domingo, 1 de março de 2020

Adagiário dos Santos - 2


Santo António. Mariano da Conceição (1903-1959).

Santo António (13 de Junho)
- Dia de Santo António vêm dormir as castanhas ao castanheiro.
- Não peças água a Luzia e a Simão, nem sol a António e a João, que eles tudo isso te darão.
Santo Urbão (3 de Novembro)
- Por Santo Urbão, gavião na mão.
São Barnabé (11 de Junho)
- Dia de São Barnabé, seca-se a palha pelo pé.
São Bartolomeu (24 de Agosto)
- Dia de São Bartolomeu, anda o diabo à solta.
- Pelo São Bartolomeu vai à vinha e enche o lenço.
São Bernardo (20 de Agosto)
- Pelo São Bernardo seca-se a palha pelo pé.
São Brás (3 de Fevereiro)
- Dia de São Brás, a cegonha verás, e se não a vires o Inverno vem atrás.
- Por São Brás atirarás.
- São Brás te afogue que Deus não pode.
São Clemente (23 de Novembro)
- Por São Clemente, alça a mão da semente.                      
São Fabião (20 de Janeiro)
- Por São Fabião, laranjinha na mão.
São Florêncio (7 de Novembro)
- No São Florêncio, o Inverno vai-se ou volta.
São Francisco (4 de Outubro)
Em Outubro, cordoadas de São Francisco.
Pelo São Francisco semeia o teu trigo e a velha que o dizia, semeado o linha.
Pelo São Francisco, nem nado, nem no cortiço.
Por São Francisco, semeia teu trigo.
São Gil (14 de Maio)
Pelo São Gil adoba o teu candil.
São João (24 de Junho)
- A chuva de S. João, bebe o vinho e come o pão.
- A chuva de S. João, tolhe o vinho e não dá pão.
- Água de S. João, tira o vinho e não dá pão.
- Ande o Verão por onde andar, pelo S. João cá vem parar.
- Até S. Pedro, o vinho tem medo.
- Cavas em Março e arrenda pelo São João, todos o sabem, mas poucos o dão.
- Chuva de S. João, acaba com o vinho e não ajuda o pão.
- Chuva de S. João, talha vinho e não dá pão.
- Chuva pelo S. João, bebe o vinho e come o pão.
- Chuvinha de S. João, cada pinga vale um tostão.
- Do Natal a São João, seis meses são.
- Em Abril queima a velha o carro e o carril, uma camba que ficou, ainda em Maio a queimou e -guardou o seu melhor tição para o mês de São João.
- Em dia de São Pedro, vê o teu olivedo e se vires um bago espera por um cento.
- Galinhas de S. João, pelo Natal poedeiras são.
- Galinhas de São João, pelo Natal ovos dão.
- Guarda pão para Maio, lenha para Abril e o melhor tição para o S. João.
- Lavra pelo S. João e terás palha e pão.
- Lavra pelo S. João se queres ter pão.
- Lavra pelo São João se queres ter palha e pão.
- Maio louro, mas nem muito louro e São João claro como olho-de-gato.
- Março amoroso, Abril chuvoso, Maio ventoso, São João calmoso, fazem o ano formoso.
- Março chuvoso, S. João farinhoso.
- Março duvidoso, S. João farinhoso.
- Março molinhoso, S. João farinhoso.
- Não peças água a Luzia e a Simão, nem sol a António e a João, que eles tudo isso te darão.
- Ouriços do S. João, são do tamanho de um botão.
- Pelo S. João, a sardinha pinga no pão.
- Pelo S. João, ceifa o teu pão.
- Pelo S. João, deve o milho cobrir o cão.
- Pelo S. João, figo na mão, pelo S. Pedro, figo preto.
- Pelo S. João, lavra e terás palha e pão.
- Pelo S. João, perdigoto na mão.
- Pelo S. João, semeia o teu feijão.
- Pelo São João, foice na mão.
- Pintos de S. João, pela Páscoa ovos dão.
- Porco, no São João, meão; se meão se achar, podes continuar; se mais de meão, acanha a ração.
- Quando Jesus se encontra com João, até as pedras dão pão.
- Quando o vento ronda o mar na noite de S. João, não há Verão.
- Quem quiser bom melão, semeia-o na manhã de São João.
- S. João e S. Miguel passados, tanto manda o amo como o criado.
- Sardinha de S. João, já pinga no pão.
- Se bem me quer João, suas obras o dirão.
- Se queres ter pão, lavra pelo São João.
-Tem o porco meão pelo S. João.
São Judas (28 de Outubro)
- De São Simão a São Judas, comidas são as uvas.
- Por São Simão e São Judas, colhidas são as uvas.
São Lourenço (10 de Agosto)
- No dia de São Lourenço a velha enche o lenço.
- No dia de São Lourenço vai à vinha e enche o lenço.
- Pelo São Lourenço, os nabais nem nados nem no lenço.
São Lucas (18 de Outubro)
- Por São Luca, sabem as uvas.
- Pelo São Lucas, mata os porcos e tapa as cubas.
São Marcos (25 de Abril)
