terça-feira, 3 de novembro de 2015

Poesia Portuguesa - 038



Desabafo
Jaime da "Manta Branca" (1894-1955)

MOTE

NÃO VEJO SENÃO CANALHA
DE BANQUETE P'RA BANQUETE
QUEM PRODUZ E QUEM TRABALHA
COME AÇORDAS SEM AZÊTE.

I
Ainda o que mais me admira
E penso vezes a miúdo (1)
Dizem que o Sol nasce p'ra tudo
Mas eu digo que é mentira.
Se o pobrezinho conspira
O burguês com ele ralha
Até diz que o põe à calha (2)
Nem à porta o pode ver.
A não trabalhar e só comer
NÃO VEJO SENÃO CANALHA.

II
Quem passa a vida arrastado,
Por se ver alegre um dia,
Logo diz a burguesia
Que é muito mal governado,
Que é um grande relaxado,
Que anda só no bote e dête (3)
Antes que o pobrezinho respeite
Tratam-no sempre ao desdém.
E vê-se andar quem muito tem
DE BANQUETE P'RA BANQUETE.

III
É um viver tão diferente!
Só o rico tem valor
E o pobre trabalhador
Vai morrendo lentamente.
A fraqueza o põe doente
E a miséria o atrapalha
Leva no peito a medalha
Que ganhou à chuva e ao vento.
E morre à falta de alimento
QUEM PRODUZ E QUEM TRABALHA.

IV
Feliz de quem é patrão
E pobre de quem é criado,
Que até dão por mal empregado
O poucochinho que lhe dão.
Quem semeia e colhe o pão,
Não tem bem onde se deite,
Só tem quem o assujeite (4)
Para que toda a vida chore.
E em paga do seu suor
COME AÇORDAS SEM AZÊTE.

Jaime da "Manta Branca" (1894-1955)


ANOTAÇÕES:
(1) A miúdo - Amiúde.
(2) À calha-Na rua.
(3) No bote e dête - Nos copos.
(4) Assujeite - Subjugue.
Poema dito de improviso na herdade da Defesa, quando o proprietário Eduardo Magalhães convidou o Poeta, assalariado agrícola alentejano, para animar um banquete em que participavam altas individualidades.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

35 – Senhora a servir o chá – 2

 Senhora a servir o chá.
José Moreira (1926-1991).
Colecção particular.
José Moreira - Marca Tipo 6. Carimbo:
FABRICANTE DE BONECOS
JOSÉ MOREIRA
RUA DO NINE, 12
ESTREMOZ
PORTUGAL

A presente crónica corresponde a uma história que passo imediatamente a contar e que poderia ter tido um desfecho diferente. Numa das minhas incursões pela internet à procura de bonecos de Estremoz antigos e disponíveis para venda, fui parar aos leilões eBay, onde um vendedor americano tinha à venda dois exemplares do figurado de Estremoz: “Senhora a servir o chá” (cuja imagem reproduzo) e “Pastor das migas”, com o preço de partida conjunto, de 9,99 dólares, o que corresponde a cerca de 8,95 euros. Dado que não estou inscrito no eBay, contactei por email um amigo português que me costuma desenrascar nestas andanças. Como se encontrava na Roménia em viagem de trabalho, fez a licitação de lá. Porém, o automatismo do eBay ao reconhecer o endereço IP do computador como português, bloqueou o acesso do meu amigo, considerando tratar-se de uma intrusão local no seu email. O meu amigo ainda hoje não tem acesso ao eBay e eu fiquei sem aquelas figuras, as quais foram arrematadas pelo preço de partida (portes excluídos). As peças eram ambas da autoria de José Moreira (1926-1991). A “Senhora a servir o chá”, tal como alguns dos exemplares de Mariano da Conceição (1903-1959), ostenta na cabeça uma canoa, antigo pente de ornato para senhoras. Todavia ao contrário do que era corrente em Mariano, a mesa de pé de galo não tem dois pés virados para a frente, mas apenas um, tal como era usual em Ti Ana das Peles  [Ana Rita da Silva (1870-1945)], com quem José Moreira se iniciou na arte bonequeira. Para além disso e ao contrário das figuras de Mariano, o açucareiro está do lado esquerdo da senhora e as chávenas, que se encontram alinhadas à frente, encontram-se invertidas sobre os pires. Na base do figurado, uma marca de autor de José Moreira, até agora não catalogada e que não figura no rol das inventariadas na minha crónica “28 – O meu amigo José Moreira”. Passarei a designar essa marca por Tipo 6 - Carimbo FABRICANTE DE BONECOS/JOSÉ MOREIRA/RUA DO NINE, 12/ESTREMOZ/PORTUGAL, com a marca distribuída por 5 linhas, ocupando uma superfície que não consigo determinar a partir da imagem recolhida na internet.
O chá regista presença na nossa literatura de tradição oral. A nível de ADAGIÁRIO saliento: “Café de cima, vinho do meio e chá do fundo”, “Café do primeiro e chá do derradeiro”, “O chá de benefício é a véspera da ingratidão”. Na GÍRIA POPULAR, são conhecidas expressões como: Chá à inglesa (Chá servido com leite), Chá dançante (Baile que começa à tardinha e dura até alta noite, sem traje de cerimónia), Chá de bico (Clister), Chá de cadeira (Diz-se que o bebe a mulher que espera que a venham convidar para dançar), Chá de parreira (Vinho), Chá de Tolentino (Tema tão discutido que se torna enfadonho), Dar chá (Gracejar), Dar um chá (Repreender), Dar uma colher de chá (Apoiar), Falta de chá (Falta de educação), Não ter tomado chá em criança (Não ser bem-educado), Tomar chá de sumiço (Diz-se de coisa ou pessoa que se afasta do seu local usual). A nível de ADIVINHAS, apenas conheço esta: “O que é, o que é, / Diz-me já:/ Faz-se no bule, / Chama-se chá”. Quanto a ALCUNHAS ALENTEJANAS, assinalo: CHÁ - Alcunha outorgada a pessoas que apreciam muito beber chá (Castro Verde, Moura e Santiago de Cacém); CHÁ PRETO – O visado adquiriu este epíteto devido a ter a pele muito escura (Campo Maior e Moura).
Na LITERATURA PORTUGUESA, o consumo de chá foi abordado por autores dos quais sobressaem: Almeida Garrett (Viagens na Minha Terra - 1846), Camilo Castelo Branco (Romance dum Homem Rico - 1861) e Eça de Queiroz (O Primo Basílio – 1878 e Os Maias -1888).

