terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A Póvoa de Varzim e o Mar


PÓVOA DE VARZIM (s/data).
João José Vaz (1859-1931).
Óleo sobre madeira.

A Póvoa de Varzim é uma bela cidade do Douro Litoral, cuja origem remonta ao período romano-lusitano. É um importante centro piscatório e procurada praia de banhos. O mar é ali omnipresente. Ali se sente a presença tutelar do mar, que às vezes também é carrasco dos pescadores.
A minha relação com a Póvoa remonta a 1983, ano em que me apaixonei por uma poveira que viria a ser minha mulher. Ávido de conhecimentos de etnografia, desde logo procurei reunir alguns conhecimentos de etnografia naval, sobre a qual escreveram António Santos Graça, Octávio Lixa Filgueiras e Manuel Lopes. Fiquei então a saber que o barco e a lancha poveira tinham divisa constituída por desenhos pintados à proa e à ré, ficando ao centro o nome. Estavam repletos de siglas, que eram a "escrita" do pescador poveiro, usada como brasão de família em todos os objectos que lhe pertenciam em terra ou no mar e que por isso eram marcados nos barcos, nos mastros, nos paus de varar, nos lemes, nas velas, nas redes, etc. Na Póvoa do Mar, como dizem os poveiros, graças à acção de Manuel Lopes foi reconstituída e posta a navegar uma Lancha Poveira do Alto, de velas enfunadas pelo vento tão necessário à navegação. Daí que reze o cancioneiro:

“Quero bem ao vento norte,
Que é vento da minha terra;
Também quero bem ao sul,
Que me faz andar à vela.”

Vela que, segundo o cancioneiro, protege também da tempestade:

“Ó mar, caixão dos navios,
Ó cama dos marinheiros;
Debaixo da vela grande,
Se aguentam os aguaceiros.”

Segundo o cancioneiro, o mar dá o pão, mas também dá a morte:

“A vida de marinheiro,
É uma vida triste e dura,
Pois toda a vida trabalha,
Em cima da sepultura.”

Por isso, o meu conterrâneo, poeta Silva Tavares diz que:

"Se pudessem ser contadas,
Formava-se um mar de dores,
com as lágrimas choradas
pelas mães dos pescadores!”

Pescador que é conhecido por ”lobo do mar”, a quem apetece perguntar com António Correia de Oliveira:

“Donde és tu, lobo do mar?
Donde és tu, ó pescador?
De Portugal? – “pois num foste!
Sou da Pòiva, meu Senhor!”

Antes de português, o pescador é da Póvoa.
Para Raul Brandão, “Aqui o homem é acima de tudo pescador.”, pescador que Antero de Figueiredo considera “... o valente campino do mar alto e das ondas de arrebentação...”
Os homens e rapazes vestiam outrora camisolas poveiras, de lã branca, bordada em ponto de cruz com motivos em preto e vermelho. Estas camisolas eram tradicionalmente feitas pelas mães, mulheres e noivas dos pescadores, que nelas bordavam motivos como âncoras, chaves, corações, siglas, vertedouros, remos cruzados, etc.
No folclore, o “Fandango Poveiro” e as “Torradinhas da Póvoa de Varzim”, são exemplos de danças tradicionais poveiras, executadas pelo Grupo Folclórico Poveiro, organizado em 1936 por Santos Graça, que na época recuperou e divulgou o vistoso traje branco que ele tão bem descreve em “O Poveiro”. Segundo ele, “As raparigas vestem colete vermelho de pano bérre; saias de branqueta branca com faixa; lenço branco pelos ombros; cachené caído no pescoço e descalças. Os rapazes usam calças brancas de baeta crepe, colete de pano piloto, camisa branca, percinta branca de riscas, solêtas nos pés e catalão na cabeça”.
O mar da Póvoa e tudo o que com ele se relaciona está de resto magistralmente registado na pintura portuguesa, conforme documento. 

PESCADORES NA PRAIA  (s/data).
 João José Vaz (1859-1931).  
BARCO NA PRAIA COM FIGURAS  (s/data).
João José Vaz (1859-1931).
PRAIA DA PÓVOA DE VARZIM (SÉC. XIX-XX).
João José Vaz (1859-1931).
Óleo s/ tela (50x30 cm).
Museu de Grão Vasco, Viseu.
PÓVOA - PRAIA DE PESCADORES (1888).
 António Carvalho da Silva Porto (1850-1893).
 Óleo sobre madeira (55,8x41,8 cm).
Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto.
PRAIA DOS PESCADORES - PÓVOA DO VARZIM (1884).
 João Marques de Oliveira (1853 -1927).
Óleo sobre madeira (35x22,5 cm).
Colecção particular. 
VISTA DA PRAIA.
João Marques de Oliveira (1853-1927).
Óleo sobre madeira (35x22,5 cm).
Colecção particular.
PRAIA DA PÓVOA DE VARZIM (1884).
António Carvalho da Silva Porto (1850-1893).
Óleo sobre madeira (31,5x20,9 cm).
Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto.