- Por São Marcos, bogas e sáveis nos barcos.
- Sáveis por São Marcos enchem os barcos.
São Martinho (11 de Novembro)
- A cada bacorinho vem seu São Martinho.
- As geadas de São Martinho levam a carne e o vinho.
- Cada porco tem seu São Martinho.
- Dia de São Martinho prova o teu vinho.
- Dia de São Martinho, castanhas e vinho.
- Dia de São Martinho, come-se castanhas e bebe-se vinho.
- Dia de São Martinho, lume, castanhas e vinho.
- Dia de São Martinho, mata o teu porco e prova o teu vinho.
- Dia de São Martinho, vai à adega e prova o teu vinho.
- Em dia de São Martinho semeia os teus alhos e prova o teu vinho.
- Em dia de São Martinho vai à adega, prova o vinho e faz o teu magustinho.
- Em São Martinho tapa o teu portalzinho, ceva o teu porquinho e fura o pipinho.
- Em São Martinho, mata o teu porco, assa castanhas e prova o teu vinho.
- No dia de São Martinho fura o teu pipinho.
- No dia de São Martinho mata o teu porco, chega-te ao lume, assa castanhas e prova o teu vinho.
- No dia de São Martinho mata o porquinho, abre o pipinho, põe-te mal com o teu vizinho.
- No dia de São Martinho mata o teu porco, chega-te ao lume, assa as castanhas e bebe o teu vinho.
- No dia de São Martinho, castanhas, lume e vinho.
- No dia de São Martinho, fecha a adega e prova o teu vinho.
- No dia de São Martinho, vai à adega e prova o teu vinho.
- O Verão de São Martinho começa no Todos-os-Santos.
- O Verão de São Martinho, a vareja de São Simão e a cheia de Santos são três coisas que nunca faltaram nem faltarão.
- Pelo São Martinho abatoca o pipinho.
- Pelo São Martinho abatoca o teu vinho.
- Pelo São Martinho bebe o bom vinho e deixa a água para o moinho.
- Pelo São Martinho deixa a água para o moinho.
- Pelo São Martinho larga o soitinho.
- Pelo São Martinho mata o porquinho, prova o teu vinho e não te esqueças do teu vizinho.
- Pelo São Martinho mata o teu porquinho e semeia o teu cebolinho.
- Pelo São Martinho prova o teu vinho, larga o soito e mata o porquinho.
- Pelo São Martinho prova o teu vinho; ao cabo de um ano já te não faz dano.
- Pelo São Martinho prova teu vinho.
- Pelo São Martinho semeia o teu cebolinho, que o meu já está nascidinho.
- Pelo São Martinho, lume, castanhas e vinho.
- Pelo São Martinho, mata teu porco e bebe teu vinho.
- Pelo São Martinho, nem nado, nem no cabacinho.
- Pelo São Martinho, semeia fava e linho.
- Pelo São Martinho, semeia o teu cebolinho.
- Por São Martinho mata o teu porco e prova o teu vinho.
- Por São Martinho semeia o teu linho.
- Por São Martinho, nem favas nem vinho.
- Por São Martinho, prova teu vinho.
- Por São Martinho, semeia fava e linho.
- Por São Martinho, todo o mosto é bom vinho.
- Se o Inverno não erra caminho, tê-lo-ei pelo São Martinho.
- Se o Inverno não erra o caminho, cá virá no São Martinho.
- Vindima em Outubro que São Martinho te dirá.
São Mateus (21 de Setembro)
- Águas verdadeiras, por São Mateus as primeiras.
- Em Dia de São Mateus, começam as enxertias.
- Em não chovendo por São Mateus, faz conta com as ovelhas, que os borregos não são teus.
- Em Setembro São Mateus, não peças chuva a Deus.
- Não peças a morte a Deus, nem a chuva por São Mateus.
- Para boas colheitas, pede bom tempo a Deus nas têmporas de São Mateus.
- Para o ano não ir mal, hão-de os rios três vezes encher, entre o São Mateus e o Natal.
- Pelo São Mateus deixa os taralhões.
- Pelo São Mateus faz contas das ovelhas, que os borregos são teus.
- Pelo São Mateus munge as vacas e lavra com Deus.
- Pelo São Mateus não peças água nem morte a Deus.
- Pelo São Mateus não peças chuva a Deus.
- Pelo São Mateus vindimam os sisudos, semeiam os sandeus.
- Pelo São Mateus, conta as ovelhas que os cordeiros são teus.
- Pelo São Mateus, pega nos bois e lavra com Deus.
- Pelo São Mateus, vindimam os sisudos e varejam os sandeus.
- Por São Mateus pega no arado e lavra com Deus.
- Por São Mateus, faz conta das ovelhas que os borregos são teus.
- Quando não chove por São Mateus, é por milagre de Deus.
- Se chover pelo São Mateus, cuida das ovelhas que os borregos são teus.
- Sol pelo São Mateus, chuva até ao Menino Deus.

