quinta-feira, 9 de março de 2017

Receita para um Programa Autárquico



Em Outubro próximo, terão lugar eleições autárquicas, que permitirão eleger Assembleias de Freguesia, Assembleia Municipal e Câmara Municipal. Daí que se justifique aqui uma reflexão sobre programas autárquicos.

Problemas para resolver são o que não faltam
Qualquer de nós, fruto de observação atenta ou chamado à atenção por outros, constata a existência de múltiplos problemas na nossa Comunidade, aos quais urge dar resposta. Alguns desses problemas estão relacionados entre si e alguns só poderão ser resolvidos por cooperação entre várias entidades. Eis uma lista não exaustiva de alguns desses problemas: - Desemprego; - Êxodo da Juventude; - Falta de indústrias; - Carência de habitação social; - Exclusão social; - Renovação do Sistema de Abastecimento, Tratamento e Distribuição da Água e do Sistema de Saneamento Básico; - Acessibilidades na via pública e a edifícios públicos; - Mobilidade e estacionamento; - Regeneração urbana; - Espaços verdes; - Salvaguarda de Património Histórico Construído; - Salvaguarda de Património Cultural Imaterial (Olaria); - Poluição visual; - Pombos vadios; - Poluição urbana; - Reciclagem; - Museologia; - Rotas turísticas; - Animação histórica.

Programas autárquicos
Qualquer programa autárquico deve expressar as preocupações sentidas no sentido de resolução dos problemas da Comunidade. Não apenas aqueles que se têm manifestado mais recentemente, mas também aqueles que se vêm arrastando de trás e cuja resolução foi deixada para o Dia de São Nunca à Tarde. Para além deles, há que prever aqueles que possam vir a surgir no futuro, visando não só preveni-los como procurar atempadamente uma solução no sentido da sua resolução.

Como elaborar um programa autárquico
Creio que a maneira mais adequada de o fazer passa por: - Rastrear e equacionar problemas cuja resolução possa interessar à Comunidade; - Avaliar a importância relativa de cada um, de modo a definir prioridades de resolução; - Agrupar os problemas por sectores temáticos, seriados por ordem de prioridades de resolução; - Definir estratégias de resolução de cada um dos problemas; - Assegurar o financiamento indispensável à resolução de cada problema.
Torna-se aqui evidente que um programa autárquico sério, não poderá servir para albardar o burro à vontade do dono. Tampouco poderá ser um plano de intenções a não cumprir, apesar de haver quem continue a pensar, que é com doces e bolos que se enganam tolos. 

Programas com paredes de vidro
A meu ver, é de privilegiar o apoio a programas autárquicos dispostos a valorizar a cidadania, ao assegurarem a transparência, fluidez e acessibilidade de informação das actividades dos órgãos autárquicos, estimulando e acarinhando assim, um amplo debate e a participação da Comunidade na tomada de decisões. Isto passa por: - Transmitir e disponibilizar os conteúdos das reuniões autárquicas; - Criar livros públicos de registo de interesses dos eleitos locais; - Promover o acesso público e por via informática aos pedidos de licenciamento de operações urbanísticas; - Limitar o recurso à contratação pública por ajuste directo; - Acabar com as parcerias público privadas e as concessões a empresas do sector empresarial local.
Por outro lado, creio ser de privilegiar igualmente o apoio a programas autárquicos capazes de acarinhar o debate e a participação das populações na tomada de decisões, o que passa por: - Valorizar o exercício do direito de petição perante os órgãos autárquicos; - Privilegiar os processos de consulta pública prévia às decisões destes; - Incentivar a participação no Orçamento Participativo; - Promover a realização de referendos locais.

Programas e precariedade
Não é aceitável que uma autarquia ponha em causa direitos laborais, pelo que na minha opinião deve também ser privilegiado o apoio a programas autárquicos que se mostrem indisponíveis para: - Promover a contratação precária; - Recorrer a estágios ou Contractos Emprego-Inserção para satisfação das necessidades permanentes de pessoal, bem como o recurso à subcontratação para a prossecução das suas atribuições; - Aceitar a existência de precariedade laboral na contratação pública com concorrentes.

