quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 019


Fábrica
Joaquim Namorado (1914-1986)

Oh, a poesia de tudo o que é geométrico
e perfeito,
a beleza nova dos maquinismos,
a força secreta das peças
sob o contacto liso e frio dos metais,
a segura confiança

do saber-se que é assim e assim exactamente,
sem lugar a enganos,
tudo matemático e harmónico,
sem nenhum imprevisto, sem nenhuma aventura,
como na cabeça do engenheiro.
Os operários têm nos músculos, de cor,
os movimentos dia a dia repetidos:

é como se fossem da sua natureza,
longe de toda a vontade e de todo o pensamento;

como se os metais fossem carne do corpo
e as veias se abrissem
àquela vida estranha, dura, implacável
das máquinas.

Os motores de tantos mil cavalos
alinhados e seguros de si,
seguros do seu poder;

as articulações subtis das bielas,
o enlace justo das engrenagens:
a fábrica, todo um imenso corpo de movimentos
concordantes, dependentes, necessários.

Joaquim Namorado (1914-1986)

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

34 – Senhora a servir o chá

Senhora a servir o chá.
Mariano da Conceição (1903-1959).
Marca: ESTREMOZ / PORTUGAL.
Colecção particular.

A utilização do chá com carácter medicinal e como bebida preparada a partir da infusão das suas folhas, deve-se ao imperador chinês Shen Nung (2737 A.C.). A Europa conheceu o chá tardiamente e a referência mais remota na literatura europeia, surge no 2º volume da obra de Giovanni Battista Ramusio (1485-1557), “Navigatione et Viaggi” – Veneza, 1559, enquanto que na literatura portuguesa aparece no “Tractado em que se co[m]tam muito por este[n]so as cousas da China, co[n] suas particularidades, [e] assi do reyno dormuz” – Évora, 1569, de Gaspar da Cruz (c.1520-1570). Quanto à primeira importação de chá para a Europa ocorreu em 1610, por iniciativa holandesa.
A Infanta Dona Catarina de Bragança (1638 -1705), filha do Rei Dom João IV (1604-1656) e da Rainha Dona Luísa de Gusmão (1613-1666), rainha de Inglaterra, Escócia e Irlanda, por casamento com o Rei Carlos II (1630-1685), transformou o hábito de beber chá, muito em voga nos círculos aristocráticos da época, na "instituição" conhecida hoje por "five o'clock tea".
Na crónica “Actividades da Mulher na barrística de Estremoz”, publicada na secção “Arquivos de Memória” que mantinha no jornal Brados do Alentejo, Joaquim Vermelho (1927-2002), fala na “Dama a tomar chá” e mais adiante em ”chá das cinco”. Nesse tipo de convívio, tradição corrente nos lares portugueses de classe média ou alta, era óbvio que por uma questão de cortesia e arte de bem receber, competia à dona da casa, a missão de servir o chá às suas visitas.
O boneco de que vos falo hoje, pertence ao núcleo base do figurado de Estremoz. Representa uma senhora trajando à moda do séc. XIX, com a mão esquerda apoiada na anca e com a mão direita pegando num bule assente numa mesa de pé de galo, de tampo circular. Sobre este, encontram-se ainda 3 chávenas, 3 bolos e 1 açucareiro. Tal artefacto recebeu de mim o nome de “Senhora a servir o chá”, designação que é também adoptada actualmente por barristas como as Irmãs Flores, Ricardo Fonseca e Jorge da Conceição.
Todavia, uma imagem similar à aqui apresentada e igualmente executada por Mariano da Conceição (1903-1959), figura na colecção do Museu Rural de Estremoz, fruto da aquisição em 1948 a “Viúva de Narciso Augusto da Conceição”, encontrando-se inventariada com o nº 86 e tendo recebido a denominação de “Mulher a vender café”. A figura é também assim nomeada numa “Tabela de Preços dos Bonecos de Estremoz” de “Leonor das Neves Conceição (Herd.) – Olaria Alfacinha”, impressa em 1976 na Tipografia Progresso, em Estremoz. Significa isto que Liberdade da Conceição (1913-1990) e Luísa da Conceição (1934-2015), respectivamente mulher e filha de Mariano, assim como sua irmã Sabina da Conceição (1921-2005), designaram de igual modo, o exemplar de figurado, objecto da presente crónica.
É de admitir que Sá Lemos (1892-1971) no decurso da revitalização da manufactura do figurado de Estremoz, efectuada nos anos 30 do séc. XX, tenha subscrito o nome utilizado por Mariano. Todavia convém lembrar que há peças que no decurso do tempo receberam nomes distintos, assim como aquelas cuja designação exacta se perdeu na poeira dos tempos e que urge recuperar.
Creio estarmos em presença da representação simplificada duma cena tradicional da vida íntima e social da mulher burguesa ou aristocrata. A presença simbólica do bule, correntemente usado para servir chá e a utilização da mesa de pé de galo, característica de interiores de casas, confere a meu ver, consistência à designação: “Senhora a servir o chá”.


