quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 011

CEIFA NOS CAMPOS DE ESTREMOZ (Anos 30 do séc. XX).
Fotografia de Rogério de Carvalho (1915-1988).

Ceifeiros
Francisco Bugalho (1905-1949)

Estes ceifeiros não são
Os ceifeiros do Fialho.
Têm braços, mãos, almas duras,
Têm fogo no coração,
Têm amor ao seu trabalho,
Por ser trabalhar no pão.

Estes ceifeiros não são
Grilhetas, são orgulhosos
De darem, ao mundo, pão;
Porque são eles que o dão
A pobres ou poderosos.

Está hoje vento suão.
Está quente, - oh, gentes! Está quente!
Vamos lá, outro empurrão!
Não vá desgranar-se o grão...
- E a fila marcha prá frente.

Range o restolho cortado,
Pela serrilha da foice,
E aquele mar ondulado,
Que foi lindo mar doirado,
Não tem espiga que baloice.

Quando a gente está afeito,
Quase não sente o calor.
Cortar o pão quer-se feito
Co'a ternura, gosto e jeito
Com que se fala de amor.

A espiga está grada e bela.
O Inverno ainda vem longe.
E, nesta vida singela,
Ter pão é estar à janela
E poder olhar pra longe.

Estes ceifeiros não sabem
Mais que a vida natural.
Mas têm a intuição que cabem,
Às mãos que esta faina acabem,
Dons do sobrenatural.

Francisco Bugalho (1905-1949)

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Machismo? Não, obrigado.


A orgia (c. 1775). William Hogarth (1697-1764). Óleo sobre tela (62,5 x 75 cm).
Sir John Soane's Museum, Londres.

D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666), utilizou abundantemente provérbios nas suas obras literárias. Para ele, tratava-se de “sentenças verdadeiras que a experiência, suma mestra das artes, pronunciou pelas bocas do povo”. Se isso é verdade em relação a alguns provérbios, não o é em relação a outros, como é o caso dos que se referem à mulher. Esta, desde a Antiguidade Clássica que via o seu papel reduzido face ao do homem, com a esfera de actuação circunscrita ao campo doméstico e familiar, não gozando de direitos sociais e políticos como o homem, que chamava a si as responsabilidades inerentes ao trabalho e à chefia. Tal não acontece hoje, pelo que há provérbios que revelam uma atitude machista, de que o homem é superior à mulher, a quem protege e de quem é chefe de família.
O vasto universo desses provérbios é sistematizável pelo menos em quatro grandes grupos: - A mulher é considerada inferior e dependente do homem: A sombra de um homem vale mais que cem mulheres. Uma mulher sem um homem é como uma guitarra sem cordas. - A mulher é equiparada aos animais: Mulher e mula, o pau as cura. Mulheres, burros e nozes, carecem de mãos fortes. - A mulher deve estar confinada ao lar: A sertã e a mulher, na cozinha é que se quer. Galinhas e mulher, não se deixam passear. - A mulher não se deve divertir: Mulher que não perde festa, pouco presta. Quem perde muitas horas à janela, esquece-se, concerteza, da panela. - Mulheres juntas são encaradas com desconfiança: Duas mulheres fazem um mercado, quatro uma feira. Uma mulher faz tudo, duas fazem pouco e três não fazem nada. - São dados conselhos aos homens: Do vinho e da mulher, livre-se o homem se puder. Guarda-te de traseiro de mula e de língua de mulher.
A leitura destes adágios merece reflexão. Em primeiro lugar, em termos bíblicos: Após ter criado Adão “O Senhor Deus disse: “Não é bom que o homem esteja só; vou dar-lhe uma ajuda que lhe seja adequada.”” (Génesis 2, 18). De acordo com a Bíblia, Deus terá então criado Eva, por conveniência de Adão: “Então o Senhor Deus mandou ao homem um profundo sono; e enquanto ele dormia, tomou-lhe uma costela e fechou com carne o seu lugar.” (Génesis 2, 21). “E da costela que tinha tomado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher, e levou-a para junto do homem.” (Génesis 2, 22). “Eis agora aqui, disse o homem, o osso de meus ossos e a carne de minha carne; ela se chamará mulher, porque foi tomada do homem.” (Génesis 2, 23). Ao expulsar Adão e Eva do Jardim do Éden, Deus “Disse também à mulher: Multiplicarei os sofrimentos de teu parto; darás à luz com dores, teus desejos te impelirão para o teu marido e tu estarás sob o seu domínio.” (Génesis 3, 16). Tais versículos bíblicos colocam a mulher numa situação de subalternidade ante o homem, registando a desigualdade de género, através daquelas que são consideradas as palavras de Deus. Para além disso, a doutrina católica advoga actualmente a igualdade de género, mas apresenta razões teologais que inviabilizam a ordenação sacerdotal de mulheres.
Em segundo lugar, os provérbios aqui transcritos são merecedores de toda a nossa repulsa. Todavia até há bem pouco tempo integraram a voz do povo masculino. A isso não terão sido estranhos os interesses mais retrógrados da sociedade, alicerçada no obscurantismo da idade média, no absolutismo real, no feudalismo, na inquisição e no fascismo. Foram tempos deploráveis, cujo regresso não queremos. Daí o título da presente crónica. 

