sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Cancioneiro popular da água


Camponesa do Redondo. Bilhete-postal ilustrado, edição do Museu de Ovar, reproduzindo aguarela de Alfredo Moraes (1872- 1971).

PREÂMBULO

A importância da água é incomensurável, já que é utilizada como simples bebida ou com fins medicinais, na preparação e confecção de alimentos, no banho, na lavagem de roupa e de loiça, na rega, etc. Daí que seja natural que no cancioneiro popular alentejano, existam múltiplos registos que referem a água. Seleccionámos, sistematizámos e estudámos algumas dessas referências, fruto da nossa pesquisa em quatro fontes bibliográficas distintas, cujos autores, cada um na sua época, as recolheu da tradição oral. Sistematizámo-las em quatro grupos distintos:

1 – Mitologia no Cancioneiro Popular
2 – A obtenção da água
3 – O vasilhame de água
4 – Matar a sede

Passemos, de seguida, em revista, estes grupos:

MITOLOGIA NO CANCIONEIRO POPULAR

Faz parte da Mitologia Popular Portuguesa, a crença de que no princípio do mundo, a água foi condenada a correr sempre [2]. Daí que o cancioneiro popular alentejano constate que a água corra sempre, naturalmente, para baixo:

“A agua p’ra baixo corre,
P’ra cima não faz corrente;
Meu amor, se estás zangado,
Eu também não ‘stou contente.” [3]

Por isso e em contrapartida, para cima, a água só segue forçada:

“Água de ladeira acima,
Sem a levarem não vai.
Se queres qu´ê seje tua,
Vai-me pedir ò mé pai.” [1] (Vale de Santiago – Odemira)

A chuva faz correr água nos barranquinhos e revitaliza a natureza:

“Graça a Deus que já chove,
Já correm nos barranquinhos,
Já os campos ‘stão alegres,
Já cantam nos passarinhos.” [1] (Beja)

A água que corre na ribeira tem peixes:

“O barranco leva água.
Há peixinhos na ribeira.
Nesse teu peito amoroso,
Amizade verdadeira.” [1] (Montes Velhos - Aljustrel)

É frequente, o desejo de que a água fique retida:

“Agua, sustem-te nos valles,
Não sejas tão corredia;
Ja não há amor’s leaes,
Como n’outro tempo havia.” [3]

Integra igualmente a Mitologia Popular Portuguesa, a crença de que, no princípio do mundo, a água também tinha fala [2] e comunicava com quem junto a ela manifestava as suas emoções:

“Puz-me a chorar saudades
A’beira d’agua que corre,
A agua me respondeu:
Quem tem canceiras não dorme.” [3]

A própria água podia falar até dos seus progenitores:

“A minha mãe é ribeira,
O meu pae é rio corrente,
Sou filha das aguas claras,
Não tenho nenhum parente.” [3]

Pertence também ao domínio da Mitologia popular portuguesa, a convicção de que a água dorme todas as noites [2].

“Dormes ao pé da ribeira,
Hás-de-me saber dizer
Quantas horas dorme a água
Antes da manhã romper.” [1] (Mértola)

Daí que também alguém responda:

“Contas horas drome a água,
Isso nã’ le sê dezer:
Qu’é drumo à bêra do rio,
Toda a noite oiço correr.” [1] (Odemira)

Daí que alguém pergunte:

“Menina, que sabe tanto,
Há-de-me saber dizer:
Contas horas drome a água
Entes da manhã romper?” [1] (Mértola)

A OBTENÇÃO DA ÁGUA

É considerado uma ventura, morar próximo de água:

“É um regalo na vida,
Ao pé da água morar,
Quem tem sêde vai beber,
Quem tem calor vai nadar.” [3]

Por vezes, bebia-se água do pego:

“Tinha sêde e fui beber
Lá no pêgo de Vianna;
Val’ mais uma hora d’amor,
Que o ganho d’uma semana.” [3]

Bebia-se muita água do poço, o qual era um local de encontros amorosos:

“Quanto mais fundo é o pôço,
Mais fresca n’el’ são as aguas
Quanto mais falo contigo,
Mais gosto das t’as palavras.” [3]

Alguns conseguiam escapar às tentações de amor junto ao poço:

“Adeus, poço do terraço,
Onde eu mato a minha sede,
Armaram-me lá um laço
Mas eu não cahi na rede.” [3]

O poço podia ser um local de infidelidade amorosa:

“Vi-te ao poço mai-la outra,
enquanto eu ceifava o trigo;
ai quem pudesse ceifar
a dor que trago comigo.” [4]

Havia quem admitisse por saudade, arrojar-se ao poço:

“Hei-de-me deitar ao poço,
Fazer de mim caldeirão.
As saudades são tantas,
Que elas por mim puxarão.” [1] (Beja)

Havia poços que tinham um engenho para tirar água, a nora:

“Como alcatruzes de nora
São as vaidades do mundo,
Os que enchem vão a cima,
Os que vasam vão ao fundo.”  [3]

As fontes à beira dos caminhos sempre foram muito apreciadas pelos viajantes:

“Benditas sejam as fontes
À beirinha dos caminhos,
Onde vão matar a sede
Os alegres passarinhos.” [1] (Amareleja)

Poder beber água de todas as fontes era motivo de inveja:

“Nã’ m’enleva de quem tem
Carros, parelhas e “montes”;
Só m’enleva de quem bebe
Água de todas as fontes.” [1] (Beja)

Nenhuma fonte se podia menosprezar:

“Ninguém diga eu não hei-de
Desta fonte água beber;
Pode a sede apertar muito,
E outro remédio não ter.” [1] (Vale de Santiago – Odemira)

