quarta-feira, 14 de outubro de 2015

34 – Senhora a servir o chá

Senhora a servir o chá.
Mariano da Conceição (1903-1959).
Marca: ESTREMOZ / PORTUGAL.
Colecção particular.

A utilização do chá com carácter medicinal e como bebida preparada a partir da infusão das suas folhas, deve-se ao imperador chinês Shen Nung (2737 A.C.). A Europa conheceu o chá tardiamente e a referência mais remota na literatura europeia, surge no 2º volume da obra de Giovanni Battista Ramusio (1485-1557), “Navigatione et Viaggi” – Veneza, 1559, enquanto que na literatura portuguesa aparece no “Tractado em que se co[m]tam muito por este[n]so as cousas da China, co[n] suas particularidades, [e] assi do reyno dormuz” – Évora, 1569, de Gaspar da Cruz (c.1520-1570). Quanto à primeira importação de chá para a Europa ocorreu em 1610, por iniciativa holandesa.
A Infanta Dona Catarina de Bragança (1638 -1705), filha do Rei Dom João IV (1604-1656) e da Rainha Dona Luísa de Gusmão (1613-1666), rainha de Inglaterra, Escócia e Irlanda, por casamento com o Rei Carlos II (1630-1685), transformou o hábito de beber chá, muito em voga nos círculos aristocráticos da época, na "instituição" conhecida hoje por "five o'clock tea".
Na crónica “Actividades da Mulher na barrística de Estremoz”, publicada na secção “Arquivos de Memória” que mantinha no jornal Brados do Alentejo, Joaquim Vermelho (1927-2002), fala na “Dama a tomar chá” e mais adiante em ”chá das cinco”. Nesse tipo de convívio, tradição corrente nos lares portugueses de classe média ou alta, era óbvio que por uma questão de cortesia e arte de bem receber, competia à dona da casa, a missão de servir o chá às suas visitas.
O boneco de que vos falo hoje, pertence ao núcleo base do figurado de Estremoz. Representa uma senhora trajando à moda do séc. XIX, com a mão esquerda apoiada na anca e com a mão direita pegando num bule assente numa mesa de pé de galo, de tampo circular. Sobre este, encontram-se ainda 3 chávenas, 3 bolos e 1 açucareiro. Tal artefacto recebeu de mim o nome de “Senhora a servir o chá”, designação que é também adoptada actualmente por barristas como as Irmãs Flores, Ricardo Fonseca e Jorge da Conceição.
Todavia, uma imagem similar à aqui apresentada e igualmente executada por Mariano da Conceição (1903-1959), figura na colecção do Museu Rural de Estremoz, fruto da aquisição em 1948 a “Viúva de Narciso Augusto da Conceição”, encontrando-se inventariada com o nº 86 e tendo recebido a denominação de “Mulher a vender café”. A figura é também assim nomeada numa “Tabela de Preços dos Bonecos de Estremoz” de “Leonor das Neves Conceição (Herd.) – Olaria Alfacinha”, impressa em 1976 na Tipografia Progresso, em Estremoz. Significa isto que Liberdade da Conceição (1913-1990) e Luísa da Conceição (1934-2015), respectivamente mulher e filha de Mariano, assim como sua irmã Sabina da Conceição (1921-2005), designaram de igual modo, o exemplar de figurado, objecto da presente crónica.
É de admitir que Sá Lemos (1892-1971) no decurso da revitalização da manufactura do figurado de Estremoz, efectuada nos anos 30 do séc. XX, tenha subscrito o nome utilizado por Mariano. Todavia convém lembrar que há peças que no decurso do tempo receberam nomes distintos, assim como aquelas cuja designação exacta se perdeu na poeira dos tempos e que urge recuperar.
Creio estarmos em presença da representação simplificada duma cena tradicional da vida íntima e social da mulher burguesa ou aristocrata. A presença simbólica do bule, correntemente usado para servir chá e a utilização da mesa de pé de galo, característica de interiores de casas, confere a meu ver, consistência à designação: “Senhora a servir o chá”.