Publicado inicialmente em 6 de Outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 010



No monte
António de Macedo Papança (1852-1913)
(Conde de Monsaraz) 

No monte, o lavrador, cansado da labuta
Do dia que passou, monótono, uniforme
São oito horas, ceou, recolheu-se e já dorme,
Feliz por ver medrar as terras que desfruta.

A lavradora, não; activa e resoluta,
Moireja até mais tarde e descansa conforme
A faina lho consente e a barafunda enorme
De homens e de animais que em derredor se escuta

Mas a filha, que tem vinte anos e que sente,
Nas solidões da herdade, a alma descontente
E o sangue a referver num sonho tresloucado,

Encosta-se à janela; ouvem-se as rãs e os grilos;
E os olhos de azeviche, ardentes e tranquilos,
Ficam-se horas a olhar as sombras do montado...

António de Macedo Papança (1852-1913)
(Conde de Monsaraz) 

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 009


Poesia depois da chuva
Sebastião da Gama (1924 -1952)

Depois da chuva o Sol - a raça.
Oh! a terra molhada iluminada!
E os regos de água atravessando a praça
- luz a fluir, num fluir imperceptível quase.

Canta, contente, um pássaro qualquer.
Logo a seguir, nos ramos nus, esvoaça.
O fundo é branco - cai fresquinha no casario da praça.
Guizos, rodas rodando, vozes claras no ar.

Tão alegre este Sol! Há Deus. (Tivera-O eu negado
antes do Sol, não duvidava agora.)
Ó Tarde virgem, Senhora Aparecida! Ó Tarde igual
às manhãs do princípio!

E tu passaste, flor dos olhos pretos que eu admiro.
Grácil, tão grácil!... Pura imagem da tarde...
Flor levada nas águas, mansamente...

(Fluida a luz, num fluir imperceptível quase...)

Sebastião da Gama (1924 -1952)

domingo, 4 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 008



Minha senhora de mim
Maria Teresa Horta (1937-  )

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

sem ser dor ou ser cansaço
nem o corpo que disfarço

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

nunca dizendo comigo
o amigo nos meus braços

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

recusando o que é desfeito
no interior do meu peito
  
Maria Teresa Horta (1937-  )

sábado, 3 de outubro de 2015

José Vilhena, presente!

JOSÉ VILHENA (1927-2015).
Fotografia recolhida no blogue http://granito.blogspot.pt

O escritor, humorista, cartoonista e pintor José Vilhena (7/7/1927 - 3 /10/2015), de 88 anos, fundador das revistas “O Moralista” e “Gaiola Aberta”, morreu hoje em Lisboa, no Hospital de S. Francisco Xavier, vítima de doença de Alzheimer.
O velório de José Vilhena realiza-se amanhã a partir das 18 h na Basílica da Estrela, em Lisboa, estando o funeral previsto para as 11 h de segunda-feira para o cemitério do Alto de S. João, onde pelas 12 h, terá lugar a cerimónia de cremação.
José Vilhena foi genial na sátira política à sociedade portuguesa, antes e após a ditadura, com um prazer manifesto pelo erotismo. Em comunicado enviado à agência Lusa, o seu sobrinho Luís Vilhena, declarou: "José Vilhena foi o autor incontornável de três ou quatro décadas do humor em Portugal. A sua obra, na tradição de Gil Vicente, Bocage ou Bordalo Pinheiro, é uma crónica dos tempos. Umas vezes pela crítica de costumes, outras vezes no olhar sobre a política, outras sobre a Igreja e quase sempre sobre a mulher".
Como homenagem a José Vilhena, para sempre presente na nossa memória, reproduzimos aqui alguns dos seus famosos cartoons de sátira política, extraídos com a devida vénia da página http://www.vilhena.me, da responsabilidade de seu sobrinho Luís Vilhena. 









Poesia Portuguesa - 007




Tu e Eu Meu Amor

Manuel da Fonseca (1911-1993)

  

Tu e eu meu amor 
meu amor eu e tu 
que o amor meu amor 
é o nu contra o nu. 

Nua a mão que segura 
outra mão que lhe é dada 
nua a suave ternura 
na face apaixonada 
nua a estrela mais pura 
nos olhos da amada 
nua a ânsia insegura 
de uma boca beijada. 

Tu e eu meu amor 
meu amor eu e tu 
que o amor meu amor 
é o nu contra o nu. 

Nu o riso e o prazer 
como é nua a sentida 
lágrima de não ver 
na face dolorida 
nu o corpo do ser 
na hora prometida 
meu amor que ao nascer 
nus viemos à vida. 

Tu e eu meu amor 
meu amor eu e tu 
que o amor meu amor 
é o nu contra o nu. 

Nua nua a verdade 
tão forte no criar 
adulta humanidade 
nu o querer e o lutar 
dia a dia pelo que há-de 
os homens libertar 
amor que a eternidade 
é ser livre e amar. 

Tu e eu meu amor 
meu amor eu e tu 
que o amor meu amor 
é o nu contra o nu. 

Manuel da Fonseca (1911-1993)