheceu num encontro no Teatro Municipal de São Paulo quando o já reconhecido tenor era famoso. Em 1941 casaram-se e foram morar na Argentina, mas durante a segunda guerra mundial mudaram-se para Portugal, onde Asta-Rose trabalhou na Embaixada dos Estados Unidos e ambos contribuíram intensamente para o desenvolvimento cultural europeu e Asta-Rose enriqueceu o seu conhecimento na área da música clássica.
A última vez que esteve em Estremoz, a 12 de dezembro de 2011, foi para assistir à Cerimónia promovida pelo Município de Estremoz, onde foi entregue a Tomaz Alcaide o título de Cidadão Honorário e a Medalha de Ouro da Cidade e, com honras militares, foi depositada a urna com as cinzas do artista, junto ao monumento em sua homenagem, em frente à casa que o viu nascer, a 16 de fevereiro de 1901, data que inspirou o Município para mais uma cerimónia, desta vez, a deposição das cinzas da sua amada Asta-Rose, conforme desejo manifestado pela própria.
Juntos em vida, juntos para além da morte!
Do programa consta a deposição de uma coroa de flores, um momento musical de clarinete e violino, com Mário Tiago e Margarida Espírito Santo, seguido da inauguração de uma exposição sobre Tomaz Alcaide, no Teatro Bernardim Ribeiro.
Hernâni Matos

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Gastão, o pato sortudo

 

Pato antropomorfizado. Olaria Pacheco. Último quartel do séc. XX.

Prólogo
É muito rica e diversificada a temática das ilustrações da cerâmica redondense. E se a ilustração dum prato fosse um personagem da banda desenhada americana? Que diria o leitor?

A leitura do prato
Prato de médias dimensões, com superfície interna de cor amarelo palha, de aba larga, ligeiramente côncava. Decoração esgrafitada e pintada com base em pentacromia verde-amarelo-castanho-azul-preto. Aba decorada com sucessivos arcos pintados de castanho, com a concavidade dirigida para a parte superior da aba e preenchidos a amarelo. Ponteado a azul a toda a volta do prato e próximo da parte inferior da aba. Estes pontos situam-se sobre o raio imaginário que une o centro do prato com o ponto de intersecção dos arcos na parte superior da aba.
No fundo, ao centro, um pato antropomorfizado e com ar despreocupado, caminha sobre um tufo de erva verdes. O pato enverga um fato castanho, adornado por um laço azul e com a cabeça coberta com um chapéu preto. Olaria Pacheco. Último quartel do séc. XX.

Gastão, o pato sortudo
A Ilustração do fundo parece configurar o pato Gastão, personagem ficcional da banda desenhada “Pato Donald”, criada em 1948 por Carl Barks (1901-2000), ilustrador dos Estúdios Disney e criador de histórias em quadrinhos. Gastão e seu primo Donald são sobrinhos do milionário e avarento tio Patinhas e competem entre si para herdar a fortuna do tio.

Hernâni Matos

sábado, 5 de fevereiro de 2022

Seja bem vindo quem vier por bem


Prato falante, raso, de média dimensão, com superfície interna de cor creme,
de aba larga ligeiramente côncava. Decoração esgrafitada e pintada com base
 em tricromia verde-amarelo-castanho. Decorado na aba com motivos fitomórficos,
configurando uma cereja rodeada de 2 folhas, que se repete por quatro vezes
ao longo da aba. No fundo, ao centro, a inscrição “SEJA BEM VINDO QUEM
VIER POR BEM”, máxima que integra o adagiário português.


“SEJA BEM VINDO QUEM VIER POR BEM”, a frase inscrita no prato falante da figura, é uma máxima que integra o adagiário português, bem como a letra da canção “Seja bem vindo quem vier por bem”, que tal como a música são da autoria do saudoso Zeca Afonso (1929-1987):

Seja bem vindo quem vier por bem

Amigo
Maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também

Em terras
Em todas as fronteiras
Seja bem vindo quem vier por bem
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também

Aqueles
Aqueles que ficaram
(Em toda a parte todo o mundo tem)
Em sonhos me visitaram
Traz outro amigo também

Hernâni Matos

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Nova tipologia de olaria enfeitada

 

Fig. 1 - Prato relevado enfeitado. Olaria Alfacinha. Anos 30 do séc. XX
ou mesmo anterior. Colecção Hernâni Matos.