PRAIA DA PÓVOA DE VARZIM (1881).
António Carvalho da Silva Porto (1850-1893).
 Óleo s/ madeira (55x31,5 cm).
Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, Lisboa.
PÓVOA DE VARZIM  (Séc. XIX).
António Carvalho da Silva Porto (1850-1893).
 Lápis grafite e pastel s/ papel (30x23 cm).
Museu de José Malhoa.
PRAIA DA PÓVOA DE VARZIM (1881-1888).
António Carvalho da Silva Porto (1850-1893).
Óleo s/ madeira (50,8x33,8 cm).
Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, Lisboa.
À ESPERA DOS BARCOS.
 João Marques de Oliveira (1853-1927).
Óleo sobre tela (45x38 cm).
PRAIA DA PÓVOA DE VARZIM (1873-1927).
 João Marques de Oliveira (1853-1927).
Óleo s/ madeira (51x34,2 cm).
Museu de Grão Vasco, Viseu.
PRAIA DE PESCADORES, PÓVOA DE VARZIM (SÉC. XIX).
João Marques de Oliveira (1853-1927).
Óleo sobre madeira (45x33 cm).
Museu de José Malhoa, Caldas da Rainha.
MARINHA-PÓVOA DO VARZIM (SÉC. XIX).
João Marques de Oliveira (1853-1927).
Informação Técnica: Óleo sobre madeira (59,5x41 cm).
Museu de José Malhoa, Caldas da Rainha.
A APANHA DO SARGAÇO (1841-1888).
 António Carvalho da Silva Porto (1850–1893).
 Óleo sobre Madeira (55,5x41,5 cm).
Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto.
A PRAIA (s/data).
João Vaz (1859-1931).
Óleo sobre tela (47,5 x 57,5 cm).
Casa Museu Anastácio Gonçalves, Lisboa.
PRAIA DE BANHOS (1884).
 João Marques de Oliveira (1853-1927).
 Óleo sobre tela (69,5x47,5 cm).
Museu do Chiado - MNAC, Lisboa.
PRAIA DE BANHOS, PÓVOA DE VARZIM, PORMENOR (1884).
João Marques de Oliveira (1853-1927).
Óleo s/ tela (60,5x47 cm).
Museu do Chiado - MNAC, Lisboa.

RECANTO DE ALDEIA, PÓVOA DE VARZIM (1882-1890).
João Marques de Oliveira (1853-1927).
Óleo s/ madeira (37x23 cm).
Museu do Chiado - MNAC, Lisboa.
 
PÓVOA DE VARZIM (SÉCULO XIX).
 João Marques de Oliveira (1853-1927).
 Aguarela sobre papel (15,3x22,8 cm).
Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Desvios à montagem original do presépio de trono ou de altar

Presépio executado pelas irmãs Flores com as figuras dispostas segundo a "montagem padrão".
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O recente estudo que efectuámos do presépio de Estremoz, conhecido por presépio de trono ou de altar teve na sua génese duas fotografias dos anos trinta do século passado, da autoria de Rogério de Carvalho (1915-1988), onde aparece o presépio de trono ou de altar, com a disposição de figuras feita pelo seu criador, o barrista Mariano da Conceição (1902-1959).
Nesse estudo concluímos existir uma hierarquia vertical e outra horizontal na disposição das figuras, a qual designaremos por “disposição original” ou “disposição padrão”, a qual foi a concebida por Mariano da Conceição e seguida por sua irmã Sabina Santos, (1921-2005), por sua mulher Liberdade da Conceição e ainda por sua filha Maria Luísa da Conceição, bem como pelas irmãs Flores, tanto aquela como estas ainda em actividade.
Da posição do observador e da esquerda para a direita, a “disposição padrão” das figuras é a seguinte:
1º DEGRAU - OS PASTORES: - pastor ofertante em pé com um cesto com uma pomba branca; - pastor ajoelhado e de cabeça descoberta, orando com o chapéu à frente; - pastor ofertante em pé, segurando um borrego e com tarro enfiado no braço esquerdo.
2º DEGRAU – A SAGRADA FAMÍLIA: - Nossa Senhora ajoelhada; - Menino Jesus deitado numa manjedoura; - São José ajoelhado.
3º DEGRAU – OS REIS MAGOS: Todos de pé e segurando as respectivas ofertas: Gaspar (de túnica cor de rosa: incenso), Baltasar (de túnica vermelhão: mirra) e Belchior (de túnica azul: ouro).
Setenta anos depois a pesquisa “on line” de imagens deste presépio, levou-nos a identificar montagens com “desvios” em relação à "montagem padrão", os quais podem assim ser sistematizados:
1 – Falta de figuras
2 - Figuras trocadas
3 - Figuras fora do trono
4 – Figuras estranhas ao presépio
5 – Violação da hierarquia vertical
6 – Violação da hierarquia horizontal
7 - Figuras em pose para o observador
Exemplificamos de seguida, sem identificar os barristas, os diversos desvios identificados acompanhados do endereço dos locais onde foram descobertos. Com esta abordagem julgamos dar um contributo inestimável para a reposição do espírito original da montagem do chamado presépio de trono ou de altar. A tradição agradece e a memória de Mariano da Conceição também.
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As figuras laterais estão trocadas em qualquer dos degraus  (Lides Alentejanas).
No 1º degrau, qualquer dos pastores devia estar virado para Jesus. No 2º e 3º degrau, as figuras laterais estão trocadas (piggyforever).
No 1º degrau, todos os pastores deviam estar virados para Jesus. No 3º degrau, os reis magos laterais, deviam inverter as suas posições (Corações habitados).
No 1ºdegrau, o pastor ofertante da esquerda, devia ter uma pomba e ambos os pastores ofertantes deviam estar virados para Jesus. No 2º degrau, as figuras laterais estão trocadas. No terceiro degrau, o rei negro devia trocar de posição com o rei oriental que está ao centro (catekero).
No 1º degrau, os pastores ofertantes estão trocados e o pastor ajoelhado devia estar virado para Jesus. No 3º degrau falta Belchior com o seu presente de ouro, o qual devia estar no lugar onde está o rei negro, que por sua vez devia transitar para o centro (Retrovisor).
 No 1º degrau, os pastores ofertantes estão trocados e deviam estar virados para Jesus, faltando ainda o pastor ajoelhado, que indevidamente está no 2º degrau. A sagrada família que está no 3º degrau, devia estar no 2º, trocando São José de posição com Nossa Senhora. Os reis magos deviam passar para o terceiro degrau, ficando o rei negro onde está o menino Jesus, virado para a frente. Quanto a Gaspar com o seu presente de incenso, devia estar á esquerda, onde está São José e virado para a frente. Falta ainda Belchior com o seu presente de ouro e devia estar à direita, onde está Nossa Senhora, virado para a frente. (Antiguidades Serralves).      
No 1ºdegrau, os pastores deviam estar virados para Jesus. O pastor ajoelhado devia estar ao centro e no lugar onde está, devia estar o pastor ofertante com pomba, que não existe. São apresentados dois pastores ofertantes com borrego de tamanho diferente, um deles fora do trono, o que não faz sentido em termos de montagem. No 3º degrau, o rei negro devia estar ao centro, sendo substituído por  Gaspar com a sua oferta de incenso, que sairia do lado direito para dar lugar a Belchior com o seu presente de ouro, o  qual sairia da posição central  (Museu de Arte Popular).
No 1º degrau, os pastores ofertantes deviam estar virados para Jesus. No 2º degrau as figuras laterais estão trocadas. No terceiro degrau, os reis magos laterais têm a cor da túnica trocada em relação ao “padrão” (lovely impermanence)