Eleições autárquicas 2017
Com base na Lei Eleitoral dos Órgãos das Autarquias Locais (Lei Orgânica n.º 1/2001, de 14 de Agosto), vão decorrer em Outubro próximo, as eleições autárquicas, que permitirão eleger Assembleias de Freguesia, Assembleia Municipal e Câmara Municipal.
Nas eleições autárquicas de 2013, a participação eleitoral ficou-se pelos 60,06%, a abstenção cifrou-se nos 34,5%, enquanto que os votos brancos e nulos atingiram respectivamente, os 3,44% e os 2,10%. Significa isto que a abstenção ultrapassou metade da participação eleitoral. As principais causas apontadas para a abstenção são: - Desinteresse pela política; - Não identificação com programas ou candidatos; - Falta de esclarecimento eleitoral; - Desmobilização devido a divulgação de sondagens ou previsões; - Incapacidade física ou de custeamento da deslocação ao local de voto.
A abstenção pode ser considerada como um voto de protesto, mas a sua eficácia como exercício do direito de cidadania é nulo, já que a abstenção não retira qualquer poder ou legitimidade aos eleitos. O pleno exercício do direito de cidadania, aconselha sim à participação activa no acto eleitoral, votando naqueles que nos oferecem mais confiança e estão mais próximos daquilo em que cada um de nós acredita.
Em democracia e pese embora o facto de haver factores desviantes, o exercício do direito de voto é sempre uma possibilidade de abertura à mudança, que muitos desejam, mas que nela não se empenham, muitas vezes por indiferença. Daí que a abstenção favoreça sempre quem está no poder ou na faixa central do mesmo.
A importância da mudança em democracia encontra-se lapidarmente expressa na frase de Eça de Queiroz: “Os políticos e as fraldas devem ser mudados frequentemente e pela mesma razão." Faço votos para que tal afirmação seja motivadora de uma maior participação cívica no acto eleitoral que se avizinha.

domingo, 5 de março de 2017

Poetas em defesa da olaria de Estremoz - 03


António Sardinha (1887-1925)
Político, historiador e poeta, natural de Monforte – OBRA POÉTICA:  - Quando as
Nascentes Despertam (1821); - Tronco Reverdecido (1910); - Epopeia da Planície
(1915); - Na Corte da Saudade (1922) - Chuva da Tarde (1923); - Era uma Vez um
Menino (1926); - O Roubo da Europa (1931); - Pequena Casa Lusitana (1937).

O elogio do púcaro

Tu és a minha companha,
eu tenho-te á cabeceira
ó pucarinho de barro,
enfeite da cantareira.

Amigo certo e sabido,
matas a sede e o calor.
Tu vales mais do que pesas,
não se te paga o valor!

Meu bocadinho de barro,
chiando como um cortiço,
tu dás-te com toda a gente,
não te deshonras por isso!

Prantas a agua fresquinha,
sem ti não passa ninguem.
Mimo de reis e de bispos,
não custas mais que um vintem!

Assim, singelo e sem pompa,
ganhaste fama a Estremoz.
Ah, desgraçado daquele
que nunca a bôca te pôs!

És a cubiça das velhas,
contigo se enche um mercado.
Então a vista que metes,
quando tu és empedrado?!

Quero casar-me. Já tenho
dois pucarinhos pequenos.
Pois, p'ra principio de arranjo,
outros começam com menos!

- Amor, se fôres á feira
traz-me uma prenda galante.
Não tragas nada do ourives,
- um pucarinho é bastante!

Vae alta a febre, vae alta,
- p'ra que é que os médicos são?
Ó pucarinho de barro,
acode a esse febrão!

Eu nunca vi neste mundo,
que é gastador e que é louco,
coisa que tanto valesse,
mas que custasse tão pouco!

Assim, singelo e sem pompa,
tu déste fama a Estremoz!
- Ah, desgraçado daquele
 que nunca á bôca te pôs!
Hernâni Matos
Publicado em 5 de Março de 2017

quinta-feira, 2 de março de 2017

67 - Berços do Menino Jesus – 6


Berço dos anjinhos.
Sabina Santos (1921-2005).
Colecção particular.