Poesia Portuguesa - 018


Ao lume
Maria de Santa Isabel (1910-1992)

O lume fascina,
atrai, encandeia,
deslumbra a visão!
e a casa está cheia
de imaginação!
Perfume a resina
de esteva bravia,
de sobro, de azinho:
Que doce harmonia!
Na hora da ceia
Faz-se a comunhão
do Pão e do Vinho,
à luz da candeia
e ao lume do chão!

O aroma rescende
a plagas distantes;
e doces, serenas,
nesse lumaréu,
as coisas pequenas
parecem gigantes
que chegam ao Céu…

Maria de Santa Isabel (1910-1992)


terça-feira, 13 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 017



O Leão e o Porco
Bocage (1765-1805)

O rei dos animais, o rugidor leão,
Com o porco engraçou, não sei por que razão.
Quis empregá-lo bem para tirar-lhe a sorna
(A quem torpe nasceu nenhum enfeite adorna):
Deu-lhe alta dignidade, e rendas competentes,
Poder de despachar os brutos pretendentes,
De reprimir os maus, fazer aos bons justiça,
E assim cuidou vencer-lhe a natural preguiça;
Mas em vão, porque o porco é bom só para assar,
E a sua ocupação dormir, comer, fossar.
Notando-lhe a ignorância, o desmazelo, a incúria,
Soltavam contra ele injúria sobre injúria
Os outros animais, dizendo-lhe com ira:
«Ora o que o berço dá, somente a cova o tira!»
E ele, apenas grunhindo a vilipêndios tais,
Ficava muito enxuto. Atenção nisto, ó pais!
Dos filhos para o génio olhai com madureza;
Não há poder algum que mude a natureza:
Um porco há-de ser porco, inda que o rei dos bichos
O faça cortesão pelos seus vãos caprichos.

Bocage (1765-1805)

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 016


Meu Camarada e Amigo
Ary dos Santos (1937-1984)

Revejo tudo e redigo
meu camarada e amigo.
Meu irmão suando pão
sem casa mas com razão.
Revejo e redigo
meu camarada e amigo

As canções que trago prenhas
de ternura pelos outros
saem das minhas entranhas
como um rebanho de potros.
Tudo vai roendo a erva
daninha que me entrelaça:
canção não pode ser serva
homem não pode ser caça
e a poesia tem de ser
como um cavalo que passa.

É por dentro desta selva
desta raiva   deste grito
desta toada que vem
dos pulmões do infinito
que em todos vejo ninguém
revejo tudo e redigo:
Meu camarada e amigo.

Sei bem as mós que moendo
pouco a pouco trituraram
os ossos que estão doendo
àqueles que não falaram.

Calculo até os moinhos
puxados a ódio e sal
que a par dos monstros marinhos
vão movendo Portugal
— mas um poeta só fala
por sofrimento total!

Por isso calo e sobejo
eu que só tenho o que fiz
dando tudo mas à toa:
Amigos no Alentejo
alguns que estão em Paris
muitos que são de Lisboa.
Aonde me não revejo
é que eu sofro o meu país.

Ary dos Santos (1937-1984)

domingo, 11 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 015



Balada da Neve
Augusto Gil (1873-1929)

Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
– Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança...

E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
– e cai no meu coração.

Augusto Gil (1873-1929)

sábado, 10 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 014


Liberdade
Fernando Pessoa (1888-1935)

Ai que prazer 
Não cumprir um dever, 
Ter um livro para ler 
E não fazer! 
Ler é maçada, 
Estudar é nada. 
Sol doira 
Sem literatura 
O rio corre, bem ou mal, 
Sem edição original. 
E a brisa, essa, 
De tão naturalmente matinal, 
Como o tempo não tem pressa... 

Livros são papéis pintados com tinta. 
Estudar é uma coisa em que está indistinta 
A distinção entre nada e coisa nenhuma. 

Quanto é melhor, quanto há bruma, 
Esperar por D.Sebastião, 
Quer venha ou não! 

Grande é a poesia, a bondade e as danças... 
Mas o melhor do mundo são as crianças, 

Flores, música, o luar, e o sol, que peca 
Só quando, em vez de criar, seca. 

Mais que isto 
É Jesus Cristo, 
Que não sabia nada de finanças 
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa (1888-1935)