No 1º degrau, os pastores ofertantes deviam estar virados para Jesus. No 2º degrau, as figuras laterais estão trocadas. No terceiro degrau as figuras laterais estão trocadas de posição e têm a cor da túnica trocada em relação ao “padrão”  (O Presépio Português).  
No 1º degrau, os pastores ofertantes deviam estar virados para Jesus. No terceiro degrau, o rei negro devia estar ao centro. Belchior aqui de túnica cor de rosa, com o seu presente de ouro, devia estar à direita, onde está Baltasar (o rei negro). Quanto a Gaspar, aqui de túnica azul, com o seu presente de incenso, devia estar á esquerda, onde está Belchior (Secretariado Nacional da Pastoral da Igreja).
No 1º degrau, os pastores ofertantes deviam estar virados para Jesus. No terceiro degrau, o rei negro devia estar ao centro. Belchior aqui de túnica cor de rosa, com o seu presente de ouro, devia estar à direita, onde está Baltasar (o rei negro). Quanto a Gaspar, aqui de túnica azul, com o seu presente de incenso, devia estar à esquerda, onde está Belchior (Museu da Presidência).
No 1º degrau, todos os pastores deviam estar virados para Jesus. No 2º degrau, as figuras laterais estão trocadas. No 3º degrau falta à direita Belchior com o seu presente de ouro e que aqui teria túnica cor de rosa, já que Gaspar, aqui de túnica azul, com o seu presente de incenso, está à esquerda (Museu Nacional de Arqueologia).
O 1º e 3º degrau estão vazios. O burro e a vaca que estão no 2º degrau, são figuras que não pertencem a este presépio. No 2º degrau falta Nossa Senhora à esquerda e São José à direita (Joseluisgildela).

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

A cadeirinha de "Prometida"


A cadeirinha de prometida. Símbolo do contrato pré-matrimonial
no Alentejo da primeira metade do séc. XX. Talhada em madeira
numa única peça (2,7x1,8x9,3 cm). Colecção Hernâni Matos.

 
A Cristina Carvalho que me cedeu
o exemplar de arte pastoril
que ilustra o presente estudo