Figurado de Estremoz – 3
O berço dos anjinhos
O berço dos anjinhos é mais uma representação alegórica ao nascimento de Jesus numa manjedoura. Trata-se de um conjunto em barro policromado, constituído por um berço, uma figura antropomórfica masculina (o Menino Jesus) e duas figuras celestiais (os anjinhos). Este tipo de berço tem existência individual e não costuma integrar o presépio de trono ou de altar e os de 3, 6 e 9 figuras.
Merece particular descrição, o modelo de Sabina Santos, pertencente a colecção particular. O berço, de forma rectangular, está assente em 4 pés em forma de sino, colocados nas extremidades e possui um espaldar elevado, em forma de sector elíptico, orlado por um adorno de pregas, aparentando folho. O berço, de cor amarela, apresenta à frente e lateralmente, arcos sensivelmente ogivais, prateados e com manchas irregulares de cor verde e amarela. Os arcos encontram-se decorados frontalmente com palmas de cor verde, apresentando entre eles, botões florais de cores diversas.
A cor do folho é azul do Ultramar. O espaldar está enfeitado por um laço prateado com volumetria, ladeado por duas flores de oito pétalas, alternadamente vermelhas e negras. Os pés do berço são prateados, com manchas irregulares de cor verde e amarela.
No centro do folho encontra-se empoleirado um galo, ladeado de dois anjinhos, olhando qualquer deles em frente.
O galo tem as patas figuradas por dois pedaços de arame, apresenta as asas recolhidas e a cauda erguida. O galo é branco, pintalgado de negro e apresenta linhas negras, configurando as penas. Os olhos estão representados por dois pontos negros e o bico é amarelo, de forma cónica. Na cabeça, o galo ostenta uma crista e um papo, ambos vermelhos.
Os anjinhos estão despidos e sentados, tocando uma trombeta que seguram com ambas as mãos, nas quais linhas incisas representam os dedos. As trombetas e as asas abertas dos anjinhos são prateadas.
Na cabeça dos anjinhos, o cabelo é de cor castanha. Os olhos estão representados por dois pontos negros, encimados por dois traços da mesma cor, que representam as pestanas e as sobrancelhas. O nariz é em relevo e a boca apresenta lábios delineados e de cor vermelha. De cada lado da face é visível uma roseta alaranjada.
No interior do berço está assente uma manta branca com a orla decorada com listas incisas, alternadamente de cor preta e alaranjada, assim como uma almofada branca decorada de igual maneira.
Assente na manta e com a cabeça sobre a almofada, encontra-se a figura do Menino Jesus, despida e deitada de costas, com a perna esquerda sobreposta à direita. O braço direito apoia-se no peito e o braço esquerdo esticado, acompanha o corpo. Nas mãos, linhas incisas representam os dedos. Na cabeça do Menino, o cabelo é de cor castanha. Os olhos são figurados por dois pontos negros, encimados por dois traços da mesma cor, que figuram as pestanas e as sobrancelhas. O nariz é em relevo e a boca apresenta lábios esboçados e de cor vermelha. De cada lado da face é visível uma roseta alaranjada.
O facto de este tipo de berços estar enfeitado por um laço e por palmas, leva a que seja também designado por berço enfeitado.
Publicado inicialmente em  2 de Março de 2017

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Poetas em defesa da olaria de Estremoz - 02


Augusto Molarinho de Andrade (1948-)
Contabilista, natural de Mina de S.Domingos (Mértola). Reside em Lisboa.
LIVROS PUBLICADOS: - Alentejano e Poeta - Ao Sabor da Fantasia (2015); 
- Alentejano e Poeta - O Sonho Continua - Palavras Com Verdade (2016).

Os barros do Alentejo…

Entre as profissões mais belas
Algumas saltam à vista
Pela beleza que expõem
Os barros feitos à mão
Não fogem à tradição
Nas imagens que compõem

Essas mãos que vão moldando
Peças raras, com carinho
São rudes, mas com talento
Pinturas com que as decoram
São imagens que devoram
Sua alma e pensamento

Apresentam os contrastes
Dum Alentejo profundo
Que tanta gente ignora
Pintam as belas ceifeiras
Os ranchos de mondadeiras
Profissões extintas agora

Vão usando a sua arte
Que pretendem preservar
Como sendo seu tesouro
O espólio do passado
Não deve ser apagado
Mas ofertado ao vindouro

São tantos, quase ignorados
Esses artistas que habitam
Nas terras do interior
Os oleiros, arte tão nobre
Num País de gente pobre
Mas de talento e valor

Cinzeiros, pratos e bilhas
Peças moldadas à mão
Enfeitiçam os de fora
Tudo feito com amor
Um simples monte, uma flor
Talento que neles mora

Mas por motivos diversos
Este ancestral património
Aos poucos desaparece
Há que pugnar com firmeza
Pra conservar tal riqueza
Porque essa arte merece

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Mercado das velharias



O sábado constitui um ponto alto na semana estremocense. Há mercado, o que se traduz em fluxos consideráveis de forasteiros que vêm até nós, o que tem reflexos muito positivos na economia local. Creio ser interessante analisar aqui alguns aspectos sociológicos do mercado das velharias.