Hernâni Matos
Continua

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Adagiário dos Santos - 1


Nossa Senhora da Conceição. Fátima Estróia (1948- )

LER AINDA:
INTRODUÇÃO
Santos são aqueles que pela sua santidade foram beatificados e/ou canonizados, sendo apontados como modelos a seguir, intercessores das pessoas junto de Deus e dignas de culto. Figuram numa lista conhecida por Martirológio e no Calendário Universal os principais são comemorados ao longo do ano. Os restantes são come­morados nos Calendários Parti­culares.
No culto dos santos são utilizadas as suas ima­gens, identificadas por atributos cujo estudo integra a Iconografia.
Os santos podem ser padroeiros de uma nação, diocese, pa­ró­quia, localidade, congregação religiosa, corporação profissional, etc. Nossa Se­nhora da Conceição é padroeira de Portugal. O padroeiro do patriarcado de Lisboa é São Vicente. As arquidioceses têm o seu padroeiro: São Martinho de Dume (Braga) e Nossa Senhora da Conceição (Évora). As dioceses têm igualmente o seu padroeiro: Nossa Senhora da Assunção (Porto), São Teotónio (Viseu), São Vicente (Algarve), etc. As paróquias têm também o seu padroeiro: Santa Clara (Angra do Heroísmo), Santo André (Setúbal), São Tiago (Bragança). As localidades têm o seu padroeiro: Santo António (Lisboa), Nossa Senhora da Vandoma (Porto), Rainha Santa Isabel (Coimbra), São José operário (Beja), etc. As congregações religiosas têm igualmente o seu padroeiro: São Bento (Ordem Beneditina), Santa Clara (Ordem das Clarissas), São Francisco de Assis (Ordem dos Franciscanos), etc. Finalmente, também as corporações profissionais têm o seu padroeiro: Santa Bárbara (mineiros), Santa Cecília (músicos), Santa Luzia (oculistas), Santo Isidoro (agricultores), São Bento (trabalhadores rurais), São Lucas Evangelista (médicos), etc.
ADAGIÁRIO DOS SANTOS
Propus-me estudar o adagiário dos santos e deparei com dois tipos de ocorrências: adágios que mantêm os santos no anonimato e adágios reveladores da identidade dos santos. Os primeiros têm carácter geral e os segundos estão associados à meteorologia e às actividades agro-pastoris. Enumerarei seguidamente os que foram recolhidos em cada um dos grupos.
SANTOS ANÓNIMOS
- A bom santo te encomendaste.
- A cada santo, a sua lâmpada.
- A cada santo, o seu candelabro.
- A descer todos os santos ajudam.
- A descer, todos os santos ajudam; para cima, é que as coisas mudam.
- A esmola, quando é grande, o santo desconfia.
- A fiúza dos santos, se enfeitam os altares.
- A gente conta o milagre, mas não diz o nome do santo.
- A gente não sabe para que santo se volte.
- À honra dos santos, se beijam as pedras.
- Ao bem calar chamam santo.
- Cada qual pede para o seu santo.
- Cada santo quer sua vela.
- Cada santo tem seu círio.
- Cada santo tem seu nicho.
- Com os santos serás santo.
- De promessas quem vive é santo.
- Em santo de carne, pau nele.
- Enquanto há saúde, quedos estão os santos.
- Hóspedes em casa, dia santo é.
- Não é santo da minha devoção.
- O ladrão na forca e o santo no altar.
- O rio passado, o santo não lembrado
- Os santos esperam mas não perdoam.
- Os santos não têm costas.
- Pedir a todos os santos.
- Quando não o dão os campos, não o dão os santos.
- Quem não tem dinheiro, não beija santo.
- Rogar ao santo, até passar o barranco.