Campos do Alentejo na primeira metade do século vinte. Um moço que num rasgo de olhar, vislumbra uma moça, na qual existe qualquer coisa que irreversivelmente o atrai e o fulmina. É tiro e queda. Passa a segui-la como um perdigueiro que segue a caça. Pisteiro, procura dirigir-lhe palavra. Mas manda a tradição que a moça, apesar de se sentir atraída por ele, lhe dê um ou mais cabaços (negas). Todavia, “Quem porfia sempre alcança” e um dia, os sentimentos do moço são retribuídos pela moça e o amor irrompe como um vulcão. Ela dá-lhe trela e ele recebe luz branca para lhe fazer a corte. Derretem-se um pelo outro, mas procuram encontrar-se em segredo, longe das bocas do mundo, para que a família dela não saiba antes do tempo próprio. E as coisas assim continuam até que um dia, deixam de ter medo que os outros saibam e passam à condição de “conversados”, encontrando-se às claras, na pausa dos trabalhos do campo, no regresso dele, junto à fonte ou na igreja, nos domingos e dias santos. É a época em que o moço oferece à moça, objectos utilitários de arte pastoril, finamente lavrados: dedeiras para a ceifa, rocas e fusos, ganchos de fazer meia ou caixas de costura, que ele próprio confecciona se da arte pastoril tem o jeito ou que encomenda a alguém, no caso de não o ter. Ela retribui com prendas finamente bordadas, tais como uma bolsa para o relógio, para a tabaqueira ou para as moedas. E na comunhão do amor perene, qualquer deles usa e ostenta com orgulho, as prendas que recebeu do outro e que “selam” a sua condição de “conversados”.
A instâncias da moça, com o apoio da mãe primeiro e do pai depois, os pais dão autorização para que os “conversados” falem à janela ou à porta de casa, seja ela na vila ou no monte. E as coisas assim vão prosseguindo até que o estado psicológico do par atinja o ponto de rebuçado. Nessa altura, o moço pede aos pais da moça que lha dêem em casamento. Estes, naturalmente, protagonistas activos ainda que ocultos, desta saga amorosa, concedem-lhe a graça solicitada. A moça passa então da condição de “conversada”, à condição de “prometida”. Só então o par recebe autorização para conversar dentro da casa dos pais da moça. E para “selar” o contrato pré-matrimonial, o moço oferece à sua “prometida” uma cadeirinha em madeira que ela passará a usar, presa na fita do chapéu de trabalho, até à altura do matrimónio. Esta a fórmula encontrada pela sábia identidade cultural alentejana, de dar a conhecer à comunidade que a moça já estava “prometida” e que em breve iria casar.

Hernâni Matos
Publicado inicialmente em 7 de Janeiro de 2011

Troca de prendas entre "conversados". Imagem recolhida on line.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

