segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Os candeeiros a petróleo (2ª edição)

Esta é a 2ª edição do post OS CANDEEIROS A PETRÓLEO, editado em 27 de Fevereiro de 2010, agora revisto, reformulado e ampliado com apontamentos de literatura oral, bem como pela adição de três novas ilustrações.

Um elegante candeeiro a petróleo.
EU E O PETRÓLEO
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Nascido em 1946, sou duma geração que nasceu e viveu iluminada pelo candeeiro a petróleo. À luz do petróleo se jantava em casa dos meus pais e à luz do candeeiro se seroava e se contavam histórias desse dia e histórias de família, a perder no tempo.
À luz do petróleo aprendi a juntar as primeiras letras, assim como a ler e a escrever.
Os sessenta e três anos que atravessam longitudinalmente a minha vida, levaram-me a conhecer sucessivamente as lâmpadas incandescentes, as lâmpadas de halogéneo, as lâmpadas fluorescentes, as lâmpadas de descarga e os leds.
A minha costela de coleccionador, aliada à necessidade de registar materialmente a memória do passado, levou ao gosto pela iluminária popular, o que se traduziu em ter reunido ao longo dos anos, um razoável conjunto de candeeiros de petróleo. Especímenes diferentes no tamanho, no material (vidro, loiça, metal, mistos), na geometria, na cor do vidro, na decoração, nas chaminés, porém todos eles com um elo comum: o serem candeeiros a petróleo. Este meu gosto pelos candeeiros tem a ver com memórias de infância, nas quais o combustível era para mim o mal amado.
Ainda hoje me lembro do cheiro pestilento a petróleo, que me era assaz desagradável, ao ponto de ainda hoje o ter entranhado nas narinas, talvez por desde sempre ter sido dotado de um razoável faro de perdigueiro.
Deu-se ainda o caso de uma certa vez, aí pelos doze anos de idade, ter esparramado petróleo para cima dos sapatos. Como? A minha mãe mandou-me ao petróleo à drogaria da D. Virgínia, a cerca de vinte metros da casa onde então morávamos na Rua da Misericórdia, em Estremoz. E a garrafa teve que ir embrulhada em papel de jornal, porque ela queria assim e assim tinha que ser. No regresso, já do lado de fora da drogaria, resolvi pegar na garrafa pelo gargalo, mas não sei como é que me arranjei, que quando dei por mim, tinha a rolha e a o papel de jornal na mão direita. A garrafa, farta de me estar nas mãos, libertara-se do meu jugo e armada em S. João Baptista, baptizara-me os sapatos, que assim ficaram bentos para o resto da vida. Todavia, fiquei dispensado de os usar, enquanto estes retiveram os odores nauseabundos do seu baptismo forçado. O que não fiquei livre, foi de ter de ir logo de seguida, comprar novamente petróleo à mesma drogaria. E que julgam? Mais uma vez numa garrafa embrulhada em papel de jornal. Porém, desta feita, com uma séria advertência:
- "Vê lá bem o que fazes! "
Bom, mas então tive mais sorte e tal como uma formiga no carreiro, lá fui direitinho a casa, onde cheguei vitorioso com a garrafa incólume, toda embrulhadinha como a minha mãe gostava. Pude então mudar de sapatos e lavar os pés com sabão azul e branco. Num alguidar de zinco, é claro. Porque nessa época, banheiras e bidés só na casa de ricos.
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EDISON E OS CANDEEIROS A PETRÓLEO
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Mais tarde, vim a perceber porque é que Thomas Edison (1847-1931), o mais prolífico dos inventores americanos, entre as 1093 patentes das suas descobertas, incluía a lâmpada eléctrica de incandescência, mostrada ao público em 31 de Dezembro de 1879, no seu laboratório em Nova Jersey. É que sendo o filho mais novo de uma família de sete irmãos, enquanto rapaz tinha a seu cargo a manutenção dos candeeiros de petróleo lá de casa, tarefa para si abominável. Lá diz o rifão: “A necessidade é mestra de engenho”. Como eu o compreendo: atestar os depósitos com o líquido de execrável cheiro, aparelhar as torcidas, limpar as chaminés enegrecidas pelo fumo, era, de facto, uma tarefa desagradável.
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OS CANDEEIROS NA LITERATURA ORAL
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Liberto de ir ao petróleo mal-amado, comecei por me apaixonar primeiro pelo coleccionismo de candeeiros e depois já arqueólogo da oralidade da língua e da literatura portuguesas, tornei-me colector de registos presenciais dos candeeiros nos diversos géneros de literatura popular. No que respeita à presença dos candeeiros no adagiário português, esta é algo escassa:
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- “Agosto, candeeiro posto. “
- “Em Agosto candeeiro posto. “
- “Em Setembro palha no palheiro e meninas ao candeeiro. “
- “O pé do candeeiro é o pior iluminado. “
- “Um bom companheiro alumia como um candeeiro. “
- “Um bom conselheiro alumia como um candeeiro.”