- Tal o santo, tal o milagre.
- Ter fraca cara para ser santo.
SANTOS COM NOME
Nossa Senhora da Ajuda (15 de Agosto)
- Pela Senhora da Ajuda, às sete o sol é posto.
Nossa Senhora da Assunção (15 de Agosto)
- Pela Assunção cada pinga vale seu tostão.
Nossa Senhora da de Conceição (8 Dezembro)
- Pela Conceição, de galinholas um quarteirão.
- Pela Senhora da Conceição, favas ao chão; por São Tomé, carregam da ponta ao pé; eu semeio quando me faz conta e carregam do pé à ponta.
Nossa Senhora das Candeias (2 de Fevereiro)
- Se a Senhora das Candeias chora, está o Inverno fora.
- Se a Senhora das Candeias ri e chora, está o Inverno meio dentro e meio fora.
- Se a Senhora das Candeias rir, está o Inverno para vir.
Santa Ana (26 Julho) 
- Aí por Sant' Ana limpa a pragana.
Santa Catarina (25 de Novembro)
- De Santa Catarina ao Natal, bom chover e melhor nevar.
- De Santa Catarina ao Natal, mês igual.
Santa Iria (20 de Outubro)
- Dia de Santa Iria, pega nos bois e guia.
- Por Santa Ireia, toma os bois e semeia.
Santa Luzia (13 de Dezembro)
- Assim como vires o tempo de Santa Luzia ao Natal, assim estará o ano, mês a mês até ao final.
- De Santa Luzia ao Natal, ou bom chover ou bom nevar.
- Do Natal a Santa Luzia, cresce um palmo em cada dia.
- Dos Santos ao Advento, nem muita chuva nem muito vento.
- Em dia de Santa Luzia cresce a noite e minga o dia.
- Em dia de Santa Luzia onde o vento fica de lá aporfia.
- Não peças água a Luzia e a Simão, nem sol a António e a João, que eles tudo isso te darão.
- No dia de Santa Luzia, onde o vento fica, de lá aporfia.
- Pela Santa Luzia, minga a noite e cresce o dia.
- Santa Madalena (22 de Julho)
- Pela Madalena recorre à tua figueira.
Santa Maria (1 de Janeiro)
- Fevereiro faz dia, e logo é Santa Maria.
- Mês de Maio, mês das flores, mês de Maria, mês dos amores.
- Por Santa Maria de Agosto, repasta a vaca um pouco.
Santa Marinha (18 de Julho)
- A água de Santa Marinha, na meda faz farinha.
- Aí por Santa Marinha vai ver tua vinha; qual a achares, tal a vindima.
- Chuva de Julho: Santa Marinha vem com a cabacinha e São Tiago com o canado.
- Por Santa Marinha, vai ver a tua vinha, e, tal como a achares, tal a vindima.
Santo Agostinho (28 de Agosto)
- Chuva fina pelo Santo Agostinho é como se chovesse vinho.
- Chuva por Santo Agostinho é como se chovesse vinho.
Santo Ambrósio (7 de Dezembro)
- No Santo Ambrósio, frio para oito dias.
Santo André (30 de Novembro)
- De Santos a Santo André, um mês é; de Santo André ao Natal, três semanas.
- Dia de Santo André quem não tem porco mata a mulher.
- Dia de Santo André, porcos pelo pé.
- Em dia de Santo André, o tremoço não está, nem na saca, nem no pé.
- Em dia de Santo André, quem não tem porco que mate, amarra a mulher pelo pé.
- No dia de Santo André diz o porco, quié-quié.
- No dia de Santo André vai à esquina e traz o porco pelo pé.
- No dia de Santo André, pega o porco pelo pé; se ele disser quié-quié, diz-lhe que tempo é; se ele disser que tal-que-tal, guarda-o para o Natal.
- No dia de Santo André, quem não tem porco mata a mulher.
- Pelo Santo André agarra o porco pelo pé.
- Pelo Santo André, neve no pé.
- Pelo Santo André, quem não tem reco mata o homem.
- Por Santo André, todo dia noite é.
- Por Santo André o Sete-estrelo posto é.

