segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Poesia Portuguesa - 051


Não creio nesse Deus
António Aleixo (1899-1949)

I

Não sei se és parvo se és inteligente
— Ao disfrutares vida de nababo
Louvando um Deus, do qual te dizes crente,
Que te livre das garras do diabo
E te faça feliz eternamente.

II

Não vês que o teu bem-estar faz d'outra gente
A dor, o sofrimento, a fome e a guerra?
E tu não queres p'ra ti o céu e a terra..
— Não te achas egoísta ou exigente?

III

Não creio nesse Deus que, na igreja,
Escuta, dos beatos, confissões;
Não posso crer num Deus que se maneja,
Em troca de promessas e orações,
P'ra o homem conseguir o que deseja.

IV

Se Deus quer que vivamos irmãmente,
Quem cumpre esse dever por que receia
As iras do divino padre eterno?...
P'ra esses é o céu; porque o inferno
É p'ra quem vive a vida à custa alheia!

António Aleixo (1899-1949)

36 – Homem dos foguetes


 
Homem dos foguetes.
Irmãs Flores.
Colecção particular.

Não há festas sem foguetes, o que equivale a dizer que não há festas ou romarias que dispensem os espectáculos pirotécnicos e em particular o lançamento de foguetes. Estes além de serem lançados na abertura e fecho das festividades, assinalam também o início e o fim de cada evento integrado nas mesmas.
Nas festas, os foguetes são lançados pelo “homem dos foguetes”, o qual trabalha com um ajudante, que lhe vai passando os foguetes a um e um, por uma questão de segurança.
Cada foguete é constituído por uma cana que numa das extremidades tem atado um canudo contendo pólvora, com um rastilho na extremidade. Este ao ser inflamado provoca uma reacção química na pólvora que origina a expulsão de considerável quantidade de gases, que fazem subir o foguete. É que os gases expelidos desenvolvem uma força propulsora que ao interactuar com a atmosfera é responsável pela variação da velocidade do foguete, o qual ascende na atmosfera. Trata-se de um fenómeno físico regido pela chamada “Lei da variação da quantidade de movimento”, estritamente associada à ”Lei da igualdade da acção e reacção”, de acordo com a qual: “À acção de um corpo sobre outro, corresponde uma reacção de igual intensidade e de sentido oposto à acção”.
No lançamento de foguetes, o tempo de subida, a altura máxima atingida e o alcance horizontal aumentam com a velocidade e o ângulo de lançamento, verificando-se que o alcance é máximo quando a cana faz um ângulo de 45º com a horizontal.
O homem dos foguetes está representado na barrística popular estremocense. Por sua vez, os foguetes estão presentes na nossa literatura de tradição oral. A nível de ADAGIÁRIO temos: “Deitar foguetes antes da festa”, “Deitar os foguetes e apanhar as canas”, “Fazes a festa e deitas os foguetes”, “Não deitar foguetes antes da festa”, “Não se deitam foguetes antes da festa”, “O foguete é na maré de festa”, “São mais os foguetes que a festa”. No que respeita a GÍRIA POPULAR são conhecidas as expressões: Como um foguete (Muito rapidamente), Correr atrás de foguetes (Entusiasmar-se facilmente), Dar uma foguetada (Repreender), Deitar foguetes (Entregar-se a manifestações exuberantes de alegria), Levar uma foguetada (Ser repreendido), Meter-se a fogueteiro (Arriscar-se a fazer coisa que não se conhece bem e fracassar), Pegar em rabo-de-foguete (Assumir compromisso difícil de cumprir). Quanto a ADIVINHAS são conhecidas algumas cuja solução é foguete. Eis uma: "Que é, que é, / que quando sobe / é porque há festa?". E outra: "Fumo, ruído, / produz a subir; / cortando a aragem/ onde faz mais barulho/ é no fim da viagem.". No âmbito das ALCUNHAS ALENTEJANAS registam-se duas: FOGUETE - Alcunha outorgada a quem reúne uma das condições: anda muito depressa (Estremoz), conduz muito rápido (Almodôvar), é muito célere a fazer as coisas (Mora) ou tem temperamento explosivo (Castelo de Vide); FOGUETEIRO - Denominação atribuída a alguém que fabrica foguetes (Estremoz). Em termos de TOPONÍMIA temos: FOGUETEIRO - Lugar da freguesia de Amora, concelho de Seixal. Quanto ao CANCIONEIRO POPULAR ALENTEJANO, este regista a ocorrência da quadra: “Estala a bomba e o foguete vai no ar, / Arrebenta e fica todo queimado. / Não há ninguém que baile mais bem / Que as meninas da ribeira do Sado.”

domingo, 15 de novembro de 2015

Comunicado - Miguel Torga




Comunicado
Miguel Torga (1907-1995)

Na frente ocidental nada de novo.
O povo
Continua a resistir.
Sem ninguém que lhe valha,
Geme e trabalha
Até cair.

