sexta-feira, 6 de novembro de 2015

NÃO PASSARÃO!

Pedro Passos Coelho e Paulo Portas na Assembleia da República

As recentes eleições legislativas revelaram através dos votos entrados nas urnas, que a maioria dos portugueses rejeitou as propostas políticas da coligação de direita PSD-CDS, a qual nos desgovernou nos últimos quatro anos. Significa isso que não quer nem Coelho nem Portas, já que está farta de Miguéis de Vasconcelos e de Duquesas de Mântua.
Aqueles que têm sido obrigados a pagar a crise, quiseram alterar o estado de coisas, pois entendem que a pátria de Camões deve ser a sua pátria e não uma coutada dos “senhores disto tudo”, das agências de rating, dos mercados, da especulação bolsista, da troika e do FMI.
A maioria do país real entendeu que era a altura de dizer basta, pelo que concentrou os seus votos em três partidos, PS, BE E CDU, que no seu conjunto obtiveram mais votos e mais mandatos que a coligação de direita. Trata-se de partidos diferentemente posicionados na esquerda e com projectos políticos distintos, mas com linhas de força comuns em múltiplos aspectos, com especial realce para a política social do Estado. Tal facto levou os dirigentes daqueles partidos a sentarem-se à mesa das negociações, em busca de um entendimento que conduzisse a um Programa de Governo, sustentado no Orçamento para 2016. Foi com cuidado e determinação que foram negociados e assumidos compromissos estruturais que são para honrar. Em termos constitucionais, o Presidente da República chamou o líder do partido mais votado para formar Governo, o que foi feito por Passos Coelho. Todavia, o Programa de Governo que irá apresentar, precisa de ser aprovado na Assembleia da República, o que não acontecerá, já que nela existe uma maioria de esquerda que não se revê naquele Programa. Deste modo, o Chefe de Estado terá de ouvir novamente os partidos com assento parlamentar. Ora, é sabido que António Costa, leader do PS, apresentará uma alternativa de Governo, com o apoio parlamentar do BE e da CDU. Assim, contra aquilo que era a sua vontade, Cavaco Silva terá de engolir um descomunal elefante, mas não lhe restará outra solução senão empossar o Governo que venha a ser apresentado por António Costa. Aquele, tal como o seu Programa, passará na Assembleia da República com os votos favoráveis dos deputados da maioria de esquerda.
Cavaco Silva sai no mínimo chamuscado desta situação. É que considerava que BE e CDU não poderiam integrar um Governo, o que constitui um espezinhar da Constituição. Na verdade, constitucionalmente e perante a lei, não há nem cidadãos, nem eleitores, nem deputados, nem partidos de primeira e partidos de segunda. Ao admiti-lo, Cavaco Silva deixou de ser Presidente de todos os portugueses, já que se identificou com os propósitos da coligação de direita. Estes, como é sabido, eram ver o seu Governo e o seu Programa passarem na Assembleia da República. Todavia, a maioria de esquerda ali presente não podia trair o seu eleitorado e decidiu:
- NÃO PASSARÃO!

Hernâni Matos              

Poesia Portuguesa - 041



Trova do vento que passa
Manuel Alegre (1936-  )
  
Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de sevidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Manuel Alegre (1936-  )

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Poesia Portuguesa - 040

 Desenho de Azinhal Abelho (1911-1979)

Comoção Rural
Azinhal Abelho (1911-1979)

Já não há quem queira dar
uma filha a um ganhão…
Senhor Pai, senhora mãe,
que grande desolação.

Já bati a sete portas
por mais de mil e uma vez;
Vá-se embora seu ganhão,
disseram com altivez…
A minha filha é prendada,
não é para qualquer tunante,
sabe ler, sabe escrever
e todo o seu consoante.
O que é que tem um ganhão?
Um azinho dum pau torto;
só vive das tristes ervas,
não tem onde cair morto.

Os olhos já não são olhos,
estão estão desfeitos em chorar,
porque a um pobre ganhão
já não há quem queira dar
nem mulher para dormir
nem a filha para mulher;
nem quem o ajude a vestir,

nem quem o ajude a morrer.
Ramos secos, estéreis flores,
pedras de arestas cortantes
perdidas num vendaval,
perdidas numa aflição…
Eu já não posso gritar;
Senhor Pai, senhora Mãe,
que grande desolação
nestes matagais com longes,
aonde os anjos se afundam
em humus e punição!