Hernâni Matos
Continua

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Adagiário do pastor


"ALEMTEJO". Alfredo de Moraes (1872-1971). Aguarela sobre papel (26,5 x 12 cm).

A vivência e o universo de vida do pastor encontram-se parcialmente condensados no adagiário português:
- A cobertura e a merenda não pesam ao pastor.
- A galinha gorda, o pastor diz: choca vai ela.
- A vinte e dois de Março ouga o pão com o mato, a noite com o dia, a erva com o sargaço, a fome - com a barriga e a merenda do pastor nunca chega ao meio-dia.
- Abala pastor com as espaldas ao sol.
- Cajado e farnel, nunca pesaram ao pastor.
- Cerco de Lua, pastor enxuga, se aos três dias não enxurra.
- Cerco no sol molha o pastor.
- Março leva a ovelha e farrapo e o pastor se ele é fraco; o cão escapará ou não
- Não há pastor sem rebanho.
- O agasalho e a balsa não pesam ao pastor.
- O bom pastor deve tosquiar o rebanho, não esfolá-lo.
- Pastor descuidado, ao sol-posto busca o gado.
- Perdido é o gado que não tem pastor ou cão.
- Quando chove e faz sol, alegre está o pastor.
- Quem traz surrão, medrará ou não.
- Sol e boa terra fazem bom gado, que não pastor afamado.
- Um só rebanho, um só pastor.
- Vive o pastor com sua rudeza e morre o Físico que a Física reza.

