segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Resistir é preciso!

O actor Vasco Santana desempenhando o papel de merceeiro,
num dos filmes da época áurea do cinema português.

A vida é um palco onde se movimentam actores dirigidos por encenadores, de acordo com os enredos tecidos por dramaturgos, condicionados por produtores.
De vez em quando há actores que perdem os seus papéis e são excluídos das peças, porque na hierarquia piramidal de poder, alguém chegou à conclusão de que já não há papéis para eles. Foi assim que entre nós foram eliminadas profissões pelos mais diversos motivos: - COMO CONSEQUÊNCIA DO DESENVOLVIMENTO TECNOLÓGICO: mondadeira, ceifeiro (ceifeira), moleiro, aguadeiro, leiteiro, almocreve, albardeiro, correeiro, ferreiro, ferrador, oleiro, caleiro, caiador, carvoeiro, lavadeira, alfaiate, chapeleiro, encadernador, funileiro e recoveiro; - POR MUDANÇA DE HÁBITOS DE VIDA: engraxador, estafeta, ferroviário, maleiro e taberneiro; - POR MUDANÇA DE HÁBITOS DE CONSUMO: merceeiro e peixeiro; - POR DESLOCALIZAÇÃO INDUSTRIAL A NÍVEL NACIONAL OU INTERNACIONAL: corticeiro, metalúrgico, vidreiro e operário químico;
Os actores, subtraídos ao palco da vida, foram forçados a reciclar-se ou soçobraram por inadaptação. Todavia, ficaram registados em clichés, em filmes antigos e mesmo em museus antropológicos em localidades nas quais houve a clarividência de os criar. Só assim perdurarão na nossa memória colectiva, como exemplo de que a vida era então mais humana, mais fraterna e mais solidária, visto ter a ver com relações de proximidade e afectividades entre as pessoas.
As grandes superfícies, templos de consumo edificados em honra de um deus ilusório, esmagaram o comércio tradicional, fruto de melhores condições de aquisição de mercadorias, de fiscalidade privilegiada que passa por paraísos fiscais e de utilização de mão-de-obra com contratos precários. Trata-se de situações socialmente injustas e eticamente reprováveis, uma vez que são situações de privilégio, às quais os pequenos comerciantes, dada a sua dimensão, não têm acesso. Estamos em presença de uma dupla tragédia que nos consumirá, pequenos comerciantes e consumidores, se não soubermos ou conseguirmos resistir a hábitos de consumo totalitários que esmagam tudo o que era tradicional e dimensionado à escala humana, com respeito pela nossa individualidade.
Foi Luís de Camões que disse: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,/ Muda-se o ser, muda-se a confiança; / Todo o Mundo é composto de mudança, / Tomando sempre novas qualidades.”. Pela minha parte, penso que no caso em apreço, tal tipo de mudança é uma patada totalitária indesejada, que me leva a proclamar:
- RESISTIR É PRECISO!