quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Livro de Leitura da Primeira Classe


Livro de Leitura da Primeira Classe

Há sessenta anos atrás
Sou duma geração que há sessenta anos atrás se iniciou na leitura, através do bem conhecido livro de leitura da 1ª Classe do Ensino Primário. Tratava-se de um livro profusamente ilustrado, com um grafismo que marcou uma época. Através dele aprendíamos a juntar as letras, formando sílabas, que reunidas geravam palavras, ali ilustradas, para o reforço visual apoiar a memorização.
Estávamos no Estado Novo, pelo que não é de admirar que doutrinariamente o livro veiculasse a Trilogia da Educação Nacional: “Deus, Pátria e Família”. O mesmo se passava com aqueles que se lhe seguiram até à 4ª classe.
Na Aritmética, decorávamos a tabuada até à casa do 10. Qualquer um de nós sabia de cor, o resultado de 100 operações de multiplicação, as quais iam desde o 1x1 até ao 10x10. Na aula, o professor passava-nos contas para fazer, o que era feito em lousas de ardósia nas quais escrevíamos com lápis de pedra. Era o “Magalhães” que Salazar e bem, punha à nossa disposição. Assim adquiríamos aptidão de cálculo mental e treinávamos o cálculo necessário à nossa vida do dia a dia.
Levávamos como trabalho para casa, fazer contas num caderno quadriculado, para disciplinar a escrita e a dimensão dos algarismos. E tínhamos sempre uma cópia para fazer, não só para aperfeiçoar a caligrafia, mas também porque a cópia ajudava à memorização. Para o efeito, usava-mos um caderno de linhas. Porém, aqueles que tinham uma escrita mais irregular faziam cópias em cadernos de duas linhas, para aprenderem a dimensionar as letras, até conseguirem ficar com uma caligrafia padrão.
Fazíamos também ditados, nos quais o professor nos lia pausadamente um texto relativamente curto, que nós tínhamos que escrever no caderno. Assim treinávamos a capacidade de converter a oralidade da língua na sua forma escrita. E acabava-mos por não dar erros.
Fazíamos ainda redacções com tema igual para todos, visando despertar e exercitar a capacidade criadora de cada um, bem como exercitar a correcção da ortografia e da caligrafia.
Fazíamos igualmente desenhos com lápis de carvão e lápis de cor, para o que utilizávamos um caderno de folhas lisas.
Os cadernos tinham geralmente na capa, ilustrações apelando ao amor à Pátria ou exaltando instituições gratas ao Regime, como era a Mocidade Portuguesa. Na capa do caderno, escrevíamos sempre o nosso nome, o número e a classe.
Tínhamos também um “caderno de significados”, que era um caderno de duas linhas com um traço vertical a vermelho, onde registávamos por indicação do professor, as palavras difíceis à esquerda do traço e o respectivo significado à direita.
Escrevíamos com canetas de molhar o aparo nos tinteiros que havia em cada carteira. Não se podia molhar de mais para não borrar. Ao virar a página, tínhamos que secar com um mata- borrão que trazíamos sempre dentro do caderno.
A caneta de molhar, os aparos, o lápis de carvão, os lápis de cor, o apara-lápis e a borracha eram guardados dentro duma caixa de madeira, com tampa de correr. Esta, conjuntamente com os cadernos, o livro de leitura e mais tarde outros livros, era transportada numa sacola de serapilheira que levávamos a tiracolo.