Ainda as bancas estão a ser montadas e já se começam a fazer negócios. Os primeiros compradores são os próprios vendedores, que procuram peças para clientes seus. Por essa hora já por ali andam alguns frequentadores assíduos, como é o meu caso. Procuramos coisas que o imaginário que nos vai na alma nos incita a demandar.
No espaço do mercado das velharias coexistem três fraternidades: 1 - FRATERNIDADE DOS VENDEDORES - Engloba: antiquários, alfarrabistas, ourives, moedeiros, vendedores de roupa antiga, revendedores de recheios de casa, ferro-velhos, etc. Começam a conviver logo no mata-bicho, ainda antes de armarem as bancas. Alguns já se encontraram noutros locais, depois de sábado passado. De qualquer modo, começam logo ali a pôr a escrita em dia. Partem de seguida para a montagem e arrumação das bancas, o que alguns não fazem sozinhos ou porque têm sociedade ou trazem família. É vulgar ouvir exclamações do género: “Vamos lá ver o que é que isto hoje vai dar!”. Cada um deles à sua maneira, é mestre na técnica de vendas. Com ou sem regateio ou com atençõezinhas com os clientes, lá vão fazendo negócio. Cada um deles tem o seu tipo próprio de clientes, o qual procura fidelizar, já que lhe conhece os gostos. Aqueles que têm a melhor mercadoria costumam dizer: “Os meus clientes só aparecem a partir das 11 horas”. A meio da manhã vão todos molhar o bico e alguns continuam conversas interrompidas. Dali partem para dar o seu melhor até ao encerramento do mercado, lá pela uma da tarde. Então, depois de darem contas à vida, lá vão levantando as bancas e encaixotando a mercadoria. É uma tarefa cíclica que faz parte do ofício que uns sempre tiveram e outros tomaram como seu, para reforçarem as pensões de reforma. Alguns e até porque vão para longe, criaram o hábito de almoçar juntos, o que fazem num restaurante vizinho. Não sendo uma classe, os vendedores constituem uma fraternidade que se pode manifestar de maneiras inesperadas, como aconteceu recentemente no funeral dum vendedor em Évora, onde compareceram vendedores de todo o país. 2 - FRATERNIDADE DOS CLIENTES - Os compradores são dos mais diversos. Há aqueles que compram circunstancialmente algo de que gostaram e aqueles que são coleccionadores de objectos de determinada tipologia ou tema. Alguns são simples ajuntadores. Todavia, há aqueles que são recolectores e procuram reunir provas materiais ou imateriais de tempos idos, visando reconstruir essa época, o que muitas vezes conduz à publicação de estudos sobre o assunto. Daí que os coleccionadores constituam uma fonte de informação preciosa para os vendedores, dos quais recebem também ensinamentos. Os clientes constituem também uma fraternidade, pois partilham informação e dão conhecimento uns aos outros de peças que lhe possam interessar. Por vezes também convivem à mesa do café ou restaurante mais próximo. 3 - FRATERNIDADE DOS MIRONES - Há diversos tipos de mirones: - Os que vão visitar as bancas como quem visita um museu, ou não fosse o mercado de velharias um museu generalista desarrumado; - Os que passam pelas bancas para chamar a atenção de amigos ou familiares para determinados objectos. São vulgares conversas do tipo ”Lembras-te José, quando a gente tosquiava ovelhas com tesouras daquelas?” ou então “Sabes uma coisa neto? Quando eu era da tua idade não havia computadores. A gente escrevia numa lousa como aquela, com um lápis de pedra daqueles que ali estão. Era o que a gente tinha.”; - Aqueles que passam pelas bancas para perguntar o preço de determinado objecto, pois lá em casa têm um idêntico que poderão vender. Os vendedores já conhecem o estilo e geralmente respondem: “Esse objecto não tem preço. Não está à venda!”. Os mirones constituem igualmente uma fraternidade, caracterizada por não gastar um cêntimo e que ao serem muitos, podem dar a falsa impressão de o mercado estar forte, quando pode estar mesmo fraco em termos de compras e vendas. 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Salvemos a olaria! - III

Mestre Mário Lagartinho (1935-2016), o último oleiro de Estremoz.