As corridas de rodas

JOGO DO ARCO OU DA GANCHETA (Pormenor - século XX). Fotografia de autor desconhecido (30,5x23,5 cm). Museu da Guarda.
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A “corrida de rodas” era um jogo da minha infância, para o qual tenho reservado um lugar muito especial nas gavetas espaçosas da minha memória.
Não tinha época certa. Bastava que alguém com o corpo a pedir folia se lembrasse disso e lançasse o repto:
- Vamos correr com as rodas?
Aceite este desafio, cada um de nós corria até casa para ir buscar a sua roda, bem como o indispensável guiador.
Eu e os do meu bando, nos anos cinquenta do século passado, tínhamos no Largo do Espírito Santo, em Estremoz, o Quartel-General das nossas operações. Ali nascemos e ali crescíamos, temperados pelas brincadeiras que nos enchiam as medidas.
Éramos: eu, o Rodrigo André e o irmão, o Manuel Maria Gato, o Armando Pereira, o António Maria Craveiro, o Manuel da Avó e o Jorge Maluco.
As rodas eram das mais diversas: aro cilíndrico de ferro maciço, roda de bicicleta, aro de pneu e cinta metálica de barril ou de pipa. Esta última era a mais difícil de conduzir e era sempre um “desenrascanço” que se arranjava à do Silva, tanoeiro da Horta do Quinton, na rua da Levada, onde funcionava a Fábrica de Conservas “Alves e Martins, Lda”. A de pneu também desenrascava e tinha uma boa aderência ao solo, o que era uma vantagem para os mais inábeis. Já a roda de bicicleta era uma senhora roda, pois pelo seu maior diâmetro, atingia facilmente maior velocidade, com menos esforço, além de que pela maior largura do aro, assentava melhor no solo, o que lhe conferia uma maior estabilidade. Porém, para os mais hábeis, o “fórmula 1” das rodas, era o aro cilíndrico de ferro maciço, com menor diâmetro que as rodas de bicicleta, mas também mais estreito e pesado que aquelas. Tomava cá uma embalagem… E esta era tanto maior quanto maior fosse o diâmetro do aro.
Um complemento indispensável à boa condução da roda era o “guiador”, confeccionado com arame ou varão de ferro, tendo numa das extremidades um desvio em U, para encaixe, condução e orientação da roda. Este desvio era para o lado esquerdo da extremidade no caso dos dextros e para o lado direito da extremidade no caso dos canhotos. A outra extremidade era aquela pela qual se empunhava o guiador e tinha uma dobra a 180º, para não ferir a mão, podendo mesmo possuir uma protecção improvisada, como tiras de pano enrolado ou um cabo de madeira ou de cortiça. O guiador em varão de ferro era o mais apreciado e devia ter um tamanho adequado que facilitasse a condução da roda. Quanto maior fosse o guiador, mais fácil era a condução da roda. Porém, o controle destas nas curvas, aconselhava a que o guiador não fosse demasiadamente grande. E nós sabíamos o tamanho exacto a dar ao nosso guiador.
As corridas de rodas realizavam-se em qualquer altura do ano, mas eram mais apreciadas na Primavera ou nos dias de Inverno sem chuva, já que assim davam para aquecer o corpo com o esforço e não havia o risco de derraparmos e nos estatelarmos no chão molhado. Já de Verão eram absolutamente desaconselháveis, uma vez que com a calorina, ficávamos com os bofes de fora.
Reunidos os apetrechos para a corrida, combinávamos o local de partida, o trajecto e o local de chegada. A única regra era que não valia empurrar.
Um dos trajectos possíveis era: Largo do Espírito Santo junto ao lampião (descida e viragem à direita), Rua da Levada, Travessa da Levada (viragem à direita), Rua do Almeida (viragem à direita), Largo da Liberdade (viragem à esquerda), Rua do Casco (subida e viragem á direita), Rua das Freiras (viragem à direita) e Largo do Espírito Santo (onde se localizava a meta).
Dada a partida por quem havia sido acordado que o fizesse, começávamos alinhados, mas a partir daí, era “o ver se te avias”, “pernas para que te quero”, acondicionadas por muita genica e uma vontade indomável de ganhar.
Circulava-se então bem pelas ruas, pois estas não estavam apinhadas de carros e os eventuais transeuntes colaboravam, desviando-se, avisados pela sonoridade galopante das próprias rodas, especialmente as de ferro maciço e as de bicicleta, que à medida que galgavam a calçada à portuguesa, em uníssono com ela, gemiam ais capazes de fazer ressuscitar um morto bem falecido. Corria-se à roda livre, embora se ouvisse por vezes alguma vociferação mais rabugenta.
- Lá andam os gaiatos a correr outra vez! Não há maneira de sossegarem!
Apesar disso, a maioria das pessoas era compreensiva, sabia tal como nós, que a brincadeira era o nosso trabalho, era a nossa maneira de aprendermos a ser grandes. Por vezes lá tínhamos que nos desviar da carroça de algum aguadeiro ou de uma casa agrícola, que circulavam pelas ruas. Porém, era raro.
Por vezes, sobretudo nas curvas, alguém mais inábil deixava cair a roda, pelo que se tinha de abaixar para a apanhar e poder prosseguir a corrida. Porém, a vitória era então mais difícil. Os outros nem pestanejavam, pois corrida é corrida e concentração e empenho são receitas de êxito.
Na subida da rua do Casco é que se via quem tinha pernas. Era aqui que se esfrangalhava o pelotão, que entrava na recta final da rua das Freiras. A descida do largo do Espírito Santo era já realizada em travagem a fundo, com o Alegrete à direita e a Casa do Manuel Maria Gato ao fundo, a ameaçar estamparmo-nos nela.
À chegada, o vencedor ufanava-se com um sonoro e repetido:
- Ganhei! Ganhei! Ganhei!
Os vencidos diziam então de suas razões, esperançados que estavam em melhores dias.
Descansava-se então um bocado, para retemperar as forças e só depois se partia para outra brincadeira, que até podia ser nova corrida de rodas, se a exigência de desforra por parte de alguém fosse aceite pela maioria.
Um campeão de corrida de rodas é fruto da conjugação de múltiplos factores: boa tracção às pernas, bom fôlego, calçado aderente, estratégia adequada, bom equipamento (roda e guiador), perícia (especialmente nas curvas) e, é claro, espírito de ganhador. Tirando este último, não reunia por vezes todas estas condições, pelo que nunca passei dum condutor mediano. Nunca deu para ser um ás da corrida de rodas. Fui um ás, mas noutro jogo, o do botão. Lá diz o rifão:
- “A roda anda, anda, mas também desanda”. 0
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Cerâmica grega de figuras vermelhas do Pintor de Berlim (Cerca de 500-490 a.C.). Do lado A, Ganimedes segurando um arco, símbolo da sua juventude e na outra um galo, oferta amorosa de Zeus que o persegue e está representado no lado B do vaso.Museu do Louvre, Paris.
 
JOGOS INFANTIS (1560) - Pieter Brueghel – O Velho (c.1525 - 1569). Óleo sobre painel de madeira (118 x 161 cm).Museu de História de Arte, Viena.
BRINCADEIRAS INFANTIS (1774) - Gravura de Daniel Nikolaus Chodowiecki (1726–1801), extraída de “J. B. Basedows Elementarwerk mit den Kupfertafeln Chodowieckis u.a. Kritische Bearbeitung in drei Bänden, herausgegeben von Theodor Fritzsch. Dritter Band. Ernst Wiegand, Verlagsbuchhandlung Leipzig 1909". 
AFONSO, PRÍNCIPE IMPERIAL DO BRASIL, FILHO PRIMOGÉNITO DE D. PEDRO II (1846) - Pintura de Joahn Moritz Rugendas (1802–1858).
TEATRO NACIONAL DE MANNHEIM (1853) - Artaria Mathias (1814-1885). Detalhe de óleo sobre tela. Museu Reiss-Engelhorn, Mannheim.
O JARDIM DO LUXEMBURGO (CERCA DE 1883) - Pierre August Renoir (1841-1919). Óleo sobre (53x64 cm). Colecção particular.
RAPARIGA COM UMA RODA (1885) - Pierre August Renoir (1841-1919). Óleo sobre tela (76,6x125,7 cm) . Colecção Chester Dale - Galeria Nacional de Arte, Washington. 