Azinhal Abelho (1911-1979)

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Poesia Portuguesa - 039


Se fores ao Alentejo...
Eduardo Olímpio (1933-  )

Se fores ao Alentejo
Não leves vinho nem pão :
Leva o coração aberto,
E ao lado do coração
Leva a rosa da justiça
E o teu filho pela mão.

Se fores ao Alentejo
Não leves vinho nem pão:
Leva o teu braço liberto
Para abraçar teu irmão;
Esse irmão que está tão perto
Do teu aperto de mão
E que tão longe amanhece
Nos campos da solidão.

Se fores ao Alentejo
Não leves vinho nem pão :
Leva a alegria de seres
Irmão de quem vai parir
Uma seara de trigo,
Uma charneca a florir,
Um rebanho e um abrigo
E um amanhã que há-de vir
Como se fosse outro amigo
Dentro do sol, a sorrir.

Se fores ao Alentejo
Não leves vinho nem pão :
Leva o coração aberto
E o teu filho pela mão.

Eduardo Olímpio (1933-  )

Almoço de Amigos do Pintor Armando Alves


Armando Alves, natural de Estremoz e consagrado artista plástico a quem José Saramago chamou “Inventor de Céus e Planícies”, completa 80 anos no próximo dia 7 de Novembro. Daí que uma Comissão Organizadora, integrada pela Cooperativa Árvore e pela Editora Modo de Ler, tenha tomado a iniciativa de organizar um Almoço de Amigos, que terá lugar no dia 8 de Novembro, a partir das 12 h 30 min no Restaurante da Fundação Associação Empresarial do Porto. O evento visa comemorar o octogésimo aniversário do Pintor, louvar as suas artes e no dizer de Eugénio de Andrade, a sua “grande, imensa fidelidade” ao Alentejo, ao Porto e a Matosinhos.
O Almoço de Amigos tem uma Comissão de Honra presidida pelo General Ramalho Eanes, a qual integra quarenta figuras marcantes da Cultura, da Vida Política e do Mundo Empresarial.
O programa do evento inclui sucessivas intervenções a cargo de: Engenheiro Amândio Secca, Dr. José Carlos Cruz Santos, Drª Laura Castro e General Ramalho Eanes. Segue-se um Momento Musical, findo o qual, o Actor António Durães lerá textos dedicados ao Pintor Armando Alves, ao Alentejo e ao Porto.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Poesia Portuguesa - 038



Desabafo
Jaime da "Manta Branca" (1894-1955)

MOTE

NÃO VEJO SENÃO CANALHA
DE BANQUETE P'RA BANQUETE
QUEM PRODUZ E QUEM TRABALHA
COME AÇORDAS SEM AZÊTE.

I
Ainda o que mais me admira
E penso vezes a miúdo (1)
Dizem que o Sol nasce p'ra tudo
Mas eu digo que é mentira.
Se o pobrezinho conspira
O burguês com ele ralha
Até diz que o põe à calha (2)
Nem à porta o pode ver.
A não trabalhar e só comer
NÃO VEJO SENÃO CANALHA.

II
Quem passa a vida arrastado,
Por se ver alegre um dia,
Logo diz a burguesia
Que é muito mal governado,
Que é um grande relaxado,
Que anda só no bote e dête (3)
Antes que o pobrezinho respeite
Tratam-no sempre ao desdém.
E vê-se andar quem muito tem
DE BANQUETE P'RA BANQUETE.

III
É um viver tão diferente!
Só o rico tem valor
E o pobre trabalhador
Vai morrendo lentamente.
A fraqueza o põe doente
E a miséria o atrapalha
Leva no peito a medalha
Que ganhou à chuva e ao vento.
E morre à falta de alimento
QUEM PRODUZ E QUEM TRABALHA.

IV
Feliz de quem é patrão
E pobre de quem é criado,
Que até dão por mal empregado
O poucochinho que lhe dão.
Quem semeia e colhe o pão,
Não tem bem onde se deite,
Só tem quem o assujeite (4)
Para que toda a vida chore.
E em paga do seu suor
COME AÇORDAS SEM AZÊTE.

