sábado, 26 de dezembro de 2015

39 – Pastor das migas – 3

Pastor das migas.
Isabel Carona.
Colecção particular.

As migas à alentejana são confeccionadas com toucinho, entrecosto de porco, dentes de alho, sal, massa de pimentão, pão e água. Vejamos como são preparadas: Metem-se tiras finas de toucinho num tacho de barro, que é levado ao lume, até o toucinho derreter. Na gordura resultante frita-se entrecosto previamente temperado com massa de pimentão e alhos pisados em sal. Terminada a fritura do entrecosto, este é retirado do recipiente e aí são alourados alguns dentes de alho esmagados. Seguidamente juntam-se fatias de pão muito finas, que se deixam fritar ligeiramente. Junta-se então água a ferver e sal e esmaga-se o pão com uma colher de pau. Depois deste estar esmigalhado, vai-se mexendo com a colher, para a gordura se incorporar no pão. Com a continuação do aquecimento, o pão começa a secar e quando a consistência é a adequada, estão prontas as migas, que se comem acompanhadas do entrecosto frito.
As migas, tal como as açordas têm origem na “Tharid” ou “Tárida”, étimo proveniente do árabe “Târada”, que significa “migar pão”. A Tharid era e é cozinhada com pão cozido ou sauteado num meio mais ou menos húmido, adicionado de gordura e até de carne. Segundo os antigos, aquela receita era muito apreciada por Maomé (572-630), o Profeta e integrou a gastronomia da Península Ibérica (Al-Andaluz) durante o período da ocupação árabe (711-1492). Esta deixaria marcas muito positivas nos mais diversos domínios, entre eles a gastronomia.
As migas à alentejana são uma das jóias gastronómicas da ancestral cozinha transtagana, criada por mãos sábias a partir dos ingredientes que a terra dá e que alquimicamente são transmutados em odores e sabores por magia de saberes remotos. Daí que as migas, tal como a açorda ou o gaspacho constituam património gastronómico do Alentejo e estejam indissociavelmente ligadas à identidade regional. Na obra “Para uma História da Alimentação no Alentejo", Alfredo Saramago (1997) diz-nos: “O Alentejo não conheceu uma cozinha de rico e uma cozinha de pobre, quer dizer, um conjunto de práticas alimentares seguidas por uma classe e ausente dos hábitos da outra. O que separava as pessoas e as distinguia na alimentação era a quantidade e a frequência. A açorda do rico tinha mais azeite e as migas mais carne. Uns comiam mais chouriço e paio, outros mais toucinho e farinheira. As receitas eram as mesmas.”
Em Lisboa e noutras regiões do país, chamam açorda às migas. Daí que na revista Musical “Palhas e Moinhas”, de João Vasconcelllos e Sá, estreada em Évora em 1936 e que retrata os usos e costumes alentejanos, fosse cantado a certa altura, em referência ao Alentejo: “Terra de grandes barrigas / onde há tanta gente gorda. / Às sopas chamam açorda / e à açorda chamam-lhe migas;”
As migas estão presentes na nossa literatura de tradição oral. A nível de ADAGIÁRIO registo: “As migas como as formigas”, “Não estou para dar migas a um gato”, “Não é por falta de alho que se não fazem as migas”. Na GÍRIA POPULAR é conhecida a expressão: Pote das migas (Barriga). Quanto a ALCUNHAS ALENTEJANAS, assinalo: MIGAS – Alcunha outorgada a indivíduo que gosta muito de comer migas (Aljustrel, Monforte, Portel e Santiago de Cacém); - Epíteto atribuído a sujeito que questionado no trabalho acerca daquilo que levava para o almoço, respondia invariavelmente: umas migas (Évora); - Denominação herdada do pai (Moura). Por sua vez, o CANCIONEIRO POPULAR ALENTEJANO inclui a quadra: “Para lavrar, abegões, / P’ra poupar bois, os boeiros, / P’ra comer migas, ganhões, / P´ra laurear, carreteiros.”.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Poesia Portuguesa - 085




Meados de Maio
Irene Lisboa (1892-1958)

Chuvoso maio!

