quinta-feira, 23 de março de 2017

Poetas em defesa da olaria de Estremoz - 05


Maria Guiomar Ávila (1919-1992).
Professora e poetisa, natural de Estremoz.
LIVROS - À janela da Vida (1998).

Barros de Estremoz

Bilha de barro, enfeitada,
Lembras moçoila corada,
De cara fresca e bonita,
Cinturinha fina
E ancas modeladas
No avental de chita!
Bilha de barro, singela
Como a alma do oleiro
Que te desenha e modela!
Basta olhar-te e logo vejo
- Na tua graça e frescura –
Todo o povo do Alentejo:
Pastores de olhos perdidos na lonjura,
Sem lutas nem ambição,
Falando a sós com Deus
Em longas noites e dias
de solidão;
Ceifeiras e mondadeiras,
Simples e joviais,
Cantando para enganar
O cansaço das horas sempre iguais:

"Lá vai o comboio, lá vai,
Lá vai ele a assobiar.
Lá vai o meu lindo amor
Para a vida militar..."

E os ganhões,
Erguendo ao alto as enxadas,
Em longas filas cerradas
(Como um friso de escultura
De antiga tradição)
Pedindo à terra
O tesouro que ela encerra
E que há-de um dia transformar-se em pão.
E o manajeiro,
O ajuda, o maioral...
Todo este povo humilde,
Honesto e leal,
Em ti perpassa
Como um símbolo vivo
Do trabalho e da raça!

Oh minha bilha, enfeitada,
Lembras moçoila corada,
De cara fresca e bonita,
Cinturinha fina
E ancas modeladas
No avental de chita!