A orgia (c. 1775). William Hogarth (1697-1764). Óleo sobre tela (62,5 x 75 cm).
Sir John Soane's Museum, Londres.
D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666), utilizou
abundantemente provérbios nas suas obras literárias. Para ele, tratava-se de
“sentenças verdadeiras que a experiência, suma mestra das artes, pronunciou
pelas bocas do povo”. Se isso é verdade em relação a alguns provérbios, não o é
em relação a outros, como é o caso dos que se referem à mulher. Esta, desde a
Antiguidade Clássica que via o seu papel reduzido face ao do homem, com a
esfera de actuação circunscrita ao campo doméstico e familiar, não gozando de
direitos sociais e políticos como o homem, que chamava a si as
responsabilidades inerentes ao trabalho e à chefia. Tal não acontece hoje, pelo
que há provérbios que revelam uma atitude machista, de que o homem é superior
à mulher, a quem protege e de quem é chefe de família.
O vasto universo desses provérbios é sistematizável
pelo menos em quatro grandes grupos: - A mulher é considerada inferior e
dependente do homem: A sombra de um homem vale mais que cem mulheres. Uma
mulher sem um homem é como uma guitarra sem cordas. - A mulher é equiparada aos
animais: Mulher e mula, o pau as cura. Mulheres, burros e nozes, carecem de
mãos fortes. - A mulher deve estar confinada ao lar: A sertã e a mulher, na
cozinha é que se quer. Galinhas e mulher, não se deixam passear. - A mulher não
se deve divertir: Mulher que não perde festa, pouco presta. Quem perde muitas
horas à janela, esquece-se, concerteza, da panela. - Mulheres juntas são
encaradas com desconfiança: Duas mulheres fazem um mercado, quatro uma feira.
Uma mulher faz tudo, duas fazem pouco e três não fazem nada. - São dados
conselhos aos homens: Do vinho e da mulher, livre-se o homem se puder.
Guarda-te de traseiro de mula e de língua de mulher.
A leitura destes adágios merece reflexão. Em
primeiro lugar, em termos bíblicos: Após ter criado Adão “O Senhor Deus disse:
“Não é bom que o homem esteja só; vou dar-lhe uma ajuda que lhe seja
adequada.”” (Génesis 2, 18). De acordo com a Bíblia, Deus terá então criado
Eva, por conveniência de Adão: “Então o Senhor Deus mandou ao homem um profundo
sono; e enquanto ele dormia, tomou-lhe uma costela e fechou com carne o seu
lugar.” (Génesis 2, 21). “E da costela que tinha tomado do homem, o Senhor Deus
fez uma mulher, e levou-a para junto do homem.” (Génesis 2, 22). “Eis agora
aqui, disse o homem, o osso de meus ossos e a carne de minha carne; ela se
chamará mulher, porque foi tomada do homem.” (Génesis 2, 23). Ao expulsar Adão
e Eva do Jardim do Éden, Deus “Disse também à mulher: Multiplicarei os sofrimentos
de teu parto; darás à luz com dores, teus desejos te impelirão para o teu
marido e tu estarás sob o seu domínio.” (Génesis 3, 16). Tais versículos
bíblicos colocam a mulher numa situação de subalternidade ante o homem,
registando a desigualdade de género, através daquelas que são consideradas as
palavras de Deus. Para além disso, a doutrina católica advoga actualmente a
igualdade de género, mas apresenta razões teologais que inviabilizam a
ordenação sacerdotal de mulheres.
Em segundo lugar, os provérbios aqui transcritos
são merecedores de toda a nossa repulsa. Todavia até há bem pouco tempo
integraram a voz do povo masculino. A isso não terão sido estranhos os
interesses mais retrógrados da sociedade, alicerçada no obscurantismo da idade
média, no absolutismo real, no feudalismo, na inquisição e no fascismo. Foram
tempos deploráveis, cujo regresso não queremos. Daí o título da presente
crónica.
Publicado inicialmente em 6 de Outubro de 2015