terça-feira, 6 de outubro de 2015

Machismo? Não, obrigado.


A orgia (c. 1775). William Hogarth (1697-1764). Óleo sobre tela (62,5 x 75 cm).
Sir John Soane's Museum, Londres.

D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666), utilizou abundantemente provérbios nas suas obras literárias. Para ele, tratava-se de “sentenças verdadeiras que a experiência, suma mestra das artes, pronunciou pelas bocas do povo”. Se isso é verdade em relação a alguns provérbios, não o é em relação a outros, como é o caso dos que se referem à mulher. Esta, desde a Antiguidade Clássica que via o seu papel reduzido face ao do homem, com a esfera de actuação circunscrita ao campo doméstico e familiar, não gozando de direitos sociais e políticos como o homem, que chamava a si as responsabilidades inerentes ao trabalho e à chefia. Tal não acontece hoje, pelo que há provérbios que revelam uma atitude machista, de que o homem é superior à mulher, a quem protege e de quem é chefe de família.
O vasto universo desses provérbios é sistematizável pelo menos em quatro grandes grupos: - A mulher é considerada inferior e dependente do homem: A sombra de um homem vale mais que cem mulheres. Uma mulher sem um homem é como uma guitarra sem cordas. - A mulher é equiparada aos animais: Mulher e mula, o pau as cura. Mulheres, burros e nozes, carecem de mãos fortes. - A mulher deve estar confinada ao lar: A sertã e a mulher, na cozinha é que se quer. Galinhas e mulher, não se deixam passear. - A mulher não se deve divertir: Mulher que não perde festa, pouco presta. Quem perde muitas horas à janela, esquece-se, concerteza, da panela. - Mulheres juntas são encaradas com desconfiança: Duas mulheres fazem um mercado, quatro uma feira. Uma mulher faz tudo, duas fazem pouco e três não fazem nada. - São dados conselhos aos homens: Do vinho e da mulher, livre-se o homem se puder. Guarda-te de traseiro de mula e de língua de mulher.
A leitura destes adágios merece reflexão. Em primeiro lugar, em termos bíblicos: Após ter criado Adão “O Senhor Deus disse: “Não é bom que o homem esteja só; vou dar-lhe uma ajuda que lhe seja adequada.”” (Génesis 2, 18). De acordo com a Bíblia, Deus terá então criado Eva, por conveniência de Adão: “Então o Senhor Deus mandou ao homem um profundo sono; e enquanto ele dormia, tomou-lhe uma costela e fechou com carne o seu lugar.” (Génesis 2, 21). “E da costela que tinha tomado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher, e levou-a para junto do homem.” (Génesis 2, 22). “Eis agora aqui, disse o homem, o osso de meus ossos e a carne de minha carne; ela se chamará mulher, porque foi tomada do homem.” (Génesis 2, 23). Ao expulsar Adão e Eva do Jardim do Éden, Deus “Disse também à mulher: Multiplicarei os sofrimentos de teu parto; darás à luz com dores, teus desejos te impelirão para o teu marido e tu estarás sob o seu domínio.” (Génesis 3, 16). Tais versículos bíblicos colocam a mulher numa situação de subalternidade ante o homem, registando a desigualdade de género, através daquelas que são consideradas as palavras de Deus. Para além disso, a doutrina católica advoga actualmente a igualdade de género, mas apresenta razões teologais que inviabilizam a ordenação sacerdotal de mulheres.
Em segundo lugar, os provérbios aqui transcritos são merecedores de toda a nossa repulsa. Todavia até há bem pouco tempo integraram a voz do povo masculino. A isso não terão sido estranhos os interesses mais retrógrados da sociedade, alicerçada no obscurantismo da idade média, no absolutismo real, no feudalismo, na inquisição e no fascismo. Foram tempos deploráveis, cujo regresso não queremos. Daí o título da presente crónica. 

Publicado inicialmente em 6 de Outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 010



No monte
António de Macedo Papança (1852-1913)
(Conde de Monsaraz) 

No monte, o lavrador, cansado da labuta
Do dia que passou, monótono, uniforme
São oito horas, ceou, recolheu-se e já dorme,
Feliz por ver medrar as terras que desfruta.

A lavradora, não; activa e resoluta,
Moireja até mais tarde e descansa conforme
A faina lho consente e a barafunda enorme
De homens e de animais que em derredor se escuta

Mas a filha, que tem vinte anos e que sente,
Nas solidões da herdade, a alma descontente
E o sangue a referver num sonho tresloucado,

Encosta-se à janela; ouvem-se as rãs e os grilos;
E os olhos de azeviche, ardentes e tranquilos,
Ficam-se horas a olhar as sombras do montado...

António de Macedo Papança (1852-1913)
(Conde de Monsaraz) 

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 009


Poesia depois da chuva
Sebastião da Gama (1924 -1952)

Depois da chuva o Sol - a raça.
Oh! a terra molhada iluminada!
E os regos de água atravessando a praça
- luz a fluir, num fluir imperceptível quase.

Canta, contente, um pássaro qualquer.
Logo a seguir, nos ramos nus, esvoaça.
O fundo é branco - cai fresquinha no casario da praça.
Guizos, rodas rodando, vozes claras no ar.

Tão alegre este Sol! Há Deus. (Tivera-O eu negado
antes do Sol, não duvidava agora.)
Ó Tarde virgem, Senhora Aparecida! Ó Tarde igual
às manhãs do princípio!

E tu passaste, flor dos olhos pretos que eu admiro.
Grácil, tão grácil!... Pura imagem da tarde...
Flor levada nas águas, mansamente...

(Fluida a luz, num fluir imperceptível quase...)