E hoje?
Pelos mais diversos motivos, algumas das práticas escolares atrás referidas foram abandonadas. Algumas naturalmente por serem obsoletas. Hoje não faz sentido escrever com canetas de molhar e provavelmente fazer contas em lousa de ardósia. Mas não é a posse e a utilização de um “Magalhães” que treina o cálculo mental e a prática das operações elementares, bem como a prática da caligrafia e a execução livre de desenhos.
Hoje já não se usam sacolas de serapilheira, mas mochilas à medida da bolsa dos pais de cada um. Aí o personagem principal é o “Magalhães” – Faz Tudo!
Já não é preciso saber fazer contas, basta ter o “Magalhães” ligado à Internet e fazem-se as contas no Google. Este motor de busca é a cabeça deles.
Fazer cópias para quê? Por um lado não precisam de memorizar nada e por outro lado basta utilizar o “Magalhães” e escrever no Word. Podem dar erros à vontade, que o Word assinala a vermelho os erros de ortografia e a verde os erros de sintaxe. Depois basta tirar uma cópia na impressora. Esta é a caneta deles.
A caligrafia é a que eles quiserem, é o tipo de letra que escolherem no Word, seja ela Areal, Times New Roman, Comic Sans MS, ou outro tipo qualquer, que lhes der na real gana. Não há caligrafia individualizada, reflexo do todo uno que é cada ser humano. Há o estereótipo gráfico porque cada um optou, no tamanho que escolheu.
O desenho é executado no “Magalhães” com um programa gráfico melhor ou pior, que permite gerir espessuras de traço, cores, luminosidade, contraste, texturas e estilos de desenho. A procura de perfeição a desenhar tem a ver com o domínio do programa utilizado. Essa é a arte deles.
Cadernos de significados para quê? Vai-se ao Google e lá está a Wikipédia. A Wikipédia diz tudo. Para que é que eles precisam de saber, se está na Wikipédia?
Fazer redacções hoje é fácil. Vai-se à Wikipédia e com o ponteiro do rato, copia-se e cola-se. Pesquisa em múltiplas fontes? Rearranjo dos materiais recolhidos em linguagem própria? Trabalho de síntese? Para quê? O que está na Wikipédia é que é! Mas cautela meninos, que os professores dispõem de um programa gratuito existente na Internet que permite ver se os meninos copiaram e colaram ou não. Depois não se queixem se forem acusados de ter copiado à letra, o trabalho apresentado, muitas vezes de forma abrasileirada.

Aviso à navegação
Assiste-se hoje aos mais diferentes níveis, ao facilitismo que o pervertido Sistema Educativo Português concede aos alunos, impreparando-os para a vida. E tudo começa por uma coisa muito simples. O esquecimento ou a ignorância de que cada um de nós só dá valor aquilo que foi fruto do seu esforço pessoal de aprendizagem e aperfeiçoamento, o que longe de facilitismos, passa pela aquisição e memorização de saberes, sem os quais o ser humano não consegue em cada instante julgar e decidir com propriedade.
Corremos o risco de estar a preparar seres humanos dependentes do “Magalhães”, da Internet e da Wikipédia, os quais longe de serem pessoas livres, estão condicionados à informação padrão veiculada “on line”.
Cerca de dois mil anos depois de Spartacus, o gladiador, ter liderado um exército de mais de cem mil escravos contra a opressão do Império Romano, é chegada a altura em que como homens livres, devemos consciencializar toda a gente dos riscos resultantes em termos de liberdade, da utilização de informação estereotipada e padronizada, bem como pela subordinação da criança e do jovem às rotinas do “Magalhães” – Faz tudo.

Texto publicado inicialmente em 28 de Setembro de 2011
O presente texto integra o meu livro "Memórias do Tempo da Outra Senhora"

 Caderno "Lusito"

Lousa

Caderno de significados

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Tempo para falar do tempo


Vénus, Cupido e o Tempo (Alegoria da Luxúria) (1540-1545). Agnolo Bronzino
(1503-1572). Óleo sobre Madeira (147 x 117 cm). National Gallery, London.

A História é um relato crítico dos acontecimentos do passado, no qual o Homem foi o actor principal. Não há História sem Homem, como também não há História, sem espaço e sem tempo, variáveis físicas indispensáveis à caracterização dos cenários onde decorre a acção. A História é assim um fluxo de acontecimentos que se sucedem na teia quadrimensional espaço-temporal, onde estamos inseridos, seja por graça de Deus ou fruto do Big-Bang. Para o caso tanto faz.
Vejamos o que sobre o tempo nos diz a nossa Literatura de Tradição Oral. A nível do Adagiário Português, múltiplas sentenças proclamam que o tempo é algo que flui:
- “O tempo é ligeiro e não há barranco que o detenha.”
- “O tempo que vai não volta.“
- “O que o tempo traz, o tempo leva.“
- “O tempo corre e tudo descobre.“
- “O tempo é o relógio da vida.“
Outros adágios sublinham o valor do tempo:
-“ O tempo não é elástico.“
- “Sem tempo nada se faz.“
- “O tempo é dinheiro.“
Por outro lado, existem também provérbios que nos advertem relativamente à perda de tempo:
– “Quem o tempo sabe poupar, muito tem a ganhar.“
– “O tempo perdido não se recupera “
- “Quem tem tempo e tempo espera, tempo perde.“
Finalmente existem aforismos relativos às mudanças de tempo:
– “Mudam-se os tempos, mudam os pensamentos.“
– “Mudam-se os tempos, mudam as vontades.“
– “Outros tempos, outros costumes.“

A nível de lengalengas, é bem conhecida a seguinte:

O TEMPO

“O tempo pergunta ao tempo
Quanto tempo o tempo tem.
O tempo responde ao tempo
Que o tempo tem tanto tempo
Quanto tempo o tempo tem.”