Cursos de olaria? Não, obrigado!
No número 168 (12-1-2017) deste jornal, em crónica intitulada “Salvemos a olaria!”, após análise dos depoimentos prestados anteriormente por CME, ESRSI e IEFP, concluí que o IEFP assegura e custeia integralmente os Cursos de Olaria, sendo todavia necessário que uma entidade com legitimidade e sentido de responsabilidade para o fazer, como é o caso da CME, possa solicitar institucionalmente e com custo zero, a criação dos Cursos de Olaria ao IEFP. Foi então posta ao Município, a seguinte questão:
- “Está a CME disponível para solicitar ao IEFP a criação dos Cursos de Olaria, tal como é sugerido? “
O Município recusou-se a responder à questão formulada, o que é legítimo, tal como a frustração gerada na opinião pública, face a tal recusa. Para além disso, escudou-se em três declarações: 1 – O Município é receptivo às sugestões dos cidadãos, apresentadas na sequência do desenrolar natural das suas legítimas actividades cívicas. Tais sugestões são importantes em termos de tomada de decisões, mas nada obriga a que a sugestão tenha de ser seguida; 2 – O Município foi sufragado pelos cidadãos que lhe conferiram o poder de decisão sobre as matérias que legalmente são da sua competência; 3 – A sede própria para apresentar sugestões é o próprio Município, a quem compete ponderar sobre o seu interesse.
Este jornal não põe em causa a legitimidade de tais afirmações, mas declara que carece de demonstração, que a apresentação de sugestões na Imprensa local, possa configurar qualquer tipo de “pressão” sobre o Município.

A missão deste jornal
À semelhança dos partidos políticos, a Imprensa ainda que de uma forma distinta, dada a sua natureza diferenciada, constitui um dos pilares mais sólidos da Democracia.
Este jornal respeita os direitos, liberdades e garantias consignadas na Constituição da República Portuguesa e como tal, orienta-se pelos princípios da liberdade, do pluralismo e da independência do poder político e económico, bem como de qualquer credo, doutrina ou ideologia. A sua única subordinação é a Deontologia da Comunicação Social, a Lei de Imprensa, o Estatuto do Jornalista e o Estatuto Editorial.
Como tal, privilegia a informação isenta, rigorosa e objectiva, distinguindo claramente os espaços de opinião e assegurando nestes o confronto das diversas correntes de pensamento, através do exercício do princípio do contraditório. Todavia não fica por aqui, já que a Imprensa assumiu há muito e por direito próprio, um papel formativo e pedagógico, rastreando e equacionando problemas cuja resolução possa interessar à Comunidade. Por isso, a partilha de preocupações com o leitor é legítima, já que pode contribuir para que estes, em liberdade possam reflectir como se impõe sobre temas importantes, muitos dos quais têm a ver com a preservação e a salvaguarda da nossa identidade cultural local, como é o caso do risco de extinção da olaria estremocense.

A César o que é de César         
Este, o início de uma frase atribuída a Jesus nos evangelhos canónicos, aceites como autênticos pela maioria dos cristãos. Aí se lê: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” [Mateus (22:21), Marcos (12:17), Lucas (20:25)]. A frase resume a relação entre o cristianismo e a autoridade secular.
Na literatura de tradição oral, a separação de poderes está patente no adágio “O seu a seu dono”, bem como na expressão idiomática “Cada macaco no seu galho”, que traduz a convicção de que cada um de nós deve ocupar o seu devido lugar, sem intrometer-se em coisas que não são da sua competência. Significa isto que não compete à Imprensa substituir-se ao poder sufragado, tal como não compete a este fazer juízos de que o exercício do jornalismo é uma forma de “pressão” sobre ele.

Em que ficamos?
No número 165 (1-12-2016) deste jornal, vem inserida a reportagem “Autarquia, escola e emprego apoiam a iniciativa”, onde sob a epígrafe “Município disponível para estabelecer parcerias” é afirmado por um porta-voz do Município, que a CME está consciente da necessidade de recuperação e salvaguarda da olaria de Estremoz, através da criação de um centro de formação e promoção desta actividade artesanal, característica do concelho.
Tudo leva a crer agora que o Município queira chamar a si, a responsabilidade de impedir a extinção da olaria estremocense, sem qualquer intervenção do IEFP, recorrendo para tal ao edifício da antiga Olaria Alfacinha, cuja aquisição procura concretizar há mais de 15 anos. Ficamos todos na expectativa de ver concretizar o Plano que o Município tem para a recuperação e salvaguarda da olaria de Estremoz. Este jornal transmitirá para a posteridade a Memória do esforço que foi desenvolvido nesse sentido. Aos vindouros caberá ajuizar o papel de cada um dos intervenientes em todo este processo.