BIBLIOGRAFIA
- BLUTEAU, Raphael. Vocabulario Portuguez e Latino. Vol. I a X. Officina de Pascoal da Sylva. Coimbra, 1712-1728.
- CHAVES, Pedro. Rifoneiro Português. Imprensa Moderna, Lda. Porto, 1928.
- MARQUES DA COSTA, José Ricardo. O Livro dos Provérbios Portugueses. Editorial Presença. Lisboa, 1999.
- DELICADO, António. Adagios portuguezes reduzidos a lugares communs / pello lecenciado Antonio Delicado, Prior da Parrochial Igreja de Nossa Senhora da charidade, termo da cidade de Euora. Officina de Domingos Lopes Rosa. Lisboa, 1651.
- ROLAND, Francisco. ADAGIOS, PROVERBIOS, RIFÃOS E ANEXINS DA LINGUA PORTUGUEZA. Tirados dos melhores Autores Nacionais, e recopilados por ordem Alfabética por F.R.I.L.E.L. Typographia Rollandiana. Lisboa, 1780.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Ana das Peles, presente!


Ana das Peles (1859-1945). Fotografia (1940) de Albert t’Serstevens (1886-1974).
Arquivo fotográfico do autor.

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Evocação
Há figuras que pela sua acção desempenharam um papel de relevo na construção da Memória de Estremoz, pelo que não podem ser olvidadas nas páginas da História local. É o que se passa com Ana das Peles (1859-1945), velha barrista que foi o instrumento primordial da recuperação da extinta tradição de manufactura dos Bonecos de Estremoz, empreendida pelo escultor José Maria de Sá Lemos nos anos 30 do séc. XX.
A 19 de Fevereiro de 2020 completam-se 75 anos sobre a morte da barrista que foi uma figura chave na recuperação duma tradição extinta e que hoje é motivo de orgulho para todos os estremocenses.
Ana das Peles partiu, mas os seus Bonecos muito apreciados e procurados, povoam vitrinas de coleccionadores e de museus para deleite de espírito. Com eles a imagem de marca da nossa identidade cultural local e transtagana, testemunho e herança de uma época.
Para além dos Bonecos nascidos das suas mãos, Ana das Peles encontra-se perpetuada nas palavras escritas daqueles que com olhos de ver, souberam transmitir aos vindouros o que ela era, o que ela fazia e o que ela representava: o memorialisno de Sá Lemos, as estrofes de Celestino David, o jornalismo de Albert t’Serstevens, a evocação regionalista de Azinhal Abelho.
Hoje como ontem, os barristas de Estremoz continuam a criar figuras que viajam por esse mundo fora, para tornar as pessoas felizes. Daí que na 1.ª Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz, o Poeta António Simões tenha proclamado: “Barro incerto do presente / Vai moldar-te a mão do Povo / Vai dar-te forma diferente / Para que sejas barro novo!”
75 anos volvidos sobre a morte de Ana das Peles, os seus gestos de modeladora de sonhos, continuam a ser repetidos, ainda que recriados pelos barristas de hoje. Por isso Ana das Peles é imortal e os Bonecos de Estremoz serão eternos.
Ana das Peles partiu mas estará para todo o sempre presente na nossa memória e nos nossos corações. É caso para dizer
- ANA DAS PELES, PRESENTE!
Nota final
Esta evocação de Ana das Peles é a homenagem singela e possível de vozes insubmissas que se recusam a ser cúmplices do silêncio olímpico e majestático do Município, que passou ao lado da efeméride.  

Estremoz, 18 de Fevereiro de 2020
(Jornal E nº 240, de 19-02-2020)

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Veiros: quem protege os moradores da Eira da Pedra Alçada?


Veiros: Bairro da Eira da Pedra Alçada

Veiros:
quem protege os moradores da Eira da Pedra Alçada?

Maria Helena Figueiredo
Membro da Mesa Nacional e da Comissão Coordenadora
Distrital de Évora do Bloco de Esquerda
Texto transcrito com a devida vénia,
do jornal Brados do Alentejo, de Estremoz,
do dia 13 de Fevereiro de 2020

Fotografias enviadas
     por um morador do local 


A construção da barragem de Veiros, em meados de 2015 e a que correspondeu um investimento público de cerca de 25 de milhões de Euros, veio responder a uma aspiração antiga e com ela a água tornou-se acessível à agricultura.

Ao contrário do que seria uma vantagem para Veiros com a água vêm os projectos de agricultura intensiva e super intensiva, os impactos negativos para o ambiente e um pesadelo para muitos dos que lá vivem.