O tempo mede-se em “horas”, que têm como submúltiplos o “minuto” e o “segundo” e, como múltiplos, o “dia”, a “semana”, o “mês”, o “ano”, o “século” e o “milénio”. Algumas destas unidades de tempo são referidas no Adagário Português:
Minutos
- “Amizade de um dia, recordação de um minuto.”
- “Mais vale ficar vermelho cinco minutos, que amarelo toda a vida.”
- “Mais vale perder um minuto na vida do que a vida num minuto.”
Horas
- “De uma hora para a outra, cai a casa. “
- “Em má hora nasce, quem má fama alcança.”
- “Há horas do Diabo.”
- “Há horas felizes.”
- “Há horas para tudo.”
- “Todos têm a sua hora.”
- “Uma hora melhora outra.”
Dias
- “Ainda não se acabou o dia de hoje.”
- “Amizade de um dia, recordação de um minuto.”
- “Bons dias em Janeiro pagam-se em Fevereiro." “
- “De manhã se faz o dia.”
- “Fevereiro coxo, em seus dias vinte e oito."
- “Há mais dias que linguiças." “
- “Mais criam dias que meses." ““
- “Nada como um dia depois do outro.
- “Não há como um dia depois do outro.”
- “Nem todos os dias há carne gorda."
- “O dia de amanhã, ninguém viu.”
- “Os dias são do mesmo tamanho, mas não se parecem”
- “Quando a fome aperta, os minutos parecem séculos.”
- “Roma e Pavia não se fizeram num dia.”
- “Tudo tem seu dia.”
- “Um hóspede ao cabo de três dias enjoa.”
Semanas
- “A semana do trabalhador tem seis dias, a do preguiçoso seis manhãs.”
- “Não há semana sem quinta-feira.”
- “Quem à semana bem parece, ao domingo aborrece.”
- “Se esta semana é curta, sete dias traz a outra.”
Meses
- “A água falta nos meses, mas nunca falta no ano."
- “De pendão a grão, trinta dias são.”
- “Deixar correr trinta dias por um mês.”
- “Mais criam dias que meses."
- “Todo o mês volta outra vez.”
Anos
- "A água falta nos meses, mas nunca falta no ano."
- "Antes ano tardio do que vazio."
- "Ao ano andar, aos dois falar." “
- “A velhice não está nos anos.”
- “Ao moço e ao galo, um ano.”
- “Atrás de ano, ano vem.”
- “Os anos não perdoam.”
Séculos
- “A História se repete através dos séculos.”
- “De século em século, a História repete-se.”
- “Largos dias têm cem anos.”
- “Quando a fome aperta, os minutos parecem séculos.”

Segundo a Mitologia Popular Portuguesa, o tempo de vida de uma pessoa tem a ver com o dia de nascimento e a sua orientação geográfica ao dormir:
- Quem nasce em dia de Natal, vive muito tempo. [1]
- É bom dormir com a cabeça para o Nascente, porque se vive muito tempo, de acordo com o adágio:
“Cabeça para o Nascente
E pés para o Poente,
Viver eternamente.” [1]
A Mitologia Popular Portuguesa refere-se também à simultaneidade de acontecimentos, a qual pode ser benéfica:
- Se duas pessoas abrirem a boca ao mesmo tempo, hão-de ser compadres ou vizinhos. [1]
Todavia, a simultaneidade de acontecimentos pode ser malévola:
- Se duas ou mais pessoas lavam as mãos ao mesmo tempo na mesma bacia, ou se limpam à mesma toalha, nesse dia jogam à pancada. [1]
- Se dois casamentos se fazem ao mesmo tempo, um deles há-de ser infeliz porque a felicidade foge inteiramente para o outro. [1]
- Se duas pessoas bebem água ao mesmo tempo, uma delas adoece. [1]
- Quando na mesma terra, dois relógios dão horas ao mesmo tempo, é sinal que aí está para morrer alguém. [1]
O tempo é tema central de telas criadas por grandes nomes da pintura universal, dos quais destacamos, agrupados por períodos:
- RENASCENTISMO: Domenico di Michelino (1417-1491), italiano; Agnolo Bronzino (1503-1572), italiano
- MANEIRISMO: Gian Battista Zeloti (c. 1526-1578), italiano;
- BARROCO: Simon Vouet (1590-1649), francês; Pietro Liberi (1605-1687), italiano; Jean-François de Troy (1679-1752), francês; François Lemoyne (1688-1737), francês;
- RÓCÓCÓ: Giovanni Battista Tiepolo (1696-1770), italiano;
- ROMANTISMO: Francisco de Goya y Lucientes (1746-1828), espanhol;
“Porque o tempo gasta tudo” e “Tempo bastante sempre é pouco”, julgo chegado o tempo de dar por terminado este texto..