RAPAZES CORRENDO COM RODAS NA CHESNUT STREET, TORONTO (1922). Fotografia do Arquivo da Biblioteca Pública de Toronto.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Estremoz - Presépio de trono ou altar

Presépio de trono ou altar, produzido actualmente pelas irmãs Flores, segundo o
modelo criado nos anos 40 do século XX, por Mariano da Conceição (1903-1959).

O PRESÉPIO
Entrámos no período de Natal. Este é a festividade cristã que enaltece o nascimento de Jesus Cristo. A data da sua celebração ocorre a 25 de Dezembro (Igreja Católica Apostólica Romana) ou a 7 de Janeiro (Igreja Ortodoxa). O Natal é, de resto, mundialmente encarado por pessoas de diferentes credos, como o dia consagrado à família, à paz, à fraternidade e à solidariedade entre os homens.
Um dos grandes símbolos religiosos, que retrata o Natal e o nascimento de Jesus é o presépio. De acordo com Rafael Bluteau [2] e Cândido de Figueiredo [4], a palavra “presépio” provem do latim “praesepium”, que genericamente significa curral, estábulo, lugar onde se recolhe gado e que, numa outra óptica designa qualquer representação do nascimento de Cristo, de acordo com os Evangelhos. E que dizem estes?
REFERÊNCIAS BÍBLICAS AO PRESÉPIO
LUCAS 2:
“1. Naqueles tempos apareceu um decreto de César Augusto, ordenando o recenseamento de toda a terra.
2. Este recenseamento foi feito antes do governo de Quirino, na Síria.
3. Todos iam alistar-se, cada um na sua cidade.
4. Também José subiu da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à Cidade de David, chamada Belém, porque era da casa e família de David,
5. para se alistar com a sua esposa Maria, que estava grávida.
6. Estando eles ali, completaram-se os dias dela.
7. E deu à luz seu filho primogénito, e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria.
8. Havia nos arredores uns pastores, que vigiavam e guardavam seu rebanho nos campos durante as vigílias da noite.
9. Um anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor refulgiu ao redor deles, e tiveram grande temor.
10. O anjo disse-lhes: Não temais, eis que vos anuncio uma boa nova que será alegria para todo o povo:
11. hoje vos nasceu na Cidade de David um Salvador, que é o Cristo Senhor.
12. Isto vos servirá de sinal: achareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura.
13. E subitamente ao anjo se juntou uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus e dizia:
14. Glória a Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos homens, objectos da benevolência {divina}.
15. Depois que os anjos os deixaram e voltaram para o céu, falaram os pastores uns com os outros: Vamos até Belém e vejamos o que se realizou e o que o Senhor nos manifestou.
16. Foram com grande pressa e acharam Maria e José, e o menino deitado na manjedoura.
17. Vendo-o, contaram o que se lhes havia dito a respeito deste menino.
18. Todos os que os ouviam admiravam-se das coisas que lhes contavam os pastores.“
MATEUS 2 :
“1. Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do oriente a Jerusalém.
2. Perguntaram eles: Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no oriente e viemos adorá-lo.
3. A esta notícia, o rei Herodes ficou perturbado e toda Jerusalém com ele.
4. Convocou os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo e indagou deles onde havia de nascer o Cristo.
5. Disseram-lhe: Em Belém, na Judeia, porque assim foi escrito pelo profeta:
6. E tu, Belém, terra de Judá, não és de modo algum a menor entre as cidades de Judá, porque de ti sairá o chefe que governará Israel, meu povo {Miquéias 5,2}.
7. Herodes, então, chamou secretamente os magos e perguntou-lhes sobre a época exacta em que o astro lhes tinha aparecido.
8. E, enviando-os a Belém, disse: Ide e informai-vos bem a respeito do menino. Quando o tiverdes encontrado, comunicai-me, para que eu também vá adorá-lo.
9. Tendo eles ouvido as palavras do rei, partiram. E eis que e estrela, que tinham visto no oriente, os foi precedendo até chegar sobre o lugar onde estava o menino e ali parou.
10. A aparição daquela estrela os encheu de profunda alegria.
11. Entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se diante dele, o adoraram. Depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe como presentes: ouro, incenso e mirra.
12. E, sendo por divina revelação avisados em sonhos para que não voltassem para junto de Herodes, partiram para a sua terra por outro caminho.”
Entre os biblistas é consensual que o aparecimento da estrela se refere à estrela de Jacob, profetizada por Balãao: “Eu o vejo, mas não é para agora, percebo-o, mas não de perto: um astro sai de Jacob, um ceptro levanta-se de Israel, que fractura a cabeça de Moab, o crânio dessa raça guerreira.” (Números 14,17).