A fonte era um local de encontro, onde se bebia sem ter sede:

“Fui à fonte beber agua,
Por baixo da canna verde,
E só p’ra vêr os teus olhos
Bebi agua sem ter sede.” [3]

“Fui beber a uma fonte
Debaixo da fresca murta,
Fui só para ver os teus olhos,
Que a sede não era muita.” [1] (Mina da Juliana – Aljustrel)

A fonte era, algumas vezes, um local de encontros imprevistos:

“Fui à fonte beber agua,
Julgando que não te via.
Mas fiquei tão distrahida,
Que nem a água bebia.” [3]

A fonte era ainda um local de namoro:

“Andam na eira os rapazes
O seu trigo a debulhar,
E à noite vão para a fonte,
As moças a namorar.” [3]

A fonte era também um local de brincadeiras:

“Menina, se for á fonte,
Não brinque lá com ninguém,
‘Stá a louça muito cara
Cada cântaro um vintem.” [3]

O caminho da fonte era um caminho muito percorrido:

“Adeus praça, adeus castelo,
Adeus caminho da fonte:
Por causa das raparigas
Muito calçado se rompe.” [2] (Alandroal)

Na fonte achavam-se, por vezes, objectos perdidos:

“Fui à fonte beber água,
Achi um lencinho verde.
Quem no perdeu, tinha amores,
Quem no achou, tinha sede.” [1] (Beja)

Os desentendimentos amorosos, levavam a mudar de fonte:

“Algum dia em tendo sede,
Ia beber ao teu “monte”;
Agora estou mal contigo,
Vou beber a outra fonte.” [1] (Beja)

A água muitas vezes corria da fonte para um chafariz e daqui para um lavadouro:

“Deixa lá falar, quem fala,
Deixa lá dizer quem diz,
Deixa lá correr as aguas,
Da fonte p’r’o chafariz.” [3]

Por vezes também se consumia água da chuva, guardada em cisternas:

“O regalo do soldado
É ter a cama no chão,
Beber agua da cisterna,
Comer pão de munição.” [3]

A água é um bem finito, que deve ser conservado:

“Quem quer boêr não turva a água,
Quelara a quer conservar,
Que assim faz o homem serio
Quando pretende casar.” [3]

O VASILHAME DA ÁGUA

As bilhas de barro eram conhecidas por tornar a água mais saborosa:

“Aquela bilha de barro
comprada em Vla Viçosa
p’ra matar sede de amor,
faz a água mais gostosa.” [4]

As bilhas tinham como único inconveniente, o serem frágeis:

“Caiu-me a bilha no monte.
lá deixou ficar a asa…
Culpa tem quem fez a fonte
tão longe da minha casa.” [4]

Dava-se água pelo púcaro, o que não era privilégio de todos:

“Senhora, que a todos daes
Agua por púcaro novo,
Só a mim é que deixaes
Desconsolado de todo.” [3]

Havia quem implorasse água do púcaro:

“M’nina que estás à janella,
Co’ pucarinho na mão,
Dá-lhe volta, se tem agua
Réga-me este coração.” [3]

Em casa, além do púcaro, usava-se também o copo:

“Em cima daquela mesa
Está um copo d’água fria
Onde se baptizou a Cristo,
Filho da Virgem Maria.” [1] (Amareleja)

MATAR A SEDE

A sede leva a pedir água:

“Dá-me uma pinguinha d’agua,
Que eu bem na sinto correr,
Onde há silvas e montrastos
Alguma pinga ha de haver.” [3]

“Dá-me uma pinguinha d’agua
Pela tua propria mão,
Que das terras d’onde eu venho
Nem as fontes agua dão.” [3]

Todavia, o pedido pode ser recusado:

“Passei pela tua porta,
Pedi-te agua, não m’a deste;
Nem os moiros na moirama
Fazem, o que tu fizeste.” [3]

“Eu pedi uma pinga d’agua
Á ingrata d’uma prima,
Vinha com ella da fonte,
E disse-me que a não tinha.” [3]

As recordações podem fazer esquecer a sede:

“De tanta sede que tinha
Nenhuma água bebi.
Quando ia para beber
Tive lembranças de ti.” [1] (Beja)

Ver as bicas da fonte, não mata a sede:

“D’aqui onde estou bem vejo
Correr as bicas da fonte;
Ai de mim! que morro à sêde,
Tendo o remedio defronte.” [3]

Os bêbados têm sede, mas de vinho:

“Ó meu amor, vinho, vinho,
Agua não posso beber,
A agua tem sanguessugas,
Tenho medo de morrer.” [3]

Além de matar a sede, a água permite aclarar a voz:

“Dá-me uma gotinha de água
Para lavar a garganta;
Quero cantar como a rola,
Como a rola ninguém canta.” [1] (Beja)

O despeito de amor, pode levar alguém a rogar pragas, nas quais intervém a água:

“Meu amor abandonou-me
Não sei qual fosse a razão,
Ao beber lhe falte a água,
Ao comer lhe falte o pão.” [3]

BIBLIOGRAFIA

[1] – DELGADO, Manuel Joaquim Delgado. Subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo. Vol. I. Instituto Nacional de Investigação Científica. Lisboa, 1980.
[2] - LEITE DE VASCONCELLOS, José. Etnografia Portuguesa, Vol. V. Imprensa Nacional – Casas da Moeda. Lisboa, 1982.
[3] - PIRES, A. Tomaz. Cantos Populares Portuguezes. Vol. I. Typographia Progresso. Elvas, 1902.
[4] - SANTOS, Victor. Cancioneiro Alentejano. Livraria Portugal. Lisboa, 1959.

Hernâni Matos