BIBLIOGRAFIA
[1] - CONSIGLIERI PEDROSO, “Supertições Populares”, O Positivismo: revista de Filosofia, Vol. III. Porto, 1881.

O Triunfo da Fama, o Triunfo do Tempo e o Triunfo da Eternidade. Domenico di Michelino
(1417-1491). Tempera sobre painel em fundo dourado (42 x 177 cm). Colecção privada.

O Tempo, as Virtudes e a Inveja Libertada pelo Diabo (c. 1553). Gian Battista Zeloti (c.1526-1578).
Óleo sobre tela. Palazzo Ducale, Venice. 

O Pai Tempo Dominado pelo Amor, pela Esperança e pela Beleza (1627). Simon Vouet (1590-1649).
Óleo sobre tela (107 x 142 cm). Museo del Prado, Madrid. 

O Tempo Vencido pela Verdade (c. 1665). Pietro Liberi (1605-1687). Óleo sobre tela (114 x 157 cm).
Colecção privada.

Uma Alegoria ao Tempo Revelando a Verdade (1733). Jean-François de Troy (1679-1752).
Óleo sobre tela. National Gallery, London.

O Tempo salvando a Verdade da Falsidade e da Inveja (1737). François Lemoyne (1688-1737).
Óleo sobre tela (149 x 114 cm, alargado para 181 x 148 cm). Wallace Collection, London. 

Uma Alegoria com Vénus e o Tempo (1754-1758). Giovanni Battista Tiepolo
(1696-1770). Óleo sobre tela (292 x 190 cm). National Gallery, London.

O Tempo e as Velhas Mulheres (1810-1812). Francisco de Goya y Lucientes
(1746-1828). Óleo sobre tela (181 x 125 cm). Musée des Beaux-Arts, Lille.

domingo, 25 de setembro de 2011

Viver é preciso!


CORRENTES DE ÁGUA. Paisagem com rio (1778). Jacob Philipp Hackert (1737-1807)
Óleo sobre tela (64,5 x 88,5 cm). Szépmûvészeti Múzeum - Budapest.

FLUXOS DOS QUATRO ELEMENTOS PRIMORDIAIS
De acordo com a da Teoria dos Quatro Elementos do filósofo grego Empédocles (495/490 - 435/430 a.C.), tudo o que existe na natureza é constituído por quatro princípios primordiais: água, ar, fogo e terra.
Passageiros do Universo, na condição de habitantes do planeta Terra, estamos rodeados de fluxos desses quatro elementos primordiais:
- Em primeiro lugar, correntes de água, através das quais esta se move de uma região de maior potencial gravítico, para outra de menor potencial gravítico. Por outras palavras, a água flui por acção da gravidade.
- Para além dadas correntes de água, temos os ventos que são fluxos de massas de ar que se deslocam de regiões de alta pressão para regiões de baixa pressão.
- Temos ainda as correntes de fogo ou se quisermos, correntes de lava, que brota dos vulcões em erupção. É sabido que devido à enorme tensão das camadas subjacentes, o núcleo central da Terra se encontra num estado ígneo permanente, o que faz com que esta gigantesca caldeira, de vez em quando tenha que descomprimir, o que tem lugar através de erupções vulcânicas, nas quais correntes de fogo, se deslocam por convenção, de regiões profundas, caracterizadas por valores elevados de massa volúmica e de temperatura, para regiões superficiais caracterizadas por valores de massa volúmica e temperatura, mais baixos.
- Há de resto, movimentos de terra, devidos a agentes de geodinâmica externa (movimentos dunares e aluimento de terrenos) ou de geodinâmica interna (tremores de terra, movimento de placas, tremores de de terra).
Dalguns destes fluxos nos fala a Bíblia. Assim, relativamente ao vento:
- No primeiro dia de criação do mundo: “A terra estava sem forma e vazia; as trevas cobriam o abismo e um vento impetuoso soprava sobre as águas”. (Gênesis 1,2)
- Depois do Dilúvio Universal: “Então Deus lembrou-Se de Noé e de todas as feras e animais domésticos que estavam com ele na arca. Deus fez soprar um vento sobre a terra, e as águas baixaram.” (Gênesis 8,1)
Relativamente à água:
- No segundo dia de criação do mundo Deus disse: “Que as águas que estão debaixo do céu se juntem num só lugar e apareça o chão seco. E assim se fez.” (Gênesis 1,9)
Relativamente à terra:
- No segundo dia de criação do mundo, “Deus chamou ao chão seco “terra”, e ao conjunto das águas “mar”. E Deus viu que era bom.” (Gênesis 1,10)
Relativamente ao fogo:
- Quando da destruição de Sodoma e Gomorra “O Senhor fez então cair sobre Sodoma e Gomorra uma chuva de enxofre e de fogo, vinda do Senhor, do céu.” (Gênesis 19,24)
Fluxos de água, ar, fogo e terra, são exemplos elementares e paradigmáticos de que o mundo que nos rodeia e com ele o homem, personagem principal da História, da Antropologia e da Etnologia, são atravessados transversalmente e longitudinalmente por fluxos, que determinam que as coisas sejam de uma maneira e não de outra maneira qualquer. Cabe ao Homem, na qualidade de actor principal e fim último daquelas ciências, interpretar os dados de que elas dispõem e aprender com eles, para que com um desejável espírito positivo de cidadão do mundo, seja capaz de equacionar, planificar e edificar a existência de um mundo mais solidário e mais fraterno.

