Senhora de pezinhos. Ana das Peles (1869-1945). A representação do olhar
é feita através da menina do olho e da sobrancelha. Já Mestre Mariano da
Conceição (1903-1959), que lhe sucedeu na recuperação da extinta tradição
dos Bonecos de Estremoz, empreendida a partir de 1933 pelo escultor José
Maria de Sá Lemos (1892–1971), utiliza a menina do olho, a sobrancelha e a
pestana na representação do olhar. Colecção do autor.
A representação do olhar na barrística
de Estremoz ao longo dos tempos é diversificada, como nos revela a observação
atenta dos inúmeros exemplares existentes no Museu Municipal de Estremoz.
A menina do olho está sempre presente.
Alguns exemplares só representam a menina do olho encimada pela sobrancelha.
Todavia há outros nos quais a menina do olho está coroada pela sobrancelha e
pela pestana, que podem revelar-se rectilíneas ou encurvadas, podendo a
sobrancelha ser ou não tangente à menina do olho. Para além disso, há
exemplares que apresentam a menina do olho inserida num globo ocular, que pode ou
não ter fundo branco.
A representação do olhar na barrística
de Estremoz tem a ver com o estilo próprio de cada barrista, que é o mesmo que
dizer que tem a ver com as marcas identitárias que lhe são inerentes e os
diferenciam doutros barristas. De resto, um mesmo barrista na procura do seu próprio
caminho, pode recorrer a representações distintas do olhar ao longo da sua
actividade.
Pode-se gostar mais duma
representação do olhar que doutra, mas todas são igualmente legítimas, porque
todas integram o “corpus” da representação do olhar ao longo do período
multisecular de produção dos Bonecos de Estremoz. Como tal não é aceitável que
alguém, seja quem for, em nome de não sei quê, queira proscrever as
representações do olhar que não sejam do tipo “dois riscos por cima da menina
do olho”. Digo-o como coleccionador e investigador dos Bonecos de Estremoz, com
a autoridade que advém da colecção que até hoje consegui reunir e dos estudos
efectuados até ao presente. É essa autoridade que me leva a respeitar o estilo
próprio de cada barrista, fruto das suas próprias marcas identitárias e a
gostar do estilo de cada um, logo de todos. Por outras palavras, gosto dos
Bonecos de Estremoz de todos os nossos barristas.
Sá Lemos trocando impressões com Ana das Peles numa sala de aulas da Escola Industrial
António Augusto Gonçalves. Fotografia de Rogério de Carvalho (1915-1988), publicada no
semanário estremocense “Brados do Alentejo” nº 250, de 10 de Novembro de 1935. Arquivo
fotográfico do autor.