A exegese vê na chegada dos reis magos o cumprimento da profecia contida no livro dos Salmos (72, 11): “Todos os reis hão de adorá-lo, hão de servi-lo todas as nações”.
SIMBOLISMO DO PRESÉPIO
O presépio é assim uma referência cristã que nos remete para o nascimento de Jesus numa gruta de Belém, na companhia de José e Maria, que ali pernoitaram na sequência do recenseamento de toda a Galileia.
Jesus terá nascido numa manjedoura destinada a animais e foi reconhecido após o nascimento, por pastores da região, avisados por um anjo, e, dias mais tarde, por Reis Magos vindos do Oriente, guiados por uma estrela e que terão chegado até Jesus no dia 6 de Janeiro, data que em presentemente se comemora o “Dia de Reis”.
Segundo a tradição vigente terão sido três os Reis Magos:
- BELCHIOR (representante da raça europeia) que terá oferecido ouro;
- BALTASAR (representante da raça africana) que terá oferecido mirra;
- GASPAR (representante da raça asiática) que terá oferecido incenso.
Pela sua diversidade, os magos simbolizam uma homenagem universal a Jesus. Também as prendas ofertadas têm um simbolismo que resume o evangelho e da fé cristã:
- O OURO - oferecido unicamente a Reis, representa a realeza de Jesus;
- A MIRRA - simboliza Jesus como Homem, o sofrimento que iria ter ao longo da sua vida e os suplícios porque passou até à morte, sendo que foi sepultado por José de Arimatéia e Nicodemos, que conforme costume judaico o embalsamaram (João 19: 39 e 40).
- O INCENSO - representa a divindade e a fé, uma vez que o incenso é usado nos templos para simbolizar a oração que chega a Deus, tal como a fumaça sobe ao céu: “Que minha oração suba até vós como a fumaça do incenso, que minhas mãos estendidas para vós sejam como a oferenda da tarde” (Salmos 141:2).
PRESÉPIOS DE ESTREMOZ
Conhecem-se presépios de barro de Estremoz desde o séc. XVIII e crê-se que eles terão sido aqui introduzidos pelos monges do Convento de S. Francisco edificado em meados do séc. XIII e cuja tradição presepista é bem conhecida, desde que o fundador da Ordem, S. Francisco de Assis, montou o primeiro presépio do mundo em Greccio (Itália), no Natal de 1223, com a função didáctica de explicar o nascimento de Jesus, ao mesmo tempo que desgostado com as liberdades da Natividade dentro dos Templos, sustinha a adoração do Natal, como nos diz Luís Chaves [3].
A produção dos presépios de Estremoz e dos bonecos de Estremoz não está actualmente em risco. Todavia, nem sempre foi assim. Segundo D. Sebastião Pessanha (1892-1966) os últimos presépios feitos em Estremoz, terão sido uma encomenda que fez para si e para o Museu Etnológico de Belém, em 1916. Por outras palavras, os bonecos de Estremoz foram dados como extintos. Como ressurgiram então? Graças à acção de José Maria de Sá Lemos (1892-1971), escultor, natural de Vila Nova de Gaia, discípulo de Mestre Teixeira Lopes e director nos anos 30 da Escola Industrial de António Augusto Gonçalves. Quando ele chegou a Estremoz, o artesanato em barro, estava na mais completa decadência, apenas se confeccionando peças de olaria para uso doméstico. Alimentou então o sonho do ressurgimento dos bonecos de Estremoz e conseguiu concretizar esse sonho. Como director da Escola deu forte incentivo aos Cursos de Olaria e de Cantaria e com o apoio de Mariano da Conceição (1902-1959), estimulou a recuperação dos bonecos dados como extintos.
PRESÉPIO DE TRONO OU DE ALTAR
Para além dos modelos de presépio existentes, Sá Lemos induz Mariano da Conceição a criar um modelo de presépio que reúne num trono de cascata de Santo António, as figuras principais dum presépio. É o chamado presépio de trono ou de altar, com figuras montadas em cantareira de barro, pintada à maneira tradicional das casas alentejanas.
Para Mariano da Conceição, o presépio (estábulo, curral) é o interior de uma casa tradicional alentejana, toda caiada de branco, mas com rodapés e ornamentos do topo da fachada, pintados com a marca regional de azul do Ultramar. Por outro lado, o parapeito do varandim superior está decorado com tijolos dispostos regularmente em zig-zag, entre duas fiadas horizontais de tijolos.
As figuras do presépio são em número de nove e encontram-se dispostas hierarquicamente em três degraus da cantareira, hierarquizados de baixo para cima e da esquerda para a direita:
1º DEGRAU - OS PASTORES: - pastor ofertante em pé com um cesto com uma pomba branca; - pastor ajoelhado e de cabeça descoberta, orando com o chapéu à frente; - pastor ofertante em pé, segurando um borrego e com tarro enfiado no braço esquerdo.
2º DEGRAU – A SAGRADA FAMÍLIA: - Nossa Senhora ajoelhada; - Menino Jesus deitado numa manjedoura; - São José ajoelhado.
3º DEGRAU – OS REIS MAGOS: Gaspar, Baltazar e Belchior. Todos de pé e segurando as respectivas ofertas.