FLUXOS NA ALDEIA GLOBAL
Para o nosso bem e para o nosso mal, o mundo é hoje uma aldeia global, com fronteiras esbatidas e praticamente inexistentes, que todavia são atravessadas por qualquer internauta, à velocidade de um clique.
As águas e os ventos não conhecem fronteiras. A contaminação e a poluição não são locais, são sempre globais.
A prática errada da agricultura intensiva, com recurso a fertilizantes artificiais e a pesticidas está a contaminar os aquíferos e a condenar o Homem à morte. Só a prática de uma agricultura biológica auto-sustentada, poderá vir a evitar esse desfecho.
Por sua vez, a poluição e dentro dela a poluição atmosférica tem atingido níveis assustadores, nunca equacionados no arranque da revolução industrial e que têm múltiplos reflexos negativos, como é o caso do efeito de estufa, que perigosamente faz aumentar a temperatura do planeta. Só a adopção de políticas energéticas limpas e a implementação responsável de energias alternativas por parte de todos os governos, poderá salvar a Humanidade.
Para além disso, a luta contra o desperdício e o consumismo, pela melhoria da nossa qualidade de vida e pela salvação do planeta, passa pela implementação da política dos 3 RRR:
- Reduzir o lixo que se produz;
- Reutilizar as embalagens mais que uma vez;
- Reciclar os componentes do lixo, separando-os na origem.
Há que voltar a usar o talego, a alcofa e o cesto, que quando se estragam podem ser reparados ou usados sob outra forma e só em casos limite se devem deitar fora, para então serem degradados pela Terra-Mãe e renascerem sob outra forma.

VIVER É PRECISO
Para terminar não queria deixar de prestar aqui a minha singela homenagem a Afonso Cautela, jornalista, ensaísta e escritor, velho militante ecológico, percursor entre nós do ambientalismo e da sustentabilidade do planeta. Foi ele que introduziu na terminologia do militante ecológico, para serem usadas como armas de arremesso, termos como “ecocídio” para designar o assassinato do planeta, bem assim como de termos mais pesados, como “ecofascistas”, epíteto com que nos seus escritos apodava todos aqueles que com desprezo olímpico, agrediam o ambiente. Conheci-o há cerca de quarenta anos. Continuam actuais as palavras de ordem que sempre perfilhámos:
“NUCLEAR? NÃO OBRIGADO!”
E sabem porquê?
“PORQUE VIVER É PRECISO!”

Publicado inicialmente a 25 de Setembro de 2011

VENTOS. Embarcações em vento forte (c. 1630). Jan Porcellis (c. 1584-1632)
Óleo sobre tela (42 x 62 cm). Colecção particular.

CORRENTES DE FOGO. Vulcão à Noite (1880). Jules Tavernier (1844-1889)
Óleo sobre tela (48,3 × 91,4 cm). Honolulu Academy of Arts.
 
MOVIMENTOS DE TERRA. Paisagem de dunas com camponeses num caminho (1634)
Jan van Goyen (1596-1656). Óleo sobre tela (88.9 x 125.8 cm). Colecção particular.
 
POLUIÇÃO. Nuvens Industriais (2003). Kay Jackson. Óleo com folha de ouro e cobre sobre tela
(86,46 x 96,5 cm).