quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Estremoz - Tipos populares do Mercado

O amola-tesouras Paulino no Mercado de Estremoz, nos anos 60 do séc. XX.
Foto de Margarida Ribeiro.

Nos anos sessenta do séc. XX, na zona do mercado de sábado, o Rossio Marquês de Pombal em Estremoz era palco da acção dos mais diversos tipos de vendedores e prestadores de serviços:
- Cauteleiros como o Saragoça, o Cartolinha ou o Zé Guilherme que prometiam a sorte grande, que algumas vezes venderam;
- Poetas populares como o Miguel Gordinho de Santiago de Rio de Moinhos, que por ali vendia folhinhas com os seus versos;
- Amola-tesouras como o Paulino, de Santiago, com a sua bicicleta devidamente apetrechada com pedra de amolar giratória, caixa de ferramentas diversas que lhe permitiam além de amolar tesouras e facas, reparar guarda-chuvas danificados, umas vezes pelos rigores do tempo, outras pela incúria dos proprietários;
- Soldadores como o Jerónimo ou o Laureano, também de Santiago, que punham pingos e fundos. Eles arranjavam vasilhame metálico furado ou danificado pelo uso. Umas vezes bastavam uns pingos de solda ou um remendo. Porém, outras vezes era necessário um fundo ou uma asa nova. Por vezes também punham “gatos” em objectos de loiça que se tinham partido: alguidares, travessas de ir à mesa e mesmo penicos. Como eu gostava de os ver trabalhar! Era sempre um acto pautado por muita paciência e cuidado, que mais lembrava uma operação cirúrgica de reconstrução. E no fim, lá tínhamos o alguidar, a travessa ou o penico, que como Fénixes renascidas, retomavam a função que lhes estava destinada;
- Vendedores da banha de cobra, junto à fonte do Sátiro;
- Vendedores ambulantes de roupas e bugigangas, como o Painho, sem dúvida o maior fala-barato que conheci, mestre em “palheta” que usava em profusão para convencer os compradores mais hesitantes. O seu proscénio era a também a zona do Sátiro. De resto, mais comedido, por ali actuava também o Bravinho, de Borba;
- Engraxadores junto ao Posto da Polícia de Viação e Trânsito. Entre eles o Xico Gago e o filho Menino João, bem como o Algarvio e o Caelhas;
- Moços de fretes como o Dário, o Cereja e o Algarvio, que transportavam a bagagem a passageiros dos autocarros do João Cândido Belo, acabados de chegar à estação do Rossio;
- Aguadeiros como a "Espanhola", cuja proximidade era providencial no Verão, quando o calor sufocante, nos encortiçava a boca e ameaçava derreter os miolos.


 O poeta popular Miguel Gordinho vendendo folhas de versos no Mercado de Estremoz,
nos anos 60 do séc. XX. Foto de Margarida Ribeiro.

 A aguadeira "Espanhola" no Mercado de Estremoz, nos anos 60 do séc. XX.
Foto de Margarida Ribeiro.