sábado, 24 de setembro de 2011

O Outono na Pintura Universal

OUTONO (Finais do séc. XIV). Iluminura do “Tacuinum Sanitatis”, livro medieval sobre o bem-estar, com base na al Taqwin Taqwin تقوين الصحة ("Quadros de Saúde"), tratado do século XI da autoria do médico árabe Ibn Butlan de Bagdá, o qual pertence à Biblioteca Casanatense, em Roma.

O Outono começa com o Equinócio de Outono. O Equinócio é o instante em que o Sol, no seu movimento anual aparente, cruza o equador celeste. A palavra de origem latina significa "noite igual ao dia", uma vez que nesta data, o dia têm duração igual à noite.

São múltiplas as referências bíblicas ao Outono:
- "Eu dar-vos-ei chuva no seu tempo: chuvas de Outono e de Primavera. Deste modo, poderás recolher o teu trigo, o teu vinho novo e o teu azeite." (Deuteronómio 11,14)
- "Pudesse eu reviver os dias do meu Outono, quando Deus era íntimo na minha tenda," (Jó 29,4)
- "Quem armazena no Outono é prudente; quem dorme no tempo da colheita cobre-se de vergonha." (Provérbios 10,5)
- "No Outono o preguiçoso não lavra, e na colheita vai procurar e nada encontra." (Provérbios 20,4)
- "Não pensaram: “Vamos temer a Javé nosso Deus, que nos dá a chuva do Outono e da Primavera no tempo certo; e ainda estabeleceu as semanas certas para a colheita”. (Jeremias 5,24)
- "Alegrai-vos, filhos de Sião, e rejubilai em Javé, vosso Deus. Pois Ele mandou no devido tempo as chuvas do Outono e fez cair chuvas abundantes: as chuvas do Outono e da Primavera, como antigamente." (Joel 2,23)
- "Irmãos, sede pacientes até à vinda do Senhor. Vede como o agricultor espera pacientemente o fruto precioso da terra, até receber a chuva do Outono e da Primavera." (São Tiago 5,7)
- "São eles que participam descaradamente nas vossas refeições fraternas, apascentando-se a si mesmos com irreverência. São como nuvens sem água, levadas pelo vento, ou como árvores no fim do Outono que não dão fruto, duas vezes mortas e arrancadas pela raiz." (São Judas 1,12)

A igualdade dos dias e das noites, característica do equinócio de Outono é referida por Luís por Camões (c. 1524 - 1580) nos Lusíadas (II, 63):

"Vai-te ao longo da costa discorrendo,
E outra terra acharás de mais verdade,
Lá quase junto donde o Sol ardendo
Iguala o dia e noite em quantidade;
Ali tua frota alegre recebendo
Um Rei, com muitas obras de amizade,
Gasalhado seguro te daria,
E, para a Índia, certa e sábia guia."

Em 2011, o Equinócio de Outono, ocorre no dia 23 de Setembro às 9h 5min (tempo universal), 10h 5min em Portugal continental. Este instante assinala o começo do Outono no Hemisfério Norte. Esta estação prolonga-se até ao próximo Solstício que ocorre no dia 22 de Dezembro às 05h30m.
O Outono é a estação do ano que estabelece a transição do Verão para o Inverno. É caracterizada por um abaixamento de temperatura e pelo amarelecer das folhas das árvores. Estes factos, por vezes associados às fainas agro-pastoris característicos da época, constituem o tema central de telas criadas por grandes nomes da pintura universal, dos quais destacamos, agrupados por períodos:

- IDADE MÉDIA: Autor desconhecido (Finais do séc. XIV);
- RENASCENTISMO: Francesco del Cossa (c. 1435- c. 1477), italiano;
- MANEIRISMO: Jacob Grimmer (c. 1525-1590), flamengo; Giuseppe Arcimboldo (1526-1593), italiano; Abel Grimmer (c. 1570-c. 1619), flamengo;
- BARROCO: Francesco Albani (1578-1660), italiano; Pieter Pauwel Rubens (1577-1640), flamengo; Nicolas Poussin (1594-1665), francês; Jacques Bailly (c. 1634-1679), francês; Rosalba Carriera (1675-1757), italiano; Anton Kern (1709-1747), alemão; Jacob van Strij (1756-1815), holandês;
- RÓCÓCÓ: François Boucher (1703-1770), francês; Jacob Cats (1741-1799), holandês; Jacob Philipp Hackert (1737-1807), alemão;
- REALISMO: Jean-François Millet (1814-1875), francês;
- ROMANTISMO: Frederic Edwin Church (1826-1900), americano;

Publicado em 24 de Setembro de 2011

O OUTONO: A MUSA POLÍMNIA (1455-1460).
Francesco del Cossa (c. 1435-c. 1477).
Óleo sobre madeira (116,6 x 70,5 cm).
Gemäldegalerie Deutsch, Berlin.

OUTONO.
Jacob Grimmer (c. 1525-1590).
Óleo sobre madeira (36 x 60 cm).
Szépmûvészeti Múzeum, Budapest.
 
