quinta-feira, 3 de abril de 2014

O povo unido

Drª Maria do Céu Pires

Transcreve-se com muito orgulho e com a devida vénia, a coluna CIDADANIA da autoria da Drª Maria do Céu Pires, publicada no nº 831, de 3 de Abril de 2014, do quinzenário estremocense  "Brados do Alentejo". (1)

O que na história ficou conhecido como “25 de abril” foi uma ação que, iniciada por militares, de imediato teve a adesão popular, e que tinha como objetivo derrubar uma situação política para dar a possibilidade ao povo de construir uma outra organização política no país, baseada nos conhecidos três dês: Democracia, Desenvolvimento, Descolonização. Mudar de um sistema profundamente injusto para um que fosse justo, foi isso que motivou os capitães e o povo que logo no dia 25 saiu à rua.
Dito muito resumidamente, pretendia-se pôr fim a uma situação de guerra colonial completamente obsoleta e destituída de sentido. Para além disso, tratava-se de abolir uma ditadura que era responsável não só pela ausência de liberdade, pela censura, pelas prisões políticas e pela tortura, como também pela situação de miséria, analfabetismo e total ausência de direitos que condenava parte significativa da população a uma vida abaixo dos limiares mínimos de dignidade.
Em 40 anos muita coisa aconteceu, por exemplo, a liberdade de expressão, de associação, de reunião e o universal direito ao voto. É também inegável que a revolução de abril contribuiu para uma melhoria das condições básicas de vida da maior parte da população. Desde a diminuição das taxas de mortalidade infantil, passando pelos direitos de quem trabalha, pelo acesso generalizado à educação e à saúde, muito mudou na nossa vida. Contudo, estamos hoje em processo de regressão, retrocesso civilizacional pois o que o que foi conquistado está a ser retirado. Cabe-nos, então, com urgência, defender aquilo que, por direito, todos os seres humanos devem ter: a possibilidade de se realizarem como pessoas!
Sobretudo, o que o 25 de abril trouxe consigo foi a existência de espaço público, quer dizer, a possibilidade dos cidadãos se encontrarem, reunirem discutirem, deliberarem e decidirem, em conjunto, o que é mais justo, o que consideram melhor para a comunidade. O espaço público é o espaço da diversidade, da coabitação das diferentes organizações da sociedade civil: associações profissionais, partidos políticos, sindicatos, cooperativas, clubes, etc. É o espaço da liberdade!
Por tudo isto (e muito mais!) me parece fundamental que esta memória recente da nossa história esteja sempre presente e julgo de grande valor pedagógico a sua transmissão aos mais novos. Congratulo-me, pois, que em Estremoz, se vá celebrar abril quer ao nível institucional com a sessão solene na Assembleia Municipal e outras atividades do Município, quer ao nível da sociedade civil, através dos cidadãos que, para tal efeito, se juntaram. Que, em Estremoz “chovam” cravos e o povo unido traga, de novo, a poesia para a rua, são os meus votos!

(1) - A coluna está redigida de acordo com as regras do novo acordo ortográfico, que o blogue DO TEMPO DA OUTRA SENHORA não segue, mas que respeita nas transcrições que faz.