quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Auto das beldroegas


Beldroega (Portulaca oleracea L.) - Fólio 106v  de “Grandes Heures d'Anne de
Bretagne”. Manuscrito em pergaminho iluminado por Jean Bourdichon (1457 ou
1459 – 1521) - 238 folhas - 300 × 190 mm. BNF, Ms Latin 9474, 1503-1508. 

As personagens do auto em número de quatro, podem ser assim ser retratadas:
- ZÉ TRETAS - Trabalhador por conta própria no mercado da vila. Comilão e beberrão nato, que quando não está a comer, fala de comida. Dizem que de noite sonha com ela. Refilão por natureza, é senhor de uma língua terrível. Desgraçado daquele que lhe cair no desamor.
- FANECA – Negociante de gado, amante da boa mesa, comilão, copofone e guloso. Usa boné que nunca tira e bengala para o que der e vier. Tem voz de falsete.
- BIMBAS – Camponês cheio de carnes, amante da pinga e dos petiscos. Usa boné às três pancadas e está sempre bem disposto. Quanto mais bebe, mais fala.
- XAROPES - Operário aposentado, de cor avinhada, gosta de tudo o que é bebida. Acompanha muito com o Bimbas e estão sempre na brincadeira à medida que o petisco avança e se vão somando os jarros de vinho.
O enredo desenrola-se há duzentos anos na nossa notável vila, mesmo em frente da Casa das Leis, na praça Luís de Gamões, que é contígua à rua da Paróquia. Zé Tretas vem da rua das Monjas, onde foi guardar uns caixotes vazios e dirige-se para a estalagem do Jorge, onde o Faneca, o Bimbas e o Xaropes, o esperam para beber uns tinteiros com uns queijos trazidos pelo Faneca. Já com o grupo à vista, Zé Tretas escorrega num tufo de beldroegas e cai redondamente no chão. Os companheiros correm imediatamente em sua direcção, ao mesmo tempo que ele lança impropérios contra o Regedor, cuja enumeração ultrapassa o âmbito do presente auto. O primeiro a chegar é o Xaropes que o ajuda a levantar do chão, ao mesmo tempo que lhe diz:
- Então Zé, o que é isto? Ainda não lhe arrumaste e já te estão a falhar as pernas?
A resposta é imediata:
- A culpa é do Regedor que não manda cortar a ervanária que aqui se vê. Havia de lhe dar uma febre que lhe derretesse a fivela do cinto. Mas deixa estar, que eu vou-lhe tratar da saúde e entretanto dou uma palavrinha ao Fernão, para ele ter conhecimento do sucedido, a fim de que junto do Regedor, dê eco dos meus brados, através do jornal onde cronista é.
Bimbas ao chegar, afirma:
- A gente tem que proteger os amigos. Se a culpa é desta verdura toda, a gente tem que dar conta dela.
Faneca, o último a chegar, é generoso e proclama com a sua voz inconfundível:
- Eu encarrego-me de resolver o problema. Trago para aqui uma carrada de ovelhas e elas limpam esta hortaliça toda enquanto o diabo esfrega um olho.
Bimbas volta a falar:
- É preciso cautela, que a erva é muita e corre-se o risco de as ovelhas se empanzinarem. Como as fontes da vila estão secas, temos que lhe arranjar uns caldeiros de água na estalagem do Jorge.
Todos em uníssono:
- Combinado!
Zé Tretas, a coxear duma perna, remata:
- É altura de irmos aos tinteiros ali à do Jorge. A primeira rodada é por minha conta.
Hernâni Matos