Adquiri há já algum tempo um prato (Fig. 1 e Fig. 2), cujo estudo revelou ser da maior importância para a barrística de Estremoz.Trata-se de um prato de barro vermelho, circular, de grandes dimensões (38,5 cm x 29, 5 cm x 4 cm), com covo pouco acentuado, de aba levantada e relevada com motivo decorativo em forma de U com a abertura dirigida para o centro do prato, o qual se repete ao longo de toda a extensão da aba. Filete relevado junto ao bordo e à caldeira. Fundo de cor castanha. Decoração do fundo com motivos frutícolas, configurando um ramo de pessegueiro [1] , ao longo do qual se distribuem nove folhas verdes e do qual pendem quatro pêssegos com coloração amarelo esverdeado e avermelhada. Cromaticamente estamos em presença de uma quadricromia castanho – verde – amarelo esverdeado – avermelhado. No tardoz encontra-se gravada a marca de fabrico Tipo 2 - Legenda “OLARIA ALFACINHA / ESTREMOZ“, inscrita numa coroa circular de 2,5 cm e 1,7 cm de diâmetro, com a palavra “PORTUGAL”, ao centro.[2] Esta marca foi já por mim inventariada no texto ”Medalhas de barro de Estremoz”, datado de 12 de Novembro de 2012.[3] É conhecida em medalha com o brasão de armas de Estremoz, datada de 1933. Esta é a data de aposição mais antiga desta marca que conheço, o que me leva a admitir que o prato foi produzido, pelo menos, nos anos 30 do séc. XX. No tardoz observam-se ainda dois orifícios para permitirem a passagem de um fio ou um arame, que permita a suspensão mural do prato.A observação atenta do prato na parte respeitante à aba, permite concluir que a perfeição do relevado é reveladora de que o prato não foi modelado na roda, mas produzido através de molde. A observação cuidada da decoração frutícola do fundo, permite inferir que os seus componentes, frutos e folhas, após serem moldados terão sido fixados com barbutina. O exemplar analisado é uma peça de olaria obtida por moldagem, tal como o candelabro, o castiçal e a palmatória e enfeitada com elementos obtidos por moldagem (frutos e folhas), tal como a cantarinha, o pucarinho, o candelabro e a terrina são enfeitados com elementos obtidos por moldagem (flores e bugalhos).A perfeição da moldagem, tanto na aba do prato como nos componentes frutícolas, leva-me a concluir estar em presença de uma peça erudita com decoração de cunho naturalista. Creio ser legítimo concluir que estamos em presença de mais uma tipologia de olaria enfeitada, apesar de no seu cromatismo não predominarem as habituais cores, zarcão, azul, verde e vermelho, predominantes nas outras tipologias de olaria enfeitada, todas elas de cunho popular. Tal facto não é de estranhar, dada a natureza erudita e naturalista da manufactura.
Termino com estes versos em redondilha maior:

Nota: a olaria enfeitada,
Merece definição,
Já que é bem variada
A sua composição.

[1] Conheço ainda um outro exemplar da mesma tipologia, pertencente a colecção particular, com fundo e aba de cores diferentes daquele que aqui apresentei e em que a decoração frutícola é um ramo de limoeiro.
[2] Existe ainda a marca de fabrico Tipo 1 - Legenda “OLARIA ALFACINHA / ESTREMOZ“, inscrita numa coroa circular de 2,3 cm e 1,4 cm de diâmetro, com a palavra “PORTUGAL”, ao centro.
[3] MATOS, Hernâni. Medalhas de barro de Estremoz. Estremoz, 2012. [Em linha]. Disponível em https://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com/2012/11/medalhas-de-barro-de-estremoz.html [Consultado em 03 de Fevereiro de 2022].

Hernâni Matos
Publicado em 3 de Fevereiro de 1922

Fig. 2 - Marca de fabrico Tipo 2 - Legenda “OLARIA ALFACINHA / ESTREMOZ“,
inscrita numa coroa circular de 2,5 cm e 1,7 cm de diâmetro, com a palavra
“PORTUGAL”, ao centro.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Louça vidrada de barro vermelho, da Olaria Alfacinha


Prato vidrado de barro vermelho. Olaria Alfacinha (1987-1995).



É sabido que a Olaria Alfacinha foi fundada por Caetano Augusto da Conceição, no último quartel do séc. XIX, na Rua do Arco, transferindo-se sucessivamente para a Casa das Fardas e para a Rua de Santo Antonico, todas em Estremoz.
No 1º quartel do séc. XX, a Olaria Alfacinha dirigida por Narciso Augusto da Conceição, filho de Caetano, além da louça de barro vermelho, corrente, produziu louça vidrada, então com muita procura. A produção deste tipo de louça terá cessado em data por mim desconhecida.
A Olaria esteve na posse da família até 1987, data em que foi vendida a Rui Pires de Zêzere Barradas, professor, que conjuntamente com sua mulher Cristina, dela foi co-proprietário até 1995, ano em que a Olaria cessou, até hoje, a sua actividade.
Rui Barradas é barrista, azulejista e pintor. Como barrista, no período 1985-1990, produziu Bonecos que comercializou na Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz.
Durante o período em que foi proprietário da Olaria Alfacinha, Rui Barradas produziu também louça vidrada de barro vermelho, que conjuntamente com os seus Bonecos, era comercializada numa loja de artesanato que com sua mulher Cristina, foi co-proprietário na Praça Luís de Camões, nº 11, em Estremoz. Remonta a esse período, o prato raso (14,5 cm de diâmetro) que ilustra o presente texto, o qual documenta a 2ª fase de produção de louça vidrada de barro vermelho pela Olaria Alfacinha.
O prato foi modelado pelo oleiro sr. Rita, de Redondo, o qual na época trabalhava aos sábados na Olaria Alfacinha. A decoração do prato é de autor desconhecido.

