quarta-feira, 1 de junho de 2011

O Dia da Espiga (2ª edição)

Esta é a 2ª edição do post, cuja 1ª edição, datada de 6 de Março de 2010, foi agora ampliada com diversas referências de literatura oral: adagiário português (4), superstições populares (6) e cancioneiro popular (1). Foram igualmente adicionadas, novas fontes bibliográficas (3).

Bilhete-postal ilustrado dos anos 20 do século XIX,
reproduzindo ilustração de A. Rey Colaço.

De acordo com o calendário litúrgico cristão, na Quinta-Feira de Ascensão comemora-se a ascensão de Cristo Salvador ao Céu, após ter sido crucificado e ter ressuscitado. Esta data móvel encerra um ciclo de quarenta dias após a Páscoa. Lá diz o adágio: "Da Páscoa à Ascensão, 40 dias vão."
Na Quinta-Feira de Ascensão celebra-se igualmente o Dia da Espiga. Era tradição e igualmente superstição [2], as pessoas irem para o campo neste dia, para apanhar a espiga de trigo e outras plantas e flores silvestres. Faziam um ramo que incluía pés de trigo e/ou centeio, cevada, aveia, um ramo florido de oliveira, papoilas e margaridas.
O ramo tinha um valor simbólico. Simbolizava a fecundidade da terra e a alegria de viver. As espigas simbolizavam o pão e a abundância, as papoilas o amor e a vida, o ramo de oliveira a paz e as margaridas o ouro, a prata e o dinheiro.
Nalguns locais, o ritual da colheita da espiga era muito preciso. Na 5ª Feira de Ascensão, devia ir-se ao campo, do meio-dia para a uma hora, colher flores de oliveira, espigas de trigo e flores amarelas e brancas, tudo em número de cinco. Deviam rezar-se igualmente cinco Padres-Nossos, cinco Ave Marias e cinco Gloria Patres, para que durante o ano, houvesse sempre em casa, azeite, ouro e prata. [6]
De acordo com a tradição, o ramo devia ser pendurado dentro de casa, na parede da cozinha ou da sala, aí se conservando durante um ano, até ser substituído pelo ramo do ano seguinte. Havia a crença que o ramo funcionava como um poderoso amuleto que trazia a abundância, a alegria, a saúde e a sorte. Lá diz o adágio: "Quem tem trigo da Ascensão, todo o ano terá pão." E porquê? Porque se acredita naquilo que diz o cancioneiro popular alentejano:

"Tudo vai colher ao campo
Quinta-feira d'Ascensão,
trigo, papoila, oliveira.
p'ra que Deus dê paz e pão." [4]

"Quinta-feira de Ascensão
As flores têm virtudes,
Quis amar teu coração,
Fiz empenho mas não pude." (Évora) [3]

Estava de resto, arreigada a superstição de que era bom colher certas flores e plantas medicinais na Quinta-Feira de Ascensão, antes do nascer do Sol. [2] Existia igualmente a crença de que os ovos postos pelas galinhas, entre o meio-dia e a uma hora da Quinta-Feira de Ascensão, nunca apodrecem e têm a virtude de curar doenças e suprimir dores. [2] Acreditava-se também que o queijo feito na Quinta-Feira de Ascensão era medicamento eficaz contra as sezões. [1] Existia ainda o convencimento de que o vento que na Quinta-feira de Ascensão, soprasse à uma hora da tarde, era o que sopraria durante todo o ano. Existia finalmente a convicção de que era bom comer carne na Quinta-Feira de Ascensão, de acordo com adágio:

“Em Quinta-Feira de Ascensão,
Quem não come carne
Não tem coração;
Ou de ave de pena,
Ou de rês pequena.” [2]

A origem festiva do Dia da Espiga, coincidente com a Quinta-Feira da Ascensão, é muito anterior à era cristã. Na verdade, este dia é um sucessor claro de rituais pagãos, praticados durante séculos, por todo o mundo mediterrâneo, em que grandiosos festivais de cantares e danças, celebravam a Primavera e consagravam a natureza. Neles se exortava o eclodir da vida vegetal e animal, após a letargia dos meses frios, bem como a esperança nas novas colheitas. O Dia da Espiga era assim como que uma bênção aos primeiros frutos e marcava o início da época das colheitas.
A Igreja, à semelhança do que fez com outras ancestrais festas pagãs, cristianizou o Dia da Espiga. A data atravessa assim os tempos com uma dupla significação:
- como Quinta-feira de Ascensão, para os cristãos, assinalando, a ascensão de Jesus ao Céu, ao fim de 40 dias;
- como Dia da Espiga, traduzindo aspectos e crenças não religiosos, mas exclusivos da esfera agrícola e familiar.

Bilhete-postal ilustrado do 2º quartel do século XIX, edição A.V.L. (Lisboa),
reproduzindo aguarela de Alfredo Moraes (1872-1971).