OUTONO (1572).
Giuseppe Arcimboldo (1526-1593).
Óleo sobre tela (93 x 72 cm).
Art Museum, Denver.

 
OUTONO (1607).
Abel Grimmer (c. 1570-c. 1619).
Óleo sobre tela (33 x 47 cm).
Koninklijk Museum voor Schone Kunsten, Antwerp.
 
OUTONO – VÉNUS E ADÓNIS (1616-1617).
Francesco Albani (1578-1660).
Óleo sobre tela (Diâmetro 154 cm).
Galleria Borghese, Rome.

Paisagem de Outono com vista de Het Steen (c. 1635).
Pieter Pauwel Rubens (1577-1640).
Óleo sobre madeira (137 x 235 cm).
National Gallery, London.

OUTONO (1660-1664).
Nicolas Poussin (1594-1665).
Óleo sobre tela (118 x 160 cm).
Musée du Louvre, Paris.
 
OUTONO. (1664-68).
Jacques Bailly (c. 1634-1679).
Iluminura.
Bibliothèque Nationale, Paris.
 
OUTONO (C. 1725).
Rosalba Carriera (1675-1757).
Pastel sobre papel colado em cartão cinzento (24 x 19 cm).
The Hermitage, St. Petersburg.
 
OUTONO E INVERNO (1747).
Anton Kern (1709-1747).
Óleo sobre tela (165 x 126 cm).
The Hermitage, St. Petersburg.

OUTONO PASTORIL (1749).
François Boucher (1703-1770).
Óleo sobre tela (260 x 199 cm).
Wallace Collection, London.

PAISAGEM DO OUTONO COM ARCO-ÍRIS (1779).
Jacob Cats (1741-1799).
Aguarela e caneta (334 x 415 mm).
Rijksmuseum, Amsterdam.

OUTONO (c. 1784).
Jacob Philipp Hackert (1737-1807).
Óleo sobre tela (96,5 x 64 cm).
Wallraf-Richartz Museum, Cologne.
 
PAISAGEM DE OUTONO (Segunda metade do século XVIII).
Jacob van Strij (1756-1815).
Óleo sobre tela (229 x 210 cm).
Colecção particular.

PALHEIROS: OUTONO (c. 1874).
Jean-François Millet (1814-1875).
Óleo sobre tela (85 x 110 cm).
Metropolitan Museum of Art, New York.
   
OUTONO (1875).
Frederic Edwin Church (1826-1900).
Óleo sobre tela (39 x 61 cm).
Museo Thyssen-Bornemisza, Madrid.

domingo, 18 de setembro de 2011

O Alentejo nas Aguarelas de Feliciano Cupido


RUA EM BRANCO
Aguarela s/papel (40 x 50 cm)

“AGUARELAS DE FELICIANO CUPIDO” é a exposição que de 17 de Setembro a 29 de Outubro de 2011, se encontra patente ao público no Centro Cultural Dr. Marques Crespo, na Rua João de Sousa Carvalho, em Estremoz. Trata-se duma organização da Associação Filatélica Alentejana, com o apoio da Câmara Municipal de Estremoz.

