segunda-feira, 16 de julho de 2012

Escrito na cal


ESCRITO NA CAL
 Boneco de Estremoz, criado pelas Irmãs Flores
(Fotografia de Luis Figueiredo) 

É como se chama o novo boneco de Estremoz, criado a meu pedido pelas afamadas barristas estremocenses Irmãs Flores. A designação do boneco provém do título do romance “Escrito na cal”, da autoria do escritor estremocense José Movilha e foi-lhe oferecido em nome de admiradores estremocenses, quando da apresentação do seu livro, na Casa de Estremoz, no passado dia 14 de Julho.
O boneco representa o ganhão Chico a escrever na cal a palavra LIBERDADE. Vejamos porquê, para o que teremos que nos basear no romance de José Movilha.
Alentejo dos anos 30 do século XX. Na vila de Gadanha, um grupo de oposicionistas ao regime, reúne-se numa casa da antiga Rua dos Judeus, perto da igreja de Santiago.
Na reunião é feita uma caracterização da situação política e da luta desenvolvida e a desenvolver, sendo deliberado escrever na cal das paredes da Tapada Grande, exigindo a Libertação do ganhão-poeta Jaime da Manta Branca, preso às ordens do regime por ser poeta e homem livre no pensamento e na acção. É que o latifundiário D. Albuquerque Salcedo, bem comido e bem bebido, em súcia com amigos e outras gentes de Lisboa, mandara chamar o ganhão Jaime da Manta Branca, poeta popular afamado, para o divertir a ele e aos amigos. Jaime apresentou-se já sem chapéu para não ter que se humilhar diante daquela gente e pensou desde logo em dizer umas décimas que dessem voz aqueles que são explorados no dia a dia para sustentar a ostentação e riqueza daquela corja. Disse as bem conhecidas décimas sujeitas ao mote:

NÃO VEJO SENÃO CANALHA
DE BANQUETE PARA BANQUETE,
QUEM PRODUZ E QUEM TRABALHA
COME AÇORDAS SEM "AZÊTE"

Ainda o que mais me admira
E penso vezes a miúdo: (1)
Dizem que o Sol nasce para tudo
Mas eu digo que é mentira.
Se o pobrezinho conspira
O burguês com ele ralha,
Até diz que o põe à calha (2)
Nem à porta o pode ver.
A não trabalhar e só comer
NÃO VEJO SENÃO CANALHA!

Quem passa a vida arrastado
Por se ver alegre um dia,
Logo diz a burguesia
Que é muito mal governado,
Que é um grande relaxado,
Que anda só no bote e "dête". (3)
Antes que o pobrezinho "respête" (4)
Tratam-no sempre ao desdém
E vê-se andar, quem muito tem,
DE BANQUETE PARA BANQUETE.

É um viver tão diferente
Só o rico tem valor.
E o pobre trabalhador
Vai morrendo lentamente.
A fraqueza o põe doente
E a miséria o atrapalha;
Leva no peito a medalha
Que ganhou à chuva e ao vento
E morre à falta de alimento
QUEM PRODUZ E QUEM TRABALHA

Feliz de quem é patrão
E pobre de quem é criado
Que até dão por mal empregado
O poucochinho que lhe dão.
Quem semeia e colhe o pão
Não tem aonde se "dête", (5)
Só tem quem o "assujête" (6)
Para que toda a vida chore,
E em paga do seu suor
COME AÇORDAS SEM "AZÊTE" "

ANOTAÇÕES:
(1) a miúdo – a miúde.
(2) à calha – na rua.
(3) no bote e dête – nos copos respête – respeite
(5) dête - deite
(6) assujête – assugeite, subjugue.

BIBLIOGRAFIA
MOVILHA, José A. Escrito na cal. Monóculo. Lisboa, Junho de 2012.