Actualmente poucas são as pessoas que ainda se deslocam ao campo na Quinta-Feira da Ascensão para apanhar o ramo da espiga. Mas aquelas que vão, têm dificuldade em constituir o ramo, sobretudo pela dificuldade em recolher pés de cereal, raros a partir do momento em que os nossos agricultores receberam dinheiro de Bruxelas para deixar de cultivar. Apesar de tudo, há quem consiga cumprir a tradição. E há também quem faça negócio com a tradição, colhendo e vendendo ramos de espiga na cidade. Apesar do mercantilismo deste biscate em tempo de crise, é um contributo para a preservação da tradição. Actualmente, também são poucas as pessoas que se deslocam à Igreja para participar nos deveres religiosos inerentes à data. Todavia, houve tempos em que a data, das mais festivas do ano, era repleta de cerimónias sagradas e profanas, que chegavam a implicar a paralisação laboral. Existia mesmo a crença que em Quinta-Feira de Ascensão, os passarinhos não vão aos ninhos. [1] Daí também o adágio: “No Dia da Ascensão nem os passarinhos bolem nos ninhos”, o que está de acordo com o cancioneiro popular:

“Se os passarinhos soubessem
Quando é dia d'Ascensão,
Nem subiam ao seu ninho,
Nem punham o pé no chão.” [5]

Existia igualmente a crença de que na Quinta-Feira de Ascensão, os pássaros não iam ao ninho desde o meio-dia até à uma hora, que era o período de orações nas festas da Igreja. Consta, que antigamente, finalizadas essas orações, era costume soltarem-se passarinhos do coro e das tribunas, e espargirem-se flores desfolhadas sobre os fiéis. [6]
Por vezes chove na Quinta-feira de Ascensão, o que originou a convicção de que em chovendo na tarde de Quinta-Feira de Ascensão, as nozes apodrecem e os frutos sairão pecos. [6] O adagiário, regista, de resto a crença de que “Água d'Ascensão, tira o vinho e dá o pão”, assim como “Chuvinha da Ascensão, dá palhinha e dá pão” e também “Quinta-feira da Ascensão, coalha a amêndoa e o pinhão”.

BIBLIOGRAFIA
[1] - CHAVES, Luís. Páginas Folclóricas - I : A Canção do Trabalho. Separata do vol. XXVI da "Revista Lusitana". Imprensa Portuguesa. Porto, 1927.
[2] - CONSIGLIERI PEDROSO, "Superstições Populares”, “O Positivismo: revista de Filosofia, Vol. III. Porto, 1881.
[3] – LEITE DE VASCONCELLOS, J. Leite. Cancioneiro Popular Português, vol. III. Acta Universitatis Conimbrigensis. Coimbra, 1983.
[4] – SANTOS, Vítor. Cancioneiro Alentejano - Poesia Popular. Livraria Portugal. Lisboa, 1959.
[5] - THOMAZ PIRES, A. Cantos Populares Portugueses, vol. I. Typographia Progesso. Elvas, 1902.
[6] - THOMAZ PIRES, A. Tradições Populares Transtaganas. Tipographia Moderna. Elvas, 1927.

23 comentários:

  1. Na verdade ainda estava intacta na minha lembrança esta situação vivida na minha infância.Mas não sabia o que cada elemento significava...Pão em abundância...Paz...Amor...e ter dinheiro...Sabia que era importante nesse dia fazer essa recolha,que normalmente partia da motivação da Professora,da Mãe e das coleguinhas.Era uma tarde bem divertida e contentes com o raminho que guardávamos em casa religiosamente até ao próximo ano.Adorei este seu texto...adoro a forma rigorosa com que escreve...tudo documentado.
    Obrigada por me trazer de novo aos momentos dourados da minha Infância.
    Abraço da Ana Carita.

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  2. Através do Facebook, encontrei agora o seu blog, Hernâni.
    Gostei muito, e, vou voltar, com mais tempo para poder apreciar estas preciosidades.

    Parabéns*

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    1. Jelicopedres:
      Obrigado pelo seu comentário.
      É gratificante e estimulante saber que os outros apreciam aquilo que escrevemos.
      Os meus cumprimentos.

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  3. Também a través do Facebook descobri o seu blog e adorei este texto...
    Só uma achega, sem suporte documental, mas que em minha casa (e onde eu morava) era seguido com todos os SS e RR: em quinta feira de Ascensão, nem sequer se fazia pão!
    A minha Avó era tão supersticiosa com essas tradições, que neste dia procurava fazer almoço e jantar que tivesse o mínimo de preparação e creio mesmo que seria o único dia do ano em que o chão da cozinha não era lavado de escova...
    Parabéns!

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  4. Teresa:
    Obrigado pelo seu interessante e estimulante comentário.
    Volte sempre. Julgo que no meu blogue encontrará temas que podem motivar à sua leitura.
    Os meus cumprimentos.

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  5. Gostei bastante do texto, eu que sou de tradições e qd miúda recordo este dia com as vizinhas a irem de casa em casa a convidar para a ida ao campo na cidade em busca do ramo que era colocado atrás da porta de casa para abençoar a casa com os seus significados e crenças, tb recordo da minha mãe guardar um paposeco num armário longe da luz, esse pão ficava intato um ano inteiro nem o bolor lá entrava.