Jaime da "Manta Branca" (1894-1955)


ANOTAÇÕES:
(1) A miúdo - Amiúde.
(2) À calha-Na rua.
(3) No bote e dête - Nos copos.
(4) Assujeite - Subjugue.
Poema dito de improviso na herdade da Defesa, quando o proprietário Eduardo Magalhães convidou o Poeta, assalariado agrícola alentejano, para animar um banquete em que participavam altas individualidades.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

35 – Senhora a servir o chá – 2

 Senhora a servir o chá.
José Moreira (1926-1991).
Colecção particular.
José Moreira - Marca Tipo 6. Carimbo:
FABRICANTE DE BONECOS
JOSÉ MOREIRA
RUA DO NINE, 12
ESTREMOZ
PORTUGAL

A presente crónica corresponde a uma história que passo imediatamente a contar e que poderia ter tido um desfecho diferente. Numa das minhas incursões pela internet à procura de bonecos de Estremoz antigos e disponíveis para venda, fui parar aos leilões eBay, onde um vendedor americano tinha à venda dois exemplares do figurado de Estremoz: “Senhora a servir o chá” (cuja imagem reproduzo) e “Pastor das migas”, com o preço de partida conjunto, de 9,99 dólares, o que corresponde a cerca de 8,95 euros. Dado que não estou inscrito no eBay, contactei por email um amigo português que me costuma desenrascar nestas andanças. Como se encontrava na Roménia em viagem de trabalho, fez a licitação de lá. Porém, o automatismo do eBay ao reconhecer o endereço IP do computador como português, bloqueou o acesso do meu amigo, considerando tratar-se de uma intrusão local no seu email. O meu amigo ainda hoje não tem acesso ao eBay e eu fiquei sem aquelas figuras, as quais foram arrematadas pelo preço de partida (portes excluídos). As peças eram ambas da autoria de José Moreira (1926-1991). A “Senhora a servir o chá”, tal como alguns dos exemplares de Mariano da Conceição (1903-1959), ostenta na cabeça uma canoa, antigo pente de ornato para senhoras. Todavia ao contrário do que era corrente em Mariano, a mesa de pé de galo não tem dois pés virados para a frente, mas apenas um, tal como era usual em Ti Ana das Peles  [Ana Rita da Silva (1870-1945)], com quem José Moreira se iniciou na arte bonequeira. Para além disso e ao contrário das figuras de Mariano, o açucareiro está do lado esquerdo da senhora e as chávenas, que se encontram alinhadas à frente, encontram-se invertidas sobre os pires. Na base do figurado, uma marca de autor de José Moreira, até agora não catalogada e que não figura no rol das inventariadas na minha crónica “28 – O meu amigo José Moreira”. Passarei a designar essa marca por Tipo 6 - Carimbo FABRICANTE DE BONECOS/JOSÉ MOREIRA/RUA DO NINE, 12/ESTREMOZ/PORTUGAL, com a marca distribuída por 5 linhas, ocupando uma superfície que não consigo determinar a partir da imagem recolhida na internet.
O chá regista presença na nossa literatura de tradição oral. A nível de ADAGIÁRIO saliento: “Café de cima, vinho do meio e chá do fundo”, “Café do primeiro e chá do derradeiro”, “O chá de benefício é a véspera da ingratidão”. Na GÍRIA POPULAR, são conhecidas expressões como: Chá à inglesa (Chá servido com leite), Chá dançante (Baile que começa à tardinha e dura até alta noite, sem traje de cerimónia), Chá de bico (Clister), Chá de cadeira (Diz-se que o bebe a mulher que espera que a venham convidar para dançar), Chá de parreira (Vinho), Chá de Tolentino (Tema tão discutido que se torna enfadonho), Dar chá (Gracejar), Dar um chá (Repreender), Dar uma colher de chá (Apoiar), Falta de chá (Falta de educação), Não ter tomado chá em criança (Não ser bem-educado), Tomar chá de sumiço (Diz-se de coisa ou pessoa que se afasta do seu local usual). A nível de ADIVINHAS, apenas conheço esta: “O que é, o que é, / Diz-me já:/ Faz-se no bule, / Chama-se chá”. Quanto a ALCUNHAS ALENTEJANAS, assinalo: CHÁ - Alcunha outorgada a pessoas que apreciam muito beber chá (Castro Verde, Moura e Santiago de Cacém); CHÁ PRETO – O visado adquiriu este epíteto devido a ter a pele muito escura (Campo Maior e Moura).
Na LITERATURA PORTUGUESA, o consumo de chá foi abordado por autores dos quais sobressaem: Almeida Garrett (Viagens na Minha Terra - 1846), Camilo Castelo Branco (Romance dum Homem Rico - 1861) e Eça de Queiroz (O Primo Basílio – 1878 e Os Maias -1888).