Poesia Portuguesa - 037


Queria que os Portugueses

Agostinho da Silva (1906-1994)

 

Queria que os portugueses 
tivessem senso de humor 
e não vissem como génio 
todo aquele que é doutor 

sobretudo se é o próprio 
que se afirma como tal 
só porque sabendo ler 
o que lê entende mal 

todos os que são formados 
deviam ter que fazer 
exame de analfabeto 
para provar que sem ler 

teriam sido capazes 
de constituir cultura 
por tudo que a vida ensina 
e mais do que livro dura 

e tem certeza de sol 
mesmo que a noite se instale 
visto que ser-se o que se é 
muito mais que saber vale 

até para aproveitar-se 
das dúvidas da razão 
que a si própria se devia 
olhar pura opinião 

que hoje é uma manhã outra 
e talvez depois terceira 
sendo que o mundo sucede 
sempre de nova maneira 

alfabetizar cuidado 
não me ponham tudo em culto 
dos que não citar francês 
consideram puro insulto 

se a nação analfabeta 
derrubou filosofia 
e no jeito aristotélico 
o que certo parecia 

deixem-na ser o que seja 
em todo o tempo futuro 
talvez encontre sozinha 
o mais além que procuro. 

Agostinho da Silva (1906-1994)
Publicado inicialmente em 2 de Novembro de 2015

domingo, 1 de novembro de 2015

Poesia Portuguesa - 036


Não dês esmola a santinhos
António Aleixo (1899-1949)

MOTE

Não dês esmola a santinhos,
Se queres ser bom cidadão;
Dá antes aos pobrezinhos
Uma fatia de pão.

GLOSAS

Não dês, porque a padralhada
Pega nas tuas esmolinhas
E compra frangos e galinhas
Para comer de tomatada;
E os santos não provam nada,
Nem o cheiro, coitadinhos...
Os padres bebem bons vinhos
Por taças finas, bonitas...
Se elas são p'ra parasitas,
Não dês esmola a santinhos.

Missas não mandes dizer,
Nem lhes faças mais promessas
E nem mandes armar essas
Se um dia alguém te morrer.
Não dês nada que fazer
Ao padre e ao sacristão,
A ver para onde eles vão...
Trabalhar, não, com certeza.
Dá sempre esmola à pobreza
Se queres ser bom cidadão.

Tu não vês que aquela gente
Chega até a fingir que chora,
Afirmando o que ignora,
Assim descaradamente!?...
Arranjam voz comovente
Para jludir os parvinhos
E fazem-se muito mansinhos,
Que é o seu modo de mamar;
Portanto, o que lhe hás-de dar,
Dá antes aos pobrezinhos.

Lembra-te o que, à sexta-feira,
O sacristão — o mariola! —
Diz, quando pede a esmola:
«Isto é p'rà ajuda da cera»...
Já poucos caem na asneira,
Mas em tempos que lá vão,
Juntavam grande porção
De dinheiro, em prata e cobre,
E não davam a um pobre
Uma fatia de pão.

António Aleixo (1899-1949)

sábado, 31 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 035


Em Todas as Ruas te Encontro
Mário Cesariny (1923-2006) 

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto    tão perto    tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

Mário Cesariny (1923-2006)

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 034


Poema de Amor
Fernando Namora (1919-1989) 

Se te pedirem, amor, se te pedirem
que contes a velha história
da nau que partiu
e se perdeu,
não contes, amor, não contes
que o mar és tu
e a nau sou eu.

E se pedirem, amor, e se pedirem
que contes a velha fábula
do lobo que matou o cordeiro
e lhe roeu as entranhas,
não contes, amor, não contes
que o lobo é a minha carne
e o cordeiro a minha estrela
que sempre tu conheceste
e te guiou — mal ou bem.

Depois, sabes, estou enjoado
desta farsa.
Histórias, fábulas, amores
tudo me corre os ouvidos
a fugir.

Sou o guerreiro sem forças
para erguer a sua espada,
sou o piloto do barco
que a tempestade afundou.

Não contes, amor, não contes
que eu tenho a alma sem luz.

...Quero-me só, a sofrer e arrastar
a minha cruz.

Fernando Namora (1919-1989)

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 033


Mãe
Miguel Torga (1907-1995)

Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!

Miguel Torga (1907-1995)