Na parede, por detrás dos reis magos, rasgam-se duas janelas de arco românico. A da esquerda, através da paisagem que por ela se vislumbra, contextualiza o local, onde na realidade nasceu Jesus. Por isso, esta janela mostra-nos, ao longe, uma casa de perfil palestiniano, ladeada por uma palmeira, árvore característica da região. Quanto à janela da direita, revela-nos o firmamento e nele a estrela, símbolo do poder divino que iluminou e conduziu os reis magos a Jesus.
O chão onde assentam todas as figuras é verde, pintalgado de branco, numa alegoria à erva usada para atapetar o chão dos estábulos e fazer a cama aos animais. Curiosamente, deste presépio estão ausentes a vaca e o jumento junto da manjedoura, geralmente representados nos presépios, de acordo com uma simbologia inspirada em Isaías 1:3 que diz: “O boi conhece o seu possuidor, e o asno, o estábulo do seu dono; mas Israel não conhece nada, e meu povo não tem entendimento”.
As cores utilizadas na decoração do presépio de trono ou altar, são: branco, azul do ultramar, amarelo de crómio, vermelhão, verde bandeira, cor-de-rosa, ocre e preto.
Entremos agora na descrição pormenorizada das figuras de cada um dos andares do altar:
PASTORES – São pastores alentejanos trajando à moda da primeira metade do século XX: bota caneleira de cabedal atacoada do lado de fora, calça grossa de saragoça ou burel, pelico de pele de borrego, por cima de jaqueta ou casaco de trabalho, em ganga azul. Por debaixo de tudo, uma camisa branca fechada em cima por um par de botões. Ao ombro uma típica manta alentejana de Reguengos, forma alegórica de referir o frio que faz entre nós no período de Natal. Os pastores estão aqui despojados dum atributo que lhes é habitual: o cajado.
SAGRADA FAMÍLIA – Nossa Senhora está ajoelhada e de mãos postas em atitude de oração. Tem um vestido azul comprido, com gola multicolor e sobre a cabeça um manto igualmente azul, com a orla igualmente multicolor. Repare-se no pormenor de Nossa Senhora ter a cabeça e com ela o cabelo coberto pelo manto. Para além da natural contextualização em termos de usos e costumes da época em que nasceu Jesus, a esta representação não será também estranho o reconhecimento da realidade vigente entre nós na primeira metade do século XX e que impedia qualquer mulher de entrar num local de culto, de cabeça descoberta.
O Menino Jesus está deitado, nu, nas palhinhas de uma manjedoura alentejana com friso decorado a azul do Ultramar. Na manjedoura, quatro pombas brancas, simetricamente pousadas, reforçam a ideia subjacente de Paz. Um galo branco postado ao centro da manjedoura parece cantar, como quem alegoricamente anuncia um novo dia: o dia de Natal, em que nasceu Jesus.
São José veste uma túnica curta azul, com bainha amarela e cabeção multicolorido, em fundo branco. Veste calça branca e botas pretas. Ajoelhado junto de Jesus, olha para o alto. A sua mão direita firma-se a um bordão com flor na ponta e a mão esquerda está assente no coração. A representação configura uma atitude de agradecimento a Deus pela graça recebida.
REIS MAGOS – Coroados, devido à sua real condição. Usam bota fina pintada de preto, com um botão amarelo em cima e calça branca, que como é sabido é uma cor cativa, possível referência alegórica aos reis magos estarem afastados das fainas quotidianas que maculam o vestuário. Vestem túnicas curtas debruadas a amarelo, mas cada uma delas de sua cor: Gaspar (cor de rosa), Baltasar (vermelhão) e Belchior (azul). Todas as túnicas têm um cabeção branco. Nos ombros têm um manto, amarelo à frente e zarcão atrás.
O presépio de trono ou de altar, existe em três tamanhos. No caso dos produzidos pelas irmãs Flores, que foi aqueles que estudámos têm as seguintes características:
- Formato pequeno (13x14x21 cm): figuras com 12 cm de altura;
- Formato médio (16x16x25,5 cm): figuras com 15 cm de altura;
- Formato grande (22x21,5x36,5 cm): figuras com 20 cm de altura.
A FINALIZAR
Para além do chamado presépio de trono ou de altar, existem outros modelos de presépios de Estremoz, que oportunamente serão por nós, objecto de outros posts.
BIBLIOGRAFIA
[1] - ABELHO, Azinhal. Barros de Estremoz. Edições Panorama. Lisboa, 1964.
[2] – BLUTEAU, Raphael. Vocabulario Portuguez & Latino. Real Colégio das Artes da Companhia de Jesus. Coimbra, 1713.
[3] - CHAVES, Luís. O primeiro «Presépio» de Lisboa conhecido (Século XVII). In, O Archeologo Português. Lisboa, Museu Ethnographico Português. S. 1, vol. 21, n.º 1-12 (Jan-Dez 1916), p. 229-230.
[4] – FIGUEIREDO, Cândido de. Novo Diccionário da Língua Portuguesa. Editora T. Cardos & Irmão, 1899.
[5] – PESSANHA, Sebastião. Os bonecos d’Estremoz. In, Terra Portuguesa, I-II, 1911, p. 105.



Mariano da Conceição (1903-1959), criador do presépio de trono ou de altar,
trabalhando na sua oficina. Fotografia de Rogério de Carvalho (1915-1988),
obtida nos anos 40 do séc. XX.