Junto ao Bairro da Eira da Pedra Alçada, está a ser preparado o terreno para instalação de um olival intensivo ou super intensivo, numa propriedade que chega mesmo junto às casas ali existentes, o que está a preocupar, com razão, quem lá vive.

Escassos 10 ou 15 metros separam os muros das habitações que ali existem dos terrenos que estão já a ser preparados para o futuro olival intensivo.

A plantação de olival intensivo vai chegar perto das casas e há um conjunto de questões de saúde pública que se levantam e que, com razão, preocupam a população ali residente e relativamente às quais as entidades responsáveis parecem não dar qualquer importância.

Como todos sabemos estas culturas desenvolvem-se de forma rentável pelo recurso a um elevadíssimo consumo de água, da ordem dos 4.000 a 7.000 m3 por ha, e à aplicação de adubos e de fitofármacos que produzem fortíssimos impactos no ar que se respira, no solo e nas águas de superfície e subterrâneas.

Mesmo nos casos em que a produção é desenvolvida em modo integrado, ou seja, seguindo regras menos danosas para o ambiente, a instalação de um olival intensivo (e mais ainda super intensivo) implica sempre a aplicação adubos, de fungicidas e pesticidas e pulverizações regulares, que sujeitarão a população a respirar o ar contaminado com estes produtos.

Muitos destes produtos são glifosatos, muito perigosos para a saúde humana e vão ser aplicados junto às habitações.

Também a utilização de fertilizantes e pesticidas vai poluir as águas superficiais e subterrâneas, águas de poços que muita desta população utiliza.

De acordo com a legislação em vigor, a aplicação destes produtos em zonas urbanas é sujeita a um conjunto de regras, mas neste caso, como será numa exploração agrícola, nenhuma dessas precauções será aplicável, apesar de as casas estarem a escassos 10 ou 15 metros.

Legitimamente os moradores estão muito preocupados e receosos. Quais as consequências para a sua saúde e a dos seus filhos e netos por estarem a respirar regularmente ar contaminado pelas pulverizações de químicos? Como vão garantir que a qualidade da água dos poços e furos não é afectada pela drenagem dos fitofármacos e adubos e como vão continuar a comer a produção dos seus quintais? Quem quererá viver com um olival intensivo à porta de casa e quem quererá comprar as suas casas se quiserem ou tiverem que as vender?

O que está em causa já não é apenas o impacto ambiental destas culturas super intensivas, o consumo excessivo de água ou a salinização e sodificação dos solos. O que está em causa em Veiros é, no imediato, a saúde pública destes moradores e nenhum argumento tornará admissível que se instalem culturas intensivas a 10 ou 20 metros das habitações, seja em Veiros seja noutro qualquer local.

As entidades públicas questionadas pelos moradores não tem dado respostas ou quando as dão  pouco adiantam,  como foi o caso da Junta de Freguesia, que questionou os promotores do projecto, os quais, naturalmente, terão defendido que o mesmo não constituía qualquer perigo para a população, tendo a Junta concluído que se tudo for como os promotores dizem não haverá prejuízo, incómodo ou perigo para os moradores.

E se não for assim?

Hoje sabemos, pela experiência de muitas populações, em particular no Baixo Alentejo, que a sua qualidade de vida e a sua saúde estão fortemente ameaçadas com a instalação de olivais e amendoais intensivos e super intensivos perto das habitações.

E porque sabemos, não é admissível que os poderes públicos fechem os olhos a situações destas, omitindo a sua obrigação primeira que é a protecção das populações.

Exige-se, por isso que, quer a Câmara Municipal de Estremoz, quer a Junta de Freguesia de Veiros, quer os Ministérios da Agricultura e da Saúde, desenvolvam todas as acções ao seu alcance para proteger os moradores de Veiros, em especial da Eira da Pedra Alçada.

E que o façam agora, enquanto é tempo.


Veiros: Bairro da Eira da Pedra Alçada

Veiros: Bairro da Eira da Pedra Alçada

Veiros: Bairro da Eira da Pedra Alçada

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Bonecos de Estremoz: João Fortio


João Fortio (1951- )

João Manuel Pires Fortio nasceu a 12 de Dezembro de 1951 na freguesia de Santo André do concelho de Estremoz. Filho legítimo de Arménio João Marvão Fortio, de 29 anos, bancário, natural de Veiros no concelho de Estremoz e de Aida Leonisa da Graça Pires, de 23 anos, doméstica, natural da freguesia de São Saturnino do concelho de Fronteira, ambos moradores na Rua Brito Capelo, nº 17, em, Estremoz (297). No IADE tirou o Curso de Design de Interiores e na tropa frequentou o Curso de Fotografia e Cinema dos Serviços Cartográficos do Exército. Foi Professor de Educação Visual e de Educação Visual e Tecnológica na Escola Preparatória Sebastião da Gama, funções que desempenhou a partir de 1978 até à sua aposentação, em 2008. Desenhador, Pintor e Ceramista, nele as várias formas de expressão artística surgiram espontaneamente em distintos instantes: Desenho (1961), Pintura (1968), Cerâmica (1982) e hoje completam-se umas às outras. Em qualquer das formas de expressão artística que cultiva, o Artista tem palmilhado diversas fases que se completam e o completam. Na Cerâmica começou por recriar os Bonecos de Estremoz, pois além de executar os “Bonecos da Tradição”, criou muitos outros modelos, o que aconteceu entre 1982 e 1996. Partiu depois para a Azulejaria. O seu ateliê começou por ser na sua residência, na Avenida Dr. Marques Crespo, 31. Dali transitou par o Largo Dom Dinis, 8 e acabou por se fixar na Horta do Forinho em São Bento do Ameixial, onde, depois de um longo interregno na arte bonequeira, resolveu agora retomar a actividade. De salientar a sua participação em múltiplas edições das Feiras de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz, na dupla condição de bonequeiro e de azulejista. Ensinou Cerâmica na Escola Profissional da Região Alentejo, tendo ainda elaborado o programa de Cerâmica para o 2º ciclo do Ensino Básico, visando criar a disciplina de Cerâmica como oferta de Escola. Na condição de Ceramista é membro fundador da Associação de Artesãos do Concelho de Estremoz. Na sua actividade artística, a Pintura é dominante e impõe-se ao Desenho e à Cerâmica, de tal modo que se fosse forçado a expressar-se plasticamente de uma forma única, escolheria a Pintura, que para ele é um modo de dar vida (cor, forma, luz, movimento) e algum sentido ao imaginário que o povoa no quotidiano Para a definição da sua identidade artística muito contribuíram Picasso, Almada Negreiros e E. C. Escher. E Professores como Espiga Pinto e Lima de Freitas. Tem participado em múltiplas exposições colectivas e individuais, com Desenhos, Pinturas e Cerâmica diversa, sendo de salientar os Salões da Primavera do Estoril na década de 70, o Festival de São Lucas de Évora nos anos 80 e a Exposição Retrospectiva de 40 anos de Actividade Artística em 2008 no Centro Cultural Dr. Marques Crespo em Estremoz, numa organização da Associação Filatélica Alentejana. Está representado em muitas colecções particulares e espaços públicos da Europa, Estados Unidos, Argentina, Brasil e Tailândia, entre outros. Além de artista plástico, é escritor. Publicou até hoje: Orvalho do Sol (2008), Demasiado / too much (2008), Promontório da Utopia (2011), Livro dos Prefácios 1 (2011) e Cento e tal Sonetos (2012). Tem diversos livros no prelo. Anteriormente acontecera uma incursão pelo jornalismo nos Brados do Alentejo e no Eco de Estremoz, onde foi repórter desportivo e cobriu acontecimentos mundanos
  
Pastor (1996). João Fortio (1951- ). Colecção e fotografia de Adelino Caravela.