    Um bem haja e que continue a nos dar estes conhecimentos que não podem ser esquecidos.

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  6. akombi:
    Obrigado pelo seuj comentário e muitol em especial pelo seu testemunho.
    Os meus cumprimentos.

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  7. Foi no facebook ao partilhar um post retirado do seu blog sobre o livro da 1ªclasse (que também foi o meu livro)que me recomendaram o seu bog.Visitei-o e gostei muito n/resistindo a partilhar logo dois artigos de muito interesse sobre Nossa Senhora e Sto António.Interesso-me muito pelas nossas tradições e arte populares e por isso acho o seu sítio precioso.Vou voltar muitas vezes e já o recomendei aos meus amigosdo facebook.Bem haja por partilhar connosco o seu interesse e saber pelas nossas tradições e cultura.

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    1. Eugénia:
      Muito obrigado pelo seu comentário. Procurarei não desmerecer o interesse manifestado por leitores e amigos.
      Os meus cumprimentos.

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  8. Pois é ao ler estes ditados recordo a minha infância e as palavras que os meus pais costumavam dizer. É bom que não se percam da memória. Obrigada professor por trazer estes bonitos adágios.

    Rosa Casquinha

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  9. Maria da Conceição Ferreiraquinta-feira, 09 maio, 2013

    A esta tradição, na minha terra adiciona-se outra: guardamos também um pão, embrulhado num guardanapo de papel, que juntamos ao ramo, numa caixa de cartão.No ano seguinte, comemos esse pão (que está duro como pedra, mas não tem pinta de bolor), amolecido em leite ou chá quente.Hoje eu comi o do ano passado e guardei outro junto com o ramo.

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    1. Maria da Conceição:
      Obrigado pelo seu comentário.
      Desconhecia completamentwe o que me contou.
      Seria interessante dizer-nos o nome da localidade onde se cumpre essa tradiçâo.
      Cumprimentos.

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  10. Obrigada Hernâni... "Actualmente poucas são as pessoas que ainda se deslocam ao campo na Quinta-Feira da Ascensão para apanhar o ramo da espiga. Mas aquelas que vão, têm dificuldade em constituir o ramo, sobretudo pela dificuldade em recolher pés de cereal, raros a partir do momento em que os nossos agricultores receberam dinheiro de Bruxelas para deixar de cultivar"... Hoje devolveu -me , não só , um pedaço da minha identidade"adormecida" mas a necessidade de nomear a causa das coisas!Face à inércia da memória, atrevo -me a cità-lo em comentário.

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    1. Obrigado pelo seu comentário.
      O que diz é inteiramente verdade.
      Os meus cumprimentos.

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  11. Obrigada por se dar ao trabalho de me comentar. Eu não tenho dúvidas do que o que digo e quando o digo, pode parecer "inteiramente verdade"..mas não é essa a minha pretensão ..... esta visa tão simplesmente a de dar algum contributo para que as pessoas se "desistalem" do seu quotidiano , e no contexto seu Blogg, que todos sejamos capazes de interpretar as " Cronotopias" no quotidiano... OBRIGADA MAIS UMA VEZ !

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    1. Para quem tem um blogue, responder a um comentário não é um trabalho, é um imperativo ético.
      Torna-se necessário que quem nos lê, perceba que temos prazer na sua leitura, que essa atitude nos estimula e nos motiva.
      Nós escrevemos pela força que há dentro de nós, mas não escrevemos para nós. Escrevemos para os outros, com os quais queremos partilhar os estados de alma, as ideias que nos povoam a mente e os sobressaltos que nos abanam o espírito. Daí que sejam importantes as pontes de comunicação com o leitor, que assim percebe a mais valia que para nós é um comentário.

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  12. Daqui do Brasil, o meu abraço. Estou me aventurando por seu blog e adorando cada post. A história cotidiana de Portugal é riquíssima e deixou ecos aqui também. Ana

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    1. Ana:
      Obrigado pelo seu comentário.
      Um abraço para si, também.

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  13. Meu caro amigo Hernâni
    Mais uma grande lição etnográfica ( não sei se posso chamar-lhe assim?!) de tradições e costumes da nossa terra, a que já nos habituaste. Parabéns. O teu trabalho de pesquisa é muito importante. Tenho aqui um livro do início do séc XX escrito por um homem aqui de Casa Branca que hoje é um documento histórico. Um dia levo-to para veres. bjs zuzu

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  14. Obrigada, amigo! É sempre um prazer enorme lê-lo ! Hoje, agradeço também tudo o que juntou ao texto inicial e que complementa a realidade do Dia da Espiga. Tem razão, hoje nem sequer é possível ir ao campo colher as espigas e flores: a vida na cidade e a vida laboral não permite. Tenho pena e, por acaso, acho que os patrões também deveriam ter...

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    1. Fernanda:
      Obrigado pelo seu comentário.`De facto, essa é a realidade nua e crua.
      Os meus cumprimentos.

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