Sebastião da Gama (1924 -1952)

domingo, 4 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 008



Minha senhora de mim
Maria Teresa Horta (1937-  )

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

sem ser dor ou ser cansaço
nem o corpo que disfarço

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

nunca dizendo comigo
o amigo nos meus braços

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

recusando o que é desfeito
no interior do meu peito
  
Maria Teresa Horta (1937-  )

sábado, 3 de outubro de 2015

José Vilhena, presente!

JOSÉ VILHENA (1927-2015).
Fotografia recolhida no blogue http://granito.blogspot.pt

O escritor, humorista, cartoonista e pintor José Vilhena (7/7/1927 - 3 /10/2015), de 88 anos, fundador das revistas “O Moralista” e “Gaiola Aberta”, morreu hoje em Lisboa, no Hospital de S. Francisco Xavier, vítima de doença de Alzheimer.
O velório de José Vilhena realiza-se amanhã a partir das 18 h na Basílica da Estrela, em Lisboa, estando o funeral previsto para as 11 h de segunda-feira para o cemitério do Alto de S. João, onde pelas 12 h, terá lugar a cerimónia de cremação.
José Vilhena foi genial na sátira política à sociedade portuguesa, antes e após a ditadura, com um prazer manifesto pelo erotismo. Em comunicado enviado à agência Lusa, o seu sobrinho Luís Vilhena, declarou: "José Vilhena foi o autor incontornável de três ou quatro décadas do humor em Portugal. A sua obra, na tradição de Gil Vicente, Bocage ou Bordalo Pinheiro, é uma crónica dos tempos. Umas vezes pela crítica de costumes, outras vezes no olhar sobre a política, outras sobre a Igreja e quase sempre sobre a mulher".
Como homenagem a José Vilhena, para sempre presente na nossa memória, reproduzimos aqui alguns dos seus famosos cartoons de sátira política, extraídos com a devida vénia da página http://www.vilhena.me, da responsabilidade de seu sobrinho Luís Vilhena. 









Poesia Portuguesa - 007




Tu e Eu Meu Amor

Manuel da Fonseca (1911-1993)

  

Tu e eu meu amor 
meu amor eu e tu 
que o amor meu amor 
é o nu contra o nu. 

Nua a mão que segura 
outra mão que lhe é dada 
nua a suave ternura 
na face apaixonada 
nua a estrela mais pura 
nos olhos da amada 
nua a ânsia insegura 
de uma boca beijada. 

Tu e eu meu amor 
meu amor eu e tu 
que o amor meu amor 
é o nu contra o nu. 

Nu o riso e o prazer 
como é nua a sentida 
lágrima de não ver 
na face dolorida 
nu o corpo do ser 
na hora prometida 
meu amor que ao nascer 
nus viemos à vida. 

Tu e eu meu amor 
meu amor eu e tu 
que o amor meu amor 
é o nu contra o nu. 

Nua nua a verdade 
tão forte no criar 
adulta humanidade 
nu o querer e o lutar 
dia a dia pelo que há-de 
os homens libertar 
amor que a eternidade 
é ser livre e amar. 

Tu e eu meu amor 
meu amor eu e tu 
que o amor meu amor 
é o nu contra o nu. 

Manuel da Fonseca (1911-1993)

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 006



Calçada de Carriche 
António Gedeão (1906-1997)

Luísa sobe, 
sobe a calçada, 
sobe e não pode 
que vai cansada. 
Sobe, Luísa, 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe 
sobe a calçada. 

Saiu de casa 
de madrugada; 
regressa a casa 
é já noite fechada. 
Na mão grosseira, 
de pele queimada, 
leva a lancheira 
desengonçada. 
Anda, Luísa, 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada. 

Luísa é nova, 
desenxovalhada, 
tem perna gorda, 
bem torneada. 
Ferve-lhe o sangue 
de afogueada; 
saltam-lhe os peitos 
na caminhada. 
Anda, Luísa. 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada. 

Passam magalas, 
rapaziada, 
palpam-lhe as coxas, 
não dá por nada. 
Anda, Luísa, 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada. 

Chegou a casa 
não disse nada. 
Pegou na filha, 
deu-lhe a mamada; 
bebeu da sopa 
numa golada; 
lavou a loiça, 
varreu a escada; 
deu jeito à casa 
desarranjada; 
coseu a roupa 
já remendada; 
despiu-se à pressa, 
desinteressada; 
caiu na cama 
de uma assentada; 
chegou o homem, 
viu-a deitada; 
serviu-se dela, 
não deu por nada. 
Anda, Luísa. 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada. 

Na manhã débil, 
sem alvorada, 
salta da cama, 
desembestada; 
puxa da filha, 
dá-lhe a mamada; 
veste-se à pressa, 
desengonçada; 
anda, ciranda, 
desaustinada; 
range o soalho 
a cada passada; 
salta para a rua, 
corre açodada, 
galga o passeio, 
desce a calçada, 
desce a calçada, 
chega à oficina 
à hora marcada, 
puxa que puxa, 
larga que larga, 
puxa que puxa, 
larga que larga, 
puxa que puxa, 
larga que larga, 
puxa que puxa, 
larga que larga; 
toca a sineta 
na hora aprazada, 
corre à cantina, 
volta à toada, 
puxa que puxa, 
larga que larga, 
puxa que puxa, 
larga que larga, 
puxa que puxa, 
larga que larga. 
Regressa a casa 
é já noite fechada. 
Luísa arqueja 
pela calçada. 
Anda, Luísa, 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada. 
Anda, Luísa, 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada. 


António Gedeão (1906-1997)