Feliciano Cupido nasceu em Alcáçovas, exactamente no ano da graça de 1948, no dia da Restauração da Independência de Portugal. Data paradigmática em que o Portugal espezinhado pelo jugo castelhano, pôs o seu destino nas mãos de um homem de cultura, que governaria com o real nome de D. João IV, um alentejano de Vila Viçosa, que inauguraria a distinta dinastia dos Braganças, pela qual nutro especial admiração.
D. João IV foi um homem de profunda cultura musical e Alcáçovas, é reconhecida desde tempos primordiais, como pátria sonora e alentejana dos chocalhos. Desses mesmos chocalhos com que os ganadeiros ataviam a gadeza com que se enche a barriga, já que barriga vazia não conhece alegrias.
São chocalhos machos, chocalhos beirões, chocalhas, campanilhas, esquilões, esquilas, guizos, mangas, sem serras, picadeiros e sinetas.
São maquinetas de sons campestres que anunciam a fartura da matança que há de vir: a cachola, os pezinhos, as orelhas, a focinheira, as costeletas, os lombinhos, os presuntos, os paios, as paias, as farinheiras e as morcelas, que são como que hóstias sagradas com as quais nos seus rituais gastronómicos, os alentejanos comungam com vinho tinto rijo, espesso e aveludado, daquele que se mastiga e deposita “ad eternum” memórias de prazer nas suas papilas gustativas. Memórias de castas nacionais como Aragonês, Trincadeira Preta, Castelão, Tinta Caiada, Touriga Nacional e Alicante, mas memórias também de castas internacionais como Syrah, Cabernet Sauvignon, Alicante Bouschet, Petit Verdot e Merlot. Memórias também do odor das flores de esteva, dos poejos e dos ourégãos, do azeite com que temperamos divinamente a comida e do barro húmido que tresanda a ventre de mulher fecundada.
Estão pois a ver que a data de nascimento de Feliciano Cupido, consubstanciou um acto premonitório de que todo a sua vida decorreria sob os auspícios da música e toda ela teria a ver com estas terras de Além Tejo.
Como quase todos os homens da sua geração, Feliciano Cupido, passou pelas fileiras militares e permaneceu vinte e sete meses em Moçambique. Quando regressou inteiro, privilégio que muitos não tiveram, foi trabalhar em Évora para a Siemens, mais tarde Tyco. Aí iniciou a sua vida laboral e viveu intensamente os momentos mais extraordinários da novel revolução portuguesa e de todos os seus supremos valores de generosidade.
Desde sempre esteve ligado a movimentos e pessoas que cultivam o contacto com a natureza e o respeito pela mesma.
Integrou o Grupo Coral e Etnográfico “Cantares de Évora”, do qual foi um dos fundadores. Foi ainda criador e fundador da primeira Escola de Pintura de Évora, na Casa do Pessoal da Siemens, da qual foi Presidente da Direcção, durante vários anos.
Da Tyco se aposentou em 2006, ano em que começou a pintar, pois parar é morrer.
Para Feliciano Cupido, viver tem sido bom, uma vez que teve uma meninice agradável com pais e avós que sempre lhe proporcionaram o bem estar possível, com muito amor e carinho, temperados pelo respeito pelo próximo e pelos valores humanos, código que ainda hoje mantém.
A atracção pela pintura acompanha-o desde criança. Na qualidade de Director da Casa do Pessoal da Siemens, proporcionou ao pintor Camol d´Évora, as condições para se fixar em Évora. Instalaram então aí a primeira Escola de Pintura, passando então a dedicar-se a ela com mais empenho. Começou primeiro pelo acrílico, passando quase de imediato ao óleo e só mais tarde à aguarela.
Como pintor, Feliciano Cupido considera-se um autodidacta em aprendizagem permanente. Por outras palavras: um eterno insatisfeito na demanda alquímica de querer sempre fazer melhor, o que procura concretizar numa entrega total. Como tema dominante tem a região Alentejo, muito em especial a paisagem e alguns dos seus pormenores. Para ele, o acto de criação artística, representa um encontro consigo próprio. Nos seus quadros utiliza as cores que o Alentejo tem no Verão ou seja as cores da charneca seca. É que ele gosta muito das cores que nos transmitem a sensação de calor. Daí que o preto não entre nos seus trabalhos e o verde seja uma cor pouco utilizada.
Parafraseando - me a mim próprio, em texto já parido anteriormente, eu diria que Feliciano Cupido nos sabe transmitir duma maneira sábia, o azul límpido do céu, o castanho da terra de barro, a cor de fogo do Sol e o verde seco da copa dos sobreirais. E, as suas aguarelas, essas constituem uma paleta de cores, trespassada por uma claridade que quase nos cega e é companheira inseparável do calor que nos esmaga o peito, queima as entranhas e encortiça a boca.
Feliciano Cupido é natural das Alcáçovas, a catedral da sonoridade chocalheira desta terra transtagana. Dela fala Eduardo Teófilo na “Planície Heróica”, quando nos diz que: “Comovedora, sobretudo, era a música do crepúsculo, o cardume tremidinho de esquilas, campainhas e chocalhos dos lentos rebanhos recolhendo a currais, apriscos e arribanas – que ora tinha a soturnidade dum fabordão, ora a finura e a macieza dum coro angélico.”
As aguarelas de Feliciano Cupido têm a ver com a dimensão regional das minhas emoções, que é o mesmo que dizer com a identidade cultural do povo alentejano, forjada e caldeada em condições adversas.
Por isso eu me identifico com as aguarelas de Fernando Cupido.


MONTE DOS MOCISSOS
Aguarela s/papel (30 x 40 cm)

MONTE DA BARRA AZUL
Aguarela s/papel (30 x 40 cm)
ESTENDAL
Aguarela s/papel (30 x 40 cm)

MONTE DA ALFARROBEIRA
Aguarela s/papel (30 x 40 cm)
CEIFA
Aguarela s/papel (30 x 40 cm)

TELHADOS - MONSARAZ
Aguarelas/papel (30 x 40 cm)
MONSARAZ - TORRE DO RELÓGIO
Aguarela s/papel (50 x 40 cm)
FONTE DAS PORTAS DE MOURA II – ÉVORA
Aguarela s/papel (40 x 30 cm)

PALÁCIO DE D. MANUEL I - ÉVORA
Aguarela s/papel (40 x 30 cm)

AQUEDUTO - ÉVORA
Aguarela s/papel (30 x 40 cm)
SALA DO MUSEU MUNICIPAL DE ESTREMOZ
Aguarela s/papel (40 x 30 cm)
SALA DO MUSEU MUNICIPAL DE ESTREMOZ
Aguarela s/papel (30 x 40 cm)

SALA DO MUSEU MUNICIPAL DE ESTREMOZ
Aguarela s/papel (30 x 40 cm)