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O mesmo se passa com o seu registo no cancioneiro popular, algumas vezes associado ao amor:
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“Candeeiro ao meio da sala,
Alumia os quatro cantos,
Meu amor, a tua fala
dá por aí dias santos.” [8]
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“Candeeiro, que estás tão alto,
Desce e vem para baixo.
O meu par é pequenino,
Já sei que o perco aqui.” [2] - Cantiga de pé-quebrado – Vale de Santiago-Odemira.
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O candeeiro aparece ainda comparado ao astro rei:
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“Alumiar duas salas
Como pode um candeeiro?
Também o Sol sozinho
Alumia o dia inteiro.” [2] - Beja
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Aparece igualmente em composições de escárnio e mal dizer:
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“Cala-te ahi bocca aberta,
Rodilha de candeeiro,
Tens-te por espertalhão,
Tu és um pantomineiro.” [6]
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Os candeeiros estão igualmente presentes no corpo de adivinhas portuguesas, cuja solução é, como não podia deixar de ser, o candeeeiro:
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"Burro de ferro
Albarda de linho
Tic tic como um passarinho.” [9]
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“Qual é coisa, qual é ela, que tem um furo e não rebenta?” [9]
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No domínio das alcunhas alentejanas são conhecidas as seguintes:
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- CANDEEIRO = Alcunha outorgada a um indivíduo que é proprietário dum café homónimo (Alter do Chão). [7]
- CANDEEIRO DAS CABANAS = designação atribuída a um indivíduo que é trigueiro (Moura). [7]
- CANDEEIRO DE BOLA = O visado recebeu esta designação porque é alto e tem a cabeça muito redonda (Ourique). [7]
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No âmbito da toponímia são de registar os seguintes topónimos:
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- "CANDEEIRA – Lugar da Freguesia de Avelã de Cima, concelho de Anadia." [3]
- "CANDEEIRA - Lugar da Freguesia de Ribeirão, concelho de Vila Nova de Famalicão." [3]
- "CANDEEIRA – Lugar da Freguesia de Sandim, concelho de Vila Nova de Gaia." [3]
- "CANDEEIROS – Lugar da Freguesia de Benedita, concelho de Alcobaça." [3]
- "CANDEEIROS – Serra com 487 metros de altitude e que abrange os concelhos de Rio Maior, Alcobaça e porto de Mós." [3]
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NOTA FINAL
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Que ninguém fique com a ideia errada de que a substituição do candeeiro a petróleo pela lâmpada eléctrica, empobreceu a literatura oral. Pelo contrário, dado o seu carácter dinâmico, esta não deixa de registar o aparecimento de inovações tecnológicas, o que se traduz afinal num enriquecimento da própria literatura oral. Nesse contexto de inovação tecnológica, exemplificamos com uma adivinha, cuja solução,é obviamente a lâmpada eléctrica de incandescência:
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- “O que é, que tem a barriga de vidro e a tripa de arame?” [4]
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BIBLIOGRAFIA
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[1] – DELGADO, Manuel Joaquim Delgado. Subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo. Vol. I. Instituto Nacional de Investigação Científica. Lisboa, 1980.
[2] - DELICADO, António. Adagios portuguezes reduzidos a lugares communs / pello lecenciado Antonio Delicado, Prior da Parrochial Igreja de Nossa Senhora da charidade, termo da cidade de Evora. Officina de Domingos Lopes Rosa. Lisboa, 1651.
[3] – FRAZÃO, A. C. Amaral. Novo Dicionário Corográfico de Portugal. Editorial Domingos Barreira. Porto, 1981.
[4] - LIMA, Fernando de Castro Pires de. Qual é a coisa qual é ela? Portugália Editora. Lisboa, 1957.
[5] – MEADOWCROFT, Enid Lamonte. Edison.7ª edição. Livraria Civilização. Porto 1981.
[6] - PIRES, A. Thomaz. Cantos Populares Portugueses, vol. IV. Typographia e Stereotypia Progresso. Elvas, 1910.
[7] – RAMOS, Francisco Martins & SILVA, Carlos Alberto da. Tratado das Alcunhas Alentejanas. 2ª edição. Edições Colibri. Lisboa, 2003.
[8] - SANTOS, Victor. Cancioneiro Alentejano – Poesia Popular. Livraria Portugal. Lisboa, 1959.
[9] TOPA, Francisco. “ADIVINHAS — Duas colecções particulares da primeira metade do século” in Encontros, n.º 1. Sociedade de Estudos e Intervenção Patrimonial. Porto, 1995.



Parte da minha colecção de iluminária popular, com os candeeiros a petróleo à esquerda.

Edison assegurando a manutenção dos candeeiros de petróleo da casa de seus pais. Ilistração de Harve Stein para o livro [5] citado na bibliografia.
  
Uma moderna lãmpada de incandescência.