sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 034


Poema de Amor
Fernando Namora (1919-1989) 

Se te pedirem, amor, se te pedirem
que contes a velha história
da nau que partiu
e se perdeu,
não contes, amor, não contes
que o mar és tu
e a nau sou eu.

E se pedirem, amor, e se pedirem
que contes a velha fábula
do lobo que matou o cordeiro
e lhe roeu as entranhas,
não contes, amor, não contes
que o lobo é a minha carne
e o cordeiro a minha estrela
que sempre tu conheceste
e te guiou — mal ou bem.

Depois, sabes, estou enjoado
desta farsa.
Histórias, fábulas, amores
tudo me corre os ouvidos
a fugir.

Sou o guerreiro sem forças
para erguer a sua espada,
sou o piloto do barco
que a tempestade afundou.

Não contes, amor, não contes
que eu tenho a alma sem luz.

...Quero-me só, a sofrer e arrastar
a minha cruz.

Fernando Namora (1919-1989)

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 033


Mãe
Miguel Torga (1907-1995)

Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!

Miguel Torga (1907-1995)

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 032


O Amor e o Tempo
António Feijó (1859-1917)

Pela montanha alcantilada
Todos quatro em alegre companhia,
O Amor, o Tempo, a minha Amada
E eu subíamos um dia.

Da minha Amada no gentil semblante
Já se viam indícios de cansaço;
O Amor passava-nos adiante
E o Tempo acelerava o passo.

— “Amor! Amor! mais devagar!
Não corras tanto assim, que tão ligeira
Não pode com certeza caminhar
A minha doce companheira!”

Súbito, o Amor e o Tempo, combinados,
Abrem as asas trémulas ao vento...
— “Porque voais assim tão apressados?
Onde vos dirigis?” — Nesse momento,

Volta-se o Amor e diz com azedume:
— “Tende paciência, amigos meus!
Eu sempre tive este costume
De fugir com o Tempo... Adeus! Adeus!”

António Feijó (1859-1917)

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 031


Nirvana
Antero de Quental (1842-1891)

Viver assim: sem ciúmes, sem saudades,
Sem amor, sem anseios, sem carinhos,
Livre de angústias e felicidades,
Deixando pelo chão rosas e espinhos;

Poder viver em todas as idades;
Poder andar por todos os caminhos;
Indiferente ao bem e às falsidades,
Confundindo chacais e passarinhos;

Passear pela terra, e achar tristonho
Tudo que em torno se vê, nela espalhado;
A vida olhar como através de um sonho;

Chegar onde eu cheguei, subir à altura
Onde agora me encontro - é ter chegado
Aos extremos da Paz e da Ventura!

Antero de Quental (1842-1891)

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 030


Sátira aos Penteados Altos
Nicolau Tolentino (1740-1811)

Chaves na mão, melena desgrenhada,
Batendo o pé na casa, a mãe ordena
Que o furtado colchão, fofo e de pena,
A filha o ponha ali ou a criada.

A filha, moça esbelta e aperaltada,
Lhe diz coa doce voz que o ar serena:
- “Sumiu-se-lhe um colchão? É forte pena;
Olhe não fique a casa arruinada...”

- “Tu respondes assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que, por ter pai embarcado,
Já a mãe não tem mãos?” E, dizendo isto,

Arremete-lhe à cara e ao penteado.
Eis senão quando (caso nunca visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado!...

Nicolau Tolentino (1740-1811)

Os frades de Alessandro Sani

Ganância divina.
Óleo sobre tela (29,2 x 25,3 cm).

Allesandro Sani (1856-1927) foi um prolífico pintor italiano do séc. XIX, sobre o qual são escassas as informações biográficas. Sabe-se todavia que esteve activo em Florença entre 1869 e 1915, dedicando-se nas galerias daquela cidade, à cópia de pinturas antigas destinadas ao mercado internacional. De 1871 a 1880 participou em exposições em Florença e Génova, assim como na Exposição Universal de Viena, em 1873.
Muitos dos seus quadros são sátiras à vida doméstica, nomeadamente de frades. Estes não são apresentados em cenas de contemplação e de serviço a Deus, reveladoras de desapego aos bens materiais. Pelo contrário são representados em situações que configuram mais o profano que o religioso e que poderão sugerir mesmo o cometimento de alguns pecados capitais. Daí que a pintura de Sani, possa ser encarada por alguns como uma pintura anti-clerical.

Dia de mercado. 
Óleo sobre tela (33 x 42,5 cm).
Dia de marcado.
Óleo sobre tela (30,5 x 39,4 cm).
Inspeccionando a refeição.
Óleo sobre tela (58,4 x 73,7 cm).
O fedor do peixe.
Óleo sobre tela (50 x 61,5 cm).
Presentes da quinta.
Óleo sobre tela (40 x 56 cm).
Um monge na prova diária.
Óleo sobre tela (64 x 49 cm).
A degustação.
Óleo sobre tela (51,4 x 61,6 cm).
Testando a receita .
Óleo sobre tela (36,8 x 49,5 cm).
Monge e Chefe de cozinha.
Óleo sobre tela.
Frade na cozinha.
Óleo sobre tela (58,4 x 43,2 cm).
O prato favorito.
Óleo sobre tela (40 x 56 cm).
Macarrão.
Óleo sobre tela (95 x 14,8 cm).
Uma refeição de boas vindas.
Óleo sobre tela (74,9 x 102,9 cm).
Cena alegre na taberna.
Óleo sobre painel de madeira (26,04 x 39,37 cm).
Um copo de vinho.
Óleo sobre tela (38 x 45,7 cm).
A nova colheita.
Óleo sobre tela (22,9 x 17,8 cm).
Uma boa colheita.
Óleo sobre tela (62 x 47 cm).
O degustador de vinhos.
Óleo sobre tela (58,5 x 71 cm).
O monge e a donzela.
Óleo sobre tela (47,9 x 37.5 cm).
As notícias do dia.
Óleo sobre tela (42,5 x 54,6 cm).
 
Um jogo de xadrez.
Óleo sobre tela (47 x 63 cm).
O jogo de cartas.
Óleo sobre tela (34,5 x 43,5 cm).
Na biblioteca do Mosteiro.
Óleo sobre tela (57,5 x 75,5 cm).

domingo, 25 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 029



Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades
Luís Vaz de Camões (1524-1580)

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

Luís Vaz de Camões (1524-1580)