Miguel Torga (1907-1995)
Hernâni Matos

Publicado inicialmente em 15 de Novembro de 2015

#Poesia Portuguesa - 50

sábado, 14 de novembro de 2015

Poesia Portuguesa - 049



Alentejo
Manuel Alegre (1936-  )

Folheia-se o caderno e eis o sul
E o sul é a palavra. E a palavra
Desdobra-se
No espaço com suas letras de
Solstício e de solfejo
Além de ti
Além do Tejo
Verás o rio e talvez o azul
Não o de Mallarmé: soma de branco e de vazio
Mas aquela grande linha onde o abstracto
Começa lentamente a ser o
Sul
Outro é o tempo
Outra a medida

Tão grande a página
Tão curta a escrita

Entre o achigã e a perdiz
Entre chaparro e choupo

Tanto país
E tão pouco
Solidão é companheira
E de senhor são seus modos
Rei do céu de todos
E de chão nenhum

À sombra de uma azinheira
Há sempre sombra para mais um
Na brancura da cal o traço azul
Alentejo é a última utopia

Todas as aves partem para o sul
Todas as aves: como a poesia

Manuel Alegre (1936-  )

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Poesia Portuguesa - 048


Contrariedades
Cesário Verde (1855-1886)

  

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente; 
Nem posso tolerar os livros mais bizarros. 
Incrível! Já fumei três maços de cigarros 
Consecutivamente. 

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos: 
Tanta depravação nos usos, nos costumes! 
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes 
E os ângulos agudos. 

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora 
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes; 
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes 
E engoma para fora. 

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas! 
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica. 
Lidando sempre! E deve a conta na botica! 
Mal ganha para sopas... 

O obstáculo estimula, torna-nos perversos; 
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias, 
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias, 
Um folhetim de versos. 

Que mau humor! Rasguei uma epopéia morta 
No fundo da gaveta. O que produz o estudo? 
Mais duma redação, das que elogiam tudo, 
Me tem fechado a porta. 

A crítica segundo o método de Taine 
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa 
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa 
Vale um desdém solene. 

Com raras exceções merece-me o epigrama. 
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo, 
Soluça um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho 
Diverte-se na lama. 

Eu nunca dediquei poemas às fortunas, 
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas. 
Independente! Só por isso os jornalistas 
Me negam as colunas. 

Receiam que o assinante ingênuo os abandone, 
Se forem publicar tais coisas, tais autores. 
Arte? Não lhes convêm, visto que os seus leitores 
Deliram por Zaccone. 

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa, 
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie; 
E a mim, não há questão que mais me contrarie 
Do que escrever em prosa. 

A adulação repugna aos sentimentos finos; 
Eu raramente falo aos nossos literatos, 
E apuro-me em lançar originais e exatos, 
Os meus alexandrinos... 

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso! 
Ignora que a asfixia a combustão das brasas, 
Não foge do estendal que lhe umedece as casas, 
E fina-se ao desprezo! 

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova. 
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente, 
Oiço-a cantarolar uma canção plangente 
Duma opereta nova! 

Perfeitamente. Vou findar sem azedume. 
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas, 
Conseguirei reler essas antigas rimas, 
Impressas em volume? 

Nas letras eu conheço um campo de manobras; 
Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague, 
E esta poesia pede um editor que pague 
Todas as minhas obras 

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha? 
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia? 
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia... 
Que mundo! Coitadinha! 

Cesário Verde (1855-1886)

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Poesia Portuguesa - 047


Cantar Alentejano
António Vicente Campinas (1010-1998)


Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão
a viu morrer


Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou


Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou


Aquela pomba tão branca
Todos a querem p’ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti


Aquela andorinha negra
Bate as asas p’ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar


António Vicente Campinas (1010-1998)

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Poesia Portuguesa - 046


Caridade
Joaquim Namorado (1914-1986)

As senhoras da sociedade
deram um baile a rigor
para vestir a pobreza
e a pobreza horas a fio
cortou, coseu, enfeitou
os vestidos deslumbrantes
que a caridade exibiu.

Depois das contas bem feitas
bem tiradas as despesas
arranjou um namorado
a mais nova das Fonsecas;
esteve bem a viscondessa,
veio o nome e o retrato
da comissão nos jornais,
e o Doutor, o Menezes,
o senhor desembargador,
estiveram muito engraçados,
dançaram o tiro-liro
já meio-tombados...

Parece que ainda sobrou
algum dinheiro para chita
para vestir a pobreza
numa festa comovente
com discursos de homenagem
e uma missa...
a que assistiu toda a gente.

Joaquim Namorado (1914-1986)