Deste lado oiço gotejar
sobre as pedras.
Som da cidade ...
Do outro via a chuva no ar.
Perpendicular, fina,
Tomava cor,
distinguia-se
contra o fundo das trepadeiras
do jardim.
No chão, quando caía,
abria círculos
nas pocinhas brilhantes,
já formadas?
Há lá coisa mais linda

que este bater de água
na outra água?
Um pingo cai
E forma uma rosa...
um movimento circular,
que se espraia.
Vem outro pingo
E nasce outra rosa...
e sempre assim!

Os nossos olhos desconsolados,
sem alegria nem tristeza,
tranquilamente
vão vendo formar-se as rosas,
brilhar
e mover-se a água...    

Irene Lisboa (1892-1958)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Poesia Portuguesa - 084



Mãezinha 
António Gedeão (1906-1997)

A terra de meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem mísseis.
Corria branda a noite e a vida era serena.

Segundo informação, concreta e exacta,
dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data,
3023 mulheres, das quais
43 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai desde o berço até à puberdade.
28 por cento das restantes
eram senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes.
Umas, viúvas, que nunca mais (Oh nunca mais!) tinham sequer sorrido
desde o dia da morte do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, mães de filhos...
(De resto, as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas
nestas considerações.)

Das outras, 10 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que, por temperamento,
ou por outras razões mais ou menos secretas,
não se inclinavam para o casamento.

Além destas meninas
havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a bordar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.

Dessas havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro além, mas que todos ficavam
no troço habitual que meu pai percorria,
tranquilamente, no maior sossego,
às horas em que entrava e saía do emprego.

Dessas 9 excelentes raparigas
Uma fugiu com o criado da lavoura;
5 morreram novas, de bexigas;
outra, que veio a ser grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se
não se sabe porquê.

A que sobeja
Chamava-se Rosinha.
Foi essa a que meu pai levou à igreja.
Foi a minha mãezinha. 

António Gedeão (1906-1997)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Poesia Portuguesa - 083


25 de Abril
Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)


Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)


Poesia Portuguesa - 082



Abril
José Fanha (1951-  )

Havia uma lua de prata e sangue
em cada mão.

Era Abril.

Havia um vento 
que empurrava o nosso olhar
e um momento de água clara a escorrer 
pelo rosto das mães cansadas.

Era Abril
que descia aos tropeções
pelas ladeiras da cidade.

Abril
tingindo de perfume os hospitais
e colando um verso branco em cada farda.

Era Abril
o mês imprescindível que trazia
um sonho de bagos de romã
e o ar
a saber a framboesas.

Abril
um mês de flores concretas
colocadas na espoleta do desejo
flores pesadas de seiva e cânticos azuis
um mês de flores
um mês.

Havia barcos a voltar
de parte nenhuma
em Abril
e homens que escavavam a terra
em busca da vertical.

Ardiam as palavras
Nesse mês
e foram vistos
dicionários a voar
e mulheres que se despiam abraçando
a pele das oliveiras.

Era Abril que veio e que partiu.

Abril
a deixar sementes prateadas
germinando longamente
no olhar dos meninos por haver. 

José Fanha (1951-  )


quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Mensagem de Natal



Há cerca de 2.000 anos que de acordo com relatos bíblicos, nasceu na Galileia, Jesus Cristo, o Messias, cuja vinda foi anunciada pelo Arcanjo Gabriel. A sua capacidade de liderar multidões levou a que fosse julgado e condenado à morte por Herodes Antipas, tetrarca da Galileia e da Pereia. Daí que tenha sido flagelado e crucificado.
Também Spartacus, gladiador trácio que liderou a mais célebre revolta de escravos contra o jugo romano, viria a conhecer semelhante sorte.
Desde então para cá têm ocorrido muitas lutas, muitas batalhas, muitas guerras, nas quais explorados e oprimidos, ávidos de pão, paz, terra, justiça e liberdade, têm lutado contra os opressores que lhe negam esses elementares direitos.
Um marco importante dessas lutas foi a Revolução Francesa, promotora dos ideais republicanos da Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Todavia, como nos disse o Padre António Vieira: “É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do san­gue, das vidas, e quanto mais co­me e consome, tanto menos se farta”. Daí que tenha continuado a alastrar pelo mundo, fruto dos interesses de dominação mais diversos.
A nível interno, tivemos a fundação da nacionalidade por Dom Afonso Henriques, a 5 de Outubro de 1143. Nos séculos seguintes, guerreámos castelhanos, mouros, povos indígenas, espanhóis, franceses e povos africanos, tanto por necessidades expansionistas como para defesa da independência nacional. Nos finais do séc. XIX e princípios do séc. XX, verificou-se o descrédito do regime monárquico. Daí que graças à acção doutrinária e política do Partido Republicano Português, tenha ocorrido o derrube da Monarquia a 5 de Outubro de 1910. Ocorreu aqui uma mudança de paradigma que vigorou até ao pronunciamento militar de cariz nacionalista e anti-parlamentar de 28 de Maio de 1926, o qual estaria na origem do Estado Novo, regime ditatorial que vigorou até à Revolução de 25 de Abril de 1974.
A restituição da liberdade aos portugueses teve como reflexos positivos imediatos, o renascer do parlamentarismo e dos partidos, pilares da democracia. Com ambos, a democracia tem conhecido altos e baixos, por vezes com reflexos negativos na vida das pessoas.
Com as eleições legislativas de 4 de Outubro de 2015, ocorreu uma nova mudança de paradigma, que foi o entendimento político entre as esquerdas. Este incomodou todos aqueles que crêem ter o rei na barriga e se julgam donos disto tudo.
Fruto daquele entendimento e em cumprimento dos preceitos constitucionais, o Presidente da República indigitou a 24 de Novembro, António Costa como Primeiro-Ministro do XXI Governo Constitucional. Este tomou posse a 26 de Novembro e viu o seu Programa aprovado no Parlamento a 3 de Dezembro.
O poder mudou de mãos e é tempo de Natal, daí que para a maioria do povo português, este Natal seja um natal de esperança.
Vem aí “Ano Novo, vida nova”. A 24 de Janeiro têm lugar as eleições para a Presidência da República, data em que a maioria do povo português pretende que ocorra outra mudança de paradigma. A meu ver, para que tal seja possível, torna-se necessário um entendimento político entre as esquerdas, que se traduza na apresentação de um único candidato às urnas. Julgo que as esquerdas aprenderam com as eleições legislativas e vão alcançar esse entendimento. Trata-se de um imperativo ético da maior relevância.

Poesia Portuguesa - 081



Abril de Abril
Manuel Alegre (1936-  )
  
Era um Abril de amigo Abril de trigo
Abril de trevo e trégua e vinho e húmus
Abril de novos ritmos novos rumos.

Era um Abril comigo Abril contigo
ainda só ardor e sem ardil
Abril sem adjectivo Abril de Abril.

Era um Abril na praça Abril de massas
era um Abril na rua Abril a rodos
Abril de sol que nasce para todos.

Abril de vinho e sonho em nossas taças
era um Abril de clava Abril em acto
em mil novecentos e setenta e quatro.

Era um Abril viril Abril tão bravo
Abril de boca a abrir-se Abril palavra
esse Abril em que Abril se libertava.

Era um Abril de clava Abril de cravo
Abril de mão na mão e sem fantasmas
esse Abril em que Abril floriu nas armas. 

Manuel Alegre (1936-  )