Hernâni Matos

Tardoz do prato com a marca de produção, manuscrita:
OLARIA / ALFACINHA / ESTREMOZ / PORTUGAL

domingo, 30 de janeiro de 2022

Redondo, terra de oleiros e de vinho

 

Prato covo, de médias dimensões, com superfície interna de cor creme, de aba
ligeiramente inclinada para o lado de dentro. Decoração esgrafitada e pintada com
base em tricromia verde-amarelo-castanho. Fundo ilustrado com um cacho de uvas
acastanhadas, acompanhadas de duas parras e duas gavinhas em verde. Aba decorada
com sucessivos arcos pintados de verde e cuja concavidade virada para o bordo do
prato, se encontra preenchida a amarelo. Acima da zona em que os arcos verdes se
encontram, situam-se bolas acastanhadas. Mestre Álvaro Chalana (1916-1983).
Colecção particular.

Redondo, terra de vinhos
Tanto quanto sei, são em número de nove, as adegas produtoras de vinho de Redondo: Adega Cooperativa de Redondo, Agrovinaz, Casa Agrícola Santana Ramalho, Casa Relvas, Herdade da Maroteira – Adega, Herdade do Freixo, Sociedade Agrícola Mouchão da Póvoa, Ségur Estates Redondo Winery e Herdade da Candeeira.
Os vinhos da região têm sido distinguidos com alguns dos maiores galardões nacionais e internacionais, fruto da produção vitivinícola utilizar castas de uvas diversificadas, mas com grande capacidade de adaptação aos solos e ao clima da região, o que tem reflexos altamente positivos na produção dos vinhos criados pelos enólogas das diferentes adegas.

Redondo, terra de oleiros
De acordo com o historiador redondense José Calado [4] “A profissão de oleiro é demasiada antiga e existirá naquilo que hoje consideramos concelho de Redondo desde pelo menos 3.000 A.C. Diremos convictamente que desde 1250, altura em quer D. Afonso III lhe terá concedido formação administrativa, que a vila de Redondo tem oleiros a laborar ininterruptamente.”.
A vila de Redondo é famosa pela sua loiça de barro vermelho vidrado, muitas vezes decorada com motivos, que entre muitos outros, são o vinho, a vinha e as uvas, como é o caso do prato da figura.
As uvas, que constituem o motivo central da decoração do prato redondense, integram a nossa literatura de tradição oral como passo a exemplificar.

Adagiário
A língua portuguesa incorpora adágios referentes às uvas, nos quais são salientados alguns aspectos que passo a referir:
- EXCELÊNCIA DAS UVAS DO SUL: Uva do sul, figo do norte.
- SITUAÇÃO A EVITAR NA VINHA: Muita parra e pouca uva.
- RIQUEZA ALIMENTAR: Uvas, figo e melão, é sustento de nutrição.
- SABOR: Uvas, pão e queijo, sabem a beijo.
- AS UVAS SÃO PARA SE COMER: Olhar para a uva não mata a sede.
- CONSELHO: Em passando o São Miguel apanhas uvas e figos por onde houver, mas acautela as costas se o dono lá estiver.
- AVISO - NEM TODAS AS UVAS SÃO BOAS: Uvas verdes, nem os cães as comem.

Gíria popular
A palavra “uva” faz parte de algumas frases idiomáticas que integram a gíria popular. Eis algumas delas:
- Uva passa = A que foi seca ao sol, em forno ou em evaporador.
- Uva passa = Pessoa magra e seca
- Uvas de enforcado - As que pendem das árvores
- Ser uma uva = Ser um amor
- Pôr as uvas em pisa a alguém = Dar-lhe grande sova
- Chão que já deus uvas = Pessoa ou coisa que já perdeu o valor

Epílogo
A cerâmica redondense é património imaterial da vila de Redondo, como são, de resto, a viticultura local e as “falas” que andam na boca do povo. É uma trindade grata às gentes de Redondo.

BIBLIOGRAFIA
[1] - CALADO, José. Redondo Terra de Oleiros. Santa Casa da Misericórdia de Redondo. Redondo, 2013.
[2] - MARQUES DA COSTA, José Ricardo. O livro dos provérbios portugueses (1.ª ed). Editorial Presença. Lisboa, 1999.
[3] - NEVES, Orlando. Dicionário de Expressões Correntes. Editorial Notícias. Lisboa, 1998.
[4] - REDONDO, Município de. Adegas. [Em linha]. Disponível em https://www.cm-redondo.pt/visitante/saborear/adegas/ [Consultado em 29 de Janeiro de 2002].
[5] - SANTOS, António Nogueira. Novos dicionários de expressões idiomáticas. Edições João Sá da Costa. Lisboa, 1990.

Hernâni Matos