O actor
Vasco Santana desempenhando o papel de merceeiro,
num dos filmes da época áurea
do cinema português.
De vez em quando há actores que perdem os seus
papéis e são excluídos das peças, porque na hierarquia piramidal de poder, alguém
chegou à conclusão de que já não há papéis para eles. Foi assim que entre nós
foram eliminadas profissões pelos mais diversos motivos: - COMO CONSEQUÊNCIA DO
DESENVOLVIMENTO TECNOLÓGICO: mondadeira, ceifeiro (ceifeira), moleiro, aguadeiro,
leiteiro, almocreve, albardeiro, correeiro, ferreiro, ferrador, oleiro, caleiro,
caiador, carvoeiro, lavadeira, alfaiate, chapeleiro, encadernador, funileiro e recoveiro;
- POR MUDANÇA DE HÁBITOS DE VIDA: engraxador, estafeta, ferroviário, maleiro e
taberneiro; - POR MUDANÇA DE HÁBITOS DE CONSUMO: merceeiro e peixeiro; - POR
DESLOCALIZAÇÃO INDUSTRIAL A NÍVEL NACIONAL OU INTERNACIONAL: corticeiro, metalúrgico,
vidreiro e operário químico;
Os actores, subtraídos ao palco da vida, foram
forçados a reciclar-se ou soçobraram por inadaptação. Todavia, ficaram
registados em clichés, em filmes antigos e mesmo em museus antropológicos em
localidades nas quais houve a clarividência de os criar. Só assim perdurarão na
nossa memória colectiva, como exemplo de que a vida era então mais humana, mais
fraterna e mais solidária, visto ter a ver com relações de proximidade e
afectividades entre as pessoas.
As grandes superfícies, templos de consumo
edificados em honra de um deus ilusório, esmagaram o comércio tradicional,
fruto de melhores condições de aquisição de mercadorias, de fiscalidade
privilegiada que passa por paraísos fiscais e de utilização de mão-de-obra com
contratos precários. Trata-se de situações socialmente injustas e eticamente reprováveis,
uma vez que são situações de privilégio, às quais os pequenos comerciantes,
dada a sua dimensão, não têm acesso. Estamos em presença de uma dupla tragédia
que nos consumirá, pequenos comerciantes e consumidores, se não soubermos ou
conseguirmos resistir a hábitos de consumo totalitários que esmagam tudo o que
era tradicional e dimensionado à escala humana, com respeito pela nossa
individualidade.
Foi Luís de Camões que disse: “Mudam-se os tempos,
mudam-se as vontades,/ Muda-se o ser, muda-se a confiança; / Todo o Mundo é
composto de mudança, / Tomando sempre novas qualidades.”. Pela minha parte,
penso que no caso em apreço, tal tipo de mudança é uma patada totalitária
indesejada, que me leva a proclamar:
- RESISTIR É PRECISO!

Concordo com a proclamação, e vou resistindo quando posso...
ResponderEliminarObrigado amigo, pelo